CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de janeiro de 2016

MMM - CENTENÁRIO DE NASCIMENTO

Manuel, Francisca e os
dois primeiros filhos
A minha família organizava-se para celebrar o centenário de seu patriarca, quando um fato natural alterou os preparativos do festejo. A morte de Manuel Mendonça ou Mendoza, em maio de 2014, foi a causa dessa variante. Passada a surpresa e reclusas as lágrimas, decidimos (eu e meu irmão Renato) elaborar um livro para contar a saga do nosso peruano. A previsão era entregar o trabalho nesses dias, quando do centenário, porém, “o tempo e o vento” não permitiram. Intitulado de Entre duas viagens, o livro sairá em junho, composto de fotografias sobre uma extensa linha do tempo, em prosseguimento a celebração da centúria.

A elaboração deste publicação exigiu esquadrinhar os registros pessoais em Manaus, no Rio de Janeiro e em Santos (SP), e mais, com os mesmos objetivos, a circular por Iquitos e Lima, no Peru, a fim de rematar certas lacunas junto aos parentes.

Mendoza, também conhecido como Manuel peruano, nasceu em Caballococha, uma povoação ainda em assentamento, situada nas vizinhanças da fronteira Brasil-Peru, em “hermosa orilla”, à margem esquerda do rio Amazonas, em 17 de janeiro. Há exatos cem anos!  Sua mãe, Victoria Malafaya, nascida na mesma localidade em 1890, era mestiza e descendente de ticunas, de cútis morena e baixa estatura era, comum na época, analfabeta. O vilarejo, todavia, cresceu alcançado pelo ciclo da borracha, mas Victoria, sucumbiu ao assedio dos caucheiros. Tanto, que certo dia de 1927, depois de impiedosa surra do companheiro, fugiu para o Brasil, trazendo dois filhos: Manuel, meu pai, e Francisco, que se finou no Rio de Janeiro.

Depois de custosa viagem pelo rio Solimões, desembarcam em Manaus. Sem outros recursos, foram ao trabalho: a mãe, como doméstica, e Manuel, na taberna de seu Abade, um comerciante na rua Dr. Almino. A evolução financeira da família possibilitou a mudança para a Pensão Vaticano (um prédio de três andares que existiu até o início da Zona Franca, na rua Dr. Moreira), pertencente à família Balbi, onde fizeram amizade com Dolabela, filho do legendário Heliodoro Balbi.

Em 1939, Manuel retornou ao Peru, visitando Iquitos, onde efetuou sua inscrição no serviço militar. Logo retornou a Manaus, quando obteve o primeiro emprego de carteira assinada. O de balconista (atendente junto ao balcão), depois gerente, na Fábrica Rosas, a padaria chique da cidade, inaugurada em novembro de 1940 e instalada na avenida Sete de Setembro, 129, defronte à Praça da Polícia. A edificação ainda se mantém de pé, onde funciona uma loja da TV Lar, tendo sido renovada nestes dias. Nesse emprego, Manuel permaneceu por quatro anos, quando se mandou com a noiva Francisca para Iquitos, onde casaram. 
O casal pretendia se fixar na capital de Loreto. Até organizou um comércio, pois meu pai aprendera comerciar, ao menos era um bom vendedor. Contudo, no início de 1946 com dona Francisca gestante (deste que escreve), a família zarpou para Manaus. Assim, posso garantir que sou “hecho en Peru”, todavia, nascido em Educandos, à rua Inácio Guimarães esquina do beco São José, onde como referência mais adiante surgiria o Cine Vitória. Vieram mais dois filhos: Henrique Antonio (1948) e Pedro Renato (1951), antes do falecimento de minha mãe, vitimada pela tuberculose. 

Nesse tempo, o vigário de Educandos colaborou para meu ingresso no Seminário São José, instalado à rua Emilio Moreira, onde conclui o curso de humanidades. Deste instituto religioso passei ao militar, servindo ao Exército e à Polícia Militar, onde me aposentei. Aposentado, interessei-me pela história do Amazonas, tendo como resultado elaborado os livros: Candido Mariano & Canudos (1997); As artes de Genesino Braga, prêmio literário da Academia Amazonense de Letras (2006); Administração do coronel Lisboa, prêmio literário Cidade de Manaus (2008); Bombeiros do Amazonas (2013). E, como organizador: Cinema e Crítica Literária de L. Ruas (2010) e L. Ruas: Poesia Reunida (2013). 
Morador de Educandos, meu pai frequentou assiduamente a paróquia do padre Antonio Plácido, sacerdote que o casou com “Dona” (a forma carinhosa como era tratada pelos enteados) Doroteia, em 1958. Esta nova união gerou cinco filhos: Zemanoel, Miguel Jorge, Luís Carlos, João Ricardo e Carlinhos).

