CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de junho de 2013

TRILOGIA DOS SANTOS

Pedro Renato (à dir.) e o filho Marcelo,
pai do João
O texto abaixo foi escrito pelo mano Renato Mendonça, homenageando seu filho caçula, Fernando, pelo aniversário deste no Dia de São João. Sucede que nesse tópico a família foi privilegiada, os três irmãos nasceram em junho. Daí o Antônio e o Pedro. Faltou o João, que é o tema desta crônica.
Aproveito para, com a postagem à qual acrescentei algum itálico, abraçar meus familiares pelos seus cumpleaños: Antônio (13), irmão; Fernando (24), sobrinho; Vilma (28), cunhada; e Renato (hoje, 29), irmão.

* * *

Desde que os irmãos Mendonça nasceram nas distantes décadas de 40 e 50, sempre se pensou que a trilogia dos santos ficaria incompleta.
Henrique  Antônio, 2009 
Roberto, o primogênito, errou o alvo, faltou pouco — para ser mais exato: uma semana antes do dia do profeta — por isso não se chamou João e sim, Manoel, para homenagear o progenitor.   Antônio, o segundo, acertou em cheio o santo casamenteiro, e de quebra, foi contemplado com o prenome Henrique, que é o aportuguesamento do nome do avô. Porém, tenho minhas dúvidas quanto a esta homenagem. Afinal, o avô parece que teve uma participação pífia na formação do velho Mendonça, apenas biológica.

Por fim Renato, o caçula, o cronista que escreve esta, foi certeiro, possibilitou a homenagem ao santo das chaves do céu e patrono da Igreja Católica – Pedro. Daí, além do tributo ao santo do dia 29, junto com o significado de renascido — que provavelmente terá sido escolhido pela mãe Francisca — lhe rendeu o nome composto, tradicionalmente familiar.


Fernando, 2003
Assim, todos os nomes tiveram a força divina da Folhinha (calendário religioso observado pela família católica de então) somada a alguma homenagem ou significado. Mas, ainda haveria tempo e oportunidade, nas futuras gerações, para preencher a lacuna do santo mais festejado dessa tríade: São João.

E coube ao Fernando, nascido prematuramente, esse privilégio. Um mês antes da data prevista, ele já estava visitando o nosso mundo, exatamente no dia 24 de junho. Um garoto levado, que se fosse chamado Joãozinho, daria muito mais trabalho. Havia uma falsa preocupação de que o nome contribuísse para que ele fosse confundido com o das piadas levianas, as quais normalmente o colocam como vilão.

Ledo engano, Fernando deu o mesmo trabalho que todos os meninos da sua geração. Enquanto preocupou, também encantou. Posso dizer que me diverti muito vendo suas peraltices: os discos de vinil espalhados no chão, no corredor da casa, servindo de prancha de surf. As roupas brancas de réveillon expostas nas Lojas Americanas eram como guardanapos, para que ele, se refestelando de chocolates, limpasse as mãos. E eu não conseguia interromper a algazarra, talvez por causa do meu sentimento ambíguo, de reprovação e de admiração. Coisas de pai coruja!

E não poderia deixar de recordar quando, aos sete anos ele me fez sair às pressas da cadeira do barbeiro, com o meu cabelo cortado só de um lado e com um pano branco pendurado ao pescoço. Nandinho saiu em desabalada carreira, dizendo que ia pra casa e não podia me esperar. Tive que segui-lo de longe, orientando-o na travessia das ruas para evitar um desastre. Só depois de vê-lo chegar ao prédio residencial, pude voltar e completar o corte de cabelo. Velhos tempos!

Agora, já não é mais o Nandinho, tornou-se um homem, tornou-se um cidadão. Fernando agora dirige a própria família com paixão e devoção.  A filha dele, Teresa, lhe devolve em parcelas a alegria que ele me doou. Parabéns!

