CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de novembro de 2013

HISTÓRIA CARETA DE MANAUS



Ramalho Junior
A crônica abaixo foi extraída do livro Histórias caretas de Manaus, do finado Mário Ypiranga Monteiro. O personagem, bastante identificado na história do Amazonas, por ter sido governador do Estado (1898-1900), sucessor de Fileto Pires. Coube-lhe a honra de inaugurar o Palácio da Justiça, na avenida Eduardo Ribeiro. De fato, possuía traços favoráveis ao trabalho de um caricaturista. Morreu no Rio de Janeiro.
 

CARA DE LEÃO, BARBA DE BODE
Na parede do fundo do "Café Leão de Ouro" havia um grande quadro óleo sobre tela, assinado pelo pintor popular Cavalcanti, o mesmo que pintava as cenas do teatrinho "João Redondo”, do Colégio Salesiano. Cavalcanti era um curioso, pintava, mas não conhecia desenho geométrico nem o senso das proporções.
O quadro representava um leão africano de juba monumental inscrito na letra "C" de café, em atitude um tanto indefinível, talvez de espera, de alerta. O que era engraçado e chamava logo a atenção era a cara do bicho.
Uma fisionomia séria de "rei", mas a barba era caprina, contrariando a natureza da espécie, que lhe deu bigodes, mas não barba espessa. E então um daqueles críticos de botequim, que os havia ontem mais do que hoje, descobriu ser a cara do coronel José Cardoso Ramalho Júnior cagada e cuspida, o que de fato era.
Assediado, o Cavalcanti contou que o coronel Ramalho Júnior, quando governador, contratara seu pai, também artista pintor, para fazer o "céu" da sala de visitas de sua casa na rua de 24 de Maio (a casa, de estilo, foi posta a baixo, depois de sediado ali o convento dos Beneditinos com igreja-capela). O coronel nunca pagou o serviço, pois foi um dos maiores caloteiros que Manaus possuiu.
 

28 de novembro de 2013

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO AMAZONAS

Há 15 anos, em 26 de novembro, a Assembleia Legislativa do Estado, aprovando uma Emenda Constitucional, concedeu a emancipação do Corpo de Bombeiros, então subordinado à Polícia Militar do Amazonas. Essa decisão veio coroar a luta dos Bombeiros em prol da autonomia; foram dez anos, depois que a Constituição Estadual foi promulgada.

Quartel do comando-geral dos Bombeiros
QDesde então a expansão vem sendo observada e, melhor ainda, usufruída pela sociedade; ontem, apenas a de Manaus, mas hoje, em bom número de municípios. A solenidade ocorreu na sede principal do CBMAM. Programada para o pátio do quartel, a chuva caída pouco antes, obrigou que os convidados se reunissem no Auditório local.
Na ocasião, o comandante-geral dos Bombeiros proclamou o contentamento que segue estimulando os soldados do fogo amazonenses. O documento vai abaixo transcrito.

Ordem do Dia
"Missão dupla o dever nos aponta: Vida alheia e riquezas salvar".
Com estas palavras, extraídas do Hino do Soldado do Fogo, exalto, juntamente com os nobres integrantes do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Amazonas, que completa 137 anos, e com as graças de Deus, o compromisso histórico da corporação com a sociedade amazonense.
Criado em 1876, por ordem do então presidente da Província, Nuno Alves Pereira de Mello Cardoso (oficial da Marinha, fundador da Capitania dos Portos), inicialmente sem caráter militar, dirigido pelo então diretor de Obras Públicas, coronel Leovegildo Coelho, nosso Corpo de Bombeiros foi o segundo organismo do gênero estabelecido no país, sendo o primeiro o Corpo de Bombeiros Provisório da Corte, criado em 2 de julho de 1856, no Rio de Janeiro, pelo Decreto nº 1.775, do Imperador Dom Pedro II, patrono dos Corpos de Bombeiros do Brasil.
A natureza militar do serviço só foi concebida no governo de Eduardo Ribeiro (1892-1896), quando da subordinação ao Batalhão Militar de Segurança, a PMAM de nossos dias. Após várias permutas de subordinação entre o Estado e o município da Capital, em janeiro de 1973 retornou à esfera do Estado sob a administração da PMAM.
Depois de um quarto de século subordinada à PMAM (1973-98), o Corpo de Bombeiros, em 26 de novembro de 1998, conquistou sua autonomia, tanto operacional como administrativa, desvinculando-se da briosa Polícia Militar do Amazonas, passando à denominação de Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM).
Os desafios da jornada foram enormes, porém, maiores foram as conquistas que seguiram e nos trouxeram até aqui.
Durante esse período, muitos foram os integrantes da corporação, cuja dedicação foi determinante para sua perenidade. Homens abnegados, que empenharam suas vidas com coragem e ousadia, a despeito de qualquer dificuldade ou perigo, para bem servir à sociedade nos diversos momentos de angústia e desespero. A esses heróis do passado, deixamos aqui registrado nossos sinceros reconhecimentos.
Enalteço também os relevantes serviços prestados pelos atuais integrantes, bombeiros militares e funcionários civis, motivos pelos quais os parabenizo e concito-os a permanecer com a mesma perseverança, para que possamos entregar aos futuros Soldados do Fogo uma corporação forte e coesa, na certeza de que, a cada geração, estágios ainda mais elevados possam ser alcançados.
Nesse momento de comemoração expressamos nossos agradecimentos ao Governo do Estado, nas pessoas do Excelentíssimo Senhor Governador Omar Aziz e do Vice-Governador Professor José Meio, pelo reconhecimento da importância da Corporação para o bem-estar da sociedade. Reconhecimento esse refletido nos investimentos tanto em viaturas e equipamentos como também na admissão de novos Soldados do Fogo.
Agradecemos também ao coronel Paulo Roberto Vital de Menezes que, como titular do Sistema de Segurança do Estado, no qual a corporação está inserida, tem disponibilizado o apoio necessário às ações do CBMAM.
Com a compreensão de que na vastidão de nosso Estado não se atua de forma individualizada, saliento a importância das parcerias com as Forças Armadas e com os demais órgãos Federais, Estaduais e Municipais que, tantas vezes, compartilharam conosco operações de busca e salvamento, resgate e prevenção em todo o território amazonense.
Aos agraciados com a medalha Imperador Dom Pedro lI, a maior comenda concedida pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, nosso sincero agradecimento e reconhecimento pelas relevantes contribuições dispensadas a essa Corporação e à sociedade amazonense.
Aos Bombeiros Militares agraciados com medalhas de tempo de serviço nossos parabéns pela distinção merecida ao longo de anos de dedicação ao trabalho.
Enfim, nesta data, em que tempos muito a comemorar e nos orgulhar, reforçamos outro compromisso do Soldado do Fogo, o de que – "Nenhum passo daremos atrás", no momento de atender mais uma vez o chamado de socorro.
FOGO!!!

