CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

27 de julho de 2013

BRANCO (E) SILVA (1889-1959)

Três motivos me levaram a transcrever este artigo: apesar do texto muito simplório, o autor, por sua condição de oficial da Polícia Militar, todavia, com passagem pela prefeitura de Manaus, na condição de Prefeito (1951-52).

O segundo, a figura do artista plástico Branco Silva, cujo nome artístico já absorveu o conectivo “e”, do que resulta Branco e Silva pra lá e pra cá, ainda assim encontrado em alguns locais da cidade. A ilustração mostra um seu trabalho realizado em 1948.

Enfim, a notícia de que acabara de regressar do Sul, onde estivera em tratamento de saúde. A melhora certamente fora nenhuma, pois faleceu em 12 de fevereiro de 1959.

LENDAS E FATOS DA AMAZÔNIA

Edson Epaminondas de Mello (*)

Capa de livro elaborada por
Branco Slva, em 1948
Branco Silva, exímio mestre dos pinceis, apresenta-nos criações de seu espírito de escol, lendas e fatos do nosso folclore. Fatos, porque passados e vividos em nosso hinterland.
São quadros de beleza dantesca, que impressionam ao mais corajoso e a todos deixam um quê de inquietação no espirito, porque dá-nos a quase certeza de seus personagens terem vida.

Há meses, rabiscamos algo sobre “Um artista e um gênio”, publicado por gentileza de Aloisio Archer Pinto em um dos “lideres” da imprensa manauara.

Dentre as criações do ilustre mestre, falamos que estava em confecção – o Mapinguari. Monstro lendário, meio macaco, meio homem, trazendo no meio da testa estreita um só olho avermelhado. Animal cabeludo e disforme, idealizado pela inteligência do mestre, em acordo com informes vários, dados por mateiros e seringueiros.
Aterroriza pelo seu ar sumamente feroz.
Merece ser visto por todos os amazonenses, que assim conhecerão a mais temida lenda do vale verde, corporificada pela mente privilegiada de Branco Silva.

Com relação aos novos trabalhos de Branco Silva, assim se expressou ilustre visitante, vindo do Rio de Janeiro – “A natureza amazônica nos apresenta às vezes, inteligências tão privilegiadas e avançadas, que aquele que observa e estuda, fica sublimemente entusiasmado a ponto de acreditar, ser aqui, aonde correm as águas do Rio-Mar, o verdadeiro habitat dos gênios”.

Assim, nos depara, esse grande artista que aqui nasceu e aqui reside nos surpreendendo de quando em vez, com as suas exposições ou, como agora, com as suas já conhecidas lendas da Amazônia, e fatos ocorridos nas selvas misteriosas e longínquas de nossa terra.

Branco Silva, que acaba de chegar do Sul onde foi em busca de melhoras à sua saúde abalada, ainda convalescente do mal súbito que o atacou, vem de nos apresentar nova e bela exposição.

E assim, nessa enternecedora prova de apreço, vem por longas e sinceras frases, saídas de seu coração leal, até porque, filho de outras plagas glorificando o nosso velho e estimado mestre Branco Silva tornando-se, dessarte, credor de gratidão dos amazonenses, que por minha descolorida palavra dizem-lhe, obrigado, ilustre amigo desconhecido, por tudo que escreveste a respeito do nosso Branco Silva, porque lhe fizeste a justiça que seus próprios conterrâneos pretendem negar a seu reconhecido valor.

Há dias passados, tratando de assuntos profissionais com o Dr. Mário Jorge (Couto) Lopes, para variar nossa conversação, e falando sobre fatos do nosso Amazonas, lembramo-nos de Branco Silva. Disse-nos o Dr. Mário – “seu colega, encontrei-me dias atrás com o velho amigo Branco Silva, e achei-o outro; cansado, semblante de sofrimento; não é o mesmo Branco Silva, vivo, risonho e com ar próprio de quem confia sempre no futuro”.

Estivera doente o velho mestre e, ainda não de todo restabelecido, continua entretanto em seu atelier de trabalho, onde, tantas e belas vitórias há sempre conseguido para o Amazonas, tornando-o, por seus belíssimos quadros e motivos planiciários, conhecido não só no Sul do país, como também no exterior.

Teve o brilhante advogado uma lembrança sublime, que bem diz de seu caráter cristão: “Julgo que o governo do Estado devia premiar o nosso Branco Silva com uma aposentadoria, de pelo menos Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros) mensais, de vencimentos, como reconhecimento do Amazonas ao velho mestre que, por muitas vezes, glorificou aqui como alhures o nome de seu grande Estado”.

Achei maravilhosa a ideia do Dr. Mário Jorge, e senti-me feliz, verificando que em nossa terra os verdadeiros valores intelectuais não são de todo esquecidos, sempre há no meio das atribuições de futebol e politica um Dr. Mário Jorge fazendo justiça a quem merece.

