CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

31 de março de 2016

CURIOSIDADES HISTÓRICAS


Com esse título, Plínio Coelho, então governador do Amazonas (1955-59), escreveu uma série de artigos. Neste, sacado de O Jornal (edição de 5 jun. 1956), ele repassou suas anotações sobre os provimentos de alguns dirigentes em dotar o Estado de transporte ferroviário. No texto, ele próprio confessa sua inquietação em inaugurar este meio de transporte na região.  

Ao final, reconhece que, a despeito das ofertas mirabolantes dos governantes, incluído o dele, nada foi construído. De sorte que, certamente, o Amazonas seja a única região do território brasileiro a não conhecer um metro sequer de linha férrea. Diante dessa restrição, o amazonense persiste se deslocando ou a pé ou de bubuia.

ESTRADAS DE FERRO

Plínio Ramos Coelho

Ao propor aos japoneses a doação de 10 quilômetros em cada uma das margens da estrada Manaus-Itacoatiara, que seriam colonizados pelo braço nipônico, se os mesmos a abrissem gratuitamente, recebendo como paga apenas o preço das terras agricultáveis e a madeira extraída, um amigo trouxe-me o informe de que uma empresa francesa propusera ao Governo, há muitos anos atrás, a abertura da estrada Manaus-Caracaraí, desde que o Estado lhe pagasse com a concessão por cinquenta anos de uma faixa de 20 quilômetros de cada margem ao longo da estrada de ferro. 
Consultei vários estudiosos, buscando informações em derredor dessa notícia. Nada colhi. Os que sabiam algo informavam vagamente — apenas ouviram dizer. 
Um dia, inesperadamente, ao silêncio da madrugada, passando a vista na coleção dos Diários Oficiais do ano de 1905, encontrei a Lei nº 493, de 23 de outubro de 1905 (Diário Oficial de 31 de outubro de 1905), que autorizava o Chefe do Executivo, ao tempo Dr. A. Constantino Nery, a contratar com os engenheiros Hermano de Vasconcelos Bittencourt Junior e Humberto Saboia de Albuquerque, a construção de uma estrada de ferro entre a Colônia Campos Sales e o rio Jauaperi, que, como se sabe, é afluente do Rio Negro. A estrada iria, presumivelmente, até a confluência do Jauaperi com o rio Atauaú (sic).
No Diário Oficial de 30 de abril de 1936, encontrei, deferido, o pedido dos referidos contratantes para, reformado o contrato anterior, lhes fosse permitido prolongar a citada linha férrea até a fazenda denominada Tipucu, no Rio Branco, segundo se lê no Decreto 775-A, de 30 de abril daquele ano.Como é uma curiosidade histórica, transcreva os principais artigos desse documento:Art. 1º - Com os engenheiros Hermano de Vasconcelos Bittencourt Junior e Humberto Saboia de Albuquerque, fica autorizado o Governo a contratar a construção de uma linha férrea de bitola de um metro de largura, entre a colônia
Campos Sales e o rio Jauaperi, mediante as condições seguintes:
a) Os contratantes serão obrigados a fazer à sua custa todos os estudos referentes a Estrada, da qual, depois de concluída, terão uso e gozo por espaço de sessenta anos, findos os quais ficará sendo ela propriedade do Estado.
b) Os relativos aos vinte primeiros quilômetros a partir colônia, serão apresentados dentro de 10 meses a contar do início da construção da estrada de ferro de Flores à colonia Campos Sales, autorizada pela Lei nº 481, de 21 de agosto de 1905.
Art. 2° - Pelo primeiro trecho de 20 quilômetros pagará o Tesouro aos contratantes a importância respectiva, sendo a tabela de preços organizada pela Diretoria de Obras Públicas.
Art. 3º — O Governo, respeitados os direitos de terceiros, concederá aos contratantes uma faixa de tersa, marginando a estrada, de 20 quilômetros para cada lado e que serão divididos em lotes alternadamente de propriedade do Estado e dos concessionários, devendo os lotes destes ser colonizados sem ônus para o Estado.
Art. 4° - Construídos os primeiros 20 quilômetros de que trata o artigo 2° e levantados capitais para a conclusão da estrada, o Governo será indenizado das importâncias despendidas com o referido trecho e com a estrada Flores à Campos Sales, entregando esta e aquela aos contratantes, que poderão prolongá-la até a cidade.
Art. 5º - Os contratantes terão 39 meses, depois de concluídos os primeiros 20 quilômetros, para levantar os capitais necessários à conclusão da estrada. Quero crer que esta é a estrada a que se refere o meu amigo. Não houve má vontade do Governo. Os próprios interessados devem ter deixado caducar a concessão. Seria ótimo que os estudiosos informassem melhor. Penso, no entanto, que essa foi a segunda estrada de ferro que se desejou construir no Estado do Amazonas. 
A primeira foi lembrada quando governava o Amazonas o Sr. Silvério José Nery. A Lei n° 417, de 21 de setembro de 1903, deu autorização ao Chefe do Executivo para conceder ao cidadão brasileiro Marco Portilho Bentes ou à companhia brasileira por ele organizada, a construção uso e gozo, durante 30 anos de uma linha férrea no rio Ji-Paraná ou Machado, afluente do rio Madeira. 
A estrada seria de bitola de um metro e deveria partir da cachoeira "2 de Novembro" indo até o lugar "Remanso Grande", caducando a concessão se dentro de dois anos não estivesse concluída, podendo, no entanto, o prazo ser prorrogado. Podia o concessionário cobrar pedágio ou taxa de barreira.
Três anos depois, já no Governo de A. Constantino Nery, foi prorrogado o prazo pela Lei nº 516, de 4 de outubro de 1906. Não houve má vontade dos governantes, antes, todas as facilidades foram oferecidas. A estrada, porém, não foi construída. 

