CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

28 de agosto de 2013

MANAUS: ANOS 1930


Capa do livro
Volto às páginas de Amazonas: aspectos socioeconômicos (1930-1939), produzido por José Lopes da Silva (Manaus: SESC/AM, 1995). No capítulo abaixo, o autor descreve a situação de Manaus, do início da década de 1930, observando a situação de saúde, da educação e transporte.

Quase repete a receita completa das necessidades presentes, as que empolgam grande parte da sociedade, envolvida em manifestações públicas. Apesar do entusiasmo do autor, o quadro exposto por ele sofreu uma mudança completa, afinal, a capital do Estado também foi privilegiada com a Zona Franca, mas, devido a esse benefício, estabeleceu um recorde de habitantes e os consequentes problemas. 

MANAUS DOS ANOS TRlNTA
 
Dorval Porto, governador
em 1930
Sem a ostentação do início do século, a capital do Amazonas contentava-se com a singeleza de uma urbe provinciana, estigmatizada por um centenário econômico decadente sem maiores perspectiva de seu soerguimento. Entrementes, com toda essa adversidade estrutural herdada da "belle epoque", convivia-se com uma comunidade sem traumas, lúcida e até certo ponto tranquila, em decorrência do exercício da verdadeira cidadania, onde os direitos e obrigações eram devidamente respeitados, mesmo com os desequilíbrios sociais, à época, menos danosos que os da atualidade. 

Desenvolvia-se uma educação sob à custodia da Instrução Pública, onde o respeito pelo mestre iniciava-se com a conquista do cargo de Professor, submetido a concurso com defesa de tese e dissertação, prova escrita, preleção e arguição. A educação secundária na escola pública era exercitada na Escola Preparatória com acesso a Escola Normal e no Ginásio Amazonense Pedro Il, cuja frequência dos alunos e das aulas não dadas pelo professor responsável era publicada no Diário Oficial do Estado, diariamente, bem como todas as notas das provas parciais e finais. Havia um compromisso firmado entre a classe docente e discente.

A Escola de Aprendizes Artífices localizada na Cachoeirinha, em um prédio modestíssimo todo coberto de zinco, antigamente destinado a uma feira municipal, exercia um papel preponderante na formação profissional do amazonense de extraordinária utilidade a sociedade.

Era administrada pelo Dr. Esmeraldo Coelho, em cujas salas de aula aprendiam-se a arte das forjas, marcenarias, da modelagem, sapatarias e tantas outras profissões. Tratava-se de uma escola federal, que tinha como fundamento transformar a Escola em casa de educação prática e de disciplina do trabalho, nas quais a criança aprendia, educava-se e habilitava-se a competição no mercado de trabalho.
 
A saúde pública na capital do Amazonas era motivo de regozijo para o amazonense, principalmente, quando nos defrontamos com o noticiário da Revista da Associação Comercial, que transcreve a seguinte publicação:

Além de Euclides da Cunha, muitos escritores e sábios têm escrito sobre o nosso ótimo estado sanitário. Falem agora as estatísticas. Nas últimas, distribuídas pelo Governo Federal, há o seguinte: as capitais de maiores coeficientes de mortalidade são Recife, Natal e Vitória, sendo Curitiba e Manaus os de menores coeficientes. É a maior prova em prol de nossa terra, ora procurada pelas correntes migratórias.


A infraestrutura hospitalar independente daquela oferecida pelo setor privado, representada pela Beneficente Portuguesa, apresentava como base física a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital São Sebastião, o Asilo de Mendicidade e a Colônia de Alienados Eduardo Ribeiro, que se corporificou na gestão do provedor Dr. Aluísio de Araújo, sucessor do coronel Leopoldo Matos, nomeado pelo Dr. Efigênio de Salles, então presidente do Estado, em 23 de janeiro de 1928.

Confrontando-se com as dificuldades financeiras inerentes a assistência hospitalar, em um interregno de depressão econômica inibidora de maior arrecadação do Erário estadual, o Dr. Aluísio de Araújo, empreendeu um movimento benemerente junto à sociedade, objetivando arrecadar recursos para remodelação de toda a estrutura física do edifício, que obrigava o hospital base de Manaus, incluindo dentro de suas perspectivas as demais unidades.

O projeto consistiu na construção de três bangalôs localizados nas imediações da atual Praça do Congresso, ainda hoje existentes, os quais foram sorteados mediante a venda de bilhetes, com relativo sucesso “apesar da crise avassalante, entorpecente de todas as iniciativas, conseguiu-se vencendo tremendas dificuldades dotas a cidade de mais esse próprio”, conforme assinalou o articulista, após o sorteio do terceiro prédio em 25 de abril de 1930. Empregando os seus conhecimentos de arquiteto, dentro da filosofia de Le Corbusier, o jovem e promissor provedor viabilizou, segundo informes da época,

atacar de frente todas as dificuldades, prosseguindo e aumentando o plano delineado para a transformação e remodelação do grande hospital. Essa obra patriótica serve prova-o o suntuoso hospital de hoje, no largo trecho da rua Dez de Julho, em frente ao jardim Leopoldo Matos. De prédio desengonçadamente colonial, brotou o palácio esplendoroso com seu gramado simétrico valorizando o busto do homenageado. Entre as suas modificações é consolador ver a maternidade para indigentes, a enfermaria de segunda classe, o salão nobre, além de outros melhoramentos”.

A reforma alcançou o custo de mais de 3 mil contos de réis.

O corpo clínico era composto pelos médicos Basílio de Seixas, Alfredo Augusto da Mata, Antônio Ayres de Almeida Freitas, Fulgêncio Martins Vidal, Álvaro Madureira de Pinho, Vivaldo Palma Lima, José Francisco de Araújo Lima, Jeronimo Ribeiro, Xavier de Albuquerque, Turiano Meira, Jeremias Valverde, José Linhares de Albuquerque, Agenor de Magalhães, Flávio de Castro, H. Wolferstan Thomas e Cruz Moreira. Havia um quadro de suplentes para a clínica médica formada pelos médicos Joaquim Augusto Tanajura, Galdino Ramos, Adriano Jorge e Aurélio Pinheiro. Hamilton Nelson, J. Miranda Leão e J. de Brito Pereira atuavam como substitutos na pediatria.

