CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de fevereiro de 2016

POSSE NO IGHA

A renovação anunciada pelo presidente Antonio Loureiro, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), começou a se concretizar na última sexta-feira 26, quando tomaram posse três novos acadêmicos: Aguinaldo Nascimento Figueiredo, que ocupa a Cadeira 22, cujo patrono é o cronista português Gabriel Soares de Souza. 
O segundo foi Zemaria Pinto, inaugurando a Cadeira 59, da qual é patrono o etnólogo Manuel Nunes Pereira (1893-1985). E o terceiro foi o advogado e jornalista Julio Antonio Lopes, que irá ocupar a Cadeira 36, patronada pelo carmelita frei José dos Santos Inocentes.

Zemaria Pinto editou o folheto - Nunes Pereira: esboço em cinza e sombras, com seu discurso de posse. Conhecido por sua dedicação ao trabalho intelectual, o novo membro do IGHA deu partida a outra renovação: a de redescobrir e divulgar a atuação de seu patrono, hoje envolvido em lendas e esquecimento.
A parte inicial do folheto vai abaixo postada, num abraço de boas vindas a Casa de Bernardo Ramos

As razões do título e do subtítulo

Tenho por hábito começar a escrever meus trabalhos com um título, ainda que provisório. É uma forma pouco sutil de me dar uma direção, definir um escopo, para além do roteiro traçado previamente. O tema Nunes Pereira, por exemplo, é material para inumeráveis teses e dissertações, sendo impossível esgotá-lo nos limites de uma fala. Assim, defini o título: "Nunes Pereira, esboço de um retrato".

Imaginei esse esboço expressionista e em cores, explorando o amálgama racial do retratado — índio, negro, branco, buscando a ideia precisa de quem foi esse cientista e escritor, a um tempo tão citado e cultuado, mas tão pouco lido, e agora quase no esquecimento.

Pelas dificuldades encontradas no levantamento de dados, entretanto, o retrato continuou apenas um esboço, porém esmaecido num impressionismo ligeiro, limitado em cinza e sombras. O subtítulo — o cientista, o poeta, o contador de histórias — é até óbvio, conforme se verá no fluir do texto. Mas adianto que o cientista rigoroso, autodidata consciente de suas possíveis limitações, e, por isso mesmo, munido de uma autocrítica incomplacente, jamais deixou de ser o lírico que cultivava alexandrinos na juventude, especialmente quando recontava as histórias ouvidas da indiada, como ele carinhosamente se referia àqueles a quem procurava, sobretudo, "conhecer e amar humanamente".

O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, ao completar 99 anos de existência, resgata a memória desse brasileiro exemplar que foi Manoel Nunes Pereira, maranhense de nascimento, com uma passagem fulgurante e duradoura pela nossa região, especialmente por Manaus, que ele dizia ser o "coração da Amazônia".

A finalidade deste trabalho

Os que conhecem Nunes Pereira já devem ter ouvido algumas das histórias que se contam sobre ele — e que ele mesmo ajudou a divulgar, alimentando um folclore em torno de sua figura emblemática. Histórias de rebeldia, de boemia e de sexo. Esse anedotário acaba supervalorizado em relação a uma obra que, ainda viçosa e original, é subestimada — pelo que levantei, apenas duas teses de doutorado têm como centro a obra de Nunes Pereira, ambas da PUC-SP: Labirintos do saber: Nunes Pereira e as culturas amazônicas, de Selda Vale da Costa (1997), e Mitopoética dos muiraquitás, porandubas e moronguetás: ensaios de etnopoesia amazônica, de Harald Pinheiro (2013). Então, a proposta deste trabalho é, ignorando o anedotário, dar uma visão, ainda que superficial, sobre a vasta obra de Nunes Pereira, procurando despertar, especialmente nos mais jovens, pelo menos a curiosidade de conhecer o essencial da obra do autor de Moronguetá, o que não é pouco.



CORONEL FRANCISCO CARNEIRO (1922-2015)

No sábado passado 27, a família de FRANCISCO CARNEIRO DA SILVA, saudoso coronel da Polícia Militar do Amazonas, reuniu-se no oratório da corporação para lembrar o sexto mês de seu falecimento.  Ao encerramento do ato litúrgico, foi lido o texto abaixo que colaborei na composição, ao lado de seu filho Prof. Dr. Francisco Filho.

