CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de janeiro de 2014

IMPRENSA OFICIAL DO AMAZONAS (2)




Mário Ypiranga,
1976
Em 1986, o lembrado professor Mário Ypiranga Monteiro publicou uma plaqueta intitulada – Notas sobre a Imprensa Oficial do Amazonas, que aqui reproduzo a segunda parte.

O prédio apropriado seria levantado na então rua Municipal (atual avenida Sete de Setembro), no lugar das casas contíguas ao conhecido Sá Mané. E o primeiro diretor da Imprensa Oficial, foi o doutor Pedro Freire. Mais tarde, já no governo Constantino Nery, o restante do terreno seria ocupado pelo magnífico prédio da Biblioteca Pública.
 
Falar da Imprensa Oficial do Estado sem apelar para a sua função dispensadora da cultura é não dizer nada, enquanto o seu mérito maior não seria apenas editar diariamente o Diário Oficial e os documentos emergidos do âmbito da administração pública. E o fez pelo menos em 58 anos de consecutiva atividade. Mas não é só isto.
Diário Oficial, arquivo geral
 
A Imprensa Oficial, criada a partir de uma consciente noção de realidade social como órgão de divulgação maior do Estado, para satisfazer a esse requisito teria que constituir na realidade uma fonte geradora de economia, como o foi realmente.

Para isso o governo dotou-a do equipamento gráfico mais sofisticado que as fábricas europeias, alemãs, francesas e italianas produziam, e também as americanas, enriquecendo o esforço de comunicação. Linotipos, impressoras, máquinas de fabricar envelopes, daguerreotipia, equipamentos completos de encadernação, sortimento variado de fontes e matrizes de cobre, estanho e bronze, para resistir anos, realizar o que na época nenhuma casa impressora de Manaus faria, em concorrência.

As obras gráficas saídas das oficinas da Imprensa Oficial eram louvadas e não foram poucos os prêmios obtidos em exposições nacionais e internacionais, com diplomas que antigamente eram exibidos ostensivamente pelas paredes da sala da Diretoria.

Ao lado das oficinas de composição com suas mesas de mármore para montagem, suas máquinas luzindo de novas e de bem cuidadas, havia a oficina de encadernação bem aparelhada, capaz de competir com qualquer casa no gênero do país, porque à testa das secções e das oficinas havia gente competente, especializada. Da oficina de encadernação saíram todos os volumes encadernados que se encontram no Arquivo Público e os que foram devorados no lastimável incêndio da Biblioteca Pública.

A decadência da atividade gráfica da Imprensa Oficial começa quando administradores sem escrúpulos ou sem força moral para coibir abusos silenciam diante dos desmandos da política oponente. A Imprensa Oficial alcançou em determinada época tal estado de debilidade material que mandava compor as chapas do Diário Oficial em outras oficinas. À altura de 1937-38 a situação era tão delicada que qualquer pessoa poderá sem esforço averiguar a defasagem pelas páginas impressas do próprio órgão oficial.

Naquela altura a Imprensa Oficial teve dois diretores de mérito: Mitrídates Alves de Lima Corrêa e o doutor José Luís de Araújo Neto, todos dois poetas e ambos jornalistas e acadêmicos (ver Nota). Na administração deles o Estado reformou quase todo o material gráfico, mas é de justiça salientar que também na administração do escritor Raimundo Morais, anterior a daqueles outros, a Imprensa Oficial ainda podia honrar-se de poder editar obras importantes, como as do próprio autor de Na Planície Amazônica, Cartas da floresta etc. Por essa época é editado o volume de versos do poeta Raimundo Monteiro, livro que originou a desavença entre Raimundo Morais e Péricles Moraes, que por coincidência não eram parentes, tornando-se inimigos de sangue e fogo.

Centenas de obras, boas e más, foram feitas na Imprensa Oficial, mas ainda perdura na lembrança dos bibliómanos a edição monumental do Diário Oficial comemorativa do centenário da Independência do Brasil, onde colaboraram quase todos os grandes nomes da intelectualidade amazonense da época. Uma edição que recomendava o talento e a capacidade do operariado público faminto. Porque estávamos na administração Rego Monteiro, em 1922, e o funcionário estadual e municipal passava fome e miséria.