No ano seguinte, a família mudou-se para o Morro da Liberdade e, mais adiante migrava para Santos (SP). O chefe da família, que trocara a profissão de comerciante pela de carpinteiro, trabalhou em vários locais, devendo registrar sua presença no complexo da Refinaria de Cubatão (SP). 
Novamente viúvo, com a morte de Dona acometida de câncer, seu Manuel passou os derradeiros anos de vida entre Manaus e São Paulo, visitando os filhos e netos. E vez ou outra, curtindo uma relação afetiva. Aos 98 anos, morto na capital paulista, seu corpo como se despedindo atravessou o Brasil para ser sepultado na cidade de seus amores: a capital do Amazonas. Sua sepultura encontra-se no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, junto com a segunda esposa. 

Mandei confeccionar dois selos personalizados objetivando marcar este domingo, 17 de janeiro, quando se celebra o centenário de Manuel. Dois selos porque o homenageado estranhamente possuiu dois nomes. Explico: a sua certidão de nascimento registra – José Manuel Mendoza, com o qual se casou com Doroteia Mendoza; todavia, quando ao desembarcar pela primeira vez em Manaus, por motivos controversos, aportuguesou o sobrenome, refez o nome, incluindo o sobrenome materno. 
Desse modo, con mucho orgullo, sou filho de Manuel Mendonça Malafaya (MMM). 

Victoria Malafaya e a filha Laura
Manuel e Dororteia Mendoza


Manuel e Francisca Mendonça

14 de janeiro de 2016

MAESTRO ALBINO DANTAS (2)

Albino Ferreira Dantas, tenente maestro da Banda de Música da Polícia Militar Amazonense, nascido em Quipapá (PE), publicou em jornal vários escritos, cujo tema fundamental era a Música.
Recorte do matutino
A publicação abaixo, com mais de sete décadas, foi veiculada no matutino O Jornal, edição de 10 de agosto de 1944, e relembra a casa de espetáculos amadora, que funcionava na sede do Luso Sporting, mantidos pela colônia portuguesa.

Teatro do Luso

Está sendo levado à cena pelo corpo cênico do Teatro do Luso, o drama em 2 atos – “A filha do estalajadeiro”. 
Antes de tudo, quero congratular-me com o grande esforço da diretoria e amadores do Luso, pelo muito que tem feito em prol do Teatro no Amazonas, levando sempre os seus dramas, conforme as possibilidades artísticas de cada um. 
Não obstante isto, devemos fazer nossa crítica sincera, sem ao menos pretendermos ferir nem de leve a sensibilidade de alguém procurando, apenas, apontar pequenos senões, que poderão ser facilmente corrigidos. 
Estive presente à estreia do drama que ora está sendo levado no Luso, motivo por que faço algumas apreciações quanto ao desempenho do mesmo.Começou mal o "ponto", no seu fatigante trabalho de orientador dos personagens em cena, causando assim um pouco de desânimo aos que compreendem mesmo superficialmente o teatro, pois, falava muito alto podendo ser reproduzidas fielmente as suas palavras, por quem se achava na décima fila de cadeiras. Sabemos que o “ponto" deve ser o indivíduo mais discreto da ribalta, e, para melhor assertiva, vive ele sempre escondido nas horas de trabalho. 
Mario Almeida, no papel de estalajadeiro, esteve bom e merece nossos elogios, precisando tão somente que o encarregado da maquilagem não lhe ponha as "costeletas" pretas quando os cabelos da cabeça estão completamente brancos. É contrariar as leis da natureza... 
Antonio Martinho, fazendo o papei do marinheiro Baltazar, mostrou alguma habilidade no desempenho do mesmo, saindo-se melhor se não procurasse tirar partido da plateia, levando o seu papel algumas vezes para ponto diferente do que imaginou autor, única vítima da falta de compreensão de alguns atores. 
Manoel Ayres promete e deve dedicar-se ao Teatro, sendo, ao meu ver, o melhor de todos. Esteve bem no primeiro e segundo atos, não sendo o mesmo no terceiro ato, em que aparecia bem doente, e, que dado o seu estado de saúde, o papel o forçava a modificar o seu timbre de voz, o que ele, infelizmente, não fez, destoando o final de seu trabalho. 
Eis minhas pequenas turras com referência ao Teatro do Luso, esperando, como amigo que sou de quem trabalha pelo soerguimento da Arte, que cada vez mais os amadores que honram a ribalta no Amazonas, neste ou naquele teatro, vejam acima das paixões o interesse pela arte de representar. 
Não direi aos que tomaram parte no desempenho da "A filha do estalajadeiro" que são perfeitos na arte que imortalizou João Caetano, porque seria, ao meu ver, deprecia-los. Direi apenas que prossigam com ardor e boa vontade, para gloria do Brasil.  

13 de janeiro de 2016

ITINERÁRIO TRANSANDINO (4)

Na metade do século passado, os médicos Djalma Batista e Moura Tapajós empreenderam uma viagem por países andinos, saindo de Manaus (AM) e passando por Iquitos e Lima (Peru). Concluído o périplo, o primeiro publicou em jornal o relato dos acontecimentos. Adiante, foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transandino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem.