Antônio Dias dos Santos - Coronel QOBM
Comandante-Geral do CBMAM



14 de novembro de 2013

À SOMBRA DOS IGAPÓS (3)


GE Marechal Hermes (extinto), sede do NPOR
Nesta crônica de Waldir Garcia, sacada de seu livro À sombra dos igapós (Manaus: Imprensa Oficial, 1987, com ilustrações do artista Edemberg Jr.), o autor descreve a esdruxula situação de um integrante do NPOR. Como se sabe, esta unidade de ensino do Exército foi inaugurada em  Manaus, por ocasião da II Guerra Mundial. Mais precisamente, em 1942, portanto, há mais de 40 anos. No entanto, esteve desativado entre de 1945 a 1965.

O personagem desta página é o saudoso Vicente de Mendonça Júnior, que depois de desistir do curso, conquistou em 1949 a graduação na Faculdade de Direito do Amazonas. Tornou-se um advogado competente, tendo prestado serviço ao governo do Estado.  

Relembrando o NPOR, aproveito o ensejo para convocar seus integrantes para organizarmos um dicionário com os nomes dos ex-alunos.  

A DIREITA VOLVER DE MENDONCINHA
Mendoncinha sempre foi estúrdio e pávulo. Quando jovem, integrava o time de futebol, que denominaram de Itacoatiara, ao lado de Benjamim, João e Paulo Onety. Surravam no futebol, com frequência, ao Amazonas Futebol Clube, onde pontificavam os famosos jogadores Secundino e Parimé, que enalteceram o esporte bretão na Velha Serpa.
Mendoncinha quando veio para Manaus estudar, trouxe também o carinhoso epíteto de "Tim-Tim", mas aqui, pouca gente sabia disso, pois o singular apelido foi conquistado graças à forma como imitava a Matintaperêra, nas proximidades do aningal do Jauari, quando amedrontava os supersticiosos moradores para ficar a sós com uma cutuba que ali residia.

Em 1942, a Segunda Guerra Mundial continuava acirrada na Europa e na Ásia. Fundado o NPOR de Manaus, nele ingressaram os estudantes em idade de prestar o serviço militar, inclusive Mendoncinha, que, por sinal, aluno inteligente, obtinha notas elevadas em Topografia e Serviços Gerais, menos na prática de Educação Física, Ordem Unida e Tiro, porque quando jogador de futebol em sua terra natal, e no "Olho Mágico", aqui em Manaus, time organizado por Domingos Mourão e o português Antônio Coimbra, e que, nos domingos, treinava no campo do Parque Ajuricaba, onde o time chegava às sete da manhã, no saudoso bonde da linha de "Flores", Mendoncinha sofreu uma potente pancada no joelho esquerdo, danificando-lhe o menisco, contusão que o fez ficar diminuído em sua movimentação. Um reumatismo impiedoso, fê-Io sofrer ainda mais, até hoje.
Aconteceu que certa vez, no NPOR, num exercício de Ordem Unida, comandado pelo tenente Aníbal Gurgel do Amaral, as vozes de comando eram dadas assim: PeIotão, sentido! Ordinário, marcha!" E depois de alguns passos cadenciados, vinha a segunda voz de comando:
"Direita.a.a.a - Volverrr!" Todos voltavam para a direita, menos Mendoncinha, que saía em direção oposta.