Grandes nomes passaram pela Imprensa Oficial, em várias épocas, tais como Alcides Bahia, José Chevalier Carneiro de Almeida, José Pais de Azevedo, Washington Melo, Raul de Azevedo, Ferreira Sobrinho (o poeta do jumento), Thaumaturgo Vaz, geralmente pessoas mais chegadas à cultura geral que simplesmente burocratas.

Houve naturalmente a separação, o desmembramento da Imprensa Oficial da Biblioteca e Arquivo blico, quando as três repartições, por medida de economia, foram agregadas numa só. Mas depois do Estado Novo um golpe de política bem dado separou-as porque não havia nenhuma justificativa que autorizasse a esdrúxula vinculação.

Aos poucos foi a Imprensa Oficial recompondo-se da sua debilidade e o patrimônio passou a ser enriquecido com a aquisição de novas impressoras e outras máquinas sofisticadas. Mas acreditamos, sem que nisto haja nenhuma crítica, continuar mal instalada uma repartição que exigia maiores espaços para uma maior capacidade de produção. Ano após ano, com o avanço da técnica gráfica, outras máquinas serão exigidas, mais equipamentos e mais operários e almoxarifados, depósitos, garagens etc., e as instalações ficarão exigindo sempre desafogo.

O prédio, por sua vez, não possui condições de higiene e nem ventilação suficiente, pois era antigo colégio particular e residência. São aspectos que precisam ser olhados com simpatia, apesar de que administrações passadas tentaram sem muita convicção reformular o ambiente. Existem em Manaus prédios devolutos a espera de serem ocupados depois de exigente adaptação. Quem escolheu aquele local para instalar um organismo em progresso não teve a ideia de que um dia o patrimônio material estaria exigindo espaço mais dilatado.

Notas:
José Luís de Araújo Neto foi eleito, mas não tomou posse na Academia Amazonense de Letras.
A atual sede da Imprensa Oficial encontra-se à rua Dr. Machado - Centro

28 de janeiro de 2014

IMPRENSA OFICIAL DO AMAZONAS (1)


Em 1986, o lembrado professor Mário Ypiranga Monteiro publicou uma plaqueta intitulada – Notas sobre a Imprensa Oficial do Amazonas, a qual reproduzo, em duas partes.
Sede do Diário Oficial, em 1902 

 

Os Presidentes da Província do Amazonas utilizavam-se dos periódicos locais para a divulgação de todos os atos administrativos, a partir de 1852. Pode ler-se no jornalzinho Estrela do Amazonas, que substituiu ao pouco durável 5 de Setembro, a sinopse dos despachos etc. Mais tarde seriam publicados, ainda por contrato, no Comércio do Amazonas e em outros. Era então uma fase de carência de veículos promotores diários da notícia, do fato rueiro, do acontecimento cotidiano, mesmo onerar, porquanto os jornais circulavam apenas uma e depois duas vezes por semana, até que a imprensa se firmasse, passando a diária e em formato grande as folhas.

Até pelo menos o advento da República foi assim, mas então o número de jornais aumentou e aumentou tanto que chegou à saturação, existindo deles até em línguas estrangeiras, árabe, inglês, francês, italiano, alemão.
Os mesmos jornais eram obrigados por contrato a enfeixar as leis, decretos, portarias etc., mas quando se tratasse de regulamentos, estatutos, matéria muito
extensa, a circulação se fazia na base do folheto.

A administração provincial preocupava-se muito em que o usuário estivesse a par dos atos legais, por isso reunia-os em folhetos para venda avulsa. Matéria composta à mão e corri material francês vindo de segunda mão de Portuga, mas passando antes por proprietários estabelecidos no Pará.
Uma história da imprensa do Amazonas iria revelar aspectos interessantes, por exemplo, que os primeiros jornais do Amazonas haviam sido de cidadãos portugueses.

Todavia que os volumes continentes desse material publicado vai escasseando na biblioteca dos pesquisadores, houve uma tentativa frustrada de microfilmar a
documentação existente e isto se torna perigoso para o esclarecimento futuro da história administrativa do Amazonas, porquanto os folhetos ainda encontrados
numa ou noutra biblioteca particular estão em estado de não poderem ser manuseados, de velhos. É que o papel em que foram impressos leis e regulamentos, decretos e demais atos oficiais era de fabricação rudimentar, artesânica, papel de trapos, de má qualidade, portanto, quebradiço ao manuseio.
 