Visitemos, pois, o atelier de Branco Silva, vivendo um pouco de sua vida de alegrias e tristezas, em um ambiente onde sempre tem lutado pela grandeza e glorificação do Amazonas. Assistamos de perto o entusiasmo contagiante com que o mestre explica-nos seus trabalhos e suas criações.

Levemos ao insigne mestre em sua oficina de trabalho o nosso abraço amigo e, também, um pouco de conforto material, pagando a reduzida importância da entrada a fim de ajuda-lo em outros trabalhos, que pretende realizar. O atelier do mestre é para ele o reduto mais sagrado, onde muito tem sofrido e também onde muitas glórias conseguiu para seu nome e para nosso querido Amazonas; suas criações e seus belos quadros são a razão mais sublime de sua vida.

Abracemos ao mestre no recinto sagrado de suas criações, e também sua esposa, Dona Orientina Ruas da Silva, a querida e inesquecível professora de nossa primeira infância, a companheira indormida do estimado Branco Silva, em todas as alegrias ou tristezas, dizendo-lhes... parabéns, mestres... pelo muito que tendes feito pelo Amazonas e pela glorificação de seu nome, tornando-o conhecido até no exterior.

A Branco Silva e Dona Orica (sic), o nosso sincero abraço. 

(*)O Jornal. Manaus, 8 de novembro de 1958

26 de julho de 2013

PADRE ESTÉLIO DÁLISON

Padre Nonato Pinheiro (*)

Padre Nonato Pinheiro, 1952
Padre Estélio Dálison continua vivo no meu coração. Não consigo esquecê-lo, tão fortes foram os laços que nos uniram em vida. Nascido no Uruguai, na Colônia do Sacramento, veio para o Brasil no vigor da mocidade assimilando tão bem o português, que o falava e escrevia como se fosse sua língua materna, o harmonioso idioma de Cervantes. Em 1922, ano do meu nascimento, padre Estélio Dálison recebia o sacerdócio em Roma, com outros três salesianos. Em 1930, chegava a Manaus, logo dominando os círculos sociais e intelectuais com o esplendor de sua eloquência. O verbo caía-lhe dos lábios em cascatas de prata, em catadupas de ouro. Nesse mesmo ano recebia eu de suas mãos a primeira comunhão.

Tive duas convivências com o famoso filho de Dom Bosco. A primeira é concernente à quadra de estudante, de 1933 a 1938, no diretoriado do padre Lourenço Gatti, que sucedeu ao santo padre Pedro Ghislandi. Ensinava-nos Religião. Apesar da austeridade da disciplina, se nos instruía com segurança e profundeza na doutrina cristã, sabia divertir-nos com o seu bom humor, que era simplesmente fabuloso. De uma feita ouvi-lhe dos lábios: “No Brasil, para tudo se usam selos de educação e saúde, e não há saúde nem educação”... Doutra vez, assistindo a uma algarraza de colegiais, assim falou: “Na bandeira brasileira está escrito Ordem e Progresso. No coração do brasileiro leio Desordem e Regresso...”
Na segunda convivência já era eu sacerdote. Estávamos sempre juntos, como também pela circunstância do cargo que desempenhava, de secretário do Bispado, na administração diocesana do saudoso Dom João da Mata Andrade e Amaral. Quando este foi transferido para Niterói, lembro-me de que fui eu quem lhe deu a notícia da eleição episcopal de Dom Alberto Gaudêncio Ramos. Padre Estélio não conhecia o novo bispo, saído do clero secular da Arquidiocese de Belém. Aproveitou os nomes dos dois antístites para um trocadilho, que provocou risos ao próprio Dom Alberto: “Olhe, padre Nonato: para fazer uma mata, só muitos ramos...”

Ouvi magníficos sermões e panegíricos do padre Estélio Dálison. Os noivos da aristocracia social procuravam-no para abençoar as núpcias. Essas alocuções matrimoniais eram sempre cintilantes. Nos últimos anos de vida, proferiu duas soberbas orações gratulatórias: nas bodas de ouro sacerdotais do seráfico frei Domingos de Gualdo Tadino, capuchinho, e na 1ª Missa Solene do padre Mário Balbi, salesiano amazonense. Funcionei como diácono, e ainda retenho o texto da alocução: “Sacerdos – sacer dos, sacra dans” (Sacerdote  -- dote sagrado, dador de sacralidades).

Se no púlpito empolgava, na conversação fascinava. Era um encanto a palestra do padre Estélio: pela viveza, pelo humor, pela ironia. Quando completou 60 anos, anunciou que havia descoberto um meio de não passar dos 60. No ano seguinte, ao raiar o dia 24 de setembro, sua data genetlíaca, declarou: “Estou descendo. Hoje festejo meus 59 anos. Para o ano, 58...”. Padre Agostinho recebeu a notícia com uma boa risada.

