CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

31 de maio de 2015

IGREJA MATRIZ DE MANAUS

A Matriz de Nossa Senhora da Conceição levou quase duas décadas para ser construída. Foi sagrada e aberta aos católicos em 1877. Abaixo, três momentos dessa trajetória.



30 de maio de 2015

CENTENÁRIO DO IGHA (2)

Na passagem do cinquentenário, o saudoso cronista Anísio Jobim descreveu em sua coluna Velhos Tempos (O Jornal, 23.abr.1967), a festividade com que este sodalício festejou essa data. Às vésperas do centenário, reproduzo este material, parte do trabalho de pesquisa que empreendo e pretendo divulgar em breve.

Recorte de O Jornal, publicado em 1966


VELHOS TEMPOS

André Jobim


Realizou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas a sua primeira festa em comemoração aos seus 50 anos de existência, na noite do dia 17 de março de 1967. Aberta a sessão pelo Presidente, desembargador João Pereira Machado Junior, teve ao seu lado o Dr. Mário Jorge do Couto Lopes, digno representante do Governador do Estado, Sr. Danilo Duarte de Matos Areosa.

Iniciada a sessão, disse o desembargador presidente dos propósitos daquelas festividades, congratulando-se com os presentes em prestigiar a uma entidade cultural, cuja história constitui um marco de glórias para a intelectualidade amazonense. A seguir, usou da palavra o professor João Bosco Evangelista, dizendo o jovem orador da União Brasileira de Escritores do Amazonas dos objetivos de seus companheiros no congraçamento intelectual da juventude amazonense, irmanados com os ideias de bem servir ao soerguimento da cultura desta terra, no qual estava com a sua tradição gloriosa o Instituto.

A seguir, o Presidente deu a palavra ao conferencista da noite, desembargador André Vidal de Araújo, que abordou com raro brilho e cultura o tema A Antropologia Filosófica, de Pierre Teilhard de Cardin, empolgando por vezes o auditório seleto, pela beleza da sua eloquência e erudição.

Finalizando a noite de gala vivida, depois de um interregno, longínquo, o orador oficial, padre Raimundo Nonato Pinheiro, com a sua palavra fácil, teceu ligeiramente comentários sobre a vida do Instituto: referindo-se aos oradores que o precederam especialmente ao conferencista, desembargador André Vidal de Araújo, ao Dr. Mário Jorge do Couto Lopes, ao representante do comando da Força Federal no Amazonas, ao Dr. Gilvandro Raposo da Câmara, ao Sr. Venâncio Igrejas Lopes e a todos que se fizeram presentes a uma festa tão bonita, classificando a festa de ouro do seu cinquentenário, como também a conferencia e o  conferencista, homem de dotes aprimorados de inteligência e cultura.

Por fim, usou da palavra o representante do Sr. Governador do Estado, agradecendo as deferências recebidas, registrando seu entusiasmo pelo alevantamento daquele sodalício, finda a qual, o desembargador presidente encerrou a sessão, demorando-se ainda os presentes na visitação das dependências do IGHA, tendo para nós outros palavras de carinho, respeito e admiração a imponência das festividades e da “Casa da Memória Amazonense”.
Para nós, que ainda vivemos sofrendo as consequências da aridez intelectual do passado, fruto de uma época não muito remota, em que a preocupação do alto custo de vida, a política e a deficiência dos costumes educativos, deixaram-nos uma marca indelével no povo desta terra e que, a muito custo, começa a reviver e a se integrar aos estudos da beleza, da ciência, das letras e da história. Mesmo assim a imponência com que se abriram as festividades do cinquentenário do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, para mais uma vez glorificá-lo na vida desse grande povo.

Não foram em vão as noites de vigílias, as intranquilidades e os receios de que fosse o nosso trabalho julgado à altura do que realizamos para bem servir a este Estado.

Todo iluminado, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas reviveu, como nunca (ilegível) os velhos tempos... Vimos passar na mente os vultos que ali pontificaram e cantaram hinos de glórias e de aleluias, para que nós, o povo que tudo vê, anota e observa, pudéssemos reverenciar as memórias daqueles abnegados estudiosos... Sentimos também as  ausências dos mestres hoje vivos e rendêssemos como é devido, as nossas homenagens nas venerandas figuras de Agnello Bittencourt e Manoel Anísio Jobim, que  o tempo os impossibilitou de estarem presentes e repartindo com nós outros, as alegrias e as homenagens deste glorioso cinquentenário da “Casa da Memória Amazonense”...