Carneiro, como restou conhecido, foi incorporado na Polícia Militar do Amazonas (PMAM) nos heroicos tempos desta corporação, no início da década de 1950. Heroicos porque o Estado passava por extrema dificuldade financeira, situação que se estendia obviamente à administração. Carneiro foi incorporado como soldado. Dedicado como sempre foi, recebeu a promoção a cabo e, quando 3° sargento, foi colocado à disposição do Corpo de Bombeiros de Manaus, ao tempo uma entidade da competência da Prefeitura da capital. Nessa situação, foi enviado para um curso no Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, então a mais importante organização do gênero no país, junto com o tenente Edmundo Monteiro. No longínquo ano de 1952. 
Um fato curioso ocorreu ao final dessa temporada, na então Capital Federal, porquanto faltasse o pagamento de vencimentos e vantagens, a dupla de Bombeiros recorreu à imprensa. Essa publicou em Manaus a reclamação dos bombeiros, resultado: ao retornar, para surpresa de ambos, foram punidos disciplinarmente. Carneiro retornou à PM, onde obteve a promoção ao oficialato. 
Nesta condição, foi destacado pela primeira vez para comandar um destacamento policial militar no interior do estado, assumindo assim, a Delegacia de Polícia do município de Tefé, onde nesta função enfrentaria, com seus comandados, situações críticas de desordem pública, como conflitos sangrentos entre famílias por disputa de terras e vinganças pessoais. 
Em 1959, o saudoso governador Gilberto Mestrinho nomeou "coronel comandante da Polícia Militar do Amazonas", ao Dr. Assis Peixoto. Peixoto fez do tenente Carneiro seu ajudante de ordens. Nessa condição, viajaram a Porto Alegre (RS) para um encontro com a cúpula das PMs do Brasil. Uma foto histórica mostra, além dos citados amazonenses, o então governador gaúcho. 
Militar por vocação, Carneiro seguiu prestando suas obrigações, no quadro de intendência, tendo ocupado a função de Aprovisionador e pouco depois, a Tesouraria da instituição. O Estado prosperava paulatinamente sob o governo trabalhista de Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho. Auxiliado por oficiais do Exército que estiveram no comando da Força Policial. 
Com a instalação do Governo Militar, em 1964, o governador determinou a apuração de desagregação no comando da PM. Carneiro, então capitão, dirigindo a Tesouraria, foi atingido pelas normas do Ato Institucional, sendo obrigado a se afastar do serviço ativo. Recorreu à Justiça, a qual o reabilitou ao serviço, cujo retorno aconteceu em 1968.
Novos tempos no país e no governo estadual promoveram a recuperação da PMAM. Carneiro comandou a Companhia de Comando e Serviços. E, em 1972, na PM do Ceará, frequentou com sucesso o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO). Promovido a major, esteve em Parintins, na condução da Delegacia de Polícia local e do Destacamento de policiais, que deu origem ao atual batalhão de polícia. 
Ao deixar aquelas funções, retornou ao quartel da Praça da Polícia, onde seguiu exercendo funções de seu posto. A reserva ocorreu e, ainda assim, Carneiro se empenhou em atividades correlatas, como atividades administrativas no extinto Deram e posteriormente na Setram, onde durante sua permanência naquele órgão, sempre se via incumbido de realizar sindicâncias e inquéritos administrativos. Da mesma forma, atuou nos quadros da antiga estatal Cosama, onde se tornou responsável pelo setor de pagamentos de funcionários do interior do Estado. 
No âmbito familiar, Francisco Carneiro da Silva fez por merecer a nobre lembrança de pai e marido amoroso e um avô apaixonado por seus netos e bisnetos. Ao lado da esposa, Sra. Ana Barros Carneiro, em 63 anos de matrimônio, dedicou seus derradeiros anos de vida a um convívio harmonioso e repleto de paz e ensinamentos para todos os familiares. 
Era, ao falecer, o oficial mais idoso da corporação, possuía 93 anos de vida, na qual galgou de singelo soldado ao topo do oficialato, após ter passado praticamente por todas as graduações e postos da hierarquia de um policial militar, numa trajetória sempre muito honrosa e rica em vitórias e, sobretudo, rica em verdadeiros amigos, os quais sabia como ninguém, soube conquistar e preservar. 
Missão cumprida, Coronel Carneiro! 

27 de fevereiro de 2016

AGNELLO BITTENCOURT (1876-1975)

João Crisostomo de Oliveira
Com o título – AGNELLO BITTENCOURT: o Historiador da Cultura e Educação do Amazonas, o saudoso professor João Crisóstomo de Oliveira produziu um folheto em que organiza as notas sobre a Educação no Amazonas, cedidas gentilmente por Bittencourt.

A seguir, as explicações necessárias; o texto completo virá em partes.

O professor AGNELLO BITTENCOURT, falecido já às portas dos cem anos, viveu sempre para o ensino, do ensino e pelo o ensino. O seu ideal sempre foi construir pela educação, sempre foi desenvolver pela cultura, sempre foi fazer crescer sua terra e sua gente pela sinergia dessas duas forças que se completam: educação e cultura. Educador por excelência, a sua presença era uma página de educação e professor por vocação, a sua palavra era um tratado da cultura e educação. 
O seu excelente e raro livro Corografia do Amazonas é o atestado evidente do quanto o digno educador amava a sua terra e a sua gente, fazendo-a bem conhecida e estudada e discutindo e equacionando todos os seus problemas de desenvolvimento e ainda escrevendo nove capítulos importantes de sua história. 
Se Agnello Bittencourt tivesse sido, como devia, cercado de uma equipe de assessores e pesquisadores em gabinete bem aparelhado, ele teria escrito para o nosso deleite e conforto a mais completa História do Amazonas, e a mais fundamentada Geografia do Amazonas. A sua Corografia, ele chegou a refundi-la e atualizá-la, ficando a mesma entregue ao IBGE, no censo de 1940, entidade que não tomou o menor interesse em publicar tão importante tratado. 
Desejando certa vez escrever um trabalho que evidenciasse a grande influência cultural do antigo Ginásio Pedro II e da antiga Escola Normal, sobretudo pela atuação dos seus mestres luminares vencedores em célebres e ruidosos concursos, escrevi ao Mestre sobre as possibilidades dos seus subsídios para tão momentoso assunto. 
Bem diferente dos historiadores avarentos, ciumentos e monopolistas em posição de eternos donos da verdade, não respondeu com proverbial "estude e pesquise como eu tenho feito até agora", mas com prontidão enviou a "papa feita": um repositório primoroso de anotações históricas sobre a evolução cultural de nossa terra através dos pródromos  educacionais e influência cultural dos nossos mais importantes estabelecimentos de ensino, dizendo ainda mais paternalmente: "são seus, faça uso deles como se fosse sua própria criação". Longe de mim tal parasitismo mesmo com a nobre doação. 
Guardei como uma relíquia o precioso documentário que agora desejo passar aos leitores com as mesmas palavras do querido e saudoso Mestre: "São suas, façam dele o uso que quiserem", mas sem querer ser o pai da criança... 
O trabalho que, embora em forma de notas e apontamentos, encerra uma riqueza de informações que só poderíamos encontrar em fontes inatingíveis e documentos inalcançáveis ou desaparecidos. 
Sigamos a trilha do mestre encontraremos esteiras de luzes que nos esclarecem muitos fatos de nossa história educacional-cultural. Exploremos os veios e arranquemos as pepitas que muitos desejariam esconder para dizer: "Está tudo errado: Não é assim, mas os documentos que TENHO dizem o contrário". 
Estudando os apanhados do Mestre, aprendamos a lição de liberdade de educador em não guardar segredos para os seus discípulos. 
Honra e gratidão ao Mestre 
Em 28.05.1981 