O tenente Aníbal chamava Mendoncinha à ordem, corrigia-o severamente. Segundo tempo. As mesmas vozes de comando se repetiam. Agora, assim: "Esquerda.a.a., Volverr!" e Mendoncinha voltava-se para a direita. Isso irritava bastante o instrutor, que resolveu fazer uma parada para ensinar individualmente Mendoncinha, sob as vistas hilariantes e galhofantes de seus colegas Roberto Caminha, Octávio Mourão e Francisco Monteiro de Paula, o "Salgadinho".
Na praça São Sebastião, o tenente Aníbal desenhou na calçada o itinerário a marchar, e com flechas indicativas da direita e da esquerda. E começou a dar as vozes de comando, e Mendoncinha sempre errando.
O tenente irritou-se demais, e já bastante encabulado com a atuação do aluno, voltou-se para Mendoncinha e disse: "78 – esse era o número dele – você até parece recruta de Itacoatiara! De onde você é, 78?" - Mendoncinha respondeu trêmula e pausadamente: "Sou de ltacoatia... a... a... a... ra, seu tenente."

O tenente Aníbal puxou os cabelos e disse, desabafando sua irritação: "Eu logo vi... i... i... i, 78?! Só podia ser, não é?" A que Mendoncinha respondeu convicto: "É, seu Tenente... e do bairro de Jauari"...
Dias depois, noutra instrução de tiro ao alvo, a posição determinada pelo instrutor, tenente Facó, era de joelhos. Todos os fuzis, nas mãos dos alunos, em posição de tiro. Mendoncinha ao lado de Agobar, não conseguiu ajoelhar-se, em virtude do malfadado reumatismo, mas agachou-se, para ficar na posição de tiro. O tenente instrutor ao inspecionar a posição dos alunos, notou que Mendoncinha não estava ajoelhado, mas agachado, e determinou: "Seu 78, não atrapalhe a instrução! Saía daí! Mendoncinha, muito triste e acanhado, saiu do local e nunca mais voltou ao NPOR.
Foi cumprir o serviço militar no velho 27º BC, onde chegou até à graduação de cabo.

12 de novembro de 2013

À SOMBRA DOS IGAPÓS (2)


 
Capa do livro
Waldir Garcia, juiz e educador, nascido em Silves (AM) registrou no livro de crônicas À sombra dos igapós (Manaus: Imprensa Oficial, 1987) uma série de fatos não apenas de sua cidade natal, mas igualmente de sua atividade em Manaus. O livro traz ilustrações do competente artista Edemberg Jr.
Catei deste livro a crônica abaixo, para relembrar o saudoso professor e eminente magistrado.

O NOSSO VELHO GYMNASIO
Ginásio Amazonense D Pedro II, 1936
Domingo passado fiquei algum tempo observando o prédio do nosso velho Gymnasio Amazonense Pedro II, venerável monumento arquitetônico da avenida 7 de Setembro, onde fiz o curso ginasial. Corroído pela ação deletéria do tempo, com acentuados ares de abandono, grades circundantes quebradas e até um pé de apuizeiro nascente em uma de suas paredes verifiquei, há algum tempo atrás, e fiquei parado, estático, passando a recordar principalmente o ano de 1936, quando era secundarista, e o Gymnasio tinha a dirigi-lo a figura nunca esquecida de mestre e amigo: o professor Carlos Mesquita, que nesse ano promoveu uma festa maravilhosa comemorativa do cinquentenário de sua fundação.

Evoquei, então, meus colegas do 2º ano ginasial, com os quais mantinha maior ligação de companheirismo e estudos: Alípio Meninéa Netto, Antero Riça, Adiles e Lais Galvão Bivar, Asdrubal Pedrosa de Oliveira, Carlos Lopes Rodrigues, Claudio Coelho, Friné Benayon, Guilherme dos Santos Ferreira, Graciliano Muniz, Hugo Garcia, José Bezerra, Lúcio Cavalcante, Manoel de Leiros Garcia, José Alonso, Mário Fernandes da Costa (o Mário Broa), Moisés Benarrós Israel, Murilo Gama Rodrigues, Rodolfo Guimarães Vale e Yolanda Pinto.

Recordei nossas equipes desportivas de futebol e basquete, aguerridas e sempre triunfantes. No futebol pontificavam: Yano Monteiro, goleiro já famoso, seguido de José Bezerra, Manoelito, Hugo, Claudio Coelho, Zé Bento e, sobretudo, René Monteiro e Minos Azevedo, famosos goleadores da época.

No basquete brilhavam Clóvis e Clodomir Coelho, Jurandir Costa (o Bacurau), Silvio Tapajós, Paulo Saldanha e muitos outros. Recordei a rivalidade então existente entre os alunos do Colégio Dom Bosco e do Gymnasio e lembrei a briga havida entre Geraldo Coimbra, do Dom Bosco, e Mário Broa, do Gymnasio, dois gigantes, que se defrontaram de igual para igual sem haver vencido nem vencedor.
Mas evoquei, sobretudo, a figura de nossos velhos Mestres, que saudosamente passo a enumerar: Álvaro Botelho Maia, Pe. Manoel Monteiro, Carlos Mesquita, Vivaldo Palma Lima, Antônio Teles de Sousa, José Joaquim Martins Santana, Ricardo Mateus Barbosa de Amorim (o velho Buda, como respeitosamente o chamávamos), Pe. Israel Galdino de Sousa, Aurora Ramos de Moraes Rego, Augusto Rocha, Maria Augusta Bacelar, Maria Nogueira Marques, Manoel Bastos Lira, Arthur César Ferreira Reis, Antônio Conte Teles de Sousa, Pedro Silvestre da Silva, Maria Luiza de Saboya, Paulo de Mello Rezende, Alcides Nogueira, Maria do Carmo Samico, o instrutor militar Sandoval Amorim e, sobretudo, o inefável Agnello Bittencourt, o qual, de todos os mestres que tive nessa época, foi o que me deixou a mais nítida recordação e exemplo, pela sua postura elegante e sóbria, educador paradigmático, cuja presença em sala de aula ou fora dela, por si só, imprimia respeito e veneração de todos seus alunos.

