CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de julho de 2015

NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PMAM (2)

Cartão da Ponte de Ferro, quando de sua inauguração
Capítulo do livro Arquivo Aberto, no qual o autor descreve a situação precária do major Umbelino Albuquerque que, sofrendo de cegueira, residia sob a conhecida Ponte de Ferro, em um aglomerado que o governo do Estado com o Prosamim vem de desarticular.
  
COLÍRIO DA SOLIDARIEDADE

Visitei, há já alguns dias, o meu velho amigo Coronel Luiz Carlos Augusto, brilhante e digno oficial da nossa heroica e disciplinada Polícia Militar do Estado. Hoje ele se encontra reformado, justo prêmio aos seus inúmeros anos de bons serviços prestados à sua corporação e à ordem pública, vivendo em a sua chácara sita à rua Belém, afastado dos embates políticos: vida tranquila e confortável.
Conversamos amistosamente a respeito dos mais variados assuntos e recordamos, com nostalgia, aqueles tempos áureos quando Manaus, à sua opulência, o meu saudoso pai, seu amigo íntimo, sempre o procurava para conseguir junto ao Governo, àquela época, licença às funções dos arraiais populares. No decorrer do nosso cavaquear cordialíssimo lembrei-me perguntar-lhe por um amigo e seu colega de farda a quem, seguramente uns dez anos, não mais havia visto. A resposta foi para mim, das mais decepcionantes: Ele está cego! (...) 
E' triste ficar cego, é angústia o se sofrer com os olhos fechados. Doloroso, Senhor, o se caminhar ao encosto dos outros, tateando, caindo aqui e ali, apalpando com esforço às mãos trêmulas, sem equilíbrio próprio, sem apoio nas nossas naturais capacidades, enfim ignorantes dos traçados à palmilhar. A cegueira é noite escura e permanente, e, os nossos olhos, bússolas avariadas sem possibilidades para nos apontarem diretrizes certas ao destino certo. E soçobraremos em meio da tormenta... Vindita divina cruel ou justa? Quem poderá penetrar na inviolabilidade das coisas secretas ou invisíveis? Ficar cego é castigo ou merecimento? Calemos!... 
Por tudo isso a notícia constrangeu-me amarguradamente e ideias diversas se me tornaram em conflitos interiores, tumultuários. Cheguei, confesso, a sentir enfraquecer a minha concepção sobre a existência dos poderes divinos no entretanto, passada a crise emocional, fortaleci-me novamente à fé. Contudo, mesmo reconfortado do choque, não me conformei com a mudança tão brusca na vida de um homem bom, destemido e sempre cumpridor dos seus deveres disciplinares, embora alguma vez houvesse se revelado rígido e intransigente nas suas decisões quando nos postos de mando, porém, por ser bom cristão fazia-se, quando oportuno, fraterno e solidário para com as desditas dos castigados pela má sorte se, em as suas horas difíceis, o procurassem. E o meu grande amigo está, agora, completamente cego! 
Encontra-se sem a vista o meu velho companheiro de lutas, mas resistente e conformado. Pulsa-lhe o mesmo coração generoso com a mesma normalidade arterial. E' de se louvar, falam testemunhas insuspeitas, a sua fortaleza ou coragem humana por saber encarar o seu infortúnio sem lastimas, sem blasfêmias, sem rebeldias ou distúrbios psíquicos, ou, melhor, sem recalques. Quando lhe perguntam se não sente revolta, responde sorrindo e com aquela mesma valentia nordestina, dizendo: Se estou assim ou se mereci ficar cego, se me fecharam para sempre a vista, sem dúvida o foi por determinação emanada do alto e, se o meu mal é irremediável, resta-me suportá-lo resignadamente até o fim. Os fortes de espírito, sentencia Estevenson, não se confundem nem se atemorizam, continuam seu ritmo próprio, na ventura ou na desgraça. E assim há se conservado, na sua tragédia, o meu amigo impedido de se locomover à liberdade dos seus olhos.
Em 1939 acompanhei-o, a seu convite, até FONTE BOA na qualidade de seu secretário, por haver sido ele nomeado, pelo Governo de então, Delegado Especial a fim de apurar, naquele município, alguns fatos inconvenientes à ordem pública e administrativa. 
Porquanto seu auxiliar de confiança, observei cuidadosamente a sua conduta e norma para solucionar os acontecimentos. Conseguiu com prudência e habilidade admiráveis harmonizar tudo honestamente. Foram inúteis, no entanto, os acenos tentadores agitados pelos lenços sujos às mãos dos implicados e únicos responsáveis pelas anormalidades ali verificadas. Repelira-os, austeramente, por ser íntegro e inatacável. Forças superiores trancaram-lhe os olhos, cegaram-no, mas os homens inescrupulosos jamais conseguiram cegar-lhe a consciência: esta conserva-se, até hoje, normalmente iluminando-lhe a vida interior!
Os fortes, os dignos, os valorosos, os destemidos, os bravos e estoicos, com serviços prestados com sacrifício e honradez às instituições, ao Estado, à sociedade, à família e à Pátria, dolorosa verdade, recebem comumente o desprezo dos seus contemporâneos ou um drama físico irremediável. Vive agora o meu grande amigo na sua modesta casinha à sombra da velha e tradicional PONTE DE FERRO, com uma reforma mesquinha e insuficiente, ridículo e criminoso prêmio aos seus méritos, tendo ao seu lado apenas o conforto dos seus entes queridos, vidas de sua vida, aguardando sereno e corajoso o inevitável epílogo da sua angustiante tragédia.
Não me senti ainda capaz de forças para lhe fazer uma visita ou confortá-lo com o meu abraço de irmão espiritual, no entanto, nestas linhas escritas com a tinta da sinceridade ofereço-lhe, meu dileto e heroico amigo cego, a você Major Umbelino Albuquerque, embora sabendo não ser possível um milagre recuperador, o colírio de minha fraternal solidariedade!