Seus últimos anos foram de intenso trabalho. Além de diretor, era também o prefeito ou ecônomo do estabelecimento. E muitas vezes o vi na livraria do colégio, a vender o material escolar e as guloseimas. Um dia fui celebrar na igreja de Dom Bosco. Ao dirigir-me para o refeitório, surpreendi-o na livraria. Chamou-me: “Tenho um presente para você. É a pastoral do bispo X. Não sou lá grande admirador de Sua Excelência, e sei que o Espírito Santo às vezes se engana, leve a Pastoral para o seu arquivo eclesiástico”.

Padre Estélio foi um grande apreciador de laranjas. Gostava de saboreá-las pela manhã, antes do café. Enalteceu-me mais de uma vez o teor vitamínico da laranja, sua fruta preferida.

Já devo atingir o objetivo dessas linhas: revelar o poeta padre Estélio. Para muitos, sei que será realmente uma revelação. Padre Estélio foi poeta, e poeta primoroso. Poetava, porém, clandestinamente, sem exibir a ninguém a prata de copela e o ouro fulvo de sua finíssima inspiração. Transcreverei uma joia de seu estro poético, uma linda poesia sacra, cujos originais me foram confiados pelo meu dileto padre Agostinho, logo depois das exéquias solenes em sufrágio de sua alma, em que tive a honra de proferir a Oração Fúnebre.

Guardo a poesia desde 1949. Doze anos decorridos, tive a ideia luminosa de publicá-la, para maior conhecimento da inspiração e sensibilidade do autor, revelando ao Amazonas o poeta, pois só o conheciam como palestrador cintilante e orador primoroso.

Eis a formosa poesia, que demonstra e documenta a delicadeza de sua alma de esteta e a mira de seus sublimes ideais:

ASPIRAÇÕES

Ardem gotas de luares
nos altares
onde se esconde Jesus;
e luzem nos peitos crentes,
resplentes,
as alvoradas da Cruz.
 

Não quero a festa obscena,
que envenena,
como o beijo do traidor.
Quero o prazer puro e calmo,
como o salmo,
que rezo aos pés do Senhor.


Não quero os fátuos clarões
de ilusões
que matam para viver.
Quero afetos sem escória,
quero a glória,
quero vencer ou morrer!

 
Teria sido a única poesia do padre Estélio, em língua portuguesa? Não o creio. O artista certamente lapidou outras preciosidades para depois destruí-las num rasgo de insatisfação e humildade. Como quer que seja, Adriano Jorge e Péricles Moraes sabiam-no primoroso homem de letras. Este último revelou-me, mais de uma vez: “Tê-lo-íamos eleito para a Academia se o português fosse sua língua materna”.

Essas linhas são de comovida homenagem à sua prefulgente memória, cujo clarão jamais se extinguirá.

(*) O Jornal. Manaus, 31 de dezembro de 1961.

23 de julho de 2013

VICENTE REIS: HISTÓRIA FACETA


Capa do livro
Este causo, contado pelo saudoso mestre Mário Ypiranga, já teve vários personagens. Acho que o último mais conhecido foi Leonel Brizola.
 

O VICENTINA
O Dr. (bacharel em Direito) Vicente Torres da Silva Reis era baixinho, comilão e apegado ao seu Jornal do Comércio, na época localizado do lado esquerdo da avenida de Eduardo Ribeiro, número noventa, mais ou menos onde foi a "Farmácia Barreira" quase à esquina da rua Henrique Martins. O fundador do jornal fora um jornalista português naturalizado.

Depois de instalado o jornal no edifício da mesma artéria, no "Açaizal," é que adquiriu as linotipos (a segunda frota, porque a primeira foi adquirida por Eduardo Ribeiro para equipar o Diário Oficial do Estado) que deram prestígio ao jornal mais lido no Amazonas e com sucursais na "Oropa”, França e Bahia.

Foi quando estava no apogeu da carreira brilhante de "jornalista festejado", que o Dr. Vicente Reis achou de entrar na política, pelo lado esquerdo, isto é, pela oposição. Candidato a deputado estadual foi eleito com "expressiva votação’’, mas a sua frásica politiqueira não o ajudou muito, arranjou inimigos que hierarquicamente vinham do governador ao mais baixo salafra da Polícia Civil.

O governador era então o "Vatapá de Suíças", codinome do médico Dr. Jonatas de Freitas Pedrosa, baiano de nação e dominado pela prole que ditava ordens no palácio e desordens na via pública. Ameaçado de pau e de ter a redação varejada pela polícia à paisana, o Dr. Vicente refugiou-se no lugar mais próximo do jornal e menos perigoso, que foi à casa do seu amigo o comendador Antônio de Matos Areosa, vice-cônsul de Portugal e representante-gerente das duas mais fortes companhias de seguros, a Sagres e a Aliança da Bahia, ambas em prédio de sua propriedade, situadas bem mesmo ao lado da polícia, à rua Marechal Deodoro.