Sua voz mansa, paternal, explicações objetivas e pragmáticas, sem contar com os recursos pedagógicos de hoje, eram suficientes para um proveitoso aprendizado da matéria que lecionava. Foi professor de duas gerações de Garcia, de meu pai, formado em 1912, e da minha geração. Tornei-me amigo de seus filhos Mário, que militou comigo na Magistratura, Agnello Filho e Ulisses, a quem devoto sincera admiração pelos trabalhos intelectuais que produz, e pelo amazonismo que defende e venera.

À época do cinquentenário do Gymnasio Amazonense Pedro II, em 1936, seu então diretor, professor Carlos Mesquita, publicou a seguinte Mensagem:

"Ao comemorar o Ginásio Amazonense Pedro II o seu cinquentenário, eu quero saudar os trezentos e cinquenta ginasianos que cursam suas aulas, animando-os, incentivando-os ao estudo que eleva, ao bom comportamento que enobrece. Unamo-nos todos – professores e alunos – e visemos a defesa do Ginásio, que é a do Amazonas, que é a do Brasil. Trabalhemos, estudemos, legando, assim, às gerações ginasianas futuras, o exemplo dignificante dos amazônidas de hoje.
Avante, ginasianos amazonenses! Pelo Ginásio! Pelo Amazonas! Pelo Brasil!
a) Carlos Mesquita - Diretor
A Mensagem do professor Carlos Mesquita, supratranscrita, anima-nos a lutar pelo soerguimento do velho Gymnasio Amazonense Pedro II. Anima-nos e conforta-nos, sobremodo, a alvissareira notícia que nos foi transmitida pela atual secretária de Educação e Cultura e presidente do Conselho Estadual de Educação, Dra. Freida Bittencourt, de que o dinâmico governador Gilberto Mestrinho mandará, em breve, soerguer o prédio do nosso velho Gymnasio Amazonense Pedro II.

11 de novembro de 2013

À SOMBRA DOS IGAPÓS


Capa do livro
Waldir Garcia, juiz e educador, nascido em Silves (AM) registrou no livro de crônicas À sombra dos igapós (Manaus: Imprensa Oficial, 1987) uma série de fatos não apenas de sua cidade natal, mas igualmente de sua atividade em Manaus. O livro traz ilustrações do competente artista Edemberg Jr.

Bacharel pela Faculdade de Direito do Amazonas (turma 1946), Garcia aposentou-se como magistrado, depois de passar pela Auditoria Militar da PMAM, na condição de juiz. Foi nesta atividade castrense que o conheci. Depois, ele foi guindado a secretário de Estado da Educação pelo governador José Lindoso (1979-82).


Mestre e diretor da então Escola Técnica de Manaus, Garcia escreveu várias crônicas sobre este estabelecimento de ensino. Tomei de seu livro a crônica abaixo para relembrar o saudoso professor e eminente magistrado.

Contribuição de Silves para os eventos históricos pátrios


No dia 7 de setembro fluente encontrava-me em Silves em companhia dos diletos amigos José Menezes Ribeiro e Afonso Lima e de seus filhos Marco Aurélio e Edson, e assisti ao desfile dos estudantes saracaenses pelas ruas principais e o enaltecimento da efeméride feito por um professor local. Os estudantes, em fila e em ordem, empunhavam bandeirinhas do Amazonas e do Brasil, sob a entonação de hinos patrióticos emitidos por possante alto-falante.
Ilustração de Edemberg Jr.
Aquele acontecimento tocou-me a sensibilidade cívica e glebária, e, naquele momento, comecei a recordar a história da fundação de Silves em meu solilóquio, a coragem de frei Raimundo da Ordem das Mercês ao enfrentar corajosamente os ataques dos caboquenas, bararurus e guanavenes; o grande massacre dos indígenas da região pelo ferocíssimo selvaticida Pedro da Costa Favela; a heroica resistência de Silves à investida dos cabanos; o alusitanamento do município por Melo Póvoas; o romance "O Missionário", de Inglês de Sousa, reconstruindo a vida pacata da cidade em excelente obra de ficção, que mereceu os mais destacados encômios da crítica nacional; o esforço de Lauro Garcia e de Renato Farias de Almeida para traçar-lhe o perfil histórico; para, enfim, deter-me em dois fatos que merecem ser recordados neste setembro, de tanta evocação cívica.
O primeiro deles é o que se refere à iniciativa da Câmara Municipal de Silves que, em 1818, instada pelo último governador colonial do Amazonas, o coronel Manoel Joaquim do Paço e percebendo que a Capitania tinha como dos males maiores que a infelicitavam a sujeição ao Pará, em memorial dirigido a D. João VI, solicitou a autonomia da Capitania do Amazonas, o que veio apressar a promulgação da Lei nº 582, de 5 de setembro de 1850, que elevou o Amazonas à categoria de Província.