De volta aos santos juninos. Somente com a segunda geração, a trilogia ficou completa. Ficou? E o nome? Bem, o nome ficou por conta do João Marcelo, da terceira. Explico: Marcelo Renato, meu primeiro filho, percebendo que estava faltando apenas este nome, interveio e homenageou o santo. Uma justa homenagem para completar totalmente a trilogia com nomes e datas.

Os irmãos Mendonça da primeira geração, que já ultrapassaram a barreira dos sessentanos, podem ficar em paz, porque, passados 58 anos, completou-se a trindade dos santos.  

28 de junho de 2013

HOTEL CASINA

Recorte da folha de rosto do
livro de Gonçalves Maia
Gonçalves Maia, amazonense radicado em São Paulo, no início do século passado efetuou uma viagem pela Amazônia, hospedando-se em Manaus no Hotel Casina. No retorno, compilou suas notas muito simples no Livro de viagem: Norte (1904), que, apesar de editorado em Manaus pela Empresa do “Amazonas – editora”, em 1906, foi impresso em Lisboa (POR). Obra existente na biblioteca Mário Ypiranga. Colei o capítulo referente ao Casina que, na época, era tido como a melhor pousada da cidade da borracha. Manaus vivia o auge do ciclo da hévea.

Os que se divertem

O meu quarto no Hotel Casina dá para o jardim da Praça do Palácio [hoje Praça Dom Pedro]. É o melhor aposento do hotel, como o hotel é o melhor da cidade. É também o quarto mais caro. Pago 20$000 [vinte mil] réis por dia. Já era, portanto, um aposento para ser confortável e até luxuoso.
A mobília é, entretanto, humilde. O guarda-roupa não tem portas de espelho. O lavatório é quase um lavatório de estudante. Os tapetes são velhos. Mas a cama é boa, larga, macia e a luz entra em grande jorros (sic), alegrando a vida.

Quando toda a cidade arde abrasada, o meu quarto é fresco. Só isso vale uma fortuna e eu não me queixo. Depois, estou numa cidade onde tudo é caro. Antes assim.
Hotel e praça abandonados, 2013

As cidades onde tudo é barato e onde se vive com pouco, são cidades pobres. E se nas cidades ricas a vida é cara, é que também a vida tem mil recursos de subsistência. Essas cidades são como os terrenos mineiros. Tudo está em descobrir o veio.

Haverá miséria aqui? Não sei ainda.
O que eu vejo nesses grandes aterros que se estão fazendo, nessas grandes construções que esfloram da terra, é que há trabalho para um exército de proletários.

O carregador que me trouxe a bagagem cobrou 15$000. A distância do cais ao hotel é talvez a que vai da Lingueta ao Arco da Conceição (em Lisboa?). Mas se isso é assim, é porque há dinheiro ou porque a população não é ainda tão grande que a concorrência se tenha assinalado. Não me queixo disso, repito. Só as cidades pobres me entristecem.
E eu não tenho razões para estar triste. Saudoso sim, mas não triste. Pelo menos a anoite que eu acabo de passar, foi uma noite em claro, mas uma noite musical e luminosa. A luz elétrica atravessa os postigos e vem esbater nas paredes como um dia claro.

Do outro lado, em frente é o Eldorado; ao lado é a Pensão da Mulata. Até tarde eu ouvi a música das orquestras e a cantoria dos couplets alegres. São os cafés cantantes.
E, como ontem mesmo se deu um incidente num desses cafés, segundo vejo de uma publicação de hoje nos jornais, alguns trechos dessa publicação podem dar uma ideia dessas diversões, que só existem nas grandes cidades do mundo e, no Brasil, só no Rio, São Paulo e Manaus.

Um espectador fez a uma artista qualquer gesto que não pareceu muito comedido à autoridade que presidia ao espetáculo. Prendeu-o e ele se defende. Não julgo nem discuto o mérito da defesa. Assinalo apenas, registro somente o modo de compreender de um moralista alegre, de um filósofo a Boccacio, que se justifica.
É um espetáculo para homens, escreve ele:
“(...) O rapazio hilariante que frequenta o hotel suspeito a que dá vida o teatrinho e do qual é este o chamariz da concorrência para especial gênero de negócios, vai ali apenas despertar os seus apetites genésicos, buscar estímulo para certa ordem de desejos, e é originalíssimo que a polícia, que ali deve ir simplesmente garantir a ordem pública, queira desvirtuar a essência do instituto que ela permite, exigindo circunspecção, moralidade e respeito naquilo que é por sua natureza acanalhada, truanesco, imoral.