27 de maio de 2015

DOM JOÃO DE SOUZA LIMA (3)

Peça decorativa em madeira
Com esta postagem, encerro a reprodução do discurso de boas-vindas ao arcebispo do Amazonas, dom João de Souza Lima, proferido por ocasião de sua posse como sócio efetivo no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.
O autor, o saudoso padre Raimundo Nonato Pinheiro, orador daquele sodalício, o fez publicar em O Jornal, de 26 outubro de 1969.
Esclareço, por oportuno, que ocupo a vaga deixada por este metropolita, com seu falecimento, desde novembro de 1994.


A MISSÃO DOS INSTITUTOS HISTÓRICOS  


Grande e benemérita tem sido no país a missão dos Institutos Históricos e Geográficos, como alavancas, da cultura nacional, tranquilas mansões de apaixonados estudiosos, para servir-me de significativa expressão do barão de Ramiz Galvão, recebendo no Instituto Histórico  Brasileiro o notável espírito do Cardeal Cerejeira, proeminente Patriarca de Lisboa, prelado em que se deviam mirar, como em espelho de cristal, os prelados de todos os quadrantes, o qual, sem embargo de sua proceta, mas luminosa senectude, ainda traz o espírito primaveril iluminado aos clarões de arrebóis purpurinos. 

Disseminados pelo país e contando com parcos recursos em assunto de ajuda financeira, realizam obras de estudos, pesquisas e promoção cultural, divulgando documentos e salvando para a posteridades o legado de inteligência e cultura que nos transmitiram a paciência e o zelo patriótico dos nossos antepassados.

Com júbilo espiritual hoje vos recebemos nesta hora de encantamentos, estrelada de todas as resplandecências, a que não faltou o principado do mundo oficial nem o cardinalato das mentalidades mais lúcidas e pujantes de minha terra, para vos colocarmos com a pompa do estilo e a magnificência das horas triunfais, na cadeira austera do historiador beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus, cujo elogio tão elegantemente compusestes; nome que sem dúvida vos acordou ao espírito a veneranda cocatedral da Madre de Deus, da capital pernambucana, que prolonga no Recife as gloriosas tradições da velha Catedral de Olinda, mãe e madrinha de tantas igrejas do Nordeste, como já proclamou o eminente sociólogo e nosso sócio correspondente Gilberto Freyre, vosso preexcelso conterrâneo, que acaba de irradiar clarões nessa mesma tribuna em que vindes de proferir vosso admirável discurso de posse.


O SÓLIO DA NOITE  


Nesta festa sumamente suntuosa, de comemorações históricas e de vossa solene recepção, sois a figura central, objeto do nosso respeitoso culto e fervorosa admiração. Como nos conclaves dos cardeais, reunidos para a eleição do Papa, caem os dosséis de todos os baldaquinos, aurifulgindo apenas o vosso, o eleito dos príncipes desta Casa, num conclave memorável, em que se prestou justiça ao mérito e ao talento de um prelado ilustre, cuja modéstia, num mundo de repelentes cabotinismos, ainda é um esmalte precioso, e até diria, a verdadeira pedra de toque das grandes inteligências e altivolantes espíritos! Ante o esplendor desta noite memorável, que rivaliza com o dia pelo fulgor de tanta claridade, pela eventual circunstância de ser o orador oficial da Casa, coube-me a grata e honrosa tarefa de dar-vos as boas-vindas em nome de tão ilustres confrades, que se honram em serem presididos por um embaixador da Justiça, que encaneceu no exercício dignificante da magistratura.

E vendo-vos os dois -- um, embaixador da Justiça; outro, embaixador da Paz, só me cabe proferir jubiloso as palavras jucundas que o salmista pronunciou ao som harmonioso das citaras: "Justitia et pax osculata sunt"! A Justiça e a Paz se oscularam, para a grandeza desta Casa, que toda se ilumina com o vosso ingresso, como o raiar das pompas matinais do meu Amazonas, que é vosso pelo coração e pelos labores apostólicos, pompas matinais que explodem em claridade e se desatam em policromias deslumbrantes, num luxo oriental de galas e esplendores, de gorjeios e aleluias, de flores e arômatas; noite fúlgida e gloriosa, que me obriga mais uma vez a fazer reboar nas arcadas dos lábios a expressão elegante do profeta e rei Davi: "Et r.. no sicut dies illuminabitur!" (E a noite será clara como o dia!)