30 de março de 2016

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS (5)

Detalhe de Zuavo existente à porta do antigo aquartelamento
Ainda do Almanaque Laemmert, anuário editado no Rio de Janeiro, que trazia vasta relação das autoridades constituídas, em todo o território nacional. A relação das autoridades circulava com a indicação de sua residência. Enfim, publicava algumas notas sobre os estados da federação, como as que aqui são postadas.

Manaus possuía uma “população de aproximadamente 76.000 habitantes. E dista da Capital da República em 2.066 milhas”.
Escolhi, porque próprio do meu setor de pesquisa, a Polícia Militar do Amazonas que, em 1925, ano da circulação desse periódico, chamava-se Força Policial do Estado.

Lembro que nesse ano, o Amazonas sofria a primeira (creio que única) intervenção federal. A disputa em julho do ano anterior, marcada pela Rebelião de Ribeiro Junior, oficial do Exército, que tomou o governo estadual, com isso, obrigou o Governo Nacional a subordinar o Amazonas.

Ocupava o Palácio Rio Negro, então sede do governo, na condição de interventor, o Dr. Alfredo de Sá, bacharel em Direito, oriundo de Minas Gerais. Durou aquele ano a interventoria, ao final da qual, foi eleito governador do Estado outro mineiro: Efigênio Salles. O restante da história é bem sabida.

FORÇA POLICIAL DO ESTADO

Batalhão de Caçadores
Praça Gonçalves Ledo [hoje de Heliodoro Balbi]

Estado-Maior
Dr. Turiano Meira
Comandante:
Pedro José de Souza, coronel, avenida 7 de Setembro, 156 - Centro.
Fiscal: vago.
Ajudante: Augusto Vaz Sodré da Costa, capitão, avenida Major Gabriel, 42 - Centro
Secretário: Francisco Pantaleão de Paula Machado, 2º tenente, rua Izabel, 78, Centro
Capitão-médico: Dr. Turiano Chaves Meira (foto), avenida Joaquim Nabuco, 189 - Centro.
Intendente: Manoel Corrêa da Silva, 1º tenente, Vila Georgete, casa 12 – rua Lauro Cavalcante - Centro.

1ª Companhia
Comandante:
Luiz Carlos Augusto, capitão, avenida 7 de Setembro, 134 - Centro

Subalternos:
Arckbal Moreira de Sá Peixoto, 1º tenente, rua Dr. Moreira, 52 - Centro.
Júlio Enéas Cavalcanti, 2° tenente, rua Emilio Moreira, 5 - Praça 14
Lydio Alírio Dantas, 2° tenente, rua Emilio Moreira, 7 – Praça 14.
2ª Companhia
Comandante:
Antonio de Paiva Cavalcante, capitão, (destacado em Coari).

Subalternos:
Tristão Cavalcante Neto, 1° tenente, av. Major Gabriel, 44. Alexandre Montoril, 2° tenente, av. 13 de Maio [em nossos dias, avenida Getúlio Vargas]
João Luiz Rodrigues, 2° tenente, rua dos Barés, 64.

3ª Companhia
Capitão Pessoa, nos anos
1950, comandante da PM
Comandante: José Rodrigues Pessoa, capitão, [servindo em Coari].