Ao assumir o governo do Estado do Amazonas, o doutor Eduardo Gonçalves Ribeiro deu início a várias obras que honraram a sua magnífica administração,
sendo uma delas a criação da Imprensa Oficial do Estado, em 1892, medida pela qual a administração
blica esquivava-se à tutela dos contratos com periódicos, contratos que a cada ano custavam os olhos da cara ao Estado ou à Província.

A Lei nº 1, de 31 de agosto de 1892, aqui vai integralmente transcrita:

Cria a Imprensa do Estado

Eduardo Gonçalves Ribeiro, Bacharel em Matemática e Ciências Físicas, capitão de Estado-Maior de 1ª classe e governador do Estado do Amazonas etc., etc.

Faço saber a todos os seus habitantes que o Congresso dos Representantes do Estado do Amazonas, decretou e eu sancionei a seguinte lei:  

Art. 1º -- Fica criada a Imprensa do Estado, como órgão de publicidade oficial, destinado à publicação dos atos oficiais, debates do Congresso Amazonense, expediente da Secretaria de Estado e de outras repartições, crônica do foro com os despachos e sentenças dos juízes e tribunais, o movimento detalhado do comércio e navegação, indústria, artes e ciências, operando no Estado, as declarações, anúncios, bem como as leis, decretos, regulamentos e mais atos que forem determinados no seu regulamento.
§ Único – A imprensa do Estado ficará subordinada ao Governador do Estado.
Art. 2º -- O órgão oficial será publicado de conformidade com o regulamento e terá o título de "Diário Oficial do Estado do Amazonas".
Art. 3º -- Anexos ao estabelecimento tipográfico serão criadas duas pequenas oficinas, uma de litografia e gravura (xilografia) e outra de encadernação.
Art. 4º -- Para começo da execução da presente lei, fica aberto ao Governador do Estado, um crédito de réis 80:000$00, para aquisição do material indispensável à fundação da imprensa, preparo de suas oficinas e organização dos respectivos serviços.
Art. 5º -- Revogam-se as disposições em contrário.
 
Manaus, 31 de agosto de 1892, 4º da República 

Eduardo Gonçalves Ribeiro
 
Pergunta-se se criada a lei para o estabelecimento útil da imprensa oficial e o crédito de oitenta contos de réis, foi imediatamente cumprida. Com Eduardo Ribeiro a burocracia não andava de rastros. O homem dinâmico que dotou Manaus de bens patrimoniais de vulto, muitos dos quais ostentando a sua galhardia arquitetônica,
tomaria providências imediatas para que a gráfica começasse sem demora a funcionar.

18 de janeiro de 2014

CORONEL WILDE BENTES (3)


Governador Amazonino Mendes (à  esq.) em
solenidade no comando do coronel Wilde
Bentes
Para recordar o coronel Wilde Azevedo Bentes, ex-comandante da Policia Militar do Amazonas, reproduzo a página do jornal TRIBUNA DE ÓBIDOS, que circulou no 2º trimestre de 2000, editado pelo jornalista Paulo Onofre Lopes de Castro, para saudar aquele “filho da terra”.
Como é fácil observar, desde a circulação mais de uma década já se escoou e muita água passou sob a ponte Rio Negro, de sorte que esta transcrição sofreu pequenos acertos de rumo.
Esta é a terceira e última parte.

 OS ESTUDOS
 

Em Óbidos, Wilde Bentes fez o primário na escola José Veríssimo e, como seus pais eram muito religiosos e frequentavam normalmente a igreja, decidiu, aos doze anos de idade, ir para o Seminário, em Campina Grande, na Paraíba, onde só passou um ano e meio, pois descobriu que aquela não era sua verdadeira vocação. Voltou para Óbidos e, em seguida, foi estudar em Belém, no Colégio Nazaré, onde concluiu o Ginásio. No Colégio Paes de Carvalho fez o científico e, em 1966, foi convocado pelo Exército. "Fiz tudo para não servir, entretanto fui o terceiro a ser escolhido. Confesso que eu não gostava da vida militar, de jeito nenhum", enfatiza.

Como já tinha concluído o colegial, Bentes foi para a Escola de Formação de Oficiais, em Belém, que fica ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré. No decorrer do curso ele começou a gostar da carreira militar, mas, mesmo assim, ainda tinha um pouco de rejeição.