                  
LIMA, SUAS FLORES E SEUS ENCANTOS

Lima é positivamente uma cidade de destino piedoso: tem também um Beato, Frei Martino de Porras, de cor escura, em cuja imagem o vemos sempre agarrado a uma vassoura... Certamente daí proveio toda a sua santidade: vasculhava os desvãos para a limpeza, ao mesmo tempo que removia as poeiras do entendimento e as dos corações, para aumentar a seara de Cristo...

Lima ainda é uma cidade nascida para a sabedoria: pouco depois dela surgiu uma das primeiras universidades do continente — San Marcos — ninho de estudiosos, matriz da formação cultural na América do Sul. Não sei se a Universidade de Santo Domingo é mais idosa: sei que San Marcos completou a 12 de maio deste ano o seu 4° centenário. Penetrámos com veneração nas suas salas e anfiteatros, nos seus laboratórios e corredores, e vimos com alegria a fonte onde muitos decanos têm sido justiçados com banhos memoráveis...
Presentemente está sendo construída uma Cidade Universitária, no caminho de Callao. Mas, não é tudo... Ainda um momento para visitarmos os museus, em Madalena Vieja, na companhia do distinguido colega Lopez.

No Museu Antropológico, primeiro as culturas pré-incaicas: Chavi, Paracas etc. Depois o mundo dos inkas reconstituído com amor, paciência e grande conhecimento: cerâmica, tecidos, contabilidade, instrumentos guerreiros, trajes, as figuras dos guerreiros; as múmias desvendadas pelo famoso arqueólogo Dr. Tello, envoltas em vários tecidos simbólicos, conservadas de cócoras, com os seus alimentos; os crânios trepanados, mostrando reconstituição perióstica e portanto uma alta perícia em técnica operatória, e as deformações cranianas estarrecedoras, — trepanações e deformações que obedeciam de certo a um sentido religioso propiciatório; representação em pedra e cerâmica de enfermidades e defeitos físicos, dando notícia de sua capacidade de observação e da extensão de seus conhecimentos.

Tudo isto, guacos e atestados de uma cultura adiantada, datando de milênios, até o início da colonização espanhola, em 1 500. Ao lado do Antropológico está o Museu Bolivariano. San Martin declarou a independência peruana, mas Bolívar consolidou-a: por isto seu culto é maior e sua glória mais admirada.
O Museu está instalado na casa em que residiu o próprio Libertador, e que havia sido construída para retiro do último ou dos dois últimos vice-reis. Em cento e poucos anos estão porém esmaecendo as pegadas de Bolívar: seus autógrafos já estão amarelecendo, seus móveis estão perdendo a resistência, as salas em que dava audiências, comia, dormia, orava e amava a famosa Manoelita, estão desprendendo o pó fatal...

Nas paredes quadros do grande soldado idealista, que deu a liberdade a cinco nações, vencendo batalhas ferozes, para morrer ingloriamente, cheio de apodos, lançados pelo seu próprio povo.

Bolívar ao lado de seus lugares-tenentes, no Museu da Madalena Vieja, já parece mais velho que os incas e seus antepassados. Só nos pareceu viçosa, mesmo, a figueira que suas mãos plantaram no quintal de solar.

Ao lado do Santuário Bolivariano está uma galeria de presidentes da República, alguns até com seis dias de exercício do poder...

No fim da visita, pus-me a meditar: daqui a cem anos, que restará dos museus da nossa idade? Do que fizeram os antigos, muito resistiu ao tempo, e o Dr. Tello pôs sua imaginação e sua ciência a decifrar os achados. E que restará da nossa civilização, regada com o sangue dos vencidos e com o suor dos fracos e dos humildes? Só uma coisa jamais se poderá esquecer da coroa de glórias de Bolívar, como da de San Martin e José Bonifácio: o espírito libertário, que é expressão mesma da santa, da bendita, da inigualável Liberdade!

Foi essa Liberdade que vimos paradoxalmente endeusada no Peru. Desde nossos primeiros contatos com a terra irmã ouvíamos falar com entusiasmo no "câmbio livre", fruto de uma política renovadora do governo Odria, que seguira de corpo e alma as sugestões da Missão Econômica Americana, vinda, a exemplo da famigerada Missão Abbink no Brasil, que tivemos o bom-senso de mandar embora, com um sardônico "muito obrigado", para estudar e orientar a política econômica do país.

Dizia-se: baixou o custo de vida, não há mais câmbio negro, o Peru é um dos poucos países em que há liberdade comercial e bancária... O assunto era sugestivo e passámos a inquirir todo mundo sobre ele: uns estavam entusiasmados, outros faziam restrições, e a nossa curiosidade crescia, à medida que deparávamos com artigos de importação de toda sorte, baratos, é verdade (automóveis de luxo por 70, 80 mil cruzeiros; rádios de mil cruzeiros; tudo muito, bom e por bom preço).