Durante três dias e duas noites ficou o Dr. Vicente Reis homiziado ali, garantido pela circunstância de "território neutro", inviolável.

Mas o jornal chamava-o, não podia deixá-lo entregue à visão pouco esclarecida (esta sempre foi a opinião do jornalista à respeito do mérito dos seus devotados auxiliares) do Dr. Antônio dos Passos Gomes. Por isso determinou fugir logo que a noite baixasse. A casa nobre do comendador Matos Areosa ficava na rua de Vinte e Quatro de Maio, mística a do Dr. José Pais de Sousa Brasil, advogado, e muito perto da do deputado Dr. Antônio de Sá Peixoto, seu inimigo figadal, até à morte.

Fugiu. E como fugiu di-lo melhor as picuinhas que circularam em volantes impressos, depois da patuscada. Eu não sei se o leitor está a par de que o Dr. Vicente Reis havia escrito farsas que foram bem recebidas pelo público no Rio de Janeiro e servido de delegado-auxiliar na polícia daquela cidade, quando teve oportunidade de escrever um folheto versando a gíria dos ladrões daquela capital. Estava, portanto, o jornalista no seu metier.

A versalhada abaixo nos foi comunicada pelo Dr. Pais Brasil, quando professor de Direito Constitucional na Faculdade de Direito.

Vicente Reis, o embusteiro,
Escapou dos seus apuros
Porque usou o roupeiro
Da madame dos seguros.

O Vicente deputado
Que não gosta de biraias,
Escapou todo cagado
De chapéu, sombrinha e saias.

Com uma barriga de meses
E uns peitos monumentais,
O Vicentina das reses
Fugiu dos policiais.

20 de julho de 2013

FUTEBOL AMAZONENSE


Artes do futebol amazonense são aqui apresentadas por um lembrado cronista esportivo. Leal da Cunha conta-nos duas histórias, e, como assegura o próprio autor, a primeira vem travestida com as lendas recolhidas em nossos beiradões. A segunda é verdadeira. Ainda há quem a confirme, por ter participado do acontecimento. Não assisti ao jogo (1962), mas encontrei no quartel da Praça da Polícia (1966) alguns personagens, tanto jogador do quadro nacionalino quanto policiais presos.

 Leal da Cunha (*)

Futebol com doze

Pode até parecer mentira, brincadeira ou gozação, mas o certo é que o Juca Zangão conta essa passagem no futebol como verdadeira e real. Desenrolada no interior do Estado.
Jogavam dois times da mesma Liga. Dois times de grandes torcidas e dirigidos por gente muito importante. Era uma decisão de campeonato promovida pela tal Liga. Tão importante que para dirigi-lo, à sua arbitragem, foi convidado um juiz (árbitro) do município vizinho.

À hora do jogo todos estavam a postos. Jogadores, juízes e bandeirinhas. Foi dado início ao jogo, e, de repente, o capitão de uma das equipes se dirigiu ao árbitro para reclamar do time adversário, por quanto estava jogando com doze elementos em campo, o que não é permitido pela regra de futebol.
O juiz se dirigiu ao jogador que estava protestando contra aquele absurdo e esclareceu:
- Olha aqui, meu filho: três jogadores foram escalados pelo juiz de Direito; três, pelo promotor; mais três jogadores, pelo prefeito, e ainda mais três, pelo padre paroquial. Logo o que é que jogar onze elementos num time.
- Ora, rapaz, não me venha com esse negócio de regra ou de Lei! Há tanta coisa que a Lei proíbe e, no entanto, muita coisa também se prática ou se comete em desrespeito à lei. Deixe isso pra lá, amigo. Nós vivemos num país que "manda quem pode e obedece a Lei quem quer ou é leso!” Por isso, aconselho que você coloque mais um jogador no seu time pra ficar tudo igual, isto é, doze contra doze.
E, assim foi dito e cumprido, sorte que tudo terminou bem, não havendo mortos nem feridos.





O estádio do Parque Amazonense em demolição,
vendo-se apenas a o prédio coupado pelos cronistas,
1991.

 
Parque Amazonense

Pois bem meus amigos, em Manaus, em 1962, aconteceu no Parque Amazonense, um fato também pitoresco e que pode dissipar a dúvida de quem achou pouco confiável o que antes foi dito.
A regra de futebol é clara quando diz que o jogador expulso de campo NÃO pode ser substituído (grifo nosso). Rionegrinos e nacionalinos decidiam no velho Parque o título de campeão amazonense de 1962. O meu brilhante amigo Josué Claudio de Souza era quem mandava no time rionegrino, enquanto o Dr. Plínio Ramos Coelho, à época governador do Estado, era o presidente do Nacional.