Ao concluir o curso para oficial do Exército, no final de 1967, passou em 3° lugar e teve o privilégio de escolher onde queria fazer o estágio de três meses, que era obrigatório. Os amigos queriam que ele ficasse em Belém, mas havia uma vaga em Manaus. "Aí eu disse: eu quero essa vaga. Meus companheiros me chamaram de doido, pois nessa época eu tinha passado no vestibular para bacharel em Administração, na Universidade Federal de Belém, mas eu já estava tão empolgado com a vida militar que não me matriculei na faculdade e vim embora para Manaus, onde fiz o estágio e conclui o curso em janeiro de 1968", recorda Bentes.

Nessa época o comandante do 27° Batalhão de Caçadores lhe pediu para fazer o Estágio de Serviço, que tinha a duração de quatro anos, com a finalidade de seguir a carreira militar. Ele retornou à Belém, já com o ofício em mãos e se apresentou no comando da Região como aspirante a oficial. Uma semana depois retomou à Manaus, para fazer o Estágio de Serviço, trabalhando na parte operacional, como tenente, no 1º BIS, do 27º BC (confusão do jornalista, pois as duas unidades são a mesma).

Em 1969, o então tenente Wilde Bentes fez o Curso de Guerra na Selva, com duração de uma semana, no complexo de treinamento do Exército, situado no Puraquequara. "Nós éramos um grupo de cinco oficiais”. No curso de sobrevivência na selva todo mundo é aluno, com deveres e obrigações. Tínhamos que andar impecavelmente uniformizados em plena floresta. Fizemos o nosso próprio tapiri para servir como Quartel. Nós não comíamos absolutamente nada, porque não tinha o que comer. Não aparecia nem uma paca, nada, nada.

Certa vez, lá pelas tantas, quando voltávamos para o acampamento, escutamos o som característico de um papagaio. Coitado dele, conseguimos derrubá-lo para
saciar a nossa fome. A nossa panela era o cantil onde esse papagaio foi fervido durante quatro dias e cada um dava uma mordida, pois o bicho era duro de comer. Nunca pensei em ter um papagaio como refeição, mas, em nome da sobrevivência, fui quase forçado a degustá-lo, tirando gosto com tapuru de coco e cobra. Eu não estranhei muito porque sou da região. Na realidade, nós só viemos a comer no quinto dia, mas quem matou a nossa fome foi o leite de amapá, foi a nossa sobrevivência.

Na nossa equipe havia um oficial americano que reclamava balbuciando barbaridades, tudo em inglês, e ninguém entendia nada, mas a gente sentia que ele não estava satisfeito. Todo dia ele decorava uma palavra em português e as que ele mais repetia era "obrigado" e "comida" (risos)... Mas era um cara muito extrovertido, pois reclamava muito com o que não estava acostumado, principalmente com os mosquitos. Era meio medroso, quando escurecia não ficava só no tapiri, de jeito nenhum", recorda.

Ao concluir seu estágio em 1972, o comandante do BIS – onde Bentes servia –, Paulo Figueiredo (pernambucano que chegou a general), foi convidado para comandar a Polícia Militar. "Incisivo, ele chegou comigo; botou as duas mãos nos meus ombros e disse, na minha cara: Você vai comigo! Ponderei que não queria ir para a Polícia Militar porque eu tinha passado novamente no vestibular para Administração, em Manaus, e queria me formar, mas ele foi intransigente ainda, dizendo que eu era o seu braço direito e ele não conhecia ninguém lá dentro.E, em 1972, eu fui para a Polícia Militar do Amazonas. Fiz o concurso, passei e entrei como tenente, de novo. A partir daí fui galgando os postos, graças a Deus.

Faz três anos que Bentes não vai a Óbidos, mas sempre está tendo notícias de lá. "Tenho contato com Óbidos através de meu cunhado, que é um marchante que compra gado em Óbidos e Oriximinã”. Ele tem uma verdadeira ojeriza à política. Conversamos sobre lazer, família. Segundo ele, a economia de Óbidos estagnou, comparando os dados de hoje, pois comprava muito gado no Paraná da Dona Rosa.