Demos afinal, com a ajuda de um médico experimentado e sagaz, no nó da questão: câmbio livre representa a morte da indústria no Peru, que se tornará progressivamente, mais e mais, em exportador de matérias primas brutas (economia colonial típica); representa o desemprego para o operariado; representa a constante sangria nas finanças nacionais, que nunca produzirão bastante dinheiro com que pagar dólares, mesmo fixado em 15 soles cada um; significa, em última análise, o jogo mais descarado dos poderosos, que ganham nas exportações e nas importações, ganham na compra de divisas com que abarrotam os bancos, e ganham na utilização de artigos de primeira, por preço relativamente baixo, mesmo assim elevado para o poder aquisitivo da massa.
Plaza das Armas, Lima - Peru

Vede, pois, que às flores e aos encantos de Lima se juntam espinhos e pedregulhos, que ferem o espírito e perturbam a caminhada do viajante que quer ver, pelo prazer spinoziano de conhecer...

11 de janeiro de 2016

TERRITÓRIOS FEDERAIS (1)

Conclusão do trabalho do professor de História Júlio Uchoa, sobre os Territórios Federais, então existentes no Brasil. Trata-se de trabalho publicado em O Jornal, de Manaus, edição de 14 de agosto de 1949. Nesta última parte, transcrevo o texto acerca dos territórios de Fernando de Noronha, Guaporé (atual Rondônia) e Rio Branco (hoje Roraima).