As especialidades médicas eram oferecidas pelo Hospital, como o de otorrinolaringologia, Dr. J. de Brito Pereira; cirurgia geral, Moraes Rego e Angelo D'Urso; tendo os Drs. Carlos Bunetti e Jorge de Moraes como responsáveis pela sala de operações. Moraes Rego também atuava no segmento de "doenças de senhoras"; obstetrícia e ginecologia eram atribuições de Almir Pedreira e J. Miranda Leão. Sífilis e pele eram da competência de Paulo Cerqueira e de tisiologia o Dr. Hamilton Nelson.

Independente desse elenco de profissionais altamente credenciados, existia outro corpo médico considerado "em disponibilidade" constituído de Teogenes Beltrão, José Antônio de Figueiredo Rodrigues, Jorge de Moraes, Sebastião Barroso Nunes, Fernando de Castella Simões, Basílio Franco de Sá,  Manoel Barreto Lins, Francisco da Costa Fernandes, Carlos Studart Filho, Almério Diniz e Luís Paulino de Mello.

Esses abnegados cidadãos respondiam pela assistência médica vinculada aos serviços prestados pela Santa Casa, dedicada praticamente aos carentes, já que o movimento de pensionistas não era relevante. Os recursos recebidos em 1930, foram de Rs. 77:331$000 do Tesouro Público; Rs. 80:019$200 do imposto sobre caixas e castanhas junto a Manáos Harbour Limited; Rs. 7:519$338 do imposto de caridade; Rs. 8:000$000 de quotas lotéricas do 1º semestre de 1930 e Rs. 76:275$241 de rendimentos da porta, prédios e contas. A assistência aos desamparados foi de 164 indigentes, 80 alienados do Hospício Eduardo Ribeiro e nove tuberculosos no Hospital São Sebastião.

A cidade era servida por um sistema de transporte urbano, que tinha nos bondes a sua principal estrutura, como meio de locomoção popular, cuja concessão de exploração era exercida por uma companhia inglesa -- Manáos Tramyaws Ltd., cujos serviços eram prestados através dos seus 35 quilômetros de rede, abrangendo praticamente toda a periferia, tendo o centro como seu núcleo, excetuando-se os bairros de Educandos e São Raimundo, possivelmente pela inexistência de acesso racional, havendo transportado em seus 36 carros de passageiros e 10 carros mistos (reboques) cerca de 8.434.000 usuários no decorrer de 1930.
 
Tratava-se de um serviço eficiente, seguro e com uma pontualidade de sua veiculação invejável. Para o transporte de grandes cargas a empresa possuía 6 outros carros de características específicas. O total de veículos existentes na cidade completava-se com 156 automóveis, 80 auto-caminhões e 1 auto-ônibus, que pela ausência de normas disciplinadoras de trânsito legais, obedecia aos critérios emanados do comandante da Guarda Civil, tenente Ismael Tomas de Lima.  (segue)

26 de agosto de 2013

LIVRO DE VIAGEM NORTE (2)



Recorte da capa do livro de
Gonçalves Maia
Gonçalves Maia foi um amazonense que, depois de anos fora de Manaus, decidiu rever seu torrão natal. A viagem aconteceu em 1905. Da expedição e dos fatos apreciados e anotados resultou o Livro de Viagem Norte, editado em Lisboa no ano seguinte.


No capítulo transcrito, Maia faz uma elogiosa apreciação da Polícia local. Lembra os comandantes da tropa amazonense em Canudos, em especial de Rafael Machado, que julgo ter sido seu contemporâneo.
Recorda ter sido hóspede do Hotel Casina (ou Cassina?), sobre o qual escreveu outro tópico. Fica o questionamento: o nome deve ser grafado com um ou dois “esses”?
Recorte da folha de rosto do livro de Gonçalves Maia

UM CASO 

Há indivíduos que passeiam uma vez só por uma cidade e fixam na cabeça facilmente todas as ruas, por mais complicadas e tortuosas. Não se perdem nunca.
É uma faculdade apreciável que eu infelizmente não possuo. Tenho-me perdido no Rio de Janeiro, na Bahia e até no Recife, nos seus becos tortuosos de velha cidade, lá pelo largo da Assembleia antiga, beco dos Burgos e não sei que mais.

E como um capricho muito infantil me faz não perguntar nunca o caminho, reduzo-me ao papel de judeu errante, horas inteiras.

No dia imediato da chegada a Manaus, morando no centro da cidade, no Largo do Palácio (agora, Praça Dom Pedro II), estando talvez a dois passos do hotel, perdi a direção. Não perguntei a ninguém à rua. Numa pequena cidade, se há de dar numa rua que já é conhecida.
Há uma hora que ando ruas enormes, compridas, largas, iluminadas por grandes lâmpadas de arco voltaico de mil velas; mas sinto que cada vez me afasto mais de casa.

São nove horas da noite.

Ponho de lado o capricho e dirijo-me a um polícia que está firme e de pé no meio da rua. Era um homem alto, bem parecido, com os botões da farda cintilantes como ouro limpo.
- Camarada, disse-lhe, sou de fora e parece que errei o caminho de casa. Poderia indicar-me?
- Para onde o senhor quer ir?

Indiquei o hotel.
- Faça o favor: disse-me. E eu o segui.

Estava na rua Quintino Bocaiuva, em frente a aterro. Na primeira esquina, no meio da rua, como um marco, estava outro polícia. Entregou-me a ele, dizendo que me indicasse o caminho.
Este outro me levou a um terceiro, este a um quarto, este a um quinto; não contei o número; sei que de mão em mão, delicadamente, silenciosamente, confiante, eu cheguei ao Hotel Casina.

- É ali, disse ele, apontando o hotel.

Educado em outras cidades, quis gratificá-lo.
-- Não, senhor; respondeu secamente. Guardei o dinheiro, quase envergonhado.

Teria sido assim no Rio, na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba, no Maranhão, em qualquer dos outros estados? Não sei.

A Polícia do Amazonas, eu sabia o que ela fora na guerra, quando, sob o comando de Cândido Mariano e Rafael Machado (civil que se engajou na tropa amazonense), velho camarada que vim encontrar hoje feito deputado estadual, entrou, a primeira de todas forças no arraial de Canudos; agora vejo-a na paz.

E compreendo como, debaixo daquela correção, daquele perfilhamento, daquele brilho de botões, da limpeza daquele fardamento sem uma mancha, corra o sangue de uma disciplina que é a alma das organizações militares. A cidade é dividida em quadras, como em Montevidéu. Só há largas ruas e avenidas que se cruzam. Em cada quadra há um soldado daqueles, em pé, no meio do caminho ou andando vagarosamente, em passo marcial. Sempre pelo meio da rua.