Mesmo “de pijama”, como gosta de frisar, Wilde Bentes guarda boas recordações da Polícia Militar, onde passou a maior parte da sua vida, mas avalia que a corporação tem dois grandes problemas: falta investimento e profissionalismo "Até acho que saí mais da PM, em função desses problemas, pois eu debatia muito o desvio de finalidades", avalia o coronel, analisando que o soldado, ao ingressar na Polícia Militar, vai com a intenção de pegar um bico fora ou ficar à disposição de uma secretaria, de algum órgão, para aumentar seu soldo e não se dedica com exclusividade para as atividades da Polícia, quando ele deveria estar na rua, prevenindo a ação.

Segundo o coronel, se for comparado o salário de um militar com o de um civil, que está exercendo função equivalente, chega-se à conclusão que ele não está ganhando tão mal, ressaltando, entretanto, que o militar coloca em risco a vida dele, da família e ainda está sujeito à hierarquia e disciplina rígidas.

Analisando as denúncias, feita em cadeia nacional de televisão, por um policial de São Paulo, acusando que desde o coronel até o soldado cheira cocaína, Wilde Bentes interpreta que, infelizmente, o ser humano está passivo desses erros. "Eu concordo que o militar, que tem o dever de guardar, de proteger e de garantir a segurança de outras pessoas, não pode ter problema nenhum como corrupção, contravenções e uso de drogas", analisando que o policial deve fazer todos os
anos, exames antidoping, de sanidade mental e psicológico, porque ele vai usar uma arma.

Hoje ele pode estar bem, daqui a um ano, pode ser outro, completamente diferente. O comando precisa encontrar uma saída para adaptação do policial que, em alguns casos, mora ao lado do marginal. Para isso, ele defende a construção um sistema de habitação para PMs.

Quando aconteceu (sic) as denúncias de corrupção dentro da Polícia Militar, Wilde Bentes já tinha pedido a sua aposentadoria. "Eu fiquei surpreso e me prontifiquei a
colaborar, mas nunca me chamaram a dar algum depoimento. Eu não sou a palmatória do mundo, mas sempre procurei desempenhar as minhas funções com respeito, com dignidade, com competência e, sobretudo, como exemplo a ser seguido”. Eu até hoje falo com o Governador, pois já trabalhei junto com ele, me dou bem com os Secretários.

Depois de 33 anos de trabalho, Wilde Bentes se diz feliz e realizado profissionalmente, embora sinta falta da caserna. "Nunca tirei licença, sempre me dediquei exclusivamente para o meu trabalho, procurando sempre fazer o melhor, bem feito”. Indagado se tem vontade de voltar para Óbidos, já que está aposentado, Bentes diz que sim, mas seus filhos não querem porque estão fazendo Faculdade. Se tivessem que sair de Manaus, escolheriam Fortaleza.

Em 1996, já como coronel, Wilde Bentes foi convidado para ser o chefe do Estado-Maior da Polícia Militar, onde exerceu a função durante oito meses, na administração do governador Amazonino Mendes. Em 14 de março de 1997, para sua surpresa, já que não tinha pedido cargo a ninguém, leu no Diário Oficial sua nomeação e quando chegou ao Palácio do Governo já era o novo Comandante-Geral da Polícia Militar do Amazonas. Ficou nessa nova missão até novembro e, em dezembro do mesmo ano, novamente foi surpreendido com a sua nomeação para secretário de Estado Chefe da Casa Militar. "Em março de 1999, a meu pedido, fui transferido para a reserva, por tempo de serviço”, finaliza o futuro médico, balançando em sua poltrona, saboreando uma “loura gelada”, socialmente, no bom sentido, claro.

 

CORONEL WILDE BENTES (2)

 
Coronel Bentes, na posse
do comando-geral da
PMAM
Para recordar o coronel Wilde de Azevedo
Bentes, ex-comandante da Policia Militar do
Amazonas, reproduzo a página do jornal
TRIBUNA DE ÓBIDOS, que circulou no 2º
trimestre de 2000, editado pelo Paulo Onofre
Lopes de Castro, para saudar o
“filho da terra”.
Como é fácil observar, desde a circulação,
mais de uma década já se escoou e muita
água passou sob a ponte Rio Negro, de
sorte que esta transcrição sofreu pequenos
acertos de rumo.
Esta é a segunda parte.