24 de fevereiro de 2016

GILBERTO MESTRINHO (1928-2009)

Nascido em 23 de fevereiro, Gilberto Mestrinho faria hoje 88 anos. Em sua homenagem, reproduzo um artigo de Ramayana de Chevalier, publicado em A Gazeta, edição de 15 de maio de 1961. 
Chevalier ao mesmo tempo que noticiava a inauguração da Maternidade Balbina Mestrinho (mãe do então governador), destacava ao seu modo a dedicação do "Professor" ao povo amazonense.
Ao tempo do Governo Militar, a Maternidade teve modificado seu nome, como mostra a foto. Todavia, quando da segunda gestão de Mestrinho no governo (1983-87), o hospital tomou e manteve a denominação original.
 


 Maternidade  

O dia de ontem foi de glória e de felicidade. Inaugurou-se uma maternidade. Teve o nome da mãe do governador do Estado. Nem por isso, por ser a genitora do Chefe do Estado, ela se encheu de orgulho. Balbina Mestrinho continuou como sempre, a ser a pegureira dos seus filhos, a doce pastora do seu rebanho. Humilde, por vocação e por temperamento, o que não daria ela para ter ao seu lado, no dia mais feliz da vida do seu ilustre filho, a figura do velho Tomé, aquele que tinha o espinhaço vertical como as palmeiras e cuja palavra era um documento vivo! 
Risonha e tímida, como a mais obscura das flores, mãe Balbina foi glorificada nas mães pobres. Encheu-se o prédio do que havia de curioso em Manaus. Todas queriam ver a casa da alegria, todas queriam tocar-lhe as paredes, abençoando-as. Estava ali o resultado de muitas vigílias, a soma de muitos sonhos! Aquela Maternidade era o resultado de muitas vigílias. Aquela Maternidade era uma fibra inteira do coração de Gilberto Mestrinho. Durante meses corridos, ele a fecundou com a imaginação, com a generosa alegria de apressá-la, com a sofreguidão juvenil dos que pretendem criar para a eternidade! 
Ali estava o resumo do seu sentimento, na marca filial de uma saudade. Não tínhamos um hospital condigno para as mães. Não possuíamos um abrigo, à altura, para as parturientes modestas. Os amazonenses proletários, que vinham à luz, o faziam despidos de tudo. Sofriam desde a primeira hora. Era preciso construir uma casa para as mães pobres. Era preciso atende-las com a solicitude de quem ama à sua própria mãe. 
De todas as bandas do Estado elas podem vir, das barrancas do Madeira, dos sacados do Juruá, dos beiradões do Negro, dos alagadiços do Içá, dos lagos da Mundurucânia, que terão a sua casa, iluminada pela Virgem, para o despertar de uma realidade. O hospital para as mães de Manaus, é preciso que o saibam aqueles que só pensam na política, ou na ambição, ou na injustiça, é um dos melhores do Brasil. Foi edificado sob esquema científico moderno, teve todas as instalações atualizadas e amplas, possui ar refrigerado na sua sala de parto, os seus utensílios são de primeiro plano, as mesas e as cadeiras metálicas foram fabricadas no Amazonas, como prova da nossa já pujante indústria em começo. Desde a pintura suave e estudada, até à iluminação das salas, e dos abrigos, tudo obedeceu a um sistema moderno de ciência hospitalar. 
O Pronto Socorro, que se abrigará em seu corpo, representa um passo largo no caminho da assistência efetiva ao povo amazonense. Não se olhou despesas, quando os utensílios deveriam servir. Não se cogitou de economia, nas serventias para o povo. A sala de parto é uma das mais atualizadas do país. Os médicos e enfermeiras trabalharão em clima de montanha, assim como a mãe pobre, dará à luz, cercada do conforto que merece o trabalhador caboclo. 
O povo, em massa, ao dia de ontem, deve ter comprovado tudo o que afirmamos. Da entrada, florida e atraente, aos pátios e terraços, a Maternidade Balbina Mestrinho é um encantamento. Muito poucos hospitais no Brasil terão essa simpatia, esse acabamento moderno, essa eficiência, essa completação hospitalar perfeita. 
De energia própria, independendo da corrente geral, que breve também será outra realidade, a Maternidade Balbina Mestrinho foi a maior dádiva do governador ao seu povo. Enquanto outros iludem, ele trabalha. Enquanto outros esbravejam, ele constrói. Enquanto outros mentem, infamam, ofendem, mordem os bridões, ele oferece ao povo, aquilo de que o povo necessita. Enquanto os outros fazem propaganda com as palavras, ele a faz com os prédios, com os hospitais, com as escolas, com os edifícios.
Sua política é essa: fazer, em quatro anos, o que ninguém fez em trinta. Não importa o silêncio dos invejosos, a raiva dos impotentes, o ódio vesgo dos insensatos: aí estão os serviços, aí vão os trabalhos, aí se demonstra um programa. Sei que os inimigos desaçaimados jamais visitarão a Maternidade, para não se humilharem, jamais ultrapassarão os seus umbrais por espírito de rancor. 
Mas saberão, pelo povo, que ali existe um abrigo eterno, que ali se levantou a mais moderna maternidade do Brasil. A equipe do governador Mestrinho, honrada com a sua escolha e orgulhosa de sua companhia, está perfilada em sua homenagem, louvando o nome impoluto de sua genitora! Também a nos recai um pingo dessa glória, também a nós cabe um minuto de alegria interior. Sobretudo a esse engenheiro que presidiu ao feito, ao digno secretário de Viação e Obras Públicas, Dr. Walter Troncoso, ilustre por vários títulos, capaz por tantas provas, brilhante no seu concurso, a cujo tope se destaca a restauração primorosa do Teatro Amazonas e a que se realiza, menos primorosa, no Palácio da Justiça. Vale ressaltar o talento e a eficiência do responsável direto pela construção, Armando Sarmento, abelha mestra de cujo trabalho surgiu aquela colmeia de luz. 
O dia de ontem foi de glórias. Límpido o céu, de sol tão puro, homenageando também à Mãe Pobre de nossa terra. A mãe do dia foi Balbina Mestrinho. A ela coube o quinhão maior. Dela partiu, pelo sangue, pelo amor e pelo exemplo, a inspiração que fez nascer esse maravilhoso hospital. Diante dela, eu que não possuo mais a minha mãe, curvado em sinal de respeito, beijo-lhe em nome da equipe do governador Gilberto Mestrinho, as venerandas mãos.