Hei de vê-lo um dia nos quartéis.
Mas assim, compreende-se bem que eu chame Manaus uma cidade policiada e por uma Polícia como eu nunca tinha visto no Brasil.

25 de agosto de 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS (7)

Volto ao assunto, lembrando mais um mestre desta corporação musical. Lembro o tenente Mirtillo Fricke de Lyra, que residiu por anos no bairro da Praça 14 de Janeiro.


Mirtillo Fricke de Lyra, 1º tenente
 
Em 1º março de 1950, o sargento combatente Mirtillo Fricke de Lyra foi promovido ao posto de 2.º tenente músico, pelo governador Leopoldo Neves. Assaz estranha esta promoção; no entanto, é facilmente explicável essa manobra: como somente existia esta vaga no oficialato, decidiu o comando promover o amigo, o “peixe”, mesmo que ele não fosse do ramo, aproveitando a barafunda vivente na corporação. Para aclarar esse descalabro, acrescento apenas que a assistia em média a cada dois meses a mudança de comandante. Nessa ocasião, comandava a Polícia Militar o coronel da reserva (aposentado) Temístocles Henrique Trigueiro, que foi substituído em julho. 

Nascido em Maceió (AL), em 24 de abril de 1916, Fricke de Lyra era filho de Manuel Bernardo de Lyra e de Ernestina Fricke de Lyra. Na ficha de inclusão na Polícia Militar foram assinalados alguns sinais característicos: cor morena, olhos castanhos escuros, cabelos castanhos escuros ondulados e com 1m68.

Nos assentamentos do tenente Fricke, não há qualquer registro de atuação musical, salvo quando para, em comissão, receber equipamentos e examinar o corneteiro. Nos registros encontra-se de tudo, inclusive sua destacada atuação no incêndio do Trapiche Satélite, sendo elogiado pelo “desprendimento da própria vida”.

No inicio de 1951, como habitual, foi classificado nas funções de Mestre de Música. Classificar um oficial não indicava que o mesmo exercia a enunciada função, assim ocorreu com o referido mestre. Era tão desnecessário, que a 16 de janeiro, o governador baixou novo ato transferindo-o para o quadro de combatentes e o efetivando no posto de 2.º tenente. Pronto, a manobra estava concluída e o tenente confirmado no posto. Mais adiante, Lyra passou para o quadro da Intendência e, neste, foi promovido a capitão em março de 1962, e transferido para a reserva como major, em janeiro de 1963.

Suponho que quem o substituía ou, na realidade, ensaiava a Banda de Música, era o sargento Nicanor Puga Barbosa, como bem recorda sua viúva – Marina Puga, para essa retrospectiva, em 2013. A meu ver, admitir a substituição é correta, pois foi Puga que, igualmente beneficiado pela conjuntura frouxa que persistia na corporação, sucedeu ao tenente Lyra.

Fricke de Lyra morreu em Manaus, aos 22 de novembro de 1991.

MANAUS: 1º CENTENÁRIO


Em 1948, a capital do Amazonas comemorou seu primeiro centenário – 24 de outubro. A festança foi esfuziante, com manifestações gerais, para ilustrar, reproduzo o discurso comemorativo lido na Assembleia Legislativa. E lembro que um marco bem mais sólido foi inaugurado, trata-se do obelisco plantado na Praça da Matriz, que começa a ser revista e o monumento melhor resguardado.
Na ALE, foi ouvida a “oração que o deputado Paulo Pinto Nery, em nome da União Democrática Nacional (UDN), o partido majoritário, proferiu na Assembleia Legislativa do Estado", na sessão especial de 23 de outubro de 1948, homenageando o centenário de Manaus.

Curiosa e desastradamente, em 1969, o mesmo político, na ocasião investido na chefia da Prefeitura de Manaus (1967-72), preside as comemorações pelo Tricentenário de Manaus. Apenas 20 anos depois, o município saltou do primeiro para o terceiro centenário. Quais argumentos levaram o saudoso prefeito a inventar esta data? Foram somente os estudos de seu assessor? Houve estudo e comprovação do IGHA, que somente se pronunciou em 2002? Não sei.  

Recorte de O Jornal, 24 de outubro de 1948

 
Senhor Presidente e demais autoridades

As páginas vivas da história, recordadas nesta semana de eloquente alegria e satisfação para quantos tiveram a ventura de aqui nascer ou aqui empregar as suas atividades, oferecem-nos passagens maravilhosas que bem dizem da grandiosidade de espírito e dos propósitos sadios e patrióticos dos nossos maiores.
Os colonizadores portugueses e espanhóis, sedentos pelas grandes conquistas e sonhadores no desbravar os mundos lendários, voltaram as suas vistas para as terras selváticas, fabulosas e misteriosas, na esperança de satisfazerem as suas curiosidades, aumentarem os seus domínios com anexação de novas faixas de terras, transportarem para as suas metrópoles as riquezas formidáveis, inesgotáveis e cobiçadas por todos.
A efetivação desta conquista foi feita a troco de vidas preciosas e sofrimentos indescritíveis, onde a coragem do homem foi posta à prova, face às intempéries da região, à ferocidade dos selvícolas, senhores absolutos da terra, à temebilidade das feras, às dificuldades de transportes, à ambição descomedida e sempre insaciável dos próprios companheiros de jornada.
Cada palmo de terra conquistada recebia o sinete de sangue derramado por aqueles heróis desconhecidos, que impulsionados pela miragem de tudo vencer, de pigmeus insignificantes, transformavam-se em gigantes indomáveis, levando de roldão a quase invencibilidade da natureza agreste.Lendas e mais lendas atravessam as fronteiras do território ainda inexplorado, aumentando o entusiasmo e a ânsia de conquista de quantos ouviam falar no El Dorado e no país dos Omáguas.
O festejado historiador amazonense Arthur Cesar Ferreira Reis, nas páginas lapidares de sua “História do Amazonas”, apresenta-nos em cores emocionantes essas lendas: “Para o Oriente, como o país da canela, fora também do domínio incaico, reinava um príncipe, El Dorado, cujas riquezas não eram possível medir. Os templos, os palácios, a pavimentação das ruas da cidade de Manoa, onde vivia, tudo nessa região encantada se construíra em ouro, ouro puro, só ouro. O monarca, pelas manhãs, banhava-se num lago de águas perfumadas, sob as quais lançavam ouro em pó”. “O país dos Omáguas, confundindo-se com o do El Dorado, fazia crer que nessa nação também uma cidade resplandecia pela magnificência de seus edifícios suntuosos, e seus templos edificantes, onde os ídolos eram de ouro maciço, nação de muitos milhares de indivíduos, governada pelo poderoso cacique Guarica”.
O certo, porem, é que a preocupação dominava os espíritos dos homens civilizados além-fronteiras, forçando-os a projetarem expedições que, de escalada em escalada, iam varando a selva densa que escondia as paragens buscadas, plantando aqui e ali um povoado. Com o transcorrer dos anos, com a vinda de novas expedições, com a catequese dos selvícolas, ora pela imposição da garrucha, ora pelos meios convincentes, com a organização de novas povoações, com a implantação nestas regiões de uma civilização com características já definidas, a história, afinal, oferece-nos o quadro soberbo da Assembleia Provincial paraense, votando a lei n.º 147, de 24 de outubro de 1848, que eleva a vila de Manaus à cidade, com o nome de cidade da Barra do Rio Negro.
Descrever os pormenores do evoluir daquela vila, com foros de cidade, por força legal, gravando páginas resplandecentes de heroísmo e de trabalho, os nomes de todos aqueles que como chefes ou como parcelas ínfimas de uma coletividade, que nos presentearam esta encantadora e risonha Manaus, seria empresa ciclópica, privilégio dos espíritos amadurecidos no manusear cotidiano dos documentos que a História nos legou, e não para um espirito curioso, como o do orador que vos fala, que só agradecimentos tem para com o Grande Deus por lhe ter dado como pátria essa terra abençoada e dadivosa.