O Parque estava cheio de gente. Na partida preliminar os juvenis nacionalinos abriram uma porrada com os soldados da Polícia Militar. Alguns “garotos” tomaram uma cacetada. O Dr. Plínio Coelho não gostou de a sua polícia bater nos seus meninos e, ato contínuo, ordenou a prisão de um dos soldados que ali estavam para o quartel.

Porém, o negócio mais pai-d’égua foi no jogo principal. Aos 16 minutos do primeiro tempo, o arbitro expulsou o jogador Lacinha, que era do time nacionalino, consequentemente, o time do governador. Então, diante de toda essa embuança, criou- se aquele ambiente de sai e não sai, com o tempo desenrolando e jogo paralisado, e apenas 16 minutos haviam sido jogados. 

A essa altura do campeonato sempre aparece um "profeta", desse tipo como político demagogo que se diz defensor do povo. Foi chegando perto os conflitantes e sempre dizendo: "o povo não pode ser prejudicado; o povo pagou para assistir 90 minutos de jogo e não 16 minutos. E agora ninguém pode devolver o dinheiro, porque as entradas não tinham o canhoto".

O pessoal das emissoras de rádio queria saber o que o árbitro dizia. E, sua Sia. não se fazia de rogado: o jogador Lacinha está Expulso de campo. Algumas pessoas falavam: cuidado, "seu" árbitro, o Sr. está expulsando um jogador do time do governador!...  

E, aquela figura de político de campo de futebol voltava atacar: "o povo não pode ser prejudicado". Ele dava a entender que o povo não podia ser roubado como se fosse aquela a primeira vez que o povo era roubado.  

Conversa vai, conversa vem, e, depois de muito jogo de palavras acordaram as partes litigantes que, para o “bem do povo e a felicidade geral da Nação”, o jogador ali expulso de campo poderia ser substituído. E assim foi cumprido. Saiu o Lacinha e entrou o Luizinho. O jogo também chegou ao seu final com a vitória dos rionegrinos por 2x1, sagrando-se, portanto, o campeão da cidade.

Assim meus amigos, isto é, aqueles que duvidaram que um time de futebol não pode ter doze jogadores em campo, assistiram diante desses fatos que um jogador expulso de campo foi substituído por outro jogador de sua equipe, é claro.
No entanto, se alguém duvidar do que aqui escrevemos podem perguntar ao Baú Velho, do Carlos Zamith, do meu amigo CIóvis Lemos de Aguiar e do velho jornalista Josué Claudio de Souza.

(*) O texto foi publicado em A Crítica, em 17 de novembro de 1991  

18 de julho de 2013

FRANCISCA, SAUDOSA MÃE

Renato Mendonça (*)

Francisca Lima, final
dos anos 1930
Remexi no baú de recordações todos os documentos que dispunha e que ainda disputavam a minha curiosidade; busquei nesse relicário também todas as fotos antigas, que fazem parte do acervo que ajuda a restaurar a memória.

Foi como uma viagem ao passado, um curta em preto-e-branco; de olhos fechados, revi a trajetória de uma migração para o Amazonas, para a extração de borracha no primeiro período — compreendendo as duas décadas finais do século XIX e a primeira década do século seguinte —, quando aconteceu um êxodo de nordestinos, notadamente do Ceará, que sofria as consequências das secas do final do século.

Residência da família no Anveres,
Francisca (no colo da mãe), 1917
Nesta leva, a família Pereira Lima, provavelmente, estava incluída. Como pobres retirantes não chegaram até Manaus, talvez temendo o fantasma da modernidade e da pujança adquirida com a valorização do bem extrativista.  Ou porque não era exatamente na capital que ficavam os seringais. Dá para intuir que uma família sem recursos, sem uma formação cultural necessária para enfrentar uma metrópole, prefere um lugar simplesmente rural. E aí, se instalaram no Anveres, um distrito do Careiro.

Neste humilde lugarejo nasceu Francisca, a caçula de uma enorme prole. Com as dificuldades finaceiras advindas do fim do período fértil da borracha, ela tomou coragem e resolveu buscar alternativas de ajuda aos pais, atravessando o Rio Negro. Foi em busca de documentos e de trabalho. Adquiriu Titulo de Eleitor aos 20, Carteira Sanitária e Carteira Profissional aos 22, para finalmente começar um trabalho remunerado.

No seu único emprego, na Fábrica Rosas Ltda., ficou por quase três anos.  Aproveitou para fazer outros cursos de prendas domésticas, como Corte e Costura por exemplo, preparando-se para a vida conjugal, como era praxe nestes anos dourados da década de 40. 