20 de fevereiro de 2016

CORONEL ILMAR FARIA (1946-99)


A partir da esquerda, Roberto, autor do post, Romeu Medeiros,
comandante da PMAM, e Ilmar Faria,
em Fortaleza, em 1989
Guardava este texto para homenagear ao saudoso colega de farda caqui, da Polícia Militar do Amazonas, Ilmar Faria, quando anteontem desapareceu de nosso convívio outro companheiro, coronel Edson de Lima Matias. Possuidor de portentosa cabeça e farta cabeleira, autêntico cabeção, que aquele não perdoou com sua capacidade inventiva, a de espalhar apelidos por onde passava. Creio que sua inspiração faz jus a um catálogo. 

Eu conheci seus feitos nas hostes militares, todavia, desconhecia a gênese de sua verve, que o texto de Ribamar Bessa (publicado em 3 de janeiro, no Diário do Amazonas) esclarece. Não perdoava ninguém. Por onde passou, nos cursos policiais, na administração estadual, sempre que possível marcava os colegas com sua inspiração.

No próximo mês, a turma Ajuricaba, do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), completa meio século de formatura, solenidade celebrada no pátio do 27 BC (hoje 1º BIS). O baile aconteceu nos salões do Ideal Clube, ali onde o Ilmar Faria dançava e dublava os rocks, a sensação que invadia a cidade, e conquistava os jovens. E éramos todos jovens, lembra Bessa; todos “brasas”, cantava RC.

Eu participo dessa Turma, vindo do Seminário São José, ao lado do Ilmar, do Osório, do Amilcar, relembrando alguns alunos do Colégio Estadual do Amazonas. A festa do cinquentenário já começou com uma atração brasiliense, a presença do colega Waldir Ferreira, vai prosseguir para bem marcar a efeméride.

À brilhante crônica de José Ribamar Bessa:

O Quinto Mosqueteiro da Amazônia
Sempre soubemos que os três mosqueteiros do romance de Alexandre Dumas eram, na realidade, quatro. O que ninguém sabia, mas agora eu conto, é como que havia mais um, vindo da Amazônia, que só foi anunciado ao mundo em 1963: Olha o quinto Mosqueteiro!!! 
O grito ecoou na escadaria do Colégio Estadual do Amazonas, em Manaus, e rolou degraus abaixo até o portão onde eu estava e me atingiu como um soco no peito. Lá em cima, esgrimindo uma espada imaginária, Ilmar Faria, o temível criador de apelidos, apontava para mim, que me tornara o centro das atenções, salientando que a manga comprida da minha camisa era igual à de um espadachim. O quinto mosqueteiro era eu. Ilmar acertara, mesmo sem saber de onde viera aquela manga folgada de guarda do rei da França. 
A camisa viera de um beco lá do bairro Aparecida, onde uma vizinha solidária, ao saber que eu faltara à aula por não ter farda, deu a minha mãe uma camisa velha de seu sobrinho. Sendo o defunto bem maior, dona Elisa teve que reciclá-Ia, de noite, às pressas, à luz de lamparina, numa máquina Singer. Com a vista cansada, inverteu a manga direita, costurando-a com a carcela pra cima. De manhã, já não havia tempo de desfazer o erro. Vesti assim mesmo, abotoei o punho e girei o tecido, botando a abertura pra baixo, o que formou uma manga bufante, cheia de rugas em volta do braço. 
Lendo Camões 
Embombachado, sai para a escola, onde ganhei aquele apelido cruel, mas tão engraçado que meio século depois insisto em recordá-lo. Com isso, perco o amigo, mas não a piada, com um agravante: o amigo perdido, neste caso, sou eu, o melhor amigo de mim mesmo. Hoje seria bullying, mas foi brincadeira tão efêmera que só durou “o espaço de uma manhã”. 
Coronel Ilmar Faria, 
Outros apelidos inventados por Ilmar sobreviveram mais tempo, como os dos bedéis “Pierre Pirrocá” e “Bunda-de-Aço”, ou o da professora de Filosofia, Lindalva Mota, alcunhada de “Por-conseguinte-então” ou “Silogismo”. Era a cara dela. Professor da mesma disciplina, cônego Walter, cujas aulas nos levavam a crer que "Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual a gente fica tal e qual", ficou sendo “Vavá Tal-e-Qual”. 
Todos os colegas tinham apelido. Um deles surgiu em aula memorável de Literatura Portuguesa do professor e poeta Farias de Carvalho. Aula é um modo de dizer. Ele não dava aula. Declamava. Era ator performático, usava todos os recursos corporais, as bochechas infladas, as mãos fartas, o olhar penetrante, o riso sardônico. Parecia Orson Welles, no físico e no espírito: charmoso e provocador, obeso, corpulento, carismático.
Nesse dia em que ditava um ponto sobre Os Lusíadas, Farias estava com a macaca solta. Burlesco e farsante, declamava "as armas e os barões assinalados", enquanto nós copiávamos o que ele falava: “Os Lusíadas”, a epopeia de uma raça, poema épico humanista, com dez cantos, 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos... 
Foi interrompido por um colega:
-- Desculpa, professor, mas o senhor já leu TUDO ISSO?
-- Eu vou lá perder o meu tempo com uma meeeeerda deeesta - vociferou Farias, advertindo que não era para copiar aquela frase. Fechou parêntese e com voz impostada cheia de teatralidade continuou:
-- Luiz Vaz de Camões, gênio lusitano, relata o assassinato de Inês de Castro, episódio que simboliza a força do amor e a dor da morte. Com um olho só, via mais longe do que qualquer homem do seu tempo. 
Na sequência, revelou que Camões perdera o olho direito numa batalha. A aula não havia terminado e um papelzinho já circulava de uma carteira à outra, batizando de Camões nosso colega Flávio Farias, que era cego de um olho. Aí foi bullying mesmo. 
Três Farias 
Eram três Farias do Curso Clássico agora em outras órbitas. O primeiro a se despedir foi Carlos Farias Ouro de Carvalho (1930-1997), que nos deixou vários livros de poemas, entre os quais Pássaro de cinza (1957) e Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer (1965). Hoje empresta seu nome a uma Escola Municipal de Manaus situada no Monte das Oliveiras.
O segundo foi Ilmar Faria (1946-1999), que morreu como coronel. Depois de ser Oficial da Reserva (NPOR), ingressou na Policia Militar. Tentou carreira política como candidato a vereador. Perdeu. Desistiu. Foi Secretário de Segurança Pública. O governo do Estado construiu quadra esportiva na Manaus Moderna e deu o nome do coronel a ela [hoje, no local, encontra-se a 24ª DIP]. 
O terceiro foi Flávio Farias (1946-2015) falecido recentemente numa sexta-feira, 13 de março. Cursou jornalismo, em São Paulo, trabalhou em vários jornais de Manaus e foi professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas. 
Lembrei dos três Farias, porque voltando de Brasília, há duas semanas, sentou-se ao meu lado no avião um jovem que era a cara do Ilmar. Quase pergunto se ele ainda dançava e dublava os sucessos da época, especialmente Jorge Ben, Chubby Checker, Ray Charles e os Beatles, que cantávamos em sala de aula, quando faltava um professor. 
Há meio século, em dezembro de 1965, éramos todos jovens e concluíamos o Curso Clássico no Colégio Estadual do Amazonas. Depois de convivência diária de três anos, nossos destinos ali se separaram, cada um tomou seu rumo. Quantos ainda estão vivos? A contagem do tempo na passagem de ano remete ao Ocaso, de Farias de Carvalho: 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
 Aguçai vossos dentes, cães do tempo,
vamos comer a morte no crepúsculo".