Subalternos:
José Marques Galvão, 2° tenente, rua Floriano Peixoto.
Inácio Alves de Pinho, 2° tenente, av. Urucará, 14 - Cachoeirinha

Companhia de Bombeiros
Comandante:
Arthur Martins da Silva, capitão, rua Comendador Alexandre Amorim, 406 - Aparecida

Oficiais:

Raymundo Rodrigues, 2° tenente, Altos da avenida Eduardo Ribeiro.
Gonzaga Tavares Pinheiro, 2° tenente, residente no Quartel da Força.

Grupo de Artilharia
Comandante:
Augusto Ovídio dos Santos, 2° tenente, rua Visconde de Porto Alegre, 3 - Centro.

Pelotão de Cavalaria
Comandante:
Antonio Zany dos Reis, 2° tenente, rua da Indústria, 37 - 

28 de março de 2016

CENTENÁRIO DO IGHA: NOTAS (7)


Anúncio publicado na edição citada
O extinto anuário Laemmert, editado na então Capital Federal, circulava com um avantajado número de informações sobre a administração dos Estados brasileiros. Recolhi da publicação referente a 1925, os dados aqui postados.

Dentre outras estruturas, selecionei as duas agremiações culturais mais antigas do Amazonas, ambas prestes a comemorar o primeiro centenário.  No próximo ano, será a ocasião do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e, em janeiro de 2018, da Academia Amazonense de Letras.

A relação dos associados do IGHA aqui exposta, deve subsidiar a concretização de antiga aspiração da Casa de Bernardo Ramos: conhecer todos os nomes de seus associados efetivos. Ao menos os nomes. Vez que, algumas graves desconcertos contribuíram para esse despropósito. Para o centenário, compromete-se uma comissão, determinar os venerandos associados.


INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DO AMAZONAS
Sede: rua Bernardo Ramos, 19 - Manaus

DIRETORIA
Presidente: Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, coronel (GN);
1° vice-presidente: Dr. Antônio Ayres de Almeida Freitas, médico;
2° vice-presidente: Joaquim Gonçalves de Araújo, comerciante;
1° secretário (perpétuo): Professor Agnelo Bittencourt, catedrático do Ginásio Amazonense;
2° secretário: Oscar da Costa Rayol, guarda-livros;
Orador: Dr. Vivaldo Palma Lima, médico;
Tesoureiro: Dr. Hermínio de Carvalho, agrônomo.


COMISSÕES  
1ª - Sindicâncias, redação da “Revista do Instituto”, Regulamentos e regimentos:
Agnelo Bittencourt,
Oscar da Costa Rayol e
Hermínio de Carvalho.
2ª - Geografia, História, Limites, Observações astronômicas e levantamento de Cartas do Estado:
Dr. Abílio de Barros Alencar,
Agnelo Bittencourt e
Dr. Vivaldo P. Lima.
3ª - Arqueologia, Etnografia, Antropologia e Numismática:
Leonardo Ramos,
Dr. João Batista de Faria e Souza e
José da Costa Teixeira.
4ª - Botânica, Agricultura, Zootécnica, Geologia e Mineralogia:
Dr. Alfredo Augusto da Matta,
Francisco Lopes Braga e
Gilberto Frignani.
5ª - Filologia:
Dr. Plácido Serrano,
Dr. José Chevalier e
Dr. Francisco Pereira.
6ª - Indústria, Comércio e Navegação:
J. Avelino de Menezes Cardoso,
Luiz Eduardo Rodrigues.
7ª - Finanças:
Dr. Manoel Miranda Simões,
Dr. Antonio Lobato de Faria e
Antonio de Vasconcelos. 



ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS

Fundada a 1º de janeiro de 1918, sob a denominação de Sociedade Amazonense de Homens de Letras.

DIRETORIA
Presidente: Dr. Adriano Augusto de Araújo Jorge,
Vice-presidente: Dr. Manoel José Ribeiro da Cunha, Secretário: Dr. José Chevalier Carneiro de Almeida.