Neste ambiente da padaria (hoje panificadora) conheceu Seu Mendoza, um peruano que também fugiu de sua terra natal, aos 15 anos, acompanhado do irmão mais novo (Francisco) e sob a tutela da mãe, Dona Victoria, peruana emancipada, destemida e arrojada. Assim, dentro das mesmas castas sociais e no mesmo ambiente de trabalho, o desenlace tinha que acontecer.

O casal perambulou por vários cantos e em vários endereços. Como nômades viajaram até Iquitos-Perú, onde ocorreu o casamento. Depois do nascimento dos dois primeiros filhos, navegaram para o Rio de Janeiro em busca do  pote de ouro no final do arco íris. A construção do Maracanã faz parte do currículo do Seu Mendoza, onde trabalhou junto com o irmão.

Desavenças e dificuldades de relacionamento entre familiares acabaram por virar pó essa jornada carioca. Dona Francisca já não tinha mais a saúde em dia. O mal do meado do século, a tuberculose, era um temor e uma ameaça. A família tentou, numa guinada de 180 graus, a cura para tão desastrosa doença, talvez apostando no clima tropical.

Não deu, em Manaus, Dona Francisca teve uma  piora e o desfecho era inevitável. Às 20 horas do dia 18 de julho de 1952, sexta-feira, Dona Francisca Pereira Lima encerrou sua obstinada luta pela vida. Uma caquexia foi diagnosticada, talvez resultado da pneumonia aguda que contraiu. Deixou um legado e uma história, curta, exata e de superação. Os três filhos não puderam, nos últimos meses, receber o seu carinho e seu afeto, em face da doença contagiosa. Mas, com certeza, estão plasmados pelas bençãos que ela envia do seu lugar de luz e de paz.
 
(*) Renato, meu irmão caçula, escreve com o imenso afeto que se encerra em seu peito sempre juvenil, imensamente filial, mas sofrido, porque devido a saúde de nossa mãe, ele pouco desfrutou do convívio dela. 

17 de julho de 2013

MANAUS: HISTÓRICO E SENTIMENTAL (2)


Detalhe da capa
 do livro
O hoje acadêmico Luiz Miranda Corrêa publicou, em 1969, Manaus: roteiro histórico e sentimental da cidade do Rio Negro, objetivando montar um Guia para os visitantes de Manaus. Deste roteiro copiei e colei o texto abaixo:  

AS GRANDES CASAS CRIADAS PELA BORRACHA
 
VALE a pena fazer uma visita às grandes casas que as famílias enriquecidas pela borracha mandaram construir em Manaus. É verdade que a grande maioria se encontra, atualmente, transformada em repartições públicas, hotéis de segunda categoria, ou até em ruínas grandiosas. Poucas foram as famílias a conseguir sobreviver ao grande debacle.
Algumas, como os Oliveiras da "Vila Fany", os Araújos (que possuíram a maior casa aviadora do Amazonas, cujo fundador o famoso Comendador se encontra retratado em A Selva, de Ferreira de Castro), os Bretislau de Castro, os Madureira de Pinho, os Rezende Rocha, os Miranda Corrêa, os Mattos Areosa, entre outras, sobreviveram por mais algumas décadas. A verdade, entretanto, manda dizer que a grande maioria dessas famílias não vivia diretamente da borracha. Sofreram, é claro, com o empobrecimento da cidade, com o estancamento dos negócios, mas suas atividades industriais, comerciais ou profissionais liberais, lhes permitiram resistir ao caos financeiro advindo após a quebra do monopólio e a conservar um padrão de vida excelente para os índices regionais.

Outras grandes famílias não tiveram a mesma sorte. As fabulosas fortunas dos Mello Resende, dos Raposo da Câmara, dos Ramalho, dos Rêgo Monteiro, dos Nery, dos Bittencourt ou dos Pedrosa, só para citar alguns dos mais tradicionais nomes do Amazonas, desaparecerem como por encanto.
Os Mello Rezende, por exemplo, possuíam propriedade em Paris. Nela viviam grande parte do ano. O mesmo acontecia com os Nery e com os Ramalho. Os Raposo da Câmara residiam durante grandes temporadas na Suíça, país em que edu
cavam seus filhos. Em Manaus, construíram grandes vilas ou palacetes onde os móveis caros da Europa vinham entulhar construções inteiramente deslocadas no ambiente amazônico.