17 de fevereiro de 2016

RAMAYANA DE CHEVALIER

Anúncio publicitário do médico
Há 55 anos, o saudoso médico, jornalista, acadêmico Ramayana de Chevalier dirigia a Secretaria de Administração do governo de Gilberto Mestrinho (1959-1963). Em Manaus, era o articulista principal do jornal A Gazeta
Publicava ao seu bel prazer artigos panfletários contra o governador anterior (Plínio Coelho), porém, escrevia sobre diversos temas, empregando as facetas de seu vasto conhecimento. Escrevia muito bem, lembram seus contemporâneos.
Do estoque de suas publicações recolhidas naquele ano, escolhi a que segue abaixo, circulada na edição de 8 de agosto de 1961, para esta postagem. Nela, Ramayana descreve a situação da cidade do Rio de Janeiro, onde morava, em confronto com sua cidade natal: Manaus.


Minha velha Manaus



NÃO sei de sensação mais terna e mais doce do que esta que eu sinto, quando volto à Manaus, sempre nova para o meu coração. Riscando o céu como um meteorito, na vertigem de uma viagem quase estelar, depois do rasgão marciano de Brasília, o vortilhão amazônico nos recebe ao jeito de um mundo novo e eterno. Vista sob aspectos simples e triviais, a Guanabara está ficando desumana. Os seus três milhões e trezentos mil habitantes vivem num estado quase hipnótico, aturdidos, esmagados pela confusão maciça da cidade imensa. 

De um lado, o custo da vida quase impossível. Do outro, o custo da morte, inacessível.  Vive-se, no Rio de Janeiro, num eterno problema de aterrissagem em voo cego. A luta está, cada dia mais, insustentável. A cidade formigueja com os seus oitocentos mil favelados. Dito assim, parece normal. Avalie-se, contudo, o que seja uma cidade cheia de úlceras no estomago, que são as suas favelas, com o grave desígnio de não poder curá-las senão sob medidas tão drásticas e sumárias, que serão piores que a doença. 

O proletariado enorme, arrasta a sua existência pesada e suja. Não por sua culpa, mas pelas condições de inabitabilidade da metrópole confusa. O impulso da desgraça, somado à necessidade de viver, projeta-se no quadro da estatística criminal. Mata-se, hoje, com extrema facilidade no Rio de Janeiro. Não se trata só dos crimes sexuais, que esses existem em todas as grandes aglomerações humanas. O crime da fome, do empuxo da fome, da vingança do faminto contra os que vivem bem. Nos bairros mais engalanados, Copacabana, Ipanema, o assalto ao transeunte é comum. 

Até de dia, pela manhã, luz meridiana, o crime se consuma, em cores violentas. Já não se anda descuidado e tranquilo, com a família, numa rua noturna do Rio de Janeiro. A polícia está numericamente inferior ao que é preciso. As feiras livres perderam o seu encanto. Poucas coisas são vendidas a preços convidativos. Tudo caro; pela hora da morte, como diria um historiador. O transporte continua horrendo, sempre mais indigesto. A velocidade dos carros, uma alucinação. O congestionamento do tráfego, um absurdo.
Duas coisas salvam, por exemplo, aquele que vive do túnel para o infinito: a praia e o comércio próximo de casa, sem problemas se o dinheiro existe. Mas essas duas virtudes não atingem ao botafoguense, ao centrista, ao zonanorteano. Esses, com a rara exceção do tijucano, vivem torrados no verão e esfriados no inverno, sem salvação. 

Para virem à cidade, ou se trituram no ventre de um trem elétrico, numa experiência de fetos em “délivrance”, ou realizam uma viagem da qual não esperam voltar, mercê da loucura dos ônibus e lotações. Os seus empregos estão sempre situados no ponto antípoda ao do seu lar. Para comer, se são operários, levam as suas marmitas, sempre frias, de gordura coagulada, de gosto azedo, mesmo aquecidas na hora. Se são da ciasse média, ou fazem outra viagem igual para comer, ou almoçam um alimento suspeito, nos botecos do centro, sujos e sem fiscalização. 

Cinema? Só nos pulgueiros do subúrbio, que no centro e zona sul uma entrada subiu para cem cruzeiros, comumente. Teatro? Conversa... Televisão? Só pra quem pode. Futebol? Bem, esse, para quem quiser sofrer com o transporte e os apertões da entrada do Maracanã, ainda vigora. Mas vocês já pensaram no sofrimento de um pobre, de regime forçado, que gasta o seu magro vintém numa entrada do Maracanã e sai de cabeça inchada com a derrota do seu Mengo? Além da queda, coice.
E as escolas, que são insuficientes? E os empregos, cada vez mais difíceis? E o Ardovino, perseguindo os casais que se defendem, porque o Lacerda, nesse terreno, não é de nada? E o desespero dos que se mudam, com uma diferença monstruosa no aluguel, como se residir fosse um crime da espécie humana? E os sapatos a quatro e cinco mil, quando prestam? 

E a tortura de ter que soltar as filhas, nos trabalhos, com a fúria dos bandidos sociais em volta delas? E a classe média, que não tem liberdade de vestuário do proletariado e possui todos os defeitos de representação da classe alta? E o deboche de uma classe privilegiada, volutuosa, cheia de vantagens, gastando a rodo, num descalabro perante um povo que sofre e mastiga o seu sofrimento em silêncio, de estômago vazio? 