A INFÂNCIA

Wilde Bentes teve uma infância normal, como todas as crianças de sua época.
Estudava e ajudava o pai que era comerciante, mas como não poderia deixar de ser,
ele fugia para tomar banho na beira do rio, ali perto do comércio do seu Isaac
Hamoy. Sua mãe, July de Oliveira Bentes, era muito religiosa e lhe ensinou, com
austeridade, os primeiros mandamentos da Lei de Deus. Seu pai, Romero de
Azevedo Bentes, mais conhecido por Nerico, era cartorário, virou escrivão do
Ofício.
Depois de aposentado, abriu um comércio no flanco direito do Mercado Municipal,
onde continuou trabalhando. "Tínhamos uma fazenda lá no município de Oriximinã,
no igarapé dos Currais, e todos os finais de ano íamos passar as férias por lá,
pescando, tomando banho, comendo ovos de tracajá - naqueles tempos, podia",
lembra.

Dos tempos de garoto, Wilde Bentes se lembra da professora Glória com quem
aprendeu as primeiras lições. "Para reforçar os estudos, meu pai me botou na
aula particular com o professor Manduca, onde eu apanhei muitos “bolos” na aula
de matemática. No primeiro dia na nova escola, foi tudo muito bem, no segundo
dia, sem aviso nenhum, já houve uma sabatina. Eu cheguei em casa com as mãos
inchadas", recorda sorrindo e olhando para as mãos, reconhecendo que
"foram esses “bolos” de palmatória que me motivaram a estudar muito bem
matemática e, graças a Deus, eu nunca mais apanhei um bolo lá. Hoje eu já não
concordo com esse tipo de educação", raciocina calculando.

Seus amigos daquela época era o Max Chocron, que hoje é médico. Em Manaus,
ele se reúne sempre com o Pedro Gato, com o Dr. Nivaldo e a Zeny. "Há quatro
anos a minha filha sofreu uma queda de motocicleta e o Dr. Nivaldo foi quem
tratou dela, em sua clínica", agradece, sem censurar a filha, lembrando que na
sua época só existiam lambretas e a sua brincadeira de moleque era correr e
brincar de manja dentro d´água.

Como seu pai tinha um comércio no mercado, próximo do rio, ele tinha que sair
escondido para uma parte do rio que ficava depois do começo do Hamóy.
"A turma dessa época me chamava de Bigú. Eu não sei o motivo desse apelido.
O meu irmão mais velho, que hoje é advogado, já era chamado de Bigú e, como
eu era parecido com ele, também me tornei Bigú".

"Nós éramos nove irmãos, eu sou o oitavo deles. Atualmente tenho dois irmãos
em Óbidos, o Waldir, que é aposentado do Cartório, e o Wilton, que é pecuarista;
em Belém moram o Wilson, a Nilda, a Nilma, o Wulfio, o Wulfir. A Nelci já é
falecida", recorda Bentes. (segue) 

16 de janeiro de 2014

CORONEL WILDE BENTES (1)


Para recordar o coronel Wilde Azevedo Bentes,
ex-comandante da Policia Militar do Amazonas,
reproduzo a página do jornal TRIBUNA DE
ÓBIDOS, que circulou no 2º trimestre de 2000,
editado pelo Paulo Onofre Lopes de Castro, para
saudar aquele “filho da terra”.
Como é fácil observar, mais de uma década já se
escoou e muita água passou sob a ponte Rio Negro,
de sorte que, esta transcrição, sofreu pequenos
acertos de rumo. E será apresentada em três
capítulos ou partes.
 
PERFIL
 
Quando criança, queria ser padre. Após um ano e meio no Seminário, longe
de seus parentes e amigos, ele descobriu que a sua verdadeira vocação não
era o clero: queria ser um grande Administrador de Empresas. Voltou a
estudar em sua cidade natal, Óbidos, para continuar os estudos e depois foi
para Belém, em 1965, onde concluiu o científico no Colégio Paes de Carvalho,
onde tinha como colega de classe o ex-governador Jáder Barbalho. Em
seguida passou no vestibular - botou a vitrola pra tocar - e fez uma grande
festa, mas a alegria durou pouco.
 
A princípio ele não queria seguir a carreira das armas, mas o destino lhe
reservou uma das mais brilhantes carreiras que um militar pode almejar
dentro do seu staff  curricular. O Exército fez prevalecer suas normas
constitucionais, em honra à pátria. Assim, mesmo contra sua vontade foi
prestar o serviço militar obrigatório. Fez curso de Guerra na Selva, comeu
tapuru de coco, cobra assada na brasa, papagaio cozido no cantil e tomou
muito leite de amapá (látex medicinal, extraído de uma árvore da região,
aplicado no tratamento de asma e afecções pulmonares), para matar a fome
em plena selva amazônica. "Foi uma das experiências mais marcantes da
minha carreira, apesar de inusitada", relembra o protagonista desse
episódio.
 