Todavia, o que não nos foge à imaginação é a imprecisão das primeiras linhas urbânicas, a insignificante e disseminada população, o mando absoluto como lei suprema, o trabalho forçado e escravo do nativo, a ganância como bússola de todos os sentimentos. Crescia, portanto, caldeada neste ambiente de entrechoque de sofrimentos, de jugo e liberdade, uma raça forte e destemida, que pela sua perseverança e paciência, havia de se tornar um povo hospitaleiro e reconhecido, altivo e nobre.
Como todas as grandes cidades, Manaus teve os seus dias de apogeu. Agigantou-se na senda do progresso às suas demais irmãs da Federação. Começaram os traçados das grandes avenidas. As construções dos edifícios suntuosos, que tanto nos orgulhecem. A organização do porto fluvial, que é a admiração para todos aqueles que aqui aportam pela primeira vez. O aterramento dos igarapés. As ligações dos bairros pelas pontes metálicas. A instalação de luz elétrica e água encanada. A inauguração dos serviços de bondes elétricos. O pronunciamento de uma vida comercial movimentada e irrequieta, atraindo as atenções dos brasileiros e estrangeiros, que impulsionados pelas ideias dos lucros fabulosos e fáceis, transportavam-se em massa para a nossa capital, tornando-a o centro das grandes transações, colocando numa situação privilegiada a sua balança econômica-financeira, onde o Ouro Negro, como majestade, era reverenciado por todos.

Aquela minúscula cidadela, pontilhada de barracas e tapirís, de um momento para o outro, como num sonho maravilhoso de mil e uma noites, transformou-se numa capital elegante, exuberante de alegria, onde os salões e os teatros, as ruas e os cabarés, feericamente iluminados, acolhiam prazerosamente uma população feliz e despreocupada, que dava expansão a uma prodigalidade sem medida, numa demonstração edificante de riqueza e abundância.
Num trabalho ritmado e coordenado, os seus administradores iam imprimindo um cunho de grande metrópole a esta capital que tanto nos envaidece. Figuras de homens públicos exalçaram-se as cumeadas mais elevadas do dever de bem cumprir a árdua e dedicada missão de que se achavam investidos. Exemplos marcantes nos foram deixados. Encobrir, porém, os inúmeros colapsos de que fomos vítimas, seria crime imperdoável. Tivemos momentos de verdadeiro estado pré-agônico. Manaus, como um moribundo apelava para todos os recursos. Anêmica e depauperada, moral e financeiramente, sentia faltar-lhe as últimas forças. O espetro da desmoralização administrativa sobrevoava como um corvo os nossos céus. Manaus, de decadência em decadência, despida dos dias festivos de grandeza e pompa, quedava-se abandonada e triste à margem do grande rio Negro.

Talvez a curiosidade esteja palpitante em cada um dos dignos cidadãos que ora me ouvem, na expectativa de saber os nomes dos bons ou maus administradores. Acontece, porém, que por princípio somos adeptos da corrente que aceita os grandes males como encorajamento para a renovação das grandes empresas. Era preciso que Manaus pagasse o seu tributo dos dias negros e incertos, a fim de despertar em seus filhos o amor próprio, e colocá-la novamente no lugar em que sempre esteve como “Cidade Risonha”.
Para a glória de Manaus e contentamento de todos que aqui mourejam, vemos que a sua trajetória ao alcançar o seu centenário, indica-nos uma curvatura ascensional, prometendo-nos que em dias não muito longe readquirirá, por justo título, o seu galardão de “Cidade Risonha”.

A União Democrática Nacional, com a responsabilidade que lhe é inerente na atual administração, sente-se no dever irrestrito de envidar todos os esforços no sentido de reafirmar os seus propósitos de bem cumprir a sua finalidade de partido político genuinamente democrático e progressista, transformando a nossa Manaus na CATEDRAL AMAZÔNICA, de onde irradiarão beleza, opulência e hospitalidade.
Salve Manaus.

16 de agosto de 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS (6)



Afonso de Carvalho, patrono
da Banda de Música

Apesar dos bloqueios, tento superar entraves para alcançar os regentes da centenária Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas, hoje denominada de Coronel Afonso de Carvalho. Escrevo hoje sobre o mestre Nicanor Puga Barbosa. Antes, porém, vou relacionar os MESTRES ou REGENTES ou ENSAIADORES deste corpo musical, ainda que a relação esteja truncada pelas dificuldades nominadas.
Já dissertei sobre o primeiro mestre – Cincinato Ferreira de Souza, que a dirigiu entre 1892 a, possivelmente, 1896. Os demais dirigentes foram:

·      Aristides Emídio Bayma, 2º tenente (1897-1908);
·      Domingos Sotero da Costa, músico de 1ª classe (1908-11);
·      Manoel Napoleão Lavor, capitão (1911-12);
·      Manoel Felix do Nascimento, 2º tenente (1912?-22);
·      Manoel Ramos do Nascimento, 1º sargento (1922-24);
·      Benedito Tavares de Azevedo (1925-28 e 1936-41);
·      Albino Ferreira Dantas, 2º tenente (1942-45);
·      José Arnaud, 2º tenente (1945-48);
·      Mirtilo Fricke de Lyra, 2º tenente (1950);
·      Nicanor Puga Barbosa, 2º tenente (1951-54);
·      Joaquim Henrique de Souza, 2º tenente (1954-60);
·      Manoel Belarmino da Costa, capitão PM do Pará (1961);
·      Dirson Costa, maestro (1962);
·      Ernane Puga, 2º tenente (1963-67);
·      Raimundo Alves Bezerra, 2º tenente (1967-75);
·      Francisco Sales de Araújo, 1º sargento (1975);
·      Antônio da Costa Franco, 2º sargento, depois 2º tenente (1976-84);
·      Raimundo de Sena Ferraz, 1º sargento (1987-88);
·      Francisco das Chagas Souza Lima, 1º sargento (1987-94);
·      José Cândido de Figueiredo, 2.º tenente (1994-2006);
·      José Antônio Valério da Silva, 2.º tenente (2006-)

NICANOR PUGA BARBOSA, 2º tenente músico

Exonerado o tenente Lyra, em 1951, no dia imediato, 17 de janeiro, o governador promoveu o 1º sargento Nicanor Puga Barbosa, “por merecimento intelectual”, ao posto de 2.º tenente músico. Nesta função, tenente Nicanor se manteve até 4 de maio de 1954, quando foi transferido para a reserva.
Nicanor Puga Barbosa, mestre da Banda de
Música (1951-54)
Este regente possui relação bem alongada, interligada por familiares, com a Banda de Música amazonense. Na virada do século XX e, com garantia, até agosto de 1967, este curto e peculiar sobrenome ancorou a música militar tanto na Força Policial quanto no Exército. A linhagem emana do genitor, o espanhol Manuel Puga Rivera, que começou tocando e ensinando a arte musical na marajoarense Soure (PA). Evoluiu e, na capital paraense, participou da Banda de Música da Polícia Militar.
Nem sequer a família conhece o detalhe, todavia, um dia o espanhol Manuel Puga desembarcou em Manaus, puxando a família, dentre os membros, os filhos Nicanor e Ernane. Logo arranjou emprego no Batalhão Militar do Estado, como músico de 1.ª classe. O único assentamento sobre este músico registra que ele foi encostado (admitido) em 1922 e que, na ocasião, tomou o nº 12. Não se denominava ainda engajamento, mas sim contrato, por dois anos, dessa maneira, em 1º abril de 1924, Manoel Puga teve o contrato rescindido. Para situar a conjuntura estadual, era governador o inesquecível desembargador Rego Monteiro, que estimulou com seu desgoverno a rebelião de Ribeiro Junior (julho de 1924). O músico espanhol Puga morreu em 1930. 
 
Nicanor, filho do citado músico espanhol e de Honorina Puga Rivera, nasceu em Soure (PA), em 29 de maio de 1918. Aos 12 anos ficou órfão de pai, aprendendo música com o mestre Agostinho Palheta (formado por seu pai). Em Manaus, fez seus estudos no colégio Rui Barbosa. Em 1934, aos 16 anos, ingressa na Banda de Música do Corpo de Bombeiros de Manaus, devo lembrar que nesse período a Polícia Militar seguia desativada. Quando da reativação desta, dois anos depois, a mesma banda foi incorporada à força estadual.

Nicanor possuía domínio sobre instrumentos de sopro, destacando-se no clarinete. Aos 24 anos, casou-se com a professora Marina dos Santos Puga Barbosa (diretora de colégios, como o GE Getúlio Vargas), com quem teve os filhos: Sebastião (padre, já falecido); Mário (falecido funcionário do TCE-SP); Francisco (professor aposentado, Mestre/Ufam); Maria do Perpétuo Socorro (aposentada da Ufam); Alberto (advogado e professor da Ufam); Zeneida (médica) e Rita Maria (professora/Doutora/Ufam).
Após ingressar na inatividade em 1954, mestre Puga ainda ensinou música no Seminário São José (aonde fui seu aluno). E dedicou-se à educação de filhos e netos, falecendo em Manaus-AM em 17 de setembro de 1997, aos 79 anos.

9 de agosto de 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS (5)


Ainda enfrento dificuldades, tento superar entraves para determinar os regentes da centenária Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas, hoje denominada de Coronel Afonso de Carvalho. Contudo, estou certo de ter alcançado o primeiro: Cincinato Ferreira de Souza, que começou em 1892 e terminou, possivelmente, quatro anos depois.
Banda de Música do Corpo de Bombeiros do Pará, a frente,
mestre Cincinato Ferreira (de perfil), em 1904
 