Não, amigos, eu não estou falando dos que viajam para o Rio de Janeiro em estado de graça. Não. Eu falo dos tripulantes do barco, dos que trabalham ali, dos que amargam aquela vida. Paisagem não engorda ninguém, não torna feliz uma alma despedaçada pela injustiça imobiliária. Pobres moças desavisadas; que estão loucas para ir para a Guanabara, num programa de “expansionismo”! Pobre pingentes da zona norte, ou da zona sul, espectadoras e personagens do seu próprio drama, que é a pobreza e a ilusão! 

Não falo dos turistas, de dentro ou de fora, ricos e felizes, que veem o Rio de Janeiro de azul celeste, com boates, teatros, cinemas de luxo, restaurantes alegres, bailes de entradas caras, farras no Joá e noitadas no Bem, de São Conrado... 

Não falo ricos, que esses já nasceram de “JK”. Olho para baixo e me sinto sempre agasalhado na minha cidade pobre e amiga, tão cheia de simplicidade, nesta Manaus, que era jovem e está ficando antiga, onde o calor é pra galo, mas a fraternidade ainda vale um sacrifício. Quando minha cidade estiver iluminada, festiva, aumentada, então falaremos em outra linguagem, frente aos turistas que nos humilham com as suas perguntas cretinas e com a sua burrice internacional... *

14 de fevereiro de 2016

SEMINÁRIO: ICHL/UFAM: UNINORTE

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TEATRO AMAZONAS - RESTAURAÇÃO (2)

Segunda parte do discurso pronunciado em 4 de julho de 1973, pelo então governador João Walter de Andrade (1971-75), quando da contratação da empresa Norberto Odebrecht para a reforma do Teatro Amazonas.