3. FERNANDO DE NORONHA

Criado no "interesse da defesa nacional", não possui propriamente uma divisão judiciária-administrativa, como as unidades políticas de idêntica categoria. Convencionou-se, todavia, exclusivamente para fins estatísticos, considerá-lo como município e distrito. 
Fernando de Noronha
O Decreto-lei n° 5.718, de 3 de agosto de 1943, que dispôs sobre a administração do Território Fernando de Noronha, diz que este será construído (sic) pelo respectivo arquipélago e administrado por um governador, brasileiro nato, de livre nomeação e demissão do Presidente da República. O governador, em suas faltas ou impedimentos, será substituído por quem estiver no exercício do comando da guarnição militar do território. A ilha Fernando de Noronha que pertencia a Pernambuco, antes da criação do Território, está situada aos 3° 50' 4" de lat. Sul e 32° 24' 8" de long. W, na distância de 66 milhas ao NE do Cabo de São Roque e 97 a NE de Recife. A princípio considerada como de origem vulcânica; hoje, porém, observações mais precisas negam essa origem. 
As costas da ilha são inacessíveis por todos os lados, não permitindo ancoradouro senão em dois lugares: o primeiro, ao NO em uma enseada abrigada por uma ilhota denominada Rata; o segundo, se é que pode merecer título de ancoradouro, é denominada Praia do Leão. O desembarque é feito ainda como nos tempos dos portugueses. O navio fica ao largo e a carga é desembarcada em balsas que são puxadas para terra.
Servia a ilha de presídio aos condenados à pena de prisão com trabalhos (em 1886 existiam ali 1467 sentenciados). Foi descoberta em 1503 pela segunda expedição exploradora enviada ao Brasil por D. Manoel, recebendo então o nome de São João, e mais tarde, o de Fernão ou Fernando de Noronha, nome que ainda hoje conserva. 
A NE e SE da ilha fica um pequeno grupo de ilhas rochosas, sendo mais notáveis as denominadas Rata, com grande depósito de fosfato, Ovo, Meio, Plataforma, Rosa, Fragata e São José, esta com uma fortaleza. Tem diversas pontas, entre as quais a do Frances e do Abreu; algumas enseadas e baias, como a do Criminoso, dos Gatos, da Conceição, Esponja e Estátua. Nas proximidades da ilha está o arquipélago de São Paulo. 
Considera-se o arquipélago um ponto estratégico de primeira ordem. Os franceses e holandeses já o tinham nessa conta, tanto é assim que se concentravam em Fernando de Noronha para prepararem os desembarques, quando das invasões ao continente. Segundo expressões de um repórter que andou por aquelas passagens, "Fernando de Noronha é um bastião estratégico da costa atlântica da América do Sul". 
População — 1.200 habitantes (estimativa para 1945).
Superfície — 21 Km2 (revisão procedida pelo Conselho Nacional de Geografia).
* * *
 4.    GUAPORÉ 
Teve início a povoação de Porto Velho no agrupamento de casas dos empregados da "Madeira Manioré Railways" que se foi condensando desde 1907, em torno da estação central e oficinas respectivas, sob a fiscalização da diretoria da Estrada de Ferro referida, que efetuou desde logo obras de saneamento, fundando até um hospital modelo. 
Mapa do Estado de Rondônia
A 30 de outubro de 1913, na administração do governador Jonatas de Freitas Pedrosa, a Lei nº 741 criou o termo de Porto Velho, anexo a comarca de Humaitá, fiando o Poder Executivo autorizado a traçar os seus limites. A instalação do novo termo se verificou a 30 de janeiro do ano seguinte.
A lei n° 751, de 2 de outubro de 1914, criou o município de Porto Velho, com sede na povoação do mesmo nome e os limites estabelecidos no Decreto nº 1.062, de 17 de março de 1914, para o termo de idêntica denominação. Essa lei autorizava o Poder Executivo a entrar em acordo com o Governo Federal, a Madeira Mamore Railway Cº e proprietários de terras particulares para a fundação da vila. Instalado, solenemente, a 24 de janeiro de 1915, o município de Porto Velho. 
A Lei n° 833, de 11 de outubro do 1915, determinou que os limites do município de Lábrea com os de Porto Velho seguissem pelo divisor de águas Ituxi-Abunã. A Lei n° 900, de 31 de agosto de 1917, na administração do governador Pedro de Alcantara Bacelar, elevou à categoria de comarca o termo de Porto Velho. 
A Lei n° 1.101, de 7 de setembro de 1919, elevou a vila de Porto Velho à categoria de Cidade. Extinta a comarca de Porto Velho, em virtude da Lei n° 1.126, de 5 de novembro de 1921, é anexado o respectivo termo à comarca de Humaitá. Restabelecida, todavia, a comarca por Lei n° 1.133, de 7 de fevereiro de 1922. 
Território Federal do Guaporé por Decreto-lei nº 5.812, de 13 de setembro de 1943, que lhe marcou os respectivos limites. Em virtude do Decreto-lei n° 5.839, de 21 de setembro de 1943, foi o Território dividido em quatro municípios:  Lábrea, Porto Velho, Alto Madeira e Guajará-Mirim; o primeiro, compreendendo parte dos municípios de Lábrea e de Canutama, do Estado do Amazonas; o segundo, a área do município de Porto Velho, que pertencia ao mesmo Estado; o terceiro, parte do município do Alto Madeira, do Estado de Mato Grosso; o quarto, a área do município de Guajará-Mirim e parte do município de Mato Grosso, que pertencia ao último estado acima referido; a capital de Território foi localizada na cidade de Porto Velho, nos termos do artigo 2°, do Decreto-lei n° 5.839, citado.
Retificados os limites por Decreto-lei n° 6.550, de 31 de maio de 1944, passou o Território a dividir-se em três municípios: Porto Velho, Alto Madeira e Guajará-Mirim, abrangendo, o primeiro, a área do município de igual nome e parte do município de Humaitá, ambos do Estado do Amazonas; o segundo, a área do município do Alto Madeira, do Estado do Mato Grosso; o terceiro, a área do município de igual nome e parte do de Mato Grosso, que pertenciam a este último Estado. 
O Decreto-lei n° 7.470, de 17 de abril de 1945, que fixou a divisão administrativa e judiciária do Território para o período de 1945 a 1948, reduziu a dois os municípios: Guajará-Mirim e Porto Velho, desdobrando-se, o primeiro, em três distritos: Guajará-Mirim, Pedras Negras e Príncipe da Beira e o segundo, em seis: Porto Velho (capital), Abunã (ex-Presidente Marques), Ariquemes, Calama, Jaci Paraná (ex-Generoso Ponce) e Rondônia (ex-Presidente Pena). 
População — 23.900 habitantes (estimativa para 1945).
Superfície --- 254.163 Km2 (revisão procedida pelo Conselho Nacional de Geografia). 
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5. RIO BRANCO 
Primitiva freguesia de Nossa Senhora do Carmo, situada a 32 léguas acima da foz do Rio Branco.
A lei n° 92, de 9 novembro do 1858, na administração do presidente Francisco José Furtado, designando as freguesias da Província do Amazonas, estabeleceu que a sede da freguesia do Carmo seria "acima das cachoeiras do Rio Branco, no lugar denominado Boa Vista. 
Mapa de Roraima
A lei n° 132, de 29 de junho de 1865, que marcou os limites da antiga província, declarando que os limites da freguesia de Moura se estendiam até abaixo das cachoeiras do Rio Branco, determinou que desse ponto seguisse a freguesia do Carmo que teria por limites a cordilheira da fronteira. 
O Decreto n° 49, de 9 de julho de 1890, do governador Augusto Ximeno de Villeroy, erigiu a freguesia de Nossa Senhora do Carmo em Vila, com a denominação de -- Vila da Boa Vista do Rio Branco – estatuindo que o novo município conservaria os mesmos limites da antiga freguesia.A Lei n° 7, de 21 de setembro de 1892, na administração do governador Eduardo Ribeiro elevou o termo do Rio Branco à categoria de Comarca com a mesma denominação e os mesmos limites do Termo, tendo por sede a vila de Boa Vista do Rio Branco. 
Um dos municípios do Amazonas, em virtude da Lei nº 33, de 4 de novembro de 1892, que "Organiza os Municípios do Estado".
O Decreto nº 131, de 3 de setembro de 1896, na administração do governador Fileto Pires Ferreira, determinou que os limites do município de Moura com o município do Rio Branco passassem a ser no lugar Anauá, pertencente este a Moura. 
Cidade de Boa Vista do Rio Branco, por lei nº 1.262, de 27 de agosto de 1926. Com a publicação do quadro territorial do Estado, a vigorar no quinquênio de 1° de janeiro de 1939 a 31 de dezembro de 1943, foram reduzidas as denominações da comarca, termo e município para "Boa Vista" e não mais "Boa Vista do Rio Branco". 
O Decreto-lei n° 5.812, de 13 de setembro de 1943, criou o Território Federal do Rio Branco, marcando-lhe os respectivos limites.
Pelo Decreto-lei n° 5.839, de 21 de setembro do mesmo ano, foi o Território dividido em dois municípios, com as determinações (sic) de Boa Vista e Catrimani, compreendendo o primeiro, a área do município de igual nome que pertencia ao Estado do Amazonas, e a parte do município de Moura, do mesmo Estado, situada à margem direita do rio Anauá, e o segundo, a parte do mesmo município de Moura, situada à margem direita do rio Branco, e a parte do município de Barcelos, também do mesmo Estado, situado a margem esquerda do rio Negro. 
Retificados os limites do território, nos termos do Decreto-lei n° 6.550, de 31 de maio de 1944. Sua capital que havia sido localizada na cidade de Boa Vista pelo Decreto-lei n° 5.839, citado, teve confirmado esse predicamento pelo de nº 6.550. Possui o município de Boa Vista três distritos: Boa Vista (capital), Caracaraí e Murupú e o de Catrimani, o distrito único de Catrimani (ex-Ilha de Catrimani). 
População — 13.100 habitantes (estimativa para 1945).
Superfície -- 214.316 quilómetros quadrados (revisão procedida pelo Conselho Nacional de Geografia).
 Concluída a síntese geo-histórica dos atuais Territórios Federais, cumpro-me acrescentar que o Amazonas, apesar do retalhamento que sofreu pela criação dos territórios do Guaporé e Rio Branco, continua à frente dos Estados da União, quanto à extensão territorial, com 1.595.818 Km2, vindo em segundo e terceiro lugares, respectivamente, os Estados do Pará, com 1.216.126 Km2 e Mato Grosso, com 1.153.690 Km2