Acadêmicos:

1.    Aurélio Pinheiro,
2.    Alcides Bahia,
3.    Álvaro Maia,
4.    Achiles Bevilaqua (ausente),
5.    Benjamin de Lima (ausente)
6.    Benjamin de Souza,
7.    Coriolano Durand,
8.    Carlos Chauvin,
9.    Dorval Porto (ausente),
10.   F. P. d'Araújo Filho,
11.   Gaspar Guimarães
12.   Genesio Cavalcanti (ausente)
13.   J. F. d'Araújo Lima,
14.   José Chevalier,
15.   João Huascar de Figueiredo,
16.   João Leda,
17.   Jonas da Silva,
18.   Jorge de Moraes (ausente),
19.   Manoel Nunes Pereira,
20.   Odilon Lima (ausente),
21.   Octavio Sarmento,
22.   Pauto Eleutério (ausente),
23.   Péricles Moraes,
24.   Raul de Azevedo,
25.   Raymundo Monteiro,
26.   Virgílio Barbosa (ausente),
27.   Waldemar Pedrosa,
28.   Antonio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto.


Nota — Toda a correspondência deve ser dirigida ao secretário Dr. José Chevalier Carneiro de Almeida, rua Dr. Moreira (Instituto Universitário). 

26 de março de 2016

CENTENÁRIO DO IGHA: NOTAS (6)


Sede do IGHA, março 1996 
Este Instituto, inaugurado em 1917, seis anos depois empenhou-se nas comemorações do 1º Centenário da Independência do Brasil que, no Amazonas, possui data bem diferenciada. Ao que tudo indica, a pretensão do IGHA foi acolhida, e a Praça 9 de Novembro foi implantada e conservada.

Todavia, há mais de dez anos desapareceu, pois, em seu lugar restam somente tapumes aplicados pela Prefeitura de Manaus. Resta lembrar que este abandono já consumiu três governos municipais: Serafim Correa, Amazonino Mendes e, em final de mandato, Arthur Neto.


Ofício do IGHA (*)

Ofício de 8 do corrente, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, o qual, a requerimento do Sr. Intendente Marçal Ferreira, transcreve-se na ata:

Exmo. Sr. Dr. Presidente e demais membros do Conselho Municipal de Manaus.
Este Instituto empenha-se em dar realce às comemorações, que se projetam, para o dia 9 de novembro próximo, 1º centenário da adesão do Amazonas à Independência Nacional, bem assim o momento em que ergue o lábaro da sua autonomia, como parte integrante da nova e esperançosa nacionalidade.

Trata-se de uma data a que não podem ser indiferentes todos os bons amigos desta terra, pois assinala um evento importantíssimo da nossa evolução política, porque tanto se bateram os nossos maiores. Os predicamentos de liberdade, que hoje gozamos, foram obra sua. Seus nomes não devem ficar esquecidos, no meio das homenagens que se vão tributar ao nosso passado.

Seria uma falta de civismo deixar no olvido as nossas efemérides queridas, que são as provas do nosso orgulho e o sinal das nossas expansões de gente civilizada.

O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, desejando concorrer para a exaltação de uma data tão significativa para nós, resolveu, em sessão de ontem, fazer um apelo à V. Exas., no sentido de substituir o nome da atual praça Tamandaré pelo de “9 de Novembro”, passando a dar o nome daquele ilustre e denodado almirante à rua que está designada de Tenreiro Aranha.
Não desaparecerá, da nossa urbe, o nome do primeiro Presidente do Amazonas, pois já tem uma praça a lembrá-lo, além do monumento em bronze que, ali, a nossa gratidão fez implantar. Não há necessidade de duas denominações idênticas, dentro de Manaus.

Não desaparecerá o nome de Tenreiro Aranha, e ficará perpetuado, como um padrão de civismo, o dia 9 de Novembro.

O Instituto não se contenta, somente, com este alvitre: pede ainda permissão para inculcar no patriotismo de V. Exa. a ideia de um monumento comemorativo, na aludida praça, porque foi exatamente nesse local que se proclamou, há um século, a autonomia da Amazônia, pela voz dos defensores da sua liberdade.

E' este o respeitoso apelo, que faz ao Poder Legislativo da cidade, certo da sua benemérita interferência nessa solidariedade de espirito e de coração do Povo Amazonense.

Aproveitamos o ensejo, em nome do Instituto, para saudar a V. Exa. e patentear nosso mais alto apreço e subida estima.

(aa) Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Presidente
Agnello Bittencourt, 1º Secretario.  

(*) Diário Oficial do Estado, 9 out. 1923

25 de março de 2016

FORTE DE SÃO JOSÉ DO RIO NEGRO

Recolhido da revista VICTORIA-REGIA, circulada em Manaus na década de 1930, trouxe esse pequeno artigo sobre o "misterioso" forte existente em nossa capital. Pouco se sabe sobre esta fortificação, restou apenas o nome do protetor. Nada mais.
Também nada recolhi sobre o autor. 