No esplendor dessa claridade triunfante, eu vos saúdo, senhor Dom João de Sousa Lima, ufano com meus confrades de arregaçar as infulas de vossa mitra neste como pontifical solene, que nada fica a dever, em grandeza e brilho aos pontificais de vossa Catedral Metropolitana, nos dias supremos de Ressurreição e Pentecostes, em que reafirmais, ao bimbalhar dos sinos, a perenidade do Cristo, Centro, Rei, Centro e Divisor da História, a quem Paulo, o Apostolo, se aprazia em chamar o homem-eterno, porque Deus humanado, o Cristo que é sempre o mesmo -- "heri, hodie, ipse et in saecula!" -- o Cristo de ontem, de hoje que há de ser o mesmo de amanhã no cortejo e na perpetuidade de todos os séculos!

24 de maio de 2015

DESFILE DE SETE DE SETEMBRO


Em 1963, ainda na avenida Eduardo Ribeiro, com o palanque instalado no cruzamento da rua José Clemente, ao lado do Tribunal de Justiça, ocorreu o desfile de Sete de Setembro. Era governador do Estado, Plínio Ramos Coelho, que presidiu seu último Dia da Pátria, pois foi cassado no ano seguinte.
Curioso é o aproveitamento do asfalto para a propaganda política. Pode se ler o anúncio do deputado Paulo Nery, bem em frente ao palanque.

A primeira foto mostra a Banda de Música, enquanto, na segunda, vê-se o comando da tropa da Polícia Militar do Amazonas.






21 de maio de 2015

DOM JOÃO DE SOUZA LIMA (2)

Padre Nonato Pinheiro
Na sequência, a segunda parte do discurso do finado Padre Nonato Pinheiro, orador do IGHA, a 
oração de boas-vindas ao saudoso bispo do Amazonas, Dom João de Souza Lima, na ocasião em que ocupou a Cadeira 24, em outubro de 1969.



NOS DOMÍNIOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO

O Concilio Ecumênico Vaticano II, iniciado sob o pontificado luminoso do Papa João XXIII, e concluído sob o pontificado amargurado de Paulo VI, se abriu realmente que e o Sacro Colégio dos Cardeais, ousam discordar do ... igreja, que para muitos se encontrava atrasada de um ou mais séculos, abriu pari passu, e dolorosamente do tumulto das ideias, do desencadeamento furioso das rebeldias procelosas, quanto, não somente leigos e simples sacerdotes, mas até mesmo altos prelados envoltos no próprio esplendor da purpura cardinalícia, o que vale dizer com assento no supremo senado da Igreja, que é o Sacro Colégio dos Cardeais, ousam discordar do pensamento cristalino e da orientação sempre aclarada e sapientíssima do Sumo Pontífice, teimando em não reconhecer a autoridade máxima e suprema do Vigário de Cristo e sucessor daquele Pedro de gênio arrebatado, mas de fé ardente e intrépida, cheio de amor ao Divino Mestre, a quem foi dito: "Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam!" (Tu és Pedro, e sob esta pedra edificarei a minha Igreja!)
O vendaval continua a soprar violento, anunciando borrascas estrepitosas para desalento do povo de Deus e tripudio dos inimigos da fé. Tenho acompanhado de perto as proporções da tragédia, a tomar o vulto das tempestades aniquiladoras. A barca de Pedro revive as horas de tormenta, de que nos fala o evangelista Mateus, "açoitada pelas ondas, porque o vento era contrário": contrarius erat ventus... (Mt. XIV:20).
Em tanta agitação, muitos soçobram e vacilam, precisamente porque se desvinculam do centro da unidade cristã, que continua a ser Pedro, a pedra, o rochedo indestrutível, que devolve ao oceano a fúria das ondas
encapeladas; Pedro, a pedra, que continua vivo no Papa, quaisquer que sejam suas personalidades e os nomes pontifícios que tomam ao assumirem o lema da Barca vinte vezes· secular: Bonifácio, Gregório, Leão, Pio, João ou Paulo, não é Paulo, nem João, nem Pio, nem Leão, nem Gregório, nem Bonifácio: "Il est Pierre, qui ne muert pas, assis sur son trône, qui ne crouie pas!" (Ele é Pedro, que não morre, assentado em seu trono, que não se abala!) - diria com Luís Veuillot, cujas pupilas precisariam de figurar nas órbitas de não poucos leigos e prelados do mundo contemporâneo, que chegam a aceitar a heresia suprema de admitir uma Igreja sem Papa, já esquecidos do legado tradicional da ortodoxa doutrina: "ubi Petrus, ibi Ecclesia”, que em vernáculo se resolve nestas palavras – a Igreja está, onde estiver o Papa!