Este maestro nasceu em São Luís do Maranhão, em 1868, e morreu em Belém do Pará, em 1959, aos 89 anos. Parte de sua atuação em Belém acha-se registrada em livro sobre o Corpo de Bombeiros (MENEZES, José. O Corpo de Bombeiros no Pará, 2ª ed. Belém: Delta Gráfica e Editora, 2007), em cuja corporação foi mestre de música. Desta obra, pode-se inferir que este maranhense não demorou muito em Belém, aonde desembarcou em 1890, no alvorecer da República.
Um pouco depois, ou em busca de trabalho ou “indicado” por alguma autoridade, passou a Manaus. Aqui, em 5 de agosto de 1892, Cincinato Ferreira (24 anos) foi contratado para organizar a Banda da Polícia Militar do Estado, que aguardava ou já teria recebido o instrumental comprado na Europa para o corpo musical.
É tudo quanto alcancei. Ainda não foi possível resgatar sua passagem pela música do Amazonas, pois, os registros da Polícia Militar de antanho passam pelo processo de digitalização que impede, ao menos enquanto pesquiso o tema, sua utilização. Por isso, não se pode informar a data de sua exoneração e a retirada de Manaus. Acredito que foi substituído em 1896, pelo professor Aristides Emídio Bayma. Nesse período, quem regeu o governo do Amazonas foi Eduardo Ribeiro, outro maranhense. Coincidência!?
Assim sendo, aproveito para revelar a trajetória de Cincinato em Belém, cujo nome figura em livro sobre os músicos do Pará (SALLES, Vicente. Música e músicos do Pará. Belém: [s.ed.], 1970. Salles consigna que Cincinato Ferreira “regia na condição de alferes a Banda dos Bombeiros, quando esta em 1898 foi transferida da administração estadual para a municipal”. Dizia-se que eram parentes, afinal, ambos são maranhenses. Esta transferência se deve certamente à posse do Intendente Antônio Lemos na prefeitura de Belém (PA), que dirigiu de 1897 a 1912, quando exerceu robusta influência política no Pará.
Cincinato foi promovido a tenente em 22 de dezembro de 1904, e reformado em dezembro de 1911, com vigência a partir de janeiro seguinte, após a Banda ter sido extinta em agosto do mesmo ano. Como se observa, manteve-se na direção da Banda de Música dos Bombeiros enquanto seu parente Lemos esteve na prefeitura de Belém. Com a saída deste, defenestrado pelos políticos e escorraçado pela população, e substituído por um adversário, a Banda desapareceu momentaneamente. Em agosto seguinte, tanto a corporação dos homens do fogo quanto sua Banda foi revigorada. No comando da corporação, assume o bacharel Henrique Hurley, e na musical, o retorno do tenente Cincinato Ferreira. É desconhecida a data de sua saída.
Além da regência na Banda dos Bombeiros, Cincinato esteve na direção da Banda do Instituto Lauro Sodré. Há mais informações no Música e músicos do Pará.
Seu trabalho restou amplamente reconhecido, na condição de autor de várias composições em estilos diversos. Cincinato era “professor de música, regente e hábil orquestrador, autor de valsas, hinos, marchas e dobrados, além de música para teatro”. Comprovação desse desempenho pode ser apreciada em uma produção especializada, cujo disco, patrocinado do Banco do Brasil – Banda de Música de ontem e de sempre, apresenta deste maestro duas composições (Música popular do Norte: no disco 1 – Canto do pai Pedro (polca), gravada por Jane Duboc. E, no disco 2 – Artística paraense).
Cincinato Ferreira é seguramente o primeiro mestre a dirigir a Banda de Música da PMAM.

3 de agosto de 2013

A REVOLUÇÃO DE 1930 – AMAZONAS


Capa do livro
Com este título, reproduzo mais um capítulo deste movimento nacional, que legou ao país uma ditadura de mais de 15 anos, mas que pouco produziu no Amazonas. O autor deste trabalho é José Lopes da Silva, em seu livro – Amazonas: aspectos sócioeconomicos (1930-1939), publicado em Manaus, e impresso na Gráfica do SESC em março de 1995. 

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Com as declarações do ministro da Justiça, Oswaldo Aranha, ao matutino "Correio da Manhã" da imprensa carioca, de que “A Revolução não conhece os méritos adquiridos. Esses direitos eram decorrentes da Constituição; mas esta já não existe. Estamos, enfim, numa situação revolucionaria plenamente vitoriosa. O próprio Supremo Tribunal Federal, a cujas portas se bate pedindo ‘habeas corpus’, está inibido de agir. Ele existe em virtude da Constituição. Estando esta suspensa, ele não poderá fazer sentir sua ação. Repito: não reconhecemos direitos adquiridos. Temos que começar vida nova, em tudo”.
Referindo-se ao Congresso Nacional como a representação popular, assim se expressou o porta-voz revolucionário: "O Congresso está dissolvido desde 3 de outubro, data em teve início o processo revolucionário. O decreto respectivo será assinado amanhã", concluía o gestor da Justiça brasileira com a seguinte expressão: "Até aqui o povo obedecia ao Governo, agora é o Governo que obedece ao povo".

Iniciava-se com essa postura política-administrativa o Governo Provisório de Getúlio Vargas, responsável pela modificação radical da estrutura político-social mantenedora da Velha República, que se apresentava a sociedade como filosofia existencial a descaracterização do modelo republicano, pela adoção de métodos eleitorais fraudulentos, com a conivência dos presidentes estaduais, praticantes da má utilização dos recursos públicos. A própria União utilizava-se de pressões econômicas sobre os resistentes a teoria presidencial, marginalizando os problemas nacionais pelo seu total desinteresse, excetuando-se aqueles vinculados ao eixo Rio-São Paulo-Minas.

Rui Barbosa um dos muitos prejudicados pela ilicitude eleitoral expressava sua indignação à maneira torpe da elite da Velha República, em administrar a terra brasileira: “Não valia muito a pena deixar o Império como todos os seus vícios, com todas as suas calamidades, para virmos iniciar francamente, sob o regime republicano, uma das graves de todas as pestes imperiais – as candidaturas oficiais, as candidaturas protegidas pelo governo”; ainda são de sua repulsa a denúncia de que “A verdade é que neste regime não existem as oposições, não existem os partidos, não existe a ação política, nem organizada, nem popular, não existe nada senão o mecanismo oficial de administração do Governo, destinado a frustrar, a iludir os eleitores do país”.
A veemência das palavras de Rui continua com sua validade em pleno término do século XX, quando nos deparamos com a prática da fraude eleitoral, utilizando-se de vários artifícios, que vão da compra do voto, do escambo por alimentos, de escrutinadores inescrupulosos orientados pelos candidatos ao cargo político, da manipulação dos boletins de urna e até de uma simples caneta esferográfica para “votar” nos votos em branco. (...) 

O Amazonas pelo seu isolamento físico na Amazônia mediterrânea e até certo ponto, pelo seu posicionamento sócio-econômico-cultural herdado da fase áurea da borracha, não teve nenhuma participação ativa no processo revolucionário empreendido por Vargas, embora, como era natural como membro da Federação Brasileira, tenha se aliado à obediência do Poder investido constitucionalmente, conforme se compreende pela sua participação no recebimento de recursos federais extraorçamentários no valor de Rs 1.500:000$000, de um total de Rs 14.100:000$000, em termos nacionais para organizar-se militarmente em caráter extraordinário como prevenção a repressão ao movimento subversivo ao Estado brasileiro, bem como a formação e expedição de um contingente policial até a cidade de Belém.

Sob a égide de um "Caixa Reservado", portanto, paralelo ao Caixa Oficial, foram efetuadas algumas despesas no valor de Rs 35.143$000, como na compra de 35 rifles, 3 carabinas, 16 caixas de balas, 200 pares de pederneiras, 200 pares de borzeguins, 100 uniformes de caqui e 100 bonés, adquiridos em Manaus, devidamente registradas em Livro Especial, pelo tesoureiro-geral, João Batista de Oliveira Azevedo, cuja comprovação foi devidamente atestada pelo movimento revolucionário através de uma comissão de inquérito, formada por Adelino C. Costa, Tristão Salles, José de Menezes Costa, João Vianna Junior e João Francisco Soares.