10 de janeiro de 2016

BENAYAS PEREIRA (1935-2016)

Este domingo marca a despedida do revisor Benayas Ignacio Pereira, nascido em Itapolis (SP) e sepultado hoje no Parque Manaus.








Benayas Pereira, Luiz Bacellar e Roberto Mendonça na saudosa Livraria Valer

9 de janeiro de 2016

TERRITÓRIOS FEDERAIS

Bons tempos em que os periódicos de Manaus abriam suas páginas, sem controle de toques ou de linhas ou de palavras, para os estudiosos, que desejassem publicar seus escritos. Entre tantos, Júlio Uchoa, professor de História, aproveitou muito bem a oportunidade. Uchoa viu publicados diversos trabalhos, nos quais predominava a temática regional.
Recorte da publicação 

Reproduzo dele (em duas postagens) o escrito divulgado pelo O Jornal, na edição de 14 de agosto de 1949, tratando dos então existentes Territórios Federais, em número de cinco. Os instalados na região amazônica, como é sabido, foram transformados em Estados.
  


TERRITÓRIOS FEDERAIS


Da divisão administrativa do Brasil constam cinco Territórios Federais: Acre, Amapá, Fernando de Noronha, Guaporé e Rio Branco, o primeiro, incorporado ao Brasil em virtude do Tratado de Petrópolis, assinado com a Bolívia a 17 de novembro de 1903; o de Fernando de Noronha criado pelo Decreto-lei n° 4.102, de 9 de janeiro de 1942; os do Amapá, Guaporé e Rio Branco instituídos pelo Decreto-lei n° 5.812, de 13 de setembro de 1943; os Territórios do Iguaçu e Ponta Porã criados, igualmente, pelo Decreto-lei n° 5.812 foram extintos, nos termos do artigo 8° do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição de 18 de setembro de 1946; quanto ao Acre, consigna o artigo 9°, do referido Ato, será elevado à categoria de Estado, com a denominação de Estado do Acre, logo que suas rendas se tornem iguais às do Estado atualmente de menor arrecadação.Os Territórios Federais, como as demais Unidades Políticas da União, com exceção de Fernando de Noronha, obedecem à divisão quinquenal regulamentada pelo Decreto-lei n° 311, de 2 de março de 1938, com as alterações previstas no Decreto-lei n° 5.901, de 21 de outubro de 1943.
 1.  ACRE
 