Em meio a essa babel que inquieta a cristandade e atormenta ainda mais o pontificado dolorido ou doloroso do grande papa Paulo VI, tendes dado em nossa arquidiocese uma fascinante lição de bom senso, equidade e equilíbrio, mantendo-vos no meio termo dos cautelosos, nesse meio termo sempre aconselhado e bom conselheiro, evitando a caturrice dos ultraconservadores e os excessos desvairados dos ultraliberais, questão mal posta, como acaba de frisar o ponderado arcebispo de Teresina (PI) e presidente da Comissão Episcopal Latino-americana, porque o Bispo em si não é conservador nem liberal, é simplesmente Bispo, com olhos para ver e ouvidos para ouvir aquelas palavras profundamente impressionantes do rito de sua sagração episcopal: "non ponet lucem tenebras, nec tenebras lucem; non dicat bonum malum, nec malum bonum" (não confunda a luz com as trevas, nem as trevas com a luz; não identifique nem com o mal, nem o mal com o bem), palavras de sensatez e advertência, que a Igreja foi buscar no tesouro fecundo e inexausto das Santas Escrituras. Dir-se-ia que a sabedoria da Igreja, prevendo a possibilidade humana de o novo Bispo ter a tentação de acolher as trevas como luz, e a luz como trevas, e admitir a ignomínia de confundir o bem com o mal, muito de ind (...)ia agasalhou nos lábios do Sagrante palavras tão eminentes, luminosas e oportunas, que deveriam abrir e encerrar, com a mais faiscante das chaves de ouro, quaisquer sínodos ou assembleias eclesiásticas, que abriguem prelados para tratarem doutrina e traçarem normas ao povo de Deus, já cansado de tantas e incomportáveis lacerações na túnica inconsútil da Esposa de Cristo!


O INSTITUTO GLORIFICA A IGREJA

Em vossa eleição, guiou-nos o alto quilate que vos caracteriza a inteligência, aberta a todas as ondulações da luz, e a cultura, opulentada nas tradicionais e ubertosas tetas dos estudos clássicos, que, digam lá o que disserem, continuam a ser os alicerces insubstituíveis de toda grande e verdadeira cultura. Como quer que seja, com premiar-vos os talentos, quis o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas glorificar a Igreja, de que sois pontífice; essa Igreja-Mãe, essa Igreja maternal, que parturejou a civilização cristã, criadora e inspiradora de tantos e repetidos benefícios que a humanidade vem usufruindo há vinte séculos de História!

Glorificamos a Igreja caridosa, que criou os hospitais; e glorificamos igualmente, muito particularmente nesta Casa a Igreja sapientíssima, que criou as Universidades, muitas das quais trazem em seu diploma de origem a assinatura de um Papa; Igreja de Gregório XIII, que reformou o calendário, corrigindo um erro plurissecular pela criação dos anos bissextos; Igreja de Leão XIII, que assinou a maior Carta do Operário Cristão, a famosa "Rerum Novarum"; Igreja de Bento XIV, o famoso Lambertini, de quem se escreveu que teve duas almas, uma para a Igreja e outra para as ciências; Igreja criadora de escolas e de bibliotecas, que salvou nos mosteiros medievais, pela paciência dos monges letrados o tesouro das antiguidades; Igreja acoimada de obscurantismo tão somente pelos ignorantes de todas as castas, cuja miopia, amaurose ou cegueira lhes dá olhos imprestáveis para verem o milagre do esplendor do sol. (SEGUE)

19 de maio de 2015

DOM JOÃO DE SOUZA LIMA (1)

Foto da solenidade, arquivo do IGHA
Em quase um centenário de atividades, a Casa de Bernardo Ramos acolheu entre seus membros apenas dois Bispos da Igreja católica. O primeiro – dom João Irineu Jofilly, ajudou a fundar esse Instituto em 1917. O segundo, Dom João de Souza Lima, ocupou a Cadeira 24, patronada por frei Gaspar de Madre de Deus. Foi recebido em outubro de 1969, pouco mais de dez anos após tomar posse na arquidiocese do Amazonas.

Dirigia o IGHA o desembargador João Corrêa, que presidiu uma solenidade repleta de autoridades e convidados. Padre Nonato Pinheiro, orador da Casa, fez a oração de boas-vindas. A partir dessa postagem, e dividida em três partes, reproduzo a mencionada saudação.