Refletiam, entretanto, um estado de espírito dominante na comunidade aventureira, numa sociedade não estratificada, em que os padrões não eram regidos pelo sucesso financeiro. Da época, o anedotário amazonense herdou mil e uma histórias saborosas. Conta-se, por exemplo, que um português enriquecido, proprietário de casa aviadora, residente em palacete art nouveau, chegando a casa mais cedo, encontrou as duas filhas se exercitando ao piano, em uma peça a quatro mãos, sob o olhar complacente da professora francesa. Insultado, retirou-se, indo à loja mais próxima adquirir um segundo piano igualzinho ao belo Bekstein  de cauda inteira existente em seu salão. E repetia: "Ora bolas, tenho dinheiro. Não quero que ninguém diga que minhas filhas estudam no mesmo piano por sovinice."
As velhas casas do tempo da borracha têm histórias e fantasmas, estes últimos uma espécie de herança inglesa, bem aceita pela ingenuidade do indígena, sempre pronto a acreditar no sobrenatural. Através dos tempos elas vêm merecendo a atenção dos estudiosos. Arthur Cezar Ferreira Reis, Leandro Tocantins, José Lins, Mário Ypiranga Monteiro, Genesino Braga e eu mesmo, já tentamos descrevê-las e interpretá-las. Talvez hoje já não pareçam tão grandes e tão importantes às gerações acostumadas ao concreto armado, e as estruturas metálicas, criadoras da construção gigantesca dos arranha-céus. É necessário situá-las no tempo e no espaço a fim de entendê-las e apreciá-las. É preciso recuar ao fim do século XIX e aos primórdios do nosso século, lembrando que Manaus nada mais era que um ponto perdido no centro da Amazônia, distando mil milhas do Atlântico, com apenas
vinte mil habitantes. Aí então poderemos entender a importância dessas construções para seus proprietários e para a própria comunidade.

Pensar, por exemplo, na loucura da construção do hoje Palácio Rio Negro, residência do comerciante Ernest Scholtz, um dos grandes anfitriões da Manaus da borracha. Ele oferecia bailes e recepções que se prolongavam pelas grandes varandas e jardins. Ou no palacete "Fernandinho", escondido no meio do mato, espécie de vila italiana, hoje abrigando a sede do IPASEA (em nossos dias, pertencente à Amazonprev), em cuja traça Leandro Tocantins foi descobrir formas romanas inspiradas na arquitetura de Baldassare Peruzzi. Os gigantescos sobradões portuguêses são outro exemplo, sobradões que variam entre um neoclássico um tanto romantizado até às inovões, do art nouveau, parentes bem próximos dos sobradões do Cais do Sodré, de Lisboa, ou dos belos exemplares do Boulevard Castilho França, em Belém.
 
Nas redondezas da Praça dos Remédios e na avenida Joaquim Nabuco, concentram-se as grandes residências dos senhores da borracha. Outras, porém, são encontradas nos altos da avenida 7 de Setembro, na Eduardo Ribeiro, e perto da Praça Dom Pedro II. Alguns fugiram do centro urbano, e, imitando os ingleses, procuraram terrenos mais altos: já nos limites com a floresta, perto do reservatório do Mocó. O palacete desabitado de propriedade da família Furtado é bem um exemplo dos modernismos daqueles dias. Belo prédio em centro de ampla propriedade, inteiramente art nouveau, de um risco eminentemente francês, com orientalismos marcantes em suas portas e janelas. Se a traça externa é agravel,
internamente demonstra certo acanhamento nas divisões, com salas e quartos pequenos, o que era comum nas construções europeias do gênero.

Voltando ao centro, deve-se olhar a tão conhecida "Vila Fany", ponto de encontro, até os anos dos 30, da melhor sociedade amazonense e dos estrangeiros mais categorizados. Sobradão português de larga fachada, em que certos elementos neoclássicos foram empregados visando a conseguir um efeito palaciano. As proporções do prédio são mais portuguesas, e a aparência sólida do bloco foge à leveza do neoclássico, que se pretendeu conseguir.

Ainda na Joaquim Nabuco, rua onde se encontra a "Vila Fany", encontra-se mais de meia dúzia de belos sobradões portugueses, alguns com azulejos de inspiração colonial ou já art nouveau, ostentando em seus frontões estatuária do Porto. Deve-se notar, também, outro tipo de construção mais singela, cujas origens portuguesas se denunciam à primeira vista. Espécie de pequenas casas de fazenda já com requintes urbanos, construção híbrida que talvez Gilberto Freyre chamasse de rurbana, cujo melhor exemplo é a bela casa em que hoje se encontra instalada a Legião Brasileira de Assistência.