O segundo fato foi a adesão de Silves à Constituição Política Portuguesa, narrado em substancioso trabalho de pesquisa histórica da lavra do conceituado, inteligente e culto historiador amazonense, que é o Dr. Geraldo de Macedo Pinheiro. Conta-nos ele:

"Dia 24 do mês de julho do ano da graça de 1823, o Brasil, nessa época, já se tornara independente de Portugal, mas a alvissareira notícia que empolgou o ânimo de todos os brasileiros ainda não chegara a Silves”.
"A longa distância que se encontrava das Cortes e os sucessos e motins políticos que tinham curso em Belém, concorreram para que em
junho de 1823 os habitantes de Silves jurassem obediência à Constituição Política Portuguesa, de conformidade com o que preceituava o decreto real de 10 de outubro de 1822."

"Na igreja paroquial de Nossa Senhora da Conceição, logo depois do cerimonial católico da missa cantada, como era de praxe naquele
tempo em todas as solenidades cívicas, foi processado o juramento solene, com a presença de todas as autoridades eclesiásticas, civis, militares, empregados públicos e do povo, perante as mãos sagradas do vigário Nuno Alves do Couto".

"As palavras que foram pronunciadas com ênfase transcreveu-as o escrivão da Câmara, Antônio R. Teixeira da Cunha, no auto que lavrou: Juro guardar, e fazer guardar, a Constituição Política da Monarquia Portuguesa, que acaba de decretar as Cortes Constituintes da mesma nação".

"Mais de 30 assinaturas constam do documento em foco, encabeçadas pelo vigário Nuno Alves do Couto, por si e como procurador de frei José Alves da Chagas e do padre João Pedro Pacheco. Seguem-lhe o cabo de esquadra da milícia, Alexandre Antônio Coimbra; o presidente da Câmara, Ciríaco Francisco; os camaristas João Evaristo Roiz, Preto e Felizardo Ferreira Gato; o substituto Manuel Antônio Gouveia; o procurador Pedro José Teixeira; o servente Aulete Antônio da Costa; o escrivão Antônio Lins Teixeira da Cunha; o arrecadador João Ramos de Oliveira, como procurador do juiz ordinário João José Dias; o tenente Crispim Lobo de Macedo como procurador do juiz substituto Joaquim da Fruta Chaves; o tesoureiro do selo Luiz José Coelho; os juízes de julgado Luiz José de Azevedo e Manoel Antônio Cidade; o capitão do 9º Regimento da 2ª linha, comandante no lugar Maués, Fabio José da Serra; ainda o tenente Crispim Lobo de Macedo; o alferes Henoch Friglono Peroglon Calle; o cavaleiro fidalgo da Casa Real Manoel da Silva Xavier; Luiz José de Azevedo, como procurador de d. Leonor da Cunha Xavier, o alcaide João da Costa, os porteiros João Francisco da Silva e Antônio Zacarias e, finalmente, os elementos do povo em número limitado".
Esses fatos tão significativos, sob o ponto de vista histórico, são o testemunho maior da contribuição de Silves para os eventos pátrios que se comemoram sob o mais caloroso entusiasmo cívico neste setembro canicular, revelando a disciplina e o patriotismo de um povo ordeiro e inflamado pelas nobres causas do nosso Amazonas e do Brasil.

9 de novembro de 2013

CANUDOS E A PM DO AMAZONAS (2)

Recorte de A Crítica, de 21 novembro 1958
Em comemoração ao Dia da Bandeira, que se comemora a 19 de novembro, o jornal A Crítica publicou “A História de uma Bandeira”. Reproduzo nesta data, para lembrar a solenidade que a Polícia Militar do Amazonas conduziu na quinta-feira (7), para recordar o retorno da expedição que marchou contra Canudos.
Pequenas notas sobre o evento canudense, de minha autoria, foram enfeixadas em um folheto, que foi graciosamente distribuído aos presentes e segue à disposição dos interessados.
 

A PM conserva uma Bandeira que tremulou em Canudos

DRAPEJANDO NA VANGUARDA DAS FORÇAS LEGAIS AINDA MOSTRA O SANGUE DOS QUE TOMBARAM NO CUMPRIMENTO DO DEVER – SEU COMANDANTE CONTA AO REPÓRTER O EPISODIO DE CANUDOS

 
“Sucedendo o marechal Floriano Peixoto, em 1894, o Dr. Prudente José de Moraes Barros, foi o primeiro presidente civil da República” – assim começou o coronel Cleto Potiguara Veras, comandante da Policia Militar do Estado, falando ao repórter sobre a participação da PM na Guerra de Canudos.

“Faço esse relato histórico para que possamos chegar ao ponto em que a corporação de que me orgulho em comandar, fez parte das páginas da História Pátria”.
E continuando: Prudente de Moraes esforçou-se pela pacificação do país. Cessou a Revolução Federalista e houve anistia geral; depois, porém, registrou-se a campanha de Canudos.

E explicou-nos o comandante da PMA: “Foi a luta contra um fanático, Antônio Conselheiro, que reunira num arraial uma multidão de sertanejos, os chamados “jagunços”, que obedeciam sem medir consequências, cegamente, ao Conselheiro, e enfrentavam vitoriosamente as expedições policiais do Exército, com artilharia, comandada pelo coronel Moreira Cesar, foi dizimada com seu chefe. Tornou-se necessária a ação de mais de cinco mil homens para, depois de grandes sacrifícios, ser arrasado o arraial, cujos defensores morreram todos”.