Em decorrência das dificuldades na convocação de voluntários e engajamento de reservistas em curto espaço de tempo, para a formação de uma Companhia extraordinária da Força Policial, a fim de implementar a ação determinada pelo Poder Central, não se concretizou, eliminando qualquer participação efetiva em benefício das forças legalistas.

Havia uma preocupação entre os militantes da Aliança Liberal no acompanhamento dos acontecimentos que ocorriam no "front" de guerra, como pela ação coercitiva das forças revolucionárias na capital da República. O Governador Dorval Porto limitava-se a receber o apoio político da Assembleia Legislativa, na pessoa do seu presidente Adriano Jorge, da moção de solidariedade dirigida ao presidente da República, idealizada pelo líder governamental deputado coronel Raul Azevedo, aprovada, em votação nominal, nos seguintes termos: “Assembleia Legislativa do Amazonas, tomando conhecimento da condenável rebelião irrompida em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, profliga, com maior veemência o atentado contra a ordem material, moral e jurídica da nossa Pátria, e assegura inteira solidariedade cívica e política, ao honrado governo do Presidente Washington Luís. S das S, 6 de outubro de 1930” e de outros homens públicos como os prefeitos Miranda Leão, de Maués, Francisco Araújo, de Parintins, Salustiano Liberato, de Borba, José Joaquim Souza, de Coari, Adolpho Brasil, de Boa Vista (atual estado de Roraima) e de Cunha Freitas, da intendência de Porto Velho (atual capital de Rondônia).

A Junta Comercial, pelo seu presidente coronel Sérgio Pessoa, e pelo secretário José Stefano; Associação dos Empregados no Comércio do Amazonas, pelos seus propostos Waldemar Souza e José da S. Cavalcante, da Associação Comercial do Amazonas pela sua diretoria, pelos diretores da Instrução Pública (Alberto Aguiar Correa) e Ginásio Amazonense Pedro II (Antônio Telles de Souza) e, finalmente, pela oração de Waldemar Pedrosa em uma reunião pública em nome do funcionalismo estadual.

Dentro de uma tranquilidade relativa, sem qualquer distúrbio de ordem pública, Manaus foi sacudida pelas informações inoficiosas na manhã de 24 de outubro, precisamente às 9h30, a esperada nova de que no Rio de Janeiro o movimento revolucionário havia sido consolidado, liderado pelos mais significativos valores intelectuais e políticos, militantes em prol da causa da Aliança Liberal.

Confirmada a veracidade dos fatos pelo Telégrafo Nacional, a notícia obteve veiculação célere entre os populares estacionados na av. Eduardo Ribeiro, cujo alvissareiro comunicado irradiou-se pela cidade. A Tinturaria Góes tornara-se um reduto da Aliança Liberal, a partir da aposição do retrato do malogrado presidente (hoje, governador) da Paraíba, Sr. João Pessoa, transformando-se historicamente no ponto de concentração popular, após o inflamante discurso de Ruy da Gama e Silva, um dos expoentes da causa aliancista, enaltecendo a liberdade do povo a partir daquele momento, cientificando os participantes da reivindicação dos seus direitos.

Eufóricos com os resultados obtidos pelo movimento revolucionário, associada a pressão exercida pelas palavras de Gama e Silva, os integrantes da Aliança Liberal, lideradas pelo Dr. José Alves de Souza Brasil, catedrático da Faculdade de Direito e chefe da resistência aliancista, juntamente com o coronel Cordeiro Junior e de Francisco Pereira da Silva, dirigiram-se em caminhada cívica ao Palácio Rio Negro, com o objetivo de obter do Sr. Presidente do Estado, Dorval Porto, a sua renúncia do cargo até então exercida em nome da Junta Governativa sediada no Rio de Janeiro, responsável pela transição administrativa até a posse do Governo Provisório pelo Sr. Getúlio Dorneles Vargas.

Assim, de maneira ordeira, aconteceu a tomada de poder no Amazonas substituindo-se o presidente do Estado, por uma Junta constituída do coronel Cordeiro Junior, do Dr. José Alves Souza Brasil, responsável pelos serviços de Segurança Pública, e pelo Sr. Francisco Pereira da Silva, no cargo de secretário-geral do Estado, culminando em seguida com o deslocamento do grupo vitorioso à residência do coronel Cordeiro, onde se iniciaram os festejos comemorativos da vitória revolucionária, sob a saudação de Francisco Pereira da Silva.

Como primeiro ato da ação governamental, de nº 1, defrontamo-nos como seu artigo único: Fica dissolvida a Assembleia Legislativa do Estado. Paralelamente aos seus atos iniciais, inclusive com a nomeação para prefeito de Manaus do professor Marciano Armond e do chefe de Gabinete do Governo, Arthur César Ferreira Reis, foi expedida a seguinte Nota Oficial:

A Junta Revolucionária Governativa do Amazonas pede a todos os habitantes desta cidade, ao bom e glorioso povo do Amazonas que se conserve dentro da ordem e do respeito aos vencidos nesta grande campanha republicana. Nada de violências ou de depredações, pois, assim, a vitória dos nossos ideais ficará manchada e seremos acusados, talvez, de covardes, que não sabem respeitar os vencidos! Que o povo tenha confiança na ação da Junta Revolucionária Governativa, senão tudo redundará em prejuízo de nossa própria causa. Tenente-coronel Henrique Cordeiro Junior, Dr. José Alves Souza Brasil e Francisco Pereira da Silva. 

As comemorações populares pela ascensão do novo Governo teve a colaboração da Manáos Tramways, dentro do espírito tradicional dos festejos da época, com a cessão de dois bondes especiais para os alunos do Colégio Dom Bosco e do Ginásio Amazonense para passearem pela cidade erguendo vivas ao movimento revolucionário, a pedido do Delegado Auxiliar, Moises de Barros; a concessão de cinco passes para os alunos escolares para sua utilização a partir das 14h nos carros da Cia. Inglesa, constitua-se na sua participação espontânea da alegria popular.

A perseguição inerente a movimento dessa natureza, provocaram as reações naturais, demissões, aposentadorias e outras medidas saneadoras como a solicitação “às pessoas que tiverem recebido armamento e munições fornecidos pelas autoridades decaídas estão convidadas a comparecer ao Palácio, a fim de as restituir (sic), até às 16h da tarde de hoje.” Esclarecia ainda a convocação: A Junta já tem em seu poder a relação de todas essas pessoas, que serão detidas no caso de recalcitrarem na restituição solicitada”.  