Do quadro da divisão territorial do Brasil, participa o Território com cinco comarcas, cinco termos, sete municípios, 14 distritos e 74 zonas de paz. O Decreto-lei n° 6.163, de 31 de dezembro de 1943, fixou o quadro administrativo e judiciário do Acre para vigorar, sem alteração, no quinquênio de 1° de janeiro de 1944 a 31 de dezembro de 1948 e o Decreto territorial n° 147, de 7 de março de 1944, estabeleceu a numeração, denominação o localização de cada zona de paz, bem assim as alterações de âmbito territorial motivadas por aquele ato federal.Face à nova divisão, verificaram-se, no Território do Acre, as seguintes alterações toponímicas Brasília (cidade) passou a chamar-se Brasileia; Seabra (cidade) voltou a denominar-se Tarauacá; Castelo (vila) passou a chamar-se Manoel Urbano; Humaitá (vila) voltou a denominar-se Porto Valter.
As cinco comarcas tem por sedes: Cruzeiro do Sul, Rio Branco, Sena Madureira, Tarauacá (ex-Seabra) e Xapuri; os cinco termos coincidem com as comarcas. Os sete municípios e os 14 distritos estão, assim, discriminados: Brasileia (ex-Brasília), Cruzeiro do Sul, Feijó, Rio Branco (capital), Sena Madureira, Tarauacá (ex-Seabra) e Xapuri.Distrito de Brasileia: (ex-Brasília); distritos de Cruzeiro do Sul: Cruzeiro do Sul, Japiim, Porto Valter (ex-Humaitá) e Taumaturgo; distrito de Feijó: Feijó; distritos do Rio Branco: Rio Branco, Plácido de Castro e Porto Acre; -- distritos de Sena Madureira: Sena Madureira e Manoel Urbano (ex-Castelo); distritos de Tarauacá: Tarauacá (ex-Seabra ) e Foz do Jordão; distrito da Xapuri: Xapuri. 
Pelo Tratado de Petrópolis, que pôs termo ao conflito entre brasileiros e bolivianos, foi o Território do Acre anexado ao Brasil, mediante a indenização de dois milhões de libras esterlinas à Bolívia e a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a fim de dar escoamento, pelo Amazonas, aos produtos originários desse país, descidos pelos rios Beni e Mamoré.Sobre a História do Acre, o Serviço de Geografia e Estatística do Território divulgou as Efemérides — 1857/46, valiosa publicação, onde estão assinalados os feitos heroicos dos intrépidos guerrilheiros de Plácido de Castro, os quais, "efetuando uma jornada helénica, reintegraram as terras banhadas pelas bacias do Purus o do Juruá, ao território brasileiro". 
População -- 90.400 habitantes (estimativa para 1945).
Superfície -- 153.110 Km2 (revisão procedida pelo Conselho Nacional de Geografia).


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 2.    AMAPÁ 
De acordo com o artigo 1° do Decreto-lei n° 7.578, de 23 de maio de 1945, a divisão administrativa do Território compreende três comarcas, quatro municípios e onze distritos.
As comarcas têm por sedes as cidades de Amapá, Macapá e Mazagão; os quatro municípios e respectivos distritos são os seguintes: Amapá, Macapá (capital), Mazagão e Oiapoque. Distritos de Amapá: Amapá, Aporema e Calçoene; distritos do Macapá: Macapá, Bailique, Ferreira Gomes (ex-Amapari); distritos de Mazagão: Mazagão, Boca do Jarí e Mazagão Velho; distritos de Oiapoque: Oiapoque e Ponta dos Índios.
 
Grande extensão do atual Território do Amapá, compreendida entre os rios Oiapoque e Araguari, foi, por dois séculos, objeto do litígio entre a França e Portugal, e, posteriormente, o Brasil.Vários entendimentos diplomáticos se efetuaram a fim do resolver a chamada Questão do Amapá. Já sob o regime republicano fatos lamentáveis se registraram naquela fronteira por ocasião da invasão território contestado, a 15 de mato de 1895, por tropas francesas.
Urgia, pois, que se encontrasse uma solução honrosa para os dois países. E foi com esse espírito de concórdia que os governos do Brasil e da França firmaram um tratado de arbitragem para resolver a secular questão, a 10 de abril de 1891, na cidade do Rio de Janeiro. Era ministro plenipotenciário da República da França o doutor Picchon e advogado do Brasil, o diplomata Barão do Rio Branco. Foi escolhido para árbitro o doutor Walter Hauser, presidente da Confederação Suíça.
Graças ao patriótico esforço de Rio Branco que escreveu longa e brilhante "Exposição dos Fatos", em 840 páginas, a sentença do árbitro, proferida a 1° de dezembro de 1900, foi favorável ao Brasil.
 
Assinale-se aqui, o protesto que o Congresso Amazonense aprovou a 9 de março de 1896, pela invasão do Território do Amapá, o qual foi apresentado pelos deputados Melo Resende e A. Jardim e mereceu aprovação unânime.
O litoral do Território do Amapá abrange uma extensão de 342 quilómetros e vai do Cabo Orange ao Cabo Norte, isto é, da foz do rio Oiapoque à do rio Amazonas. E' o único dos territórios continentais que é banhado pelo mar.
 