“Aí é que entra a Polícia Militar do Amazonas. No dia 4 de agosto, quarta-feira, de 1897 – assim discrimina o relatório do tenente-coronel Cândido José Mariano – frisou o nosso entrevistado – embarcou para a Bahia, com um contingente de 249 praças de pré e 24 oficiais e graduados, o então 1º Batalhão da Força Pública do Amazonas.

A missão da milícia amazonense era tomar parte nas operações que se realizavam em Canudos, onde um homem fanático instruía e guiava os sertanejos a manter guerrilhas em oposição ao governo de Prudente  de Moraes.

“A colaboração da tropa miliciana amazonense foi tão eficiente na manutenção da ordem além das fronteiras de seu Estado, que até hoje possui e conserva com troféu de batalha, a Bandeira Nacional que essa corporação carregou, quando fazia parte da vanguarda das forças que penetrara em Igreja Nova, em que se pode distinguir o furo de balas e o sangue dos companheiros tombados em combate, no último reduto dos jagunços de Canudos em que estes se renderam às forças legais”.

“Tempos depois recebeu a milícia amazonense num preito de gratidão da mulher baiana, pela conduta heroica mantida nas caatingas do Nordeste uma bandeira nacional bordada a ouro, que se encontra na sala de troféus e armaduras medievais desta corporação, juntamente com quadros de fatos históricos, obras de grandes pintores nacionais e estrangeiros”.

Também o povo paraense – disse o coronel Veras – prestou a sua homenagem aos heróis de Canudos, praças, graduados e oficiais da milícia amazonense. Gratidão aos 47 heróis tombados no cumprimento do dever, nas caatingas da Bahia. Consta de uma coroa de louros fundida em ouro”.

“O oficial que comandou brilhantemente a milícia amazonense na memorável campanha foi o bravo tenente-coronel Cândido José Mariano, acima citado”.

Notas:

Na entrevista do coronel Cleto, são perfeitamente identificáveis as lendas que “ainda” perduram no tocante a participação da PMAM na campanha de Canudos. Refiro-me às Bandeiras.

  1. A Bandeira Nacional conduzida pela tropa encontra-se marcada pela campanha. Já deveria ter sido examinada cientificamente para atestar se há sangue e pólvora no tecido.
  2. Já a bandeira bordada, não se trata de prêmio da “mulher” baiana. Mas, sim, das esposas dos oficiais amazonenses que seguiram para Canudos. Como a lenda grega, enquanto aguardavam os combatentes, teceram a Bandeira.
  3. Os troféus citados seguem no Museu Tiradentes, abrigado no Palacete Provincial.

8 de novembro de 2013

CANUDOS E A PM DO AMAZONAS


Saudoso quartel da PMAM, na
Praça da Polícia, em abril de 1973
A Polícia Militar do Amazonas conserva uma salutar tradição. A de relembrar a data do retorno da tropa que combateu em Canudos (BA). O evento aconteceu em 8 de novembro de 1897, um pouco depois do encerramento da Campanha de Canudos. São, portanto, 124 anos que este fato militar empolga os sucessores do tenente-coronel Cândido José Mariano.
Foi este o oficial que comandou a tropa amazonense pelos ínvios sertões baianos, que devolveu ao Tesouro estadual a verba restante recebida para a manutenção da tropa. Por isso, na solenidade antecipada para a noite de ontem, no quartel do Comando-Geral desta corporação, foi devidamente homenageado.

A solenidade foi presidida pelo secretário de Estado da Segurança, coronel PM Paulo Roberto Vital Menezes, e, na ocasião, foi lida a mensagem do comandante-geral da Força Policial, abaixo reproduzida.

Ordem do Dia do Comandante-Geral da corporação,
em homenagem ao retorno da tropa de Canudos.

Prezados senhores,

Foi no sertão nordestino onde a polícia militar do Amazonas travou uma batalha vitoriosa e triunfante, enfrentando rebeldes que tinham como líder Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido por "Antônio Conselheiro".
E, por esta razão, aqueles valentes e valorosos policiais militares que lutaram bravamente são lembrados e homenageados todos os anos, por todos os atuais integrantes da Polícia Militar do Amazonas. Por terem retornado de uma missão que ficou conhecida como a Guerra de Canudos.

Ocorreu no final do século XIX, entre os anos de 1896 e 1897; a localidade foi no interior da Bahia, em um local conhecido como arraial de Canudos; durou em torno de nove meses, mobilizando 12.000 soldados, oriundos de 17 estados brasileiros. Distribuídos em quatro expedições militares, que tinham a nobre missão de lutar e proteger a nação brasileira.
Conta Euclides da Cunha, no livro "Os sertões", que o fato iniciou-se por motivo do governador da época ter autorizado a cobrança de impostos aos habitantes dos municípios do interior da Bahia, com isso, a população se revoltou e deu-se início ao movimento que tinha como líder "Antônio Conselheiro".