No Exército, em Belém, foi aspirante a oficial e tenente. Na sua carreira
militar fez inúmeros cursos de especialização, tanto no Exército quanto na
Polícia Militar, dentre os principais, destacam-se o Curso de Minas,
Explosivos e Destruições, no Exército, no Rio de Janeiro; o Curso de
Aperfeiçoamento de Oficiais, em Recife, e o Curso Superior de Polícia, em
Fortaleza.
 
Em Manaus, foi comandante do Esquadrão de Cavalaria da Polícia Militar e,
em homenagem à cidade onde nasceu, Óbidos, deu o nome do 1º Pavilhão
daquela unidade de Pauxi; comandante da Polícia Militar; chefe do
Estado-Maior da Polícia Militar e secretário de Estado no governo de
Amazonino Mendes.

Hoje o ex-seminarista, e ex-futuro-administrador, é o ex-coronel (sic) PM
Wilde de Azevedo Bentes que se aposentou com 33 anos de serviços
Prestados e, aos 53 anos de idade, está se preparando para ser médico
geriatra.
 
Sua esposa, dona Anagrace Marques Bentes é amazonense - filha de um
fazendeiro do Paraná de Dona Rosa, seu Marques Paraguaio -, mas morou
dez anos em Óbidos, onde estudava como interna no Colégio São José,
praticamente atrás da casa do então estudante Wilde Bentes; aquele que
seria seu futuro esposo, mas só se conheceram em Manaus, na Praça da
Saudade. Assim quis o destino. Do casamento, que aconteceu em 1969,
nasceram três filhos: Márcia Angélica, 29 anos; Ana Cristina, 26 e
Eduardo 23.  (segue)

15 de janeiro de 2014

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA (2)


Santa Casa de Misericórdia - Manaus
Pequenas notas jornalísticas produzidas pelo extinto mestre Mário Ypiranga Monteiro (*) sobre a Santa Casa de Misericórdia, a respeito do aniversário deste hospital, que se encontra “fechado pra balanço”. A publicação comporta duas partes.
 
Naquele 1872, a epidemia da febre amarela obrigou o governo provincial a construir um lazareto no Cacau-Pirera, e a reclamação a favor da construção de um nosocômio continuava. Deve-se ao presidente da província Dr. Domingos Monteiro Peixoto, em 1872, encetar o movimento pró-construção do hospital. Fez ele uma convocação, à qual compareceram os tenentes-coronéis Clementino José Pereira Guimarães, João José de Freitas Guimarães, João Marcelino Taveira Pau Brasil e José Coelho de Miranda Leão; tenente Emílio José Moreira; comendadores Francisco de Sousa Mesquita e Alexandre Paulo de Brito Amorim; comerciantes José Antônio da Costa, José Teixeira de Souza e Manuel Alves dos Santos, que até o dia 12 de outubro haviam subscrito a importância de 4:300$000 réis (Cr$ 4,30). Além dessa subscrição houve outra, popular, que arrecadou 12:759$590 (Cr$ 12.759,59).
O terreno para a construção do prédio foi solicitado pela Província ao Ministério de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, sendo concedido por Aviso de 26 de outubro de 1873. O ato de 2 de janeiro de 1873 autorizou e empregar-se pelo orçamento provincial, a quantia de 40:000$OOO (Cr$ 40,00). O lançamento da pedra fundamental verificou-se a de janeiro de 1873 com as solenidades do estilo e comparecimento das autoridades e do povo. Mas não foi na rua Dez de Julho, e sim no primitivo local escolhido, ou seja, à antiga praça de Uruguaiana, nomenclatura histórica desaparecida por influência de nome estrangeiro. Como vem acontecendo nesta heroica cidade de mortas tradições e de vivas e suspicazes reformulações com que a história do futuro há de ajustar contas.
No mesmo ano de 1873, por intermédio do comerciante Francisco de Souza Mesquita, foram encomendados em Portugal os blocos de cantaria (parte). A 15 de fevereiro eram dispensado, da comissão encarregada da construção do próprio os cidadãos tenente-coronel João Marcelino Taveira Pau Brasil e tenente Emilio José Moreira, substituídos pelos capitão de mar e guerra Nuno Alves Pereira da Meio Cardoso e tenente-coronel Maximiano de Paulo Ribeiro. Então já se estava pensando em localizar o hospital noutra parte. E surge a questão do desapropriamento do terreno. Os proprietários foram indenizados na quantia de 2:785$000.