Em 30 de outubro, o Diário Oficial do Estado expressava uma "Carta Aberta" do Secretário-Geral, Francisco Pereira, demonstrando que os atos praticados estavam dentro da coerência com o momento, disciplinado que estava com o ideal de seus chefes do Sul, Centro e Norte do Brasil, não tendo amigos, nem inimigos. Referendava ainda a declaração, com que inspirara o apóstolo Juarez Távora, como assim era designado: “Vencidos os inimigos do Brasil, é preciso, agora, que os revolucionários executem o programa da Revolução, vencendo os amigos com a ‘Campanha do Não’”. 

O Governo Provisório Revolucionário havia designado, na qualidade de interventor-geral do Norte, o general Juarez Távora, figura de grande respeitabilidade no esquema de Getúlio Vargas, tendo participado ativamente do processo em expansão, sob cuja responsabilidade recaía a indicação dos interventores militares. Ao Amazonas coube a indicação do tenente-coronel (PMAM) Floriano da Silva Machado, chefe do Estado-Maior da Brigada Militar do Norte, amazonense, filho do coronel Rafael Machado, (participante da campanha de Canudos) revolucionário de 1924 (?) e Lydia Maquiné da Silva Machado, responsável pelos destinos do Amazonas, na qualidade de interventor.

A chegada da delegação do Interventor deu-se no dia 2 de novembro pelo navio "Baependy", a serviço da revolução, trazendo a bordo os componentes do ex-27 BC, atual 3º BC, da Brigada do Extremo Norte, bem como o delegado militar do Estado, capitão (Exército) Francisco Távora, cuja força somente desembarcou no dia seguinte, ocasião em que se processou na sacada dos jardins do Palácio Rio Negro a transmissão do cargo ao tenente-coronel Machado, após a respectiva renúncia da Junta Governativa, tudo sob a orientação do Sr. Francisco Pereira, aludindo, na oportunidade, os consolidadores no Amazonas da obra de transformação política, que se vem de operar no país.

Com a exceção de Arthur Reis, em razão de sua renúncia, os demais componentes do Governo continuaram, desenvolvendo, agora uma nova ação governamental, sob a inspiração da seguinte mensagem dirigida ao povo amazonense:
Como chefe da S.E.M. da Coluna Revolucionária do Extremo Norte, aporto a Manaus, para exercer o mandato de governador militar do Amazonas, cumprindo a determinação do coronel Landry Salles Gonçalves, comandante das Forças Revolucionárias do Norte e governador militar do Pará, o qual me delegou amplos poderes para agir militarmente neste estado. Como soldado, cumpre-me declarar desde logo ao povo de minha terra, para que bem se defina no cenário nacional o papel do Exército, no momento ora vencedor, o programa revolucionário delineado pelo cérebro e pela energia de nosso grande general Juarez Távora”. 

Com o espírito castrense conforme avisara em sua mensagem de posse, o Interventor Militar instituiu um nova metodologia de trabalho, iniciando pelo horário de trabalho, informava publicamente de que as audiências seriam desburocratizadas, desde que em interesse do Estado, estando canceladas em definitivo concessão de passagens, solicitação de empregos ou de pedidos para festividades ou motivos assemelhados. A tranquilidade da cidade exigia restrição à venda de bebidas na parte urbana e suburbana, consoante horários determinados, jogos de azar, veiculação de boatos, porte de armas e até como medida moralizadora, o trânsito noturno de meretrizes pelas ruas da cidade.

Como ato normativo emitiu o Ato nº 1, aprovando todos os alunos de todas as séries da Escola Normal, sem exames finais, desde que apresentassem como média mínima a nota quatro, justificando a medida em razão dos acontecimentos desenrolados no país. Os alunos do Ginásio Amazonense Pedro II tiveram a mesma prerrogativa.

O posicionamento da presença militar no Amazonas era de identificar-se com os princípios revolucionários, consolidando a nova política implantada pelo Governo Provisório sem, portanto, qualificar-se com nenhum dos requisitos democráticos. A imagem revolucionária na sociedade civil estava representada pelas Legiões de Outubro, organização de responsabilidade civil, implantadas no hinterland do Estado com sua sede principal em Manaus.

Havia certa coordenação de interesses visando, consequentemente o fortalecimento do sistema em implantação, como se deduz do publicado no Diário Oficial do Estado, cujo texto transcreve-se na íntegra: “A hidra letal do boato, destruidora das melhores intenções, teve a cabeça decepada à espada, e os ânimos serenaram, no burburinho de há poucos dias, confiando cada cidadão na execução do programa revolucionário, concebido pelo invicto vanguardeiro nordestino (referia-se a Juarez Távora) de par com os pioneiros do Sul”.

O Ato nº 16, de 8 de novembro de 1930, reduzia em caráter obrigatório todos os aluguéis dos prédios de Manaus, particulares ou alugados para fins comerciais, em 20%, enquanto perdurasse a crise com que se debatia o Amazonas, respeitando os contratos sobre o assunto. As passagens de bondes utilizadas pela classe estudantil sofrera uma redução de 50%, com a compra máxima de 50 passes para cada estudante, utilizável desde que o mesmo se encontrasse fardado, conforme determinava o diretor Edward B. Kirk, gerente da Manáos Tramways Ltd., concessionária dos serviços de transportes de passageiros.

Com uma atuação administrativa incompleta em sua gestão governamental, principalmente pela não conclusão de uma série de auditorias investigativas quanto a utilização dos recursos públicos, sob a orientação de uma comissão de inquérito formada por Adelino C. da Costa, Tristão de Salles, José Frota de Menezes Costa, João Viana Junior e João Francisco Soares, encerrava-se em 20 de novembro a administração militar, após a aposentadoria dos juízes de Direito: Manoel Gomes de Oliveira e Silva, Affonso Albuquerque Maranhão, Carlos Pereira da Silva, João de Pessoa Carvalho e Manoel Carpinteiro Peres Junior.

O último ato público do interventor, coronel Floriano Machado, foi a posse dos desembargadores do Superior Tribunal de Justiça, Raimundo Vidal Pessoa, Artur Virgílio do Carmo Ribeiro e Antero Coelho de Rezende, sendo que, no cargo de procurador-geral do Estado, assumia o Dr. André Vidal de Araújo.

Foram eleitos na oportunidade para presidente e vice-presidente do Colendo Colegiado os desembargadores Hamilton Mourão e Gaspar Guimarães. (segue)