19 de julho de 2015

IGREJAS CATÓLICAS EM MANAUS

NOVA SÉRIE DE IGREJAS E CAPELAS DA CIDADE

Capela do Dom Bosco, hoje desaparecida. No mesmo lugar foi construída nova
com entrada pelo colégio.

Capela de São João Batista, existente no cemitério do
mesmo nome

Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no bairro da
Praça 14 de Janeiro

Cartão Postal da igreja, existente nas proximidades do
Teatro Amazonas 

Matriz de Nossa Senhora da Conceição, quando de sua última reforma,
ano 2002

18 de julho de 2015

POLÍTICA EM EDUCANDOS

Pe. Plácido
Em 1950, num comício no bairro de Educandos, então conhecido por Constantinópolis, ocorreu um desentendimento, semelhante a velha piada do bêbado que atazana o candidato. Nessa noite, a polícia interferiu, dando motivação a notícia fantasiosa que segue, sacada do melhor jornal da cidade.

Para melhor entender, nesse ano a disputa pelo governo do Estado era travada por Álvaro Maia, que afinal venceu, e Severiano Nunes. O tabloide, defensor de Maia, como facilmente se pode notar noticiou um episódio inverossímil.


4 TIROS DE FUZIL CONTRA O PEITO DE UM SACERDOTE (*)
O padre Antonio Plácido vítima dos udenistas

Caso dos mais revoltantes registrou-se à noite de domingo último, no populoso bairro de Constantinopolis, quando ali se realizava um minguado comício da União Democrática Nacional, facção político-partidária que já faliu completamente no seio acertado da opinião popular, pelas atitudes sórdidas e antidemocráticas de seus desenfreados líderes.
Horas tantas da noite daquele dia, o povo daquele laborioso bairro, que acompanha para toda o libertador Alvaro Maia, revoltando-se com os ataques indignos que os udenistas vinham lançando contra a Frente Libertadora, começou a vaiar os oradores da "eterna bandalheira" e a dar vivas estrondosas ao ínclito senador da libertação.
Como costumeiramente acontece, logo foi convocado a Polícia Civil do Estado que, cumprindo ordens absurdas de seus chefes, começou a ameaçar o povo, de baioneta calada, como se o povo ordeiro de Constantinopolis, fosse uma massa de criminosos vis e pestilentos.
Em dado momento, um pobre cidadão, velho já de idade, porém com liberdade de consciência, resolveu dar um viva ao senador Álvaro Maia e bastou isso para que os beleguins da Polícia, assalariado do governo nefando que infelizmente domina o Amazonas e o infelicita às raias do absurdo, desse ordens para que os seus subordinados agissem conte a o referido cidadão, silenciando-o de qualquer maneira.
Naturalmente procurando livrar-se da sanha iniseravel dos algozes da coletividade amazonense, torpes perseguidores e infelizes tripudiadores das liberdades públicas e individuais, o pobre ancião pediu ao socorro à alma boa e caridosa do padre Antonio Plácido, paróco da igreja de Constantinopolis.
Cumprindo um velho mandamento do Divino Mestre, padre Plácido, que nunca negou abrigo aliviador a quem quer que seja, recolheu na casa de Deus o referido cidadão, livrando-o assim da fúria desenfreada dos policiais, principalmente do indigno, nojento, maltrapilho, burro, ofensor da moral alheia, indivíduo que ja bateu em sua própria mãe, portanto, desclassificado, Geraldo Dias. Tudo parecia acalmar-se com a atitude generosa e humana do padre Plácido, quando os beleguins udenistas detonaram por 4 vezes os seus fuzis, sobre o benquisto sacerdote da Igreja de Cristo, num verdadeiro sacrilégio e num virulento ataque à própria Casa de Deus, já que mencionado sacerdote reside ali.
Felizmente nenhuma das balas atingiu o alvo desejado pelos da "eterna bandalheira". Felizmente aconteceu isso e o padre Placido esta para contar a verdade dos fatos, depois que pediu providências às autoridades federais.