Recorte da Revista-regia, fevereiro de 1933

O FORTE SÃO JOSÉ DO RIO NEGRO

Ali, onde está o acinzentado edifício do Tesouro Público, erigia-se, dominando as águas da baia, o tradicional Forte São José do Rio Negro, também chamado Fortaleza da Barra, pedra fundamental da cidade. Ali começou a risonha Manaus... 
Foi em 1669. O capitão-mor, do Grão-Pará, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, informado sobre o rio Negro, por Pedro da Costa Favela, o chacinador das desventuradas tribos do rio Urubu, e julgando conveniente assegurar aos lusos o direito de posse ao Quiari famoso, ordenou erigir uma fortificação numa das margens. 
Coube faze-lo a habilidade do capitão Francisco da Motta Falcão.
A sete milhas do conhecido Encontro das Águas, num outeiro entre igarapés e florestas, a 44,9m acima do nível do mar, Motta Falcão, auxiliado por seu filho Manuel da Motta Siqueira, especialista em fortificações, construiu de pedra e barro, um quadrângulo de muralhas baixas, sem fosso, e artilhou-o com duas peças de bronze de calibre um e duas de ferro de calibre três. 
A recém-construída fortificação, primeira que possuiu o Amazonas, recebeu a denominação de Forte São José do Rio Negro e ficou entregue a um pequeno destacamento, tirado da guarnição do Pará, sob o comando do esforçado capitão Angélico de Barros. 
À sombra protetora daqueles muros não tardaram a vir se abrigar famílias de Bares, do Japurá, de afáveis Passes, do Japurá e do Içá, e de Banibas, do alto rio Negro.
E surgiram, logo, fragílimas palhoças, desgraciosas e paupérrimas, agrupando-se como que instintivamente... Rio acima, porém, milhares de índios, abrigados no recesso das matas, constituíam uma cortina vedando a penetração. 
Um sargento da guarnição, Guilherme Valente, venceu aquela dificuldade. Subindo audazmente o rio, até o Cabori, conseguiu a amizade dos Caboricenas, dos Carahahis e dos Manaus. Solidificou-a casando-se com a filha de um tuxaua (1693). E a ação profícua dos frades da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo, vindos do Pará em 1695, tornou duradouro o domínio luso... 
E Manaus era “um agregado de algumas choupanas, onde só havia um esplendor: o da Fé”. 
Até 1774 pouco progrediu o obscuro vilarejo. Atingia, mais ou menos, o local onde se ergue a Delegacia do Tesouro Nacional e contava apenas duzentas e vinte almas.

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O Forte São José do Rio Negro assentava-se a 3°, 8’ e 4” de latitude austral do Equador, e a 59°, 59’ e 59” de longitude ocidental de Greenwich. Servia de registo e de presidio. 
Ocuparam-no os Cabanos, em 1863. Em 6 de março daquele ano, oitocentos rebeldes, dirigidos por Bernardo de Sena, surpresaram o Lugar da Barra. Foi o primeiro ponto ocupado. Estava desarmado; há muito (1783) havia sido retirada a artilharia, por ordem do general João Pereira Caldas, e recolhida a Barcelos. 
Não tinha mais —a acreditar em Fausto Augusto de Sousa—aquela guarnição de duzentos e setenta homens, de que saiam os destacamentos para os outros fortes e presídios e registos do rio Madeira. 
Quando chegou Tenreiro Aranha, para fundar a província, seu estado era desolador, contrastando com o da cidade, cuja população já ultrapassava de quatro mil pessoas. A propósito disse o primeiro presidente, em seu relatório de 30 de abril de 1852: "O forte desta capital tem apenas suas arruinadas muralhas. O local é o mais improprio; e, ainda que se dispendessem consideráveis somas para a sua reedificação, de utilidade alguma poderia servir, a não ser para os sinais de regozijo em dias de festa nacional”.

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Um aviso, datado de 14 de fevereiro de 1857, mandou-o considerar entre as fortalezas de segunda ordem. Outro, de 22 de maio de 1875, jogou-o ao abandono “e como se não existisse”. Foi o golpe de misericórdia... E desapareceu nos últimos anos da monarquia.

Autor: Heiroceryce Pessoa
 Bibliografia
Arthur Reis, História do Amazonas.Gaspar Guimarães, História do Lugar da Barra.Bertino de Miranda, A cidade de Manaus.Fausto A. de Sousa, Fortificações no Brasil