Tais teatrinhos, não são como julgam na sua vesga visão os senhores da polícia, cafés cantantes: são aperitivos do amor, cortinas de lupanares, e é por isso que funcionam eles como sucursais dos estabelecimentos em que o amor se compra e se mercadeja.
Só os frequentam aqueles que gostam da canção da pulga ou do grilo, do monólogo do besouro ou da barata, aplaudem o cancã e amam o maxixe e não se envergonham de pertencer aos cabarés, aux Bohemiennes, entrar no Moulin Rouge ou nas Folies Bergères...”

Pensa que condeno? Nunca. Uma grande cidade deve ter de tudo.
Da Pensão da Mulata eu ouço o Açaí, o Vatapá, modinhas populares e gritos frenéticos de aplausos.

À meia-noite, uma banda marcial toca aqui perto, à porta de um estimado político que faz anos [Coronel Afonso de Carvalho, então presidente do Poder Legislativo, mais adiante, governador]. Às 5 da manhã o hino nacional estruge em frente do Palácio do Governo. Estamos a 7 de Setembro, a gloriosa data emancipacionista.

É com as suas notas patrióticas e sugestivas que eu me levanto e vou à janela. O sol desponta. E, à sua luz de ouro, eu contemplo a bela cidade que acorda para a vida e para o trabalho.

26 de junho de 2013

HENRIQUE ANTONY (1807-72)


Reproduzido da revista VICTÓRIA-RÉGIA, de abril de 1932.
 

Recorte do artigo publicado na revista

Lá, na distante e montanhosa Córsega, toda ela a tresandar vendettas, teve o seu berço o velho Henrique Antony, pai. Aspirando a liberdade da garbosa e indomável terra que o viu nascer, militou bravamente, ombro a ombro com Paoli, de quem foi lugar-tenente de confiança. Depois do fracasso deste famoso caudilho foi, por força de circunstâncias, obrigado a exilar-se; nasceu-lhe por essa ocasião um filho: era Enrique Antony.
Henrique Antony, desenho do autor,
publicado em Roteiro Histórico de
Manaus, de Mário Ypiranga
 

Terá este nascido na Córsega? Terá nascido em Livorno, no Grão-ducado da Toscana? Em que ano veio ao mundo? Vejamos se é possível elucidar alguma coisa sobre estas perguntas: Antes de tudo precisamos declarar que estes quesitos são de respostas precisas dificílimas. Henrique Antony comprazia-se ou tinha interesse em fazer um mistério de sua vida. Diversas e múltiplas são as ocorrências que nos levam a crer nisto.

Quando faleceu em 27 de julho de 1872, seus documentos notificam ter ele 65 anos, havendo, portanto, nascido em 1807, no mesmo ano em que na nevoenta Londres morria o velho Paschoal Paoli.

Em 20 de dezembro de 1853, requereu registro, no livro da Secretaria da Câmara da Província do Amazonas, do título de naturalização de cidadão brasileiro, declarando já estar no Brasil “há cerca de 30 anos e ser natural do Grão-ducado da Toscana” (cidade de Livorno?), assim sendo e sabendo-se que quando veio para o Brasil, embarcado em Lisboa, já visava o comércio na Comarca do Alto-Amazonas, deduz-se evidentemente que aqui chegou em 1823, mais ou menos.

Ora, há em mãos da senhorita DinarI Antony, sua descendente, um retrato que talvez seja o único conhecido. Nele, Henrique se apresenta já homem feito, na força da idade, aparentando ter de 30 a 40 anos; está vestido com uma casaca escura, calça clara, colarinho alto, gravata borboleta de grandes pontas, apresentando o