(*) O Jornal, 12 de setembro de 1950 

15 de julho de 2015

NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PMAM

Antigo quartel da PMAM, na
Praça da Polícia 

Uma disputa entre o coronel comandante-geral da Polícia Militar e o sargento presidente da Associação dos Sargentos da Força Estadual já se espalha pelas redes sociais. Trata-se de uma luta inglória que apenas desmerece seus protagonistas. Enquanto duas autoridades policiais deblateram, buscando cada qual demonstrar sua “importância”, a comunidade vive assustada com os violentos crimes que diariamente preenchem o noticiário local.

A cidade já viveu momentos mais calmos, contudo, as etapas do progresso trouxeram as adversidades próprias. Quinze anos depois da implantação da Zona Franca, o saudoso jornalista Nelson Braga escrevia, em diário local, um artículo (abaixo transcrito) expondo as adversidades que a Policia Militar já enfrentava. Nada assemelhado ao duelo fratricida que se desenrola na corporação de Cândido Mariano. 

 

A POLÍCIA MILITAR

Nelson Braga (*)


Nota-se que há muita gente querendo fazer média política a custa da Polícia Militar. Qualquer fato que envolva integrantes daquela corporação é tratado e comentado de modo negativo, recusando-se ao policial fardado o rudimentar direito de defesa. Ninguém procura apurar a verdade, ninguém menciona o trabalho meritório da Policia Militar na manutenção da ordem pública. Esquecem, quase todos, que, em qualquer instituição, seja de que natureza for, sempre há bons e maus elementos. Ninguém diz, por exemplo, que em Manaus existe, atualmente muita falta de respeito às leis e à pessoa humana.
Recorte de jornal (*)


Antigamente a gente ia a qualquer lugar, certo de não ser perturbado por bebados, desordeiros e maconheiros. As casas não tinham grades porque quase não haviam assaltos nem arrombamentos. Hoje, os ladrões andam soltos e os homens de bem ficam atrás das grades, colocadas em portas e janelas por medida de segurança. Os maus elementos chegam aos balneários com uma garrafa de cachaça debaixo do braço e, daí a pouco, começam a perturbar o sossego público, empurrando os mais fracos, passando a mão em moças que não conhecem e que, por temor a represálias, ficam caladas, enquanto outros enfiam a raquete de frescohol na cara dos banhistas ou a represálias, dos banhistas ou soltam palavras de baixo calão à torto e direito, sem respeitar quem está por perto.
E, quando a Policia Militar chega para coibir abusos e prender maus elementos sempre aparece gente para lhes dar cobertura e exigir respeito aos direitos individuais, esquecendo-se que, quem tem direitos tem deveres e, entre estes estão, em primeiro lugar, o respeito às leis, às normas de civilidade e, principalmente, aos direitos dos outros. Hoje em dia, poucos são os que respeitam os velhos, as mulheres e as crianças.

Os "filhinhos de papai" e os protegidos políticos fazem gato e sapato na cidade e nos lugares públicos sem que ninguém lhes ponha a mão. São uma classe de privilegiados acima das leis e da ação preventiva da Polícia Militar, protegidos por políticos e gente de dinheiro, enquanto o policial fardado é criticado e levado ao tribunal da opinião pública por qualquer coisa muitas vezes, injustamente. É preciso por um basta a essa maneira preconceituosa de tratar a Policia Militar, assim como é preciso terminar com a proteção indevida aos marginais de casaca.