Senhor Arcebispo
Dom João de Sousa Lima


O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) pela segunda vez tem a honra insigne de acolher em seu grêmio um bispo da Santa Igreja. Logo no dealbar de sua inauguração, em 1917, outro antístite, também chamado João, abrigou-se à sombra dessa casa austera, como seu " primeiro vice-presidente, aqui deixando o esplendor de sua mitra fulgentíssima, o brilho meridiano de sua inteligência, a grandeza de sua cultura polimorfa, o colorido de sua palavra eloquente e o fascínio de sua forte e inconfundível personalidade: Dom João Irineu Joffily.
Paraibano de nascimento, sua fisionomia, iluminada pelo fulgor de dois grandes olhos penetrantes, revelava as cintilações de todos os talentos. Sacerdote da arquidiocese de João Pessoa (PB), teve a dita de ser o "baculum senectutis", o cajado da velhice do preclaro Dom Luís Raimundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda e Recife, uma das mais soberbas culturas do Episcopado Nacional, maranhense ilustre, que tanto se constelara de glórias no Rio de Janeiro, como pregador da Capela Imperial.
Foi na escola de Dom Luís de Brito que vosso egrégio antecessor no sólio episcopal amazonense se preparou para as lides pastorais, assim na, então, Diocese do Amazonas como na Arquidiocese de Belém do Pará, cujo sólio também ilustrou com acendrado zelo e alto descortino.

Outro Dom João ingressa agora solenemente neste areópago de cultura, apercebido do mesmo caráter episcopal, das mesmas virtudes apostólicas e dos mesmos
pergaminhos de inteligência e erudição, que vossa reconhecida modéstia não logra ocultar, porque o passado, no dizer de elegante escritor, ainda quando anda, sente-se que tem asas...

Sacerdote secular da Diocese de Pesqueira, cedo manifestastes pendor para o magistério, lecionando, entre outras disciplinas, a ciência altíssima das Matemáticas, que na estimativa de grandes mestres, tanto contribui para disciplinar os talentos e comunicar aos espíritos particular cunho de exação e equilíbrio, dando a tudo a justa medida do comedimento e da proporção. Professor de renome da ciência dos números, haveis de ter experimentado a veracidade e o encanto daquela observação de Dom José Pereira Alves, Bispo de Niterói, em cujos lábios de ouro, ou em cujo cálamo de filigranas, encontrei esta pepita: "Em tudo sinto a poesia, até na austera Matemática, pelo menos no cálculo sublime!". Acredito que o estudo e domínio dessa disciplina tão exata haja influenciado poderosamente em vossa formação, dando-vos essa admirável exação que todos surpreendemos na administração da arquidiocese e no governo da vida, reflexo do longo trato de uma das ciências exatas, cujo magistério exercestes em Pesqueira (PE) com tanto proficiência e brilho.


UM DEPOIMENTO VALIOSO

    Tive a ventura de conhecer em São Luís do Maranhão vosso grande amigo, pai e protetor, o       saudoso arcebispo Dom Adalberto Acioly Sobral, bispo de Pesqueira (PE) e posteriormente arcebispo de São Luís do Maranhão, onde a irmã Morte o foi buscar para o repouso dos Justos, na mansão de Deus. Nunca me foi dado ver outro homem de tão singular personalidade, o qual, servindo-me de palavras de Camilo, aplicadas aos poetas, me dava a impressão de anular em si mesmo todas as leis da física ou da fisiologia, para viver de uma única entranha:
o coração! Homem de coração tão grande, que não sei como lhe cabia no peito! Teve-me a seu lado muitas vezes, quando lá estive em viagem de férias, no ano de 1950.


Ainda não éreis nosso arcebispo metropolitano, e mais de uma vez me falou dos vossos talentos e da vitória de vossos estudos no Seminário de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para onde vos enviara em' seminarista, dando-vos oportunidade de uma formação intelectual mais apurada, na forja dos grandes mestres que, sabem ser os filhos de Santo Inácio de Loyola, que reservam tanto devotamento ao estudo das ciências e ao trato das letras, tão em consonância com o oráculo das Letras Santas, a afirmar: "Labia sacerdotis custodiunt scientiam!" (Os lábios do sacerdote guardam a ciência!).
Aprimorados vossos conhecimentos no estudo e na leitura, sorvendo em torrente os lampejos mentais de preceptores preexcelsos, iniciastes vosso currículo sacerdotal na Diocese de Pesqueira (PE), onde mão poderosa de Pio XII vos foi buscar para colocar-vos entre os príncipes da cristandade, robustecendo com a plenitude do sacerdócio. Primeiro Diamantina, em Minas; depois, Nazaré da Mata, em vosso estado natal, vos receberam como Pastor das almas, respectivamente como Bispo e Bispo Diocesano. Naquela diocese sertaneja ouviste pela terceira vez a voz do Vigário de Cristo, promovendo-vos a Arcebispo Metropolitano de Manaus, onde tendes desenvolvido um fascinante programa pastoral, dedicando-vos com alma, inteligência, coração e vida ao anúncio da palavra de Deus, a transmissão da mensagem do Evangelho, pão e luz, que sustenta e ilumina as almas sequiosas dos orvalhos celestes!