Ainda na Joaquim Nabuco encontramos a sede amazonense do IRB, um tipo de "Vila Fany" em maiores proporções, trazida aà calçada em que os elementos neoclássicos não são tão evidentes. Pertenceu à família do seringalista
Mendes Cavaleiro e depois serviu como Consulado da Colômbia. É outro prédio a lembrar que a Joaquim Nabuco foi das ruas prediletas dos nouveau riches do início do século. E na mesma via pública, alguns blocos mais abaixo, o palacete Nery, construído pelo governador Silvério Nery, servindo atualmente como sede de repartição federal, nos parece suave e imponente em seu neoclássico tranquilo, com frontão triangular decorado um tanto à maneira shereaton. Sem dúvida é a mansão manauense mais castiçamente neoclássica, com janelas e portas francesas, seu pátio com varandas, seus gradis forjados ao gosto de Paris da época. Os Nery, pela sua elegância e seu refinamento francês, escreveram uma página na vida política e social da cidade. Ao Estado deram dois governadores esclarecidos, que souberam aproveitar as condições que a borracha criara, lançando-se, com visão, a grandes empreendimentos. Mas tarde outro Nery (Júlio) governou o Amazonas como Interventor Federal e, presentemente, é um Nery (Paulo) o prefeito de Manaus.

Na parte mais nova da cidade o turista poderá reparar no sobradinho apalaçado existente na esquina das ruas 24 de Maio e Barroso, gradis na entrada e beirais de chumbo com motivos florais trabalhados e rebuscados, bem dentro do espírito do estilo. Atualmente, abriga o Consulado de Portugal. Ainda digno de nota é o palacete Bretislau de Castro, casarão português com certos maneirismos franceses, escadarias de mármore italiano, grades e beirais enfeitados com flores de lis. Em nossos dias, serve a uma repartição do governo federal, mas já foi cenário de grandes jantares e recepções em que D. Mariquinhas Bretislau pontificava com seus quitutes e especialidades famosas nos quatro cantos da cidade, dentro de um espírito luso-brasileiro tão raro de encontrar no Amazonas, a lembrar o modo de vida patriarcal das cidades nordestinas interpretado por Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos.

Na Praça da Saudade o palacete a abrigar a reitoria da Universidade do Amazonas, por muitos e muitos anos conhecido como a casa do Juiz Federal, é de um art-nouveau depuradíssimo com portas e janelas mouriscas. Traça a indicar mestre de obras português inspirado nos orientalismos da moda e em certo saudosismo ibérico. O pé direito desmesurado dos andares lhe prejudica o equilíbrio externo, mas se as proporções não foram respeitadas, garantiram, no todo, grandeza um tanto antiquada mas, sem dúvida, de casa nobre.

Na Praça Antônio Bittencourt, também chamada Praça da Saúde ou do Congresso, encontramos o palacete Miranda Corrêa, com seu ar de hotel particular francês, ligado diretamente à arquitetura de Mansard com nítidas influências dos castelos do norte da França, como o Chateau Champs de Bataille, por exemplo, ou de outras casas campestres. Com porão alto, dois andares nobres e sótão mansardado, constitui-se em bela forma arquitetônica. Em seus grandes dias era decorado internamente com móveis ingleses e franceses e seus salões abriam-se regularmente para grandes jantares em homenagem a visitantes ilustres, políticos, intelectuais e músicos que, após os suculentos comes e bebes amazônicos, servidos em cristais e porcelanas francesas de 1900, se exibiam em saraus musicais em um dos quatro famosos pianos de cauda importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein  e um Cramer.

Seguindo a rua Monsenhor Coutinho, que cruza a Praça da Saúde, encontra-se, um quarteirão abaixo, já na esquina da rua Tapajós, o sobradão dos Mattos Areosa, hoje funcionando como Faculdade de Filosofia da Universidade do Ama-
zonas. Digno de nota por seu aspecto lisboeta, grande fachada lateral, janelas com balcões gradeados, amplas varandas cobertas com beirais de chumbo trabalhado e belos gradis forjados.
É uma tentativa de criação de sobrado amazonense, respeitando o clima regional, a demonstrar a facilidade com que os lusos se adaptaram aos trópicos, pois se trata de casa construída por portugueses e para família originária de Portugal.

Deixamos para encerrar o capítulo das casas da borracha, com algumas notas sobre o palacete Beça, hoje residência do ramo-Beça-Vaz de Oliveira, por se tratar de belo exemplar da arquitetura luso-tropical no Amazonas, que nos chega dos grandes dias da cidade, intacto e habitado pela mesma família. Seguindo uma tradição amazonense de nítidas raízes luso-tropicais, os Beça Vaz de Oliveira continuam a receber com a mesma mesa farta e adega selecionada, apanágio dos dias fáceis do ouro negro.
O palacete Beça além dos belos gradis, azulejos e cerâmicas, vale bem uma visita aos seus jardins cuidados à maneira de um paisagista tropical em que pássaros e aves amazonenses, domesticados, graciosamente se exibem aos convidados.

Existem, é claro, outras mansões, palacetes e grandes casas. Herança dos dias em que Manaus reinava como o centro mundial da borracha. Seria impossível descrever todas elas e, portanto, escolhemos as que julgamos mais representativas de cada estilo ou de cada maneira de viver das famílias mais destacadas daqueles dias, que marcaram a ascensão de Manaus à categoria de cidade.