A história registra que "Antônio Conselheiro", juntamente com seus seguidores, deslocou-se para o interior da Bahia e no município de Bom Jesus às margens do rio Vasa Barris, criaram a comunidade revolucionária de Canudos, e, como uma das ideias do líder era de emancipação, logo o movimento repercutiu em todo o estado da Bahia.
Após as três primeiras expedições federais terem sido derrotadas pelos seguidores de "Antônio Conselheiro", o governador do Amazonas, Fileto Pires Ferreira, atendendo à convocação do Governo Federal, determinou o envio de um contingente policial militar da Força Pública estadual, denominado de Batalhão Amazonas. Estava composto por 24 oficiais e 249 praças, sob o comando do tenente-coronel Cândido José Mariano, que partiu de Manaus em 4 de agosto daquele ano rumo à Belém e, posteriormente, aos estados do Maranhão e Pernambuco, alcançou seu destino em 24 do mesmo mês, quando foi integrado à  Brigada Policial que ali já se encontrava.

Durante os sangrentos combates entre os rebeldes e a tropa regular, muitas vidas foram ceifadas. Finalmente, em 5 de outubro, a campanha vitoriosa chegou ao fim, tendo o 1° Batalhão de infantaria da Força Estadual, retornado à capital amazonense, desembarcando aqui em 8 de novembro de 1897. Na ocasião, foi recebido e homenageado por numerosa plateia na tradicional Praça da Polícia, em uma emocionante manifestação popular ocorrida no estado do Amazonas.
Passado mais de um século, a campanha da Guerra de Canudos não representa apenas um acontecimento vitorioso da Polícia Militar do Amazonas, mas, sim, uma demonstração de coragem, disciplina e heroísmo de nossos antepassados, os quais em condições adversas do terreno lutaram em território hostil e desconhecido, contra forças movidas pelo fanatismo desvairado e amplamente conhecedor da situação terrena da localidade.

Nos dias de hoje, o espírito imortal dos pioneiros permanece nas ações desenvolvidas nos mais diversos rincões do Amazonas e da Pátria. Nos contingentes destacados continuamos a nobre missão de preservar a ordem pública, deixando viva em nossa memória a lembrança de que a grandeza desta instituição também foi concretizada com o sangue daqueles que, envergando sua farda, tombaram defendendo seus valores e seu pavilhão.
Esse exemplo não será esquecido. Permanecerá para sempre em todas as
ações desenvolvidas pela Polícia Militar do Amazonas. Fica aqui registrado o nosso reconhecimento e gratidão aos nossos heróis do passado e, na mesma intensidade, a todos os atuais Policiais, pela bravura e pela incansável luta na busca pela preservação da ordem pública e da paz social.


Que Deus nos guie por nossos caminhos, nos proteja grandemente, nos fortaleça em nossas dificuldades, nos conceda a vitória e, se perecermos, console aos nossos familiares e não permita que nossas lutas tenham sido em vão.
Coronel PM Almir David Barbosa
Comandante-Geral da Polícia Militar do Amazonas

7 de novembro de 2013

JORGE DÓRIA: MORTE



Jorge Dória
Compartilho com Rogel Samuel a publicação sobre a morte do ator Jorge Dória, especialmente, pela ligação deste com o Amazonas, via seu avô Fileto Pires Ferreira. Fileto, oficial do  Exército, foi governador do Estado (1896-98), após a administração de Eduardo Ribeiro.
Deixou duas marcas em sua gestão: a forma como chegou e deixou o Poder Executivo. Na posse, foi eleito pela Assembleia em golpe engendrado pelo antecessor; na saída, levou uma rasteira dos deputados, que aceitaram sua "renúncia" em documento forjado.
A segunda marca, porém, foi perene. Como acentua Rogel Samuel, teve o privilégio de inaugurar o Teatro Amazonas, obra que segue imponente marcando a metrópole cabocla.
 
MORRE JORGE DÓRIA, NETO DE FILETO PIRES FERREIRA 

ROGEL SAMUEL 

Morre Jorge Dória (Jorge Pires Ferreira), filho de Alkíndar Pires Ferreira, filho de Fileto Pires Ferreira.
Túmulo de Pires Ferreira, cemitério
do Caju - Rio
Jorge Dória era neto de Fileto Pires Ferreira, ex-governador do Amazonas, que inaugurou o nosso Teatro Amazonas, em 1896.
Quando estávamos pesquisando os fatos para escrever o nosso romance “Teatro Amazonas”, tentamos falar com ele, mas Jorge Dória já estava doente, e não nos pôde ajudar.
Jorge Dória viveu na própria casa de seu avô, no Maracanã, onde seu pai vivia.
Segundo o Dr. Edgard Pires Ferreira, Jorge Dória tinha informações preciosas sobre o avô. Mas o passado morreu com ele.

Ficou, imponente, o majestoso Teatro Amazonas, obra de seu avô e de Eduardo Ribeiro.

6 de novembro de 2013

ETELVINA GARCIA


O início da atividade jornalística da jovem Etelvina Norma Garcia, hoje conhecida escritora e editora de livros sobre a história do Amazonas, ocorreu em A Crítica. De sua responsabilidade, a coluna “Vinte e quatro horas na sua profissão” entrevistou algumas personalidades.
Recorte de A Crítica, 17 junho 1958
Transcrevo parte da entrevista que ela produziu com o saudoso padre Bernardo Lindoso, pertencente ao clero amazonense, e com se verá atuando na JOC (Juventude Operária Católica), parte da Ação Católica. Bernardo era irmão de outro sacerdote, Moisés Lindoso, e do ex-governador José Lindoso (1979-82), do qual foi secretário de Estado. Ao participar do governo, Bernardo já havia “deixado a batina”, ou seja, abandonado o sacerdócio.
A foto que ilustra o texto assinala que se trata de Moisés Lindoso. Não, era mesmo Bernardo nos verdes anos de vida.
 