Foi pensando nesse imenso trabalho fundamental que o Governo do Estado solicitou ao diretor da firma CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT S/A uma participação em termos iniciais de contratos e de orçamento discriminado. A referida construtora enviou a Manaus o arquiteto-chefe da construção do Teatro Castro Alves, da Bahia, o qual, após demorado contato com o ambiente, e de posse de elementos informativos da espécie de plantas gerais do TEATRO AMAZONAS, registro das particularidades a serem atacadas, reformas, recuperação de obras de arte, etc., elaborou os projetos, com anexação, inclusive, de um estudo sobre realização de empréstimo para emprego nas obras. 
Com o presidente da Embratur, Dr. Paulo Manoel César Protásio, e seus assessores, reunimo-nos em fevereiro, na Guanabara, achando-se também presentes os Drs. Tomaz Estrela e Alcir Souza Coelho, do IPHAN, o Dr. Delile Guerra de Macedo, secretário de Planejamento; o engenheiro Odilon Spinelli, secretário de Obras; e o Dr. Sinval Gonçalves, Presidente da Emamtur. Ali ficou decidida a participação da Empresa Brasileira de Turismo na obra de restauração do TEATRO AMAZONAS. 
Ao Dr. Nestor Jost, presidente do Banco do Brasil, solicitamos a inclusão do Projeto de restauração do TEATRO AMAZONAS, entre aqueles merecedores de financiamento com recursos do PASEP, administrados pelo Banco do Brasil. Finalmente, com o Banco da Amazônia, representado no ato pelo seu presidente, Dr. Babot de Miranda, em solenidade presidida pelo Sr. ministro do Interior, General José Costa Cavalcante, e participação do presidente do Banco Nacional de Habitação, Dr. Rubens Vaz da Costa, e do presidente da Caixa Econômica Federal, Dr. Giampaolo Marcello Falco, assinamos contrato de financiamento de parte da obra do TEATRO AMAZONAS. 
O contrato, que nesta solenidade se assina com a Construtora Norberto Odebrecht S/A — Comércio e Indústria, obriga esta firma a executar, sob o regime de administração para o Governo do Estado do Amazonas, todos os serviços de construção e instalação de equipamentos especiais necessários ao pleno e perfeito funcionamento do TEATRO AMAZONAS. 
Tais serviços são, em resumo, os seguintes:
1 — Exame minucioso de toda a construção, situação das paredes de alvenaria, fundações e respectivos serviços do reparo.
2 — Restauração das pinturas, por técnico especializado.
3 — Retirada do assoalho do salão nobre, construção de nova estrutura, reposição do assoalho, retirada, recomposição, alguns assoalhos novos, reparos em todo o prédio.
4 — Mobiliário novo (em estilo) para todas as dependências do Teatro, restauração de alguns móveis, novas cortinas para todo o Teatro, em tecido especial incombustível tipo veludo, restauração dos lustres de cristal existentes e instalação dos que faltam.
5 — Poltronas especiais para a plateia, tipo teatro, condizente com o caráter da decoração a ser preservado e compatível com o novo tratamento acústico.
6 — Poço da orquestra apropriadamente dimensionado, com movimentação mecânica para funcionar como extensão do palco.
7 — Caixa do palco totalmente remodelada, incluindo demolição do atual piso do palco, retirada da estrutura atual de madeira, instalação de novo palco com infraestrutura metálica especial e nova estrutura também metálica para a sofita e urdimento.
8 — Camarins completamente redistribuídos, ampliados, novos camarins instalados, inclusive camarins coletivos para coro, balé e figurantes.
9 — Novos sanitários para o público, para artistas, para os artífices e para a administração do Teatro.
10 — Nova instalação hidráulica totalmente independente da existente, incluindo novos reservatórios e nova rede de esgoto.
11 — Instalação elétrica completamente nova, tubulada, aparente, apoiada em bandejas e calhas, capaz de receber toda carga da iluminação geral do Teatro, iluminação cênica, bombas, motores elétricos, ar condicionado, iluminação feérica das fachadas, sistema eletroacústico.
12 — Iluminação cênica constituída pelo conjunto de refletores especiais, efeitos cênicos, projetores e controle de comando instalado na parte posterior da plateia.
13 — Pano de boca compreendendo reconstituição, recuperação e movimentação eletromecânica do atual e fornecimento de novas cortinas do proscênio em veludo especial incombustível.
14 — Limpeza e pintura geral da estrutura metálica.
15 — Retirada de todas as telhas, impermeabilização da cúpula, recolocação das telhas, inclusive fabrico especial dos dois tipos existentes.
16 — Reparo, substituição e ampliação da rede de recolhimento de águas pluviais.
17 — Instalação completa especial de ar condicionado em todo o Teatro.
18 — Sistema completo de prevenção contra incêndio.
19 — Pintura geral do prédio.
20 — Retirada, exame, reparo, substituição de ferragens e recolocação de todas as esquadrias de madeira do Teatro.
21 — Substituição de vidros quebrados.
22 — Eletroacústica, compreendendo sistema sonoro para reprodução de acompanhamentos gravados e efeitos especiais etc.
É de 15 meses o prazo total para a realização dos serviços, mas a Empresa se compromete a reduzi-lo para 10 a 12. 
Meus Senhores:
Assinando hoje este contrato, chegamos ao meio de uma luta para levar a termo um compromisso assumido conosco mesmo, perante o respeito que temos pelas tradições de cultura da família amazonense. 
Chegamos ao meio, porque uma outra fase se inicia hoje: a dos trabalhos de restauração. Na batalha em que hoje temos a colher este triunfo, não estivemos só, entretanto. Tivemos a ajudar-nos dedicações valiosas. Uma delas é a do Professor Mário Ypiranga Monteiro, o historiógrafo do Teatro Amazonas, conhecedor emérito do passado e do itinerário histórico desta casa-monumento. Outra é a do Dr. Delile Guerra de Macedo, Secretário de Planejamento. Outra, a do engenheiro Coronel Odilon Spinelli. Integraram a nossa equipe de lutadores e nela se mantêm, devotados e leais. 
À patriótica compreensão do Dr. Paulo Protásio, presidente da Embratur, e do Dr. Fábio de Carvalho, um dos diretores da referida Empresa, ficamos devendo boa parte do êxito de nossa campanha. O projeto de viabilidade do TEATRO AMAZONAS, elaborado pela Embratur, como parte do Programa Nacional de Empreendimentos Turísticos, representa trabalho de grande fôlego. 
No Senhor Ministro de Planejamento, Dr. Paulo Reis Veloso, encontramos decidida colaboração para o encaminhamento de nosso projeto de restauração do TEATRO AMAZONAS. Ao Exmo. Sr. Presidente da República, solicitando ajuda financeira. E mais uma vez, do eminente Presidente Emílio Garrastazu Médici recebemos confortador apoio no ato de concessão que vem de ser autorizado pelo benemérito Chefe da Nação. 
O grande somatório de esforços, que se expressa neste ato de assinatura do contrato para a restauração do TEATRO AMAZONAS, é em verdade uma união de vontades, uma aliança de sentimentos dedicados, uma associação de desvelos e cuidados, em derredor de um patrimônio que já é mais que do Amazonas: é do Brasil! Do Brasil porque reflete, no estrangeiro, ou para os visitantes estrangeiros, a cultura de um povo, de uma Nação, plantada com requinte, há quase 80 anos, no coração da portentosa hinterlândia brasileira. 
Erguido no período áureo das exportações da borracha para os mercados da Europa e da América, aqui estão também representados, ao lado das manifestações da arte, o esforço do homem do interior, o trabalho do florestário, o suor das fadigas da nossa gente simples dos barrancos litorâneos. E é por isso que a estes nunca os esquecemos. E é por isso que o Homem do interior está sempre em nossas preocupações, a ele dedicando boa parte de nossa atenção, de nossos desvelos, sempre em busca de soluções justas e humanas para assisti-los, certo que estamos de que de seu esforço, de seu trabalho e do suor de suas fadigas é que surgem obras como esta que o Engenheiro Eduardo Ribeiro pôde levar quase a termo, em seu quadriênio de governo, fecundo de realizações, na última década do século passado. 
E assim procedemos, cumprindo ideal da patriótica Revolução Democrática de 1964, cujas diretrizes atuais vão no rumo do homem interiorano, através da construção de estradas gigantescas, como a Transamazônica; a Perimetral Norte; a BR-319 Manaus-Humaitá-Porto Velho; de Portos e Ancoradouros fluviais; de Eletrificação; de Telecomunicação, de Saneamento e Abastecimento d'Água; de Hospitais, de Escolas, de Aeroportos, — assim promovendo o momento histórico da grande hora do nosso Brasil, que marcha firme e seguro, tranquilo e em paz, laborioso e opulento, no rumo do seu grande destino. 
Aguardemos, senhores, para daqui a um ano, mais ou menos, a grande noite de gala que reabrirá, para seus novos faustos, totalmente restaurado, o nosso majestoso TEATRO AMAZONAS.