A Policia Militar cumpre o seu dever constitucional de manter a ordem pública e cabe ao povo prestigiá-la para que se torne cada vez melhor e mais eficiente. É preciso que certos políticos deixem de proteger desordeiros e não esqueçam que oficiais e praças da Polícia Militar também votam. Vamos todos contribuir para que Manaus volte a ser o que era: uma cidade feliz e pacata, onde todos podiam andar e dormir tranquilos.

(*) A Crítica, 16 de julho de 1983

12 de julho de 2015

PERSONAGENS DA HISTÓRIA DO AMAZONAS

AMAZONENSES & ARRIVISTAS 

Major Fernandes, da PMAM / João Leda, da Academia de Letras, e
Paes Barreto, então jornalista
 

Arthur Araújo, tenente EB / Nelson Porto, filatelista / Luiz Bacellar, poeta











8 de julho de 2015

HISTÓRIA DA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS (1)

Concluía meu tempo de serviço nesta corporação em 1996, quando assumi a direção do Serviço de Saúde. Havia a obrigação de dirigir um hospital e uma clínica odontológica. E um desejo geral dos servidores policiais em aprimorar este serviço e fazê-lo prosperar. Anseio que o tempo demonstrou não ter sido alcançado.
No afã de melhorar o atendimento no Hospital da Polícia Militar, situado na rua Cândido Mariano, providenciei a remodelação do edifício. Com a pintura de sua fachada, fiz afixar o nome do hospital.
Na ocasião do inauguração dos melhoramentos, a imprensa fez a divulgação do feito. O texto e a foto que reproduzo catei no Diário do Amazonas (31.julho.1996).



A Polícia Militar do Amazonas inaugura na próxima semana um hospital, na rua Cândido Mariano, s/n, Centro. O hospital passou por uma completa restauração. Foram adquiridos novos e modernos equipamentos para exames de prevenção cardiológica. Inaugurado em 1984, o hospital tem enfermaria com vinte leitos, uma ala para pediatria e dois apartamentos, além do laboratório, salas para consultas e
administração

Atualmente quinze médicos militares, sob a direção do ortopedista Rogério Passini, atendem nas áreas de clínica geral, pediatria, ginecologia e neurocirurgia. Seus pacientes são, basicamente, policiais militares e dependentes, embora receba verbas do SUS (Sistema Único de Saúde) e possa atender pacientes, sem vínculo com a Polícia Militar, para pronto-atendimento e internações.

Recentemente empossado como diretor do Centro de Saúde, o coronel Roberto Mendonça explica que "as instalações foram melhoradas com a recente restauração do prédio. O setor de raios X foi recuperado e foi instalada uma farmácia que repassa medicamentos a preço de custo. Numa próxima etapa será restaurado o laboratório, que realiza exames básicos (fezes, urina e sangue) e novos equipamentos serão comprados".


6 de julho de 2015

EDIFICAÇÕES EM MANAUS

Diversas edificações existentes (ou já demolidas) em Manaus, umas mais conhecidas que outras

Cervejaria Miranda Corrêa (hoje Kaiser), em Aparecida

Ligada a igreja dos Remédios, tendo servido com Faculdade de Odontologia

Hoje Palacete Provincial, ontem Quartel da Praça da Polícia

Fábrica Bijou, padaria elegante inaugurada em 1940. Hoje, abriga loja TV Lar 

Residência centenária na rua Lauro Cavalcante

Residência (já demolida) na rua Amazonas, Morro da Liberdade

Já demolido, existiu na rua Major Gabriel próximo à rua Ramos Ferreira

Inaugurada com o nome de Balbina Mestrinho, teve esse nome mudado no Governo Militar.

4 de julho de 2015

HISTÓRIA DA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

Antigo brasão da corporação, circulado
nas festas de 1991 

 A transcrição do relatório abaixo ilumina mais uma etapa da história amazonense. Lance já esquecido, pela trivialidade de sua origem e, pior ainda, pela maneira como se disseminou. Nele, contudo, se pode observar a participação contundente da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) em um episódio que fermentou a vida político-militar, na primeira década do século passado.

O motivo para tanta movimentação deveu-se a suposta prisão de dois magistrados amazonenses por um oficial do Exército do Peru, servindo na fronteira estabelecida pelo rio Solimões.