O que realizastes na arquidiocese de Manaus é obra que vos enaltece e glorifica. Por vossa indústria e zelo, novas prelazias foram criadas, fundando-se na capital novas residências religiosas. Muito vos empenhastes na irradiação das escolas radiofônicas e na promoção de semanas de ruralismo, dando vosso incentivo à fixação do homem do campo em seu próprio meio, levando-o a não se empolgar pelas miragens mirabolantes da capital, onde o índice de desemprego desafia a acuidade de sociólogos e governantes.


Sintonizando com o espirito da época, tende-vos preocupado com o problema das lideranças, brotando de vosso zelo a fundação da Maromba, centro arquidiocesano para formação de líderes e promoção de cursos de superior cultura, religiosa, social e filosófica. Se é verdade o que proclamou Bacon, que são as ideias que governam o mundo, aprendestes que urge disciplinar nas mentes dos homens ideias fecundas e luminosas, para a floração primaveril de atos decisivos e decisões supremas no rumo de uma comunidade feliz, no clima e na luminosidade daquele MUNDO MELHOR, preconizado pela genialidade de Pio XII, e cujos horizontes azuis tão bem divisastes em memorável Carta Pastoral aos diocesanos de Nazaré da Mata (PE), dada a estampa pela Editora Vozes, de Petrópolis.

17 de maio de 2015

MANAUS: ANOS 1960-70

Esta construção existiu nos jardins da Matriz. (Foto de O Jornal, 13 julho 1960)

Cruzamento das avenidas Eduardo Ribeiro com Sete de Setembro (foto de
Jornal do Commercio, 1º agosto 1970)

14 de maio de 2015

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DO AMAZONAS (4)


Mapa de Manaus, 1852
No segundo governo dos irmãos Nery (1904-07), circulava em Manaus a “Revista destinada a vulgarização de documentos geográficos e históricos do Estado do Amazonas”, intitulada ARCHIVO PÚBLICO. Tais documentos constituíam o acervo desta repartição que, ainda em nossos dias, sem o brilho anterior, prossegue funcionando.
Em 17 de outubro de 1907, Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (filho do 1º presidente da Província amazonense e dirigente do referido órgão), proferiu uma palestra sobre a História e Geografia do Amazonas. Essa alocução, realizada no Ginásio Amazonense diante de respeitável plateia e do próprio governador, Constantino Nery, foi reproduzida no volume II, datado de 23 de janeiro seguinte.

A seguir, a IV e última Parte:



Vila da Barra do Rio Negro, 1849 (colorido artificialmente)
Vastíssima é a rede hidrográfica da Bacia do Amazonas, tendo por artéria principal o portentoso rio do qual vem o nome, e dele ramificam-se outros que a ele se assemelham como o Jari, Paru, Xingu, Tapajós, Madeira, Uatumã, Urubu, Negro, Purus, Japurá, Iça, Juruá, Javari, Ucayali, Morona etc. e, que não são menos importantes pela amplitude do curso e volume das suas águas, que o Tocantins, que noutros tempos deverá ter sido, como creio, também um ramo do rio Amazonas.
O rio Amazonas, que o padre Antônio Vieira, – o Grande, chamou – mar doce, por ser na largura da sua embocadura e no seu comprimento maior que o Mar Mediterrâneo, nasce na cordilheira dos Andes; e querendo Tenreiro Aranha, imortal fundador da província, que tomou o mesmo nome do rio, dar uma ideia aproximada da sua grandeza, assevera que a navegação tem sido e há de sempre ser, aqui, por este mar imenso do Amazonas, a principal via de comunicação para irem todos os habitantes e todos os produtos de uns para outros lugares, desde o leito marchetado, onde o monarca dos rios tem a cabeça majestosa, até onde com as pontas dos pés repele as vagas do oceano.
Todos os habitantes e todos os produtos dos outros lugares da Bacia do Amazonas incontestavelmente estendem-se à Goiás e Maranhão pelo Tocantins; à Mato Grosso pelo Xingu, Tapajós e Madeira; à Bolívia pelo Madeira, Purus e Juruá; ao Peru pelo Juruá, Javari e Amazonas ou Maranon; ao Equador pelo Iça; à Colômbia pelo Iça, Japurá, Uaupés e Içana; à Venezuela pelo rio Negro, Ixié, Cauaboris, Padauari e Uraricuera; à Guiana Inglesa pelo Tacutu e à Guiana Holandesa pelo Trombetas.
Os Estados do Grão Pará e Amazonas, unidos pelo grande rio, acham-se na própria artéria da rede hidrográfica da Bacia do Amazonas.
 Só depois da fundação do Estado do Maranhão e Grão-Pará, cuja sede foi São Luís, máxime da gloriosa expedição de Pedro Teixeira, intrépido capitão português, que de Belém partindo com destino à Cametá e deste porto, no rio Tocantins, dirigiu-se a Quito, hoje capital do Equador, por via do rio Amazonas, no qual foram, nessa ocasião, reconhecidas as embocaduras dos rios Xingu, Tapajós, Madeira, Negro, Coari, Japurá e Napo até o término da mesma expedição, foi que o Maranon, descoberto por Pinzon, que Orelana mais tarde denominou Amazonas, ficou definitivamente reconhecido e pertencendo a capitania do Grão Pará, e sob a jurisdição do governo geral daquele outro Estado.
 As capitanias, que então o formavam, eram as do Maranhão, Cumá ou Guimarães, Piauí, Gurupi, Caeté ou Bragança, Grão-Pará, Joannes ou Marajó, Cabo do Norte ou Guiana Portuguesa, Camutá ou Cametá, e Rio Negro ou Alto Amazonas, última criada. Este vasto Estado ficou depois dividido no do Maranhão e no do Grão Pará e Rio Negro e mais tarde este ainda foi dividido, já sob o regime do Império, na província do Grão Pará e na do Amazonas.
 Esta última província, que se achava convertida na qualidade de comarca da outra província, num vasto deserto, por falta de um escolhido, que trabalhasse para a felicidade de seus povos, como havia feito o seu glorioso e imortal governador Lobo d’Almada, no fim do século XVIII, teve quem dela se lembrasse a 27 de maio de 1826 na Assembleia Geral Legislativa do Império. O deputado paraense, cônego Romualdo Antônio de Seixas, foi quem submeteu à discussão um projeto seu, mandando considerar daquela data em diante, como Província, a comarca do Rio Negro da Província do Pará, dizendo: Ah! Sr. Presidente, quanto são desgraçados os povos que vivem longe da sede do Império!
Com a criação do Estado do Maranhão, por decreto de 13 de julho de 1621, o governo das conquistas do Ceará, Maranhão e Grão-Pará, ficou separado do geral do Brasil. Nomeado Diogo de Carcamo naquela mesma época, governador do novo Estado, recusou a nomeação, e por este motivo coube a Francisco de Moura ser escolhido para ocupar o cargo, que não aceitou também.
A vista da sua recusa foi então nomeado, a 23 de setembro de 1623, Francisco Coelho de Carvalho, que a 23 de março de 1624 partiu de Lisboa com destino a Pernambuco, onde deixou-se ficar dois anos por causa da invasão holandesa, tendo dentro desse tempo tomado posse do cargo no Ceará, que fazia parte do território do Estado do Maranhão.
 