VINTE E QUATRO HORAS NA SUA PROFISSÃO
Brasil sofre com problemas do operariado 

Texto de Etelvina Norma Garcia (*)

 
Há alguns dias, no desempenho de suas atribuições de assistente eclesiástico da Juventude Operária Católica (Região Norte), encontra-se em nossa capital o sacerdote amazonense Pe. Bernardo Lindoso, que veio até Manaus a fim de se avistar com o novo metropolita, D. João de Souza Lima.
 
O Pe. Bernardo Lindoso tem sobre seus ombros o mister árduo de assistir a mocidade operária nos estados do Pará, Amazonas e Maranhão, bem como nos Territórios do Acre, Guaporé, Amapá e Rio Branco, sendo de se salientar que acaba de participar de duas semanas nacionais da juventude trabalhadora, realizadas ambas no Distrito Federal, e nas quais foram debatidos e equacionados os problemas mais graves e mais complexos da massa operária constatados pelos militantes jocistas no trabalho árduo de  todo dia, quando a mocidade das oficinas, dos escritórios, das fabricas principalmente, se debate com dificuldades infindas, advindas do meio em que vivem.

A reportagem do “melhor jornal da cidade”, em conversa com o Pe. Bernardo Lindoso, que se pôs a par da intensidade com que se processa em todo território nacional esse movimento firmado à base da compreensão e da fraternidade, engrossado ainda pela mística da ação, que lhe imprime um caráter humano e cristão, realizando no sentido mais amplo e mais profundo, a igreja missionária no âmbito do laicato, saindo-se para o setor operário.
 
Apoiada (e abençoada) pelo papa Pio XII, a Ação Católica, surgida com a JOC, nos tempos de Pio XI, teve em monsenhor Cardjin a sua mola propulsora, como advindo de uma técnica de ação intensificada e aprofundada, descendo às minúcias dos problemas que afetam a massa e se refletem na elite, buscando suas raízes e procurando colocar um “agir” que se coadune com a razão de ser da coisa e atue decisivamente. 

PROBLEMA DO ADOLESCENTE 

Falando à reportagem e dizendo do que foram as semanas da juventude operária católica, realizadas de 4 a 13 de maio (setor feminino) e de 13 a 22 do mesmo mês (setor masculino) no Rio de Janeiro, com a participação de todos os dirigentes e assistentes eclesiásticos das seis regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Leste, Sul e Extremo Sul) o Pe. Bernardo Lindoso declarou que através de um trabalho meticuloso de penetração da ação basilar da JOC nos diversos pontos do país, levando-se em conta as dificuldades que o movimento encontra para uma ação efetiva, o problema do adolescente desorientado foi constatado nesse encontro como um dos mais angustiantes para a massa operária.

“Jovens obrigados pelas injunções da vida de família, com as dificuldades inerentes ao tempo a deixar os estudos em idade precoce, lançando-se no campo do emprego, sem uma compensação satisfatória, monetária, e socialmente falando, fazendo jus a um salário insignificante que não dá margem a que o individuo supra as suas necessidades mais elementares. Cada ano, em todo o mundo (deixando-se de parte o problema nacional e abrindo-se as janelas para todo o globo) uma média de 20 milhões de estudantes são forçados a deixar a escola em busca de trabalho para garantir o próprio sustento. No Brasil (e atestam os inquéritos e as estatísticas), uma média de 400 mil jovens deixam a vida de estudante, passando a enfrentar as agruras e as dificuldades infindas das fábricas, das oficinas, sem poderem sequer almejar um âmbito de vida mais confortável”.

CARDJIN E A JOC

Muito se fala e muito se ouve falar de ação católica. À primeira vista, a impressão que se tem é a de que seja uma associação religiosa como tantas outras que se espalham pelas paróquias, escudadas na fé, e amparadas pela direção da igreja. No entanto, se descermos às minúcias, vamos encontrar a Ação Católica e todas as suas ramificações com a participação ativa do laicato na hierarquia eclesiástica, como uma ação decisiva em todos os setores da vida humana, através dos militantes de suas fileiras. Encararmos mesmo a Ação Católica como uma ação social ampla que se firma na mística cristã.

Abordamos então o assistente regional da JOC sobre as raízes do movimento ao que nos adiantou: “A Ação Católica nasceu como não se desconhece, com a própria JOC. Mons. Cardjin a idealizou, lançando-lhe as sementes por volta de 1914, sendo que somente em 1925 foi fundada a JOC, na Bélgica, tendo apoio do papa Pio XI, seu grande incentivador.

A penetração maior da JOC, no entanto, deu-se depois da última guerra mundial. Cardjin, preso durante a guerra, taxado de comunista, tem tido uma vida eivada de grandes tormentos, que é, ao mesmo tempo, um poema de idealismo e de persistência.

Atualmente é assistente do Bureau Internacional da JOC, donde promanam as diretrizes do movimento no âmbito universal. 

(*) A Crítica, 17 de junho de 1958 (quando eu completava 12 anos)