CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de março de 2014

GOVERNO MILITAR: 50 ANOS (1)


As impressões sobre esse acontecimento já veem sendo discutidas, pois o cinquentenário ocorre dia 31 próximo (segunda-feira). Vou comentar aqui (depois de longa ausência) sobre o assunto até a data indicada. Sei que há muito a discutir ou revelar.

As impressões sobre esse acontecimento já veem sendo discutidas, pois o cinquentenário ocorre dia 31 próximo (segunda-feira). Vou comentar aqui (depois de longa ausência) sobre o assunto até a data indicada. Sei que há muito a discutir ou revelar.

Tive duas opiniões sobre como proceder: uma, recolher a descrição dos mais velhos, da “melhor idade”, dos que viram a mudança de governo. Ou seja, onde andava você quando o governo de João Goulart foi substituído pelo dos generais? Para tanto, vale lembrar os prós e os contra. 

A segunda proposta veio de meu amigo Herbert Ribeiro, apreensivo com minha ausência. Em telefonema para exigir minha volta, contou-me de suas inquietações a meu respeito. -- Será que o blogueiro “atravessou o rio Negro” e nem me avisou? Ainda não, amigo, vou assistir em junho os jogos na Arena. Herbert propôs que eu recolhesse as publicações dos jornais locais, referente ao episódio. Vou cumprir.

Começo com meu depoimento.

Padres e seminaristas no Seminário
São José, no início dos 1960
Em março de 1964, ia completar 18 anos e estudava no Seminário São José, localizado na confluência da rua Emilio Moreira  com a rua Ramos Ferreira, que já abrigou o ICHL-Ufam e hoje, os futuros advogados da Uninorte. Já em final do curso secundário, possuía o encargo de preparar um briefing semanal para os colegas. Para isso utilizava jornais do Rio (Jornal do Brasil e Globo), que chegavam em Manaus com três e até quatro dias de atraso. Com isso, é fácil entender o distanciamento de Manaus com a capital da República. 

Apesar do fato, eu estava bem informado dos acontecimentos nacionais, em especial, a situação do governo de Jango. Confesso que torcia contra seu governo, devido ao meu engajamento na Igreja, que para demonstrar sua posição promovera a “marcha contra”. A outra questão dizia respeito ao temor ao comunismo, sentimento que a igreja divulgava com ardor.

Outra fonte de informação partia dos professores. Lembro bem do padre Luiz Ruas e do professor Carlos Eduardo (ambos inveterados fumantes), e mais o professor Origenes Martins. Todos com intensa militância política junto a Ação Católica, com mais destaque junto aos estudantes. Um dia, eles não apareceram para as aulas. Passaram os dias, nada. Então, soubemos que os mesmos estavam “de férias”, ou seja, estavam devidamente em segurança, pois as prisões se sucediam. Detalhe: padre Ruas, na época, passou 40 dias recolhido ao xadrez do 27 BC, atual 1º BIS, no bairro de São Jorge. 

Portanto, a minha primeira recordação é a melhor possível, pois, na condição de estudante, passei dias sem professores. Na direção do seminário a tensão era concreta, mas não foi incomodada.

No dia 31 e seguintes, depois que a notícia da derrubada do governo adentrou o colégio, interessei-me por detalhes. Esses detalhes somente eram conseguidos no radioamador existente na Casa, manipulado pelos padres Onias Bento e Tiago Braz e pelo professor Amarílio Pinto. As rádios locais pouco ou quase nada ofereciam, por isso, o mais indicado era recorrer à Voz da América (como indica o título, órgão de divulgação do governo norte-americano). Certamente, como indicam as publicações atuais, este governo colaborou com o golpe, por isso as notícias eram as mais alvissareiras. (segue)