O projetO de orçamento do edifício esteve a cargo do engenheiro Dr. João Carlos Antony, e contava o prédio com 64 janelas no pavimento térreo e outras tantas no superior. As ombreiras, vergas e peitoris eram de mármore branco (calcário de Lisboa é o que é, a exemplo das colunas do prédio da Prefeitura Municipal, antigo Palácio do Governo e do Colégio Estadual do Amazonas, antigo Liceu Provincial).

Arremataram as obras de construção dos alicerces, a 22 de fevereiro de 1873, os pedreiros João Fernandes e Antônio Luís Moreira. Mas a pedido dos arrematadores, o contrato foi rescindido por portaria de 7 de março. Postas as obrasnovamente em licitação, arremataram Manuel Martins Pereira & Cia., cujo contrato é de 1º de maio de 1873. Fizeram todos os alicerces à razão de Cr$ 19,80 (?) o metro cúbico, mas a cal foi fornecida pela Província. Iniciaram a 12 de maio e terminaram a 15 de setembro.

Muitas das pessoas que subscreveram a lista para a construção do Hospital de Caridade ou Santa Casa (os nomes se confundem depois nos papéis oficiais), não pagaram. O comerciante José Francisco Monteiro, do rio Madeira, contribuiu com Cr$ 1,47 (melhor dizer 1:470$000).

Até 1876 as obras se arrastaram, à dependência do estado financeiro da Província. Deste ano em diante, inclusive, teve início a construção do pavimento superior. Não foram concluídas as obras que dizem respeito às partes confinantes com as ruas de José Clemente e de Lobo d´Almada, ficando reservadas a pequeno cemitério. Em 1894-98 ainda aparecem editais pedindo propostas para a terminação do edifício, que continua inconcluso. O paredão foi feito nas gestões dos Drs. Eduardo Gonçalves Ribeiro, Fileto Pires e coronel Ramalho nior, obedecendo ao mesmo estilo dos do Teatro Amazonas, Palácio da Justiça e Reservatório de água.

Somente depois que indicamos a lei de 12 de maio de 1870, que autorizou mandou construir o hospital, é que o articulista de domingo, 16 de julho, se favoreceu dela e fez bem. Mas posto que oferecendo subsídios valiosos, vincula-se ainda ao orçamento de 1872 (lei nº 244, de 27 de maio), que dota de oitenta contos de réis o novo hospital e escolas de ensino primário na capital.

Não me parece que seja novidade. O orçamento financeiro para 1871 (lei nº 219, de 20 de maio), manda aplicar a importância de noventa e dois centos de réis na construção de uma igreja na freguesia que mais necessitar, casas para escolas de ensino primário do sexo feminino na capital e na construção do Hospital de Caridade, não cabendo, portanto, nenhuma prioridade nesse aspecto da questão ao presidente Clementino José Pereira  Guimarães, e, sim, ao presidente general José de Miranda da Silva  Reis. Aliás, aos deputados provinciais, como consta dos "Anais da Assembleia Provincial".

A propósito de Henrique Antony (cuja naturalidade ainda é duvidosa), o trabalho pioneiro, pesquisa realizada entre os membros da família, é o de Lázaro Baumann, “Os Antony na História - esboço biográfico de Henrique Antony”, publicado na revista “Vitória-Régia”, ano I, nº 4, Manaus, abril, 1932. Desse trabalho tirei cópia autêntica, que ofereci a Arisfófano Antony. Deve de existir entre os seus papéis, sem dúvida.

Nota pessoal - (1) não concordo com a conversão monetária estabelecida pelo autor, entretanto, não disponho de recursos para a correção. (2) concordo com o comentário dele sobre a mudança de nome de ruas e avenidas e outros becos empregados em Manaus. Também não disponho de recursos para mudar isso, o nome dele atropela a velha e tradicional rua Recife.


A Notícia. Manaus, 17 de julho de 1972