O Decreto-lei n° 6.550, de 31 de maio de 1944, fixou suas linhas divisórias.A cidade de Macapá que é a capital do Território está situada à margem esquerda do braço norte do rio Amazonas, conhecida por Macapá, junto à foz de uma ribeira. Possui luz elétrica, ótimo hotel, cinema falado, agência do Banco do Brasil, agência postal-telegráfica, e semanalmente é visitada por aviões do Correio Aéreo Nacional e dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. A vila de São José de Macapá foi elevada à categoria de Cidade pela Lei n° 281, de 6 de setembro de 1856. Foi seu fundador o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado.
População — 23.900 habitantes (estimativa para 1945).
Superfície — 131.419 Km2 (revisão procedida pelo Conselho Nacional de Geografia). 


6 de janeiro de 2016

PADRE NONATO PINHEIRO & DOM ALBERTO RAMOS

Em pleno vigor intelectual, e diante da posse do novo condutor do bispado do Amazonas, padre Nonato Pinheiro (1922-94) publicou uma série de artigos em O Jornal, da empresa Archer Pinto, da qual era articulista.
Padre Nonato Pinheiro, 1952
O prelado escolhido era o jovem sacerdote dom Alberto Gaudêncio Ramos, que havia sido sagrado bispo no primeiro dia desse ano, em Belém do Pará, sua terra natal, nascido em 1915.
Desembarcou este em Manaus uma semana depois para ser empossado em 21 de janeiro. Constituiu-se no último bispo desse território eclesiástico, visto que três anos depois o Amazonas foi elevado à categoria de arcebispado e dom Alberto Ramos, seu primeiro arcebispo.
Permaneceu nesse último posto por seis anos, quando foi transferido para o arcebispado do Pará, com sede em Belém. Já arcebispo emérito, ali faleceu em 1991.
Tanto padre Nonato Pinheiro quanto dom Alberto Ramos pertenceram à Academia Amazonense de Letras.


O Juramento do Bispo: Fidelis et obediens (*)


São de praxe os juramentos solenes em momentos culminantes de investidura. Fazem-no quantos entram a assumir sérias responsabilidades na vida social e pública. Há juramentos célebres na História, de um ou outro vulto eminente da cultura e da civilização universais. 
É famoso o de Hipócrates, uma página de ouro em que a ética profissional atinge as altitudes pinaculares de incomparável beleza moral, pondo em relevo uma consciência pura como os cimos nevados. 
Não faz muito, em brilhante tertúlia na Academia Amazonense de Letras, o exigente e seleto auditório ouvia de pé a leitura desse documento notável, levada a efeito por eminente clínico.Também o bispo faz o seu solene juramento, antes de empunhar o báculo pastoral. E suas primeiras palavras são uma afirmação irreprimível de fidelidade e obediência ao apóstolo São Pedro, à Santa Igreja Romana, ao papa reinante e a todos os seus legítimos sucessores: fidelis et obediens vero. 
Promete conservar, defender e favorecer os direitos, honras, privilégios e autoridade da Santa Sé e do Sumo Pontífice e observar com solicitude as normas dos Santos Padres, disposições, decretos, provisões e os mandatos apostólicos. Promete igualmente não vender, nem doar, nem hipotecar, nem de qualquer outro modo alienar os bens da diocese, ainda com o consentimento dos cônegos ou dos consultores diocesanos, sem consultar o Sumo Pontífice.
É um juramento de muita responsabilidade que o novo antístite emite, tocando os Santos Evangelhos. 
Todo o Juramento Episcopal pode resumir-se nas palavras iniciais fidelis et obediens. Nada mais que fidelidade e obediência exige a Igreja do novel bispo, sobre cuja cabeça fez entornar, no dia da sagração, o turbilhão das bênçãos divinas.
Dom Alberto Ramos
Dom Alberto Gaudêncio Ramos ultrapassou as exigências da Igreja. Não só lhe prestará fidelidade e obediência, mas ainda docilidade perfeita, “inerência” harmoniosa e adesão plena aos mandamentos divinos e eclesiásticos. É o que se aufere do seu lema episcopal, que já me foi dado ver: Semper inhaerere mandatis. Quem não vê nesse “inhaerere” mais do que um simples “obedire”? Aí já se revela a fibra moral do pontífice do Amazonas. É um homem de obediência, na mais perfeita e intima “sintonização” com a palavra da Igreja e o pensamento do papa. 
O fidelis et obediens do juramento encontrou terreno fecundo no “inhaerere” do seu lema. Será fiel e obediente, com a alma, a inteligência e o coração, à Santa Sé e a Pedro.Está traçado o programa de Dom Alberto nas legendárias terras de Ajuricaba. Seu apostolado, que se auspicia fulgente e glorioso, será uma “inerência” harmoniosa ao papa e à Igreja. Dessa semente fecunda é que há de nascer frondosa e fértil a árvore do seu episcopado, cujos ramos hão de florir e frutificar na floração exuberante de todos os bens e de todas as mercês, pela vitória da Igreja e pelo triunfo de Cristo!

(*) O Jornal, Manaus, 8 de janeiro de 1949