Este governador só a 3 de setembro de 1626 pôde entrar em São Luís, e em 1627 indo ao Grão-Pará, entrou no Gurupi e ali fundou a povoação Vera Cruz; e manifestou-se em Belém contra os bárbaros e desumanos resgates de escravos indígenas, com desagrado geral dos poderosos escravagistas.
Em 1636 fez outra visita ao Grão-Pará, demorando-se pouco em Belém, onde aportara a 1º de maio desse ano, e por motivo de moléstia mudou-se para a Vila de Cametá, fundada ainda em dezembro de 1635, onde chegou a 1º de setembro do mesmo ano de 1636 e a 15 desse mês ali faleceu.
Em 9 de outubro do referido ano de 1636, apossou-se intrusamente do cargo de governador do Estado Jácomo Raimundo de Noronha, e só o deixou a 27 de janeiro de 1638, data em que entrou na sua posse Bento Maciel Parente, 2º governador da coroa e 3º na ordem dos respectivos serventuários que assumiram o exercício do cargo. Dos três governadores, o último que foi nomeado dentro do domínio de Espanha, continuou no exercício por nova nomeação do Duque de Bragança, então aclamado rei de Portugal.
Desta sorte, contando da data da fundação do Estado do Maranhão a da do Grão-Pará e Rio Negro o número dos seus governadores e capitães generais foi este de 30, sendo: No domínio espanhol, com residência no Maranhão – 3; no domínio português com a mesma residência – 23; e com esta no Pará – 5, inclusive o governo provisório de 30 de janeiro de 1644.
 No domínio holandês teve o Maranhão, menos o Pará que não se submeteu à Holanda, dois governadores desta potência, de 27 de novembro de 1641 a 28 de fevereiro de 1644. 
A capitania do Grão Pará, sujeita ao Estado do Maranhão, contou até a data da fundação do Estado do Grão Pará e Rio Negro, no domínio espanhol 15 governadores e capitães-mores, e no domínio português 26, inclusive o de 19 de junho de 1650, que pelo governador e capitão-general do Estado do Maranhão foi declarado independente da sua autoridade, e mais 4, inclusive o de 8 de maio de 1654, de Domingos Machado, conjuntamente o Senado da Câmara, em virtude do Decreto régio de 23 de fevereiro de 1652, que deu-lhes autoridade independente da do governo do mesmo Estado do Maranhão.
O Estado do Grão-Pará e Rio Negro contou, da data da sua fundação até a adesão do Pará à proclamação da independência e do Império do Brasil, o número de 10 governadores e capitães generais, inclusive o de 24 de setembro de 1751 e o de 2 de março de 1759, que governaram o Maranhão dependente do Pará; uma junta provisória de 19 de outubro de 1817 com três membros; uma outra junta provisória constitucional de 1º de julho de 1820 com três membros; uma terceira de 1º de janeiro de 1821 com oito; uma quarta de 12 de março de 1822 e uma, por último, de 10 de março de 1823 com sete cada uma.
A Capitania de S. José do Rio Negro, sujeita ao Estado do Pará, contou da data da sua fundação em 11 de julho de 1757 até a adesão do Pará à independência e império do Brasil, os governadores seguintes:

Governadores
Data de Posse
1
Joaquim de Mello Povoas
1758  Maio    7
2
Gabriel de Souza Filgueira
.......
3
Nuno Ataíde da Cunha Varona
.......
4
Valério Corrêa Botelho de Andrade
.......
5
Joaquim Tinoco Valente
1772
6
............................
........
7
............................
........
8
José Antônio Salgado
........
9
Manoel da Gama Lobo d’Almada
1787
10
José Antônio Salgado
1799 Outubro 27
11
José Simões de Carvalho
1804
12
José Joaquim Victorio da Costa
1805
13
José Joaquim Victorio da Costa
1807 Outubro 10
14
Manoel Joaquim do Paço
1818
15
Antônio Luís Pires Borralho
.......
16
Manoel Joaquim do Paço
1821 Março    31
17
Antônio Luís Pires Borralho
.......

       
No mesmo domínio contou mais uma junta administrativa provisória constitucional, formada por eleição, e compondo-se dos cidadãos seguintes: Antônio da Silva Craveiro, Bonifácio João de Azevedo, Manoel Joaquim da Silva Pinheiro e João Lucas da Cruz.

CONCLUSÃO

Eis aqui quanto me foi possível produzir, animado pelo amor e zelo de que sempre fiz timbre, do bem geral do Brasil, particularmente do Amazonas, berço do mavioso poeta lírico e cantor primoroso da inditosa Maria Bárbara, que
Lembrando-se que teve uma consorte,
Que por honra da fé que lhe jurara,
A mancha conjugal prefere a morte;

e vasto teatro das mais gloriosas conquistas do imortal João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha por meio da imprensa e da tribuna parlamentar brasileira à favor da navegação a vapor dos rios do Amazonas e seus tributários, da elevação da comarca do Rio Negro 19 à província, da exploração dos mais importantes afluentes do grande rio, da colonização nacional e estrangeira nos rios Iça e Branco, e da catequese e civilização dos índios, para significar a minha gratidão a esta terra futurosa, que me deu hospitaleiro acolhimento de 1856 até hoje, e ao qual tenho procurado corresponder condignamente sem quebra de minha dignidade e da independência do meu caráter.

Grato, portanto, aos distintos cavalheiros e virtuosa professora, que ornam neste momento tão seleto auditório, especialmente aos ilustres Dr. Antônio Constantino Nery, governador do Estado, e coronel Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt, vice-governador, por haverem todos gentilmente honrado com suas presenças esta modesta conferência, que lhes tributo, contando que me hão de desculpar, se não correspondi, quanto desejava, as suas expectativas. (fim)