Uma busca em periódico da época, permitiu-me recolher as legítimas razões do episódio. Um episódio bem burlesco, que postarei em breve. 

Regimento Militar do Estado,

Manaus, 28 de dezembro de 1907

Ao senhor coronel

Antonio Emídio Pinheiro,

digníssimo comandante-geral do Regimento.

 

RELATÓRIO (*)

Em cumprimento a obrigação regulamentar venho com subida satisfação apresentar a vossa senhoria o relatório dos fatos ocorridos no alto desempenho de cargo com que fui distinguido e honrado, de comandante das forças do Estado em expedição à Tabatinga. Um traço de desacato e sangue à dignidade e bandeira motivou a expedição deste Regimento que, como todos supunham, iria logo enfrentar e castigar o estrangeiro ousado que tentara invadir o território deste Estado. A não ser, entretanto, a prisão de dois magistrados brasileiros que tanto exaltou o espírito público, porém medida estritamente policial e jurídica, perfeitamente compatível ao direito daquele País aonde se achavam na ocasião as referidas autoridades brasileiras, nada ocorreu nas fronteiras que justificasse qualquer desacato aos nossos brios de nação soberana e independente.
O Forte de Tabatinga (se é que à essa velharia descampada pode-se dar o nome de forte) lá está, como sempre, incólume e ocupado pelas forças do nosso exército, assinalando a sua existência apenas o pavilhão auriverde que no local tremula desfraldado ao vento para asseverar o domínio da República Brasileira naquelas regiões inóspitas e desabitadas. A suposta invasão de Tabatinga foi filha de um cérebro doentio atacado no momento de delírio febril. É esta a opinião mais corrente. 
Feitas estas considerações gerais que a suposta invasão territorial motivou, restringir-me-ei a narrar perfunctoriamente os fatos ocorridos com a força sob meu comando, desde a partida desta cidade até a nossa feliz chegada: De ordem do excelentíssimo senhor doutor Antonio Constantino Nery, então governador de Estado, a mim transmitida por vossa senhoria no dia dez de novembro deste ano, foi-me, por bondade vossa, confiado o comando de uma força de 100 praças, dois capitães e quatro alferes e um médico; desvanecendo-me sobremodo a vossa gentileza, agradeço-vos a minha escolha.
A presteza com que foi cumprida a ordem do excelentíssimo senhor doutor governador exultou de modo a nossa corporação a testemunha tão palpável da sua boa organização que não pude resistir a justa vaidade de consagrá-la neste relatório. 
Foi o dia treze de novembro uma verdadeira balburdia festiva no quartel do Regimento um torvelinho afanoso; oficiais e praças iam e vinham de um para outro lado do edifício fazendo os últimos preparativos para o embarque que na tarde daquele mesmo dia ir ter lugar. 
As quatro horas da tarde do dia treze de novembro, sob as vistas do excelentíssimo senhor doutor governador do Estado e de vossa senhoria, assim como das demais autoridades superiores do Regimento, embarcou o contingente em boas condições e ordem, pois assim permitiu a disciplina e ordem que tendes sabido implantar. Durante a viagem até Esperança [Benjamin Constant], lugar que, como sabe vossa senhoria, devia acantonar a força do Estado, tudo correria plenamente bem se no dia dezoito de novembro o estado de saúde do distinto médico doutor Zeferino Rodrigues, não se alterasse a ponto de nos causar sérios receios. Felizmente ao chegarmos no lugar aonde devíamos acantonar, para felicidade do contingente, o digno facultativo experimentou sensíveis melhoras, podendo em alguns dias restabelecer-se. 
O desembarque em Esperança foi feito na melhor ordem, porém ficaríamos sem abrigo se a generosidade do escrivão da mesa de rendas federal, senhor João Vieira de Freitas, não o obrigasse a ceder-nos o seu aposento particular até que pudéssemos construir barracas senão bastante confortáveis, mas que pudessem abrigar o pessoal do contingente. Para esse fim incumbi o senhor alferes Sérgio Rodrigues Pessoa Filho, do que deu satisfatório cumprimento. Vencidas essas primeiras dificuldades, tivemos mais tarde que nos haver com outras; assim é que do dia primeiro de dezembro em diante começaram a adoecer praças, chegando a estar no hospital vinte quatro doentes o que trouxe grandes apreensões ao médico do contingente e a mim, pois na ambulância não havia certos medicamentos necessários e eficazes para debelar o mal, e demais não havia no rancho que levamos alimentação leve prescrita, muita vez, atendendo ao estado grave do doente, pelo doutor Zeferino. Faltas essas que me obrigaram a, por mais de uma vez, despender do dinheiro que levei para suprir outras necessidades, a fim de com ele comprar esta ou aquela alimentação que exigia o estado grave do doente.
A disciplina e ordem ter-se-ia conservado incólume se na noite de seis para sete de dezembro eu não tivesse que lamentar o triste fato que já vos comuniquei, em ofício de nove do mesmo mês; apesar disso, ela foi logo restabelecida com a prisão do soldado perturbador da ordem. No dia quinze de dezembro chegou às minhas mãos o ofício no qual vossa senhoria determinava o regresso do contingente sob o meu com mando à esta capital; em obediência ao determinado no ofício, procurei cumprir o mais breve possível.
Assim, pois, como o comandante portador do ofício não levasse instruções certas, ser neste ou naquele navio o embarque do pessoal, resolvi reconhecendo a urgente necessidade de oficiais e praças para o serviço desta capital, embarcar no primeiro vapor que por ali passasse. Aproveitei por isso, a chegada do vapor “Virginia”, que por singular coincidência fora o mesmo que nos conduzira a Esperança, e ser este o primeiro vapor que por ali passava para, de acordo com o Sr. tenente-coronel José Lauriano da Costa, fazer o embarque do pessoal do contingente requisitar as respectivas passagens as quais foram requisitadas por conta do Ministério da Guerra.
Embarcadas as forças sem que houvesse caso algum anormal, chegamos a esta cidade no dia vinte e três de dezembro, fazendo-se o desembarque no dia vinte e quatro às sete horas da manhã, sob as vistas de vossa senhoria e demais autoridades superiores do Regimento. 
Antes de terminar o presente relatório devo testemunhar a minha gratidão e não poupar elogios ao comandante e mais oficiais vapor “Virginia” pelo desvelo com que cuidaram não só dos oficiais como das praças do contingente. 
Como havia vossa senhoria determinado a ida do senhor capitão Serafim Leopoldino de Carvalho para Benjamim Constant, em ofício número seiscentos e setenta e cinco, de treze de novembro, para lá seguiu esse senhor oficial com um destacamento de dez praças e 500 cartuchos, conforme já vos comuniquei em ofício de vinte e cinco do referido mês de novembro. Tendo eu que regressar a esta cidade com o contingente e como sobrassem ainda bastantes gêneros e fosse penoso o seu desembarque, resolvi lá vender uma parte, apurando na venda novecentos e oitenta e três mil e quinhentos réis, assim como também deixei em mão do senhor João Vieira de Freitas, escrivão da Mesa de Rendas Federais, trinta e quatro alqueires de farinha e trouxe o restante dos gêneros para esta capital, cuja relação acompanha este relatório. 
Por conta do segundo-sargento Tristão Cavalcante Melo, soldado José Justino da Silva, do segundo batalhão, e Severino Pereira da Paixão e Joaquim Eleutério de Sant'Ana, requisitei quatro passagens para as suas mulheres, cujo pagamento peço-vos ordeneis ao Sr. A. Pacheco comandante do vapor “Virginia”. 
E' um dever que cumpro em nas raias do presente relatório manifestar a minha satisfação, pelo modo digno e correto com que se mostrou o Dr. Zeferino Rodrigues. No lamentável fato de seis para sete de dezembro, infelizmente foram feridas três praças, sendo ao soldado do segundo batalhão Manoel Francisco do Nascimento necessária a intervenção cirúrgica. Apesar de estar ainda em convalescença prontificou-se a fazê-la o capitão doutor Zeferino Rodrigues, que fez com grande proficiência e zelo, enchendo o operado de tais confortos que já se acha quase restabelecido. Uma úlcera de caráter sifilítico manifestou-se no antebraço do soldado do 1º Batalhão Arthur José dos Santos, agravando-se de dia para dia, procurando o doente sempre escondê-la do médico. Essa incúria deu lugar a que se tornasse imprescindível por parte do médico intervir com a sua alta perícia cirúrgica, para conseguir debelar o mal visto já estar interessado osso, havendo nele um princípio de cárie que forçava a curetagem; a operação foi feita com tal perícia que o mal foi logo debelado. 
Apesar de terem ido ao hospital 24 homens, não tive que lastimar um só óbito graças a abnegação do ilustre médico. 
Devo também não poupar elogios aos meus companheiros de jornada por serem dignos deles; sinto-me orgulhoso de ter visto em todo eles uns moços cujo o caráter e zelo põe-nos à altura daqueles que se recomendam pela correção de suas ações. Cumpre-me em dentre eles enaltecer o brilho e zelo com que se houve o senhor capitão Antonio José Guimarães, como meu auxiliar imediato; sempre zeloso auxiliou-me para que a ordem fosse bem observada e, aos senhores alferes Sergio Rodrigues Pessoa Filho, Henrique Marques Pereira, Antonio Pereira da Costa e Manoel Bastos da Gama, oficiais zelosos e retos no cumprimento de seus deveres e todos em geral moços que com dignidade envergam a farda de oficiais do Regimento Militar do Estado. 
Entre as minhas muitas satisfações ainda tenho que salientar a não deserção de uma só praça; ao contrário, apresentou-se o soldado desertado que já vos cientifiquei em ofício de dezessete de novembro, sendo na ocasião preso. Devo dizer-vos que esse soldado prestou os mais inolvidáveis serviços a todo o contingente. 
Em suma, durante a minha estadia em Esperança, digo-vos satisfeito, que nunca veio uma só pessoa à minha presença queixar-se de um leve desrespeito por parte dos oficiais ou praças, fato este que ainda mais eleva o Regimento e mostra o empenho com que tendes sabido consagrar o tradicional nome do Regimento que criteriosamente dirigis. Junto remeto-vos as relações de alterações dos senhores oficiais e praças e mais papéis concernentes ao contingente. 
Saúdo-vos.

          Adolfo Cavalcante, tenente-coronel graduado.       


(*)  Extraído do Diário Oficial do Amazonas, 11  de janeiro de 1908

2 de julho de 2015

CORONEL SERGIO PESSOA

Carvalho Leal
A rua Coronel Sérgio Pessoa, de apenas um quarteirão situada na lateral esquerda da igreja dos Remédios,  no Centro Histórico, poucos conhecem. O homenageado foi reverenciado em artigo jornalistico (abaixo reproduzido), no qual teve ligeiramente delineada sua atuação em Manaus, pelo ex-vice-governador do Estado, Deoclides de Carvalho Leal (1971-75). (*) 

Aproveito para incluir uma palavra: na revolução de dezembro de 1892, participaram alguns sargentos da Força Policial do Estado, a Polícia Militar de nossos dias.







Ainda bem que o não esqueceram de todo. Pequena rua, ao lado da igreja dos Remédios, ostenta-lhe, orgulhosa e merecidamente o nome. Raros, todavia, nos dias tumultuários de hoje lhe recor­dam as grandes realizações decorrentes da longa e profícua atividade política. Os mortos vão depressa e o tempo é pouco para adorar os vivos — disse alguém. Sér­gio Rodrigues Pessoa, filho do Doutor Joaquim Rodrigues da Motta, culto e aus­tero magistrado paraibano e de Dona Maria Florencia Pessoa, hábil e excelente prática de farmácia, teve o sobrenome registrado, segundo os usos e costumes da velha Es­panha.

Nasceu no Ceará, em Sobral, a 9 de setembro de 1859, e, desprezando títulos universitários, confiante apenas no tino comercial que lhe era inato, parte, nas ardentias da mocidade, com milhares de outros conterrâneos, para a grande aven­tura. Manaus o deslumbra. Após três anos de balcão, estabelece-se, por conta própria, e vê prosperar rapidamente a firma fundada, com audácia e força de vontade, onde amealha regular fortuna. Mas, a borregã lasciva, — de que fala um dos grandes do Império —, o espreita, de lon­ge, e lhe estende os braços feiticeiros a que não soube resistir.

Ei-lo, agora, envol­vido na política de que nunca mais se libertará. Filia-se ao Partido Liberal, com a lealdade e o desassombro, que o acom­panharam a vida inteira. Com a queda da Monarquia, acolhe-o o Partido Nacional, quando se liga, para sempre ao gover­nador Thaumaturgo de Azevedo, o que teve a seu lado nas horas tempestuosas da vida daquele militar.

Sob a égide do amigo fiel, ingressa na politica partidária e já inicia a longa caminhada que duraria meio século.

Ocupa cargos de alta relevância como deputado à Junta Comercial de que foi Presidente, diretor e presidente do Banco do Amazonas, provedor da Santa Casa, deixando em todos a marca de exemplar probidade. Exibia, com ufania, a patente de coronel da Guarda Nacional.

Ardendo de amor pela cidade que o acolhera na juventude, onde contraíra uma cadeira de intendente municipal, hoje vereador, matrimônio e lhe nasceram os filhos e, para melhor servir ao povo, pleiteara uma cadeira de intendente municipal, hoje vereador, e durante 27 anos consecutivos, ninguém o excede em espírito público na paixão das causas populares. Era de vê-lo, exposto ao sol e à chuva, percorrendo bairros distantes, sempre a pé, no penoso mister de examinar e fiscalizar, com rigor e severidade, as obras públicas. Não se conheciam ainda as mordomias, privilégio apenas de marajás, maranis e emires. Sabe-se que Deodoro, no governo, tomou emprestada a quantia de um conto de réis para socorrer um irmão adoentado, tam­bém general, e Campos Sales, quando deixou a Presidência da República, tinha a casa hipotecada. Cala-te, boca indis­creta!...

Poucos sabem, porém, dos extraordi­nários serviços de Sérgio Pessoa, porque o trabalho do legislador, geralmente in­grato, a poeira dos arquivos e das bi­bliotecas o consome. Já o Executivo, para eternizar-lhe as obras, algumas inaca­badas, dispõe de recursos para o bronze, os mil metais das placas, estátuas, estatuetas, hermas e até do Carrara e do Paros...

O velho edil temperamental jamais fugiu à luta, lembro-me de algumas polemica acirradas que travou. Quando os jornais, temendo represálias, não lhe publicava os discursos ou artigos, imprimia-os em folhetos e boletins e distribuía-os, pes­soalmente, desafiando os poderosos em impressionante coragem física, fazendo recuar qualquer janízaro assalariado para humilhá-lo. De uma feita, aluno do gi­násio, ganhei das mãos do preliador, com um abraço, um desses terríveis libelos. Humilde com os humildes, tinha assomos de indignação, explodia em cólera sa­grada, quando a injustiça lhe feria a sen­sibilidade.

A amizade fraternal que o ligava e meu pai, o Doutor Domingos Teofilo de Carvalho Leal, antigo presidente da Junta Governativa do Amazonas em 1889, fê-lo participar ativamente da frustrada revolução de 30 de janeiro de 1892, com alguns oficiais e sar­gentos do Exército e políticos do porte de Jonathas Pedrosa, Ferreira Pena e outros, movimento esse que tinha por objetivo depor Eduardo Ribeiro e aclamar gover­nador o Doutor Carvalho Leal. Preso e exilado, mas a alma, em rebeldia per­manente, voltou Sérgio Pessoa a cons­pirar em outras oportunidades. A Revo­lução de 30 alcançou-o no fastígio do Poder. Rolou para o ostracismo com os amigos e com o Partido de que foi um dos sustentáculos

Na noite fatídica de 24 de outubro desse ano, alguns inimigos arran­caram e pisotearam as placas da rua que o homenageou durante vários anos. Não durou muito o gesto covarde da malta en­furecida. Redemocratizado o país, a primogênita de Carvalho Leal, senhora Mendes Filho, após ingentes esforços e, com a ajuda do pranteado vereador Ro­dofo Vale, fez voltar o nome do in­trépido pelejador à rua ultrajada e recolocadas as placas no mesmo local, resgata uma dívida de gratidão, meio século depois do sacrifício e da solidariedade de Sérgio Pessoa à revolução que falhou em 1892.
Sérgio Pessoa foi modelo de homem público, espelho de virtude cívicas, exem­plo de lealdade política. Revive e sobrevive na numerosa e ilustre descendência, que tem sabido honrar o nome do patriarca —símbolo de probidade — que atravessou, durante 50 anos, sem medo e sem man­cha, o mar revolto da política amazonen­se. Não se lhe encarvoaram as mãos no meneio dos dinheiros públicos. Já era rico, quando entrou para a política e dela saiu com o mesmo patrimônio.

Faleceu, em Manaus, a 18 de março de 1940.

Servo de um povo e guardião de uma cidade — estas as palavras que cabem, à justa, na lousa tumular do egrégio cearense que amou enternecidamente Manaus.

(*) A Crítica, 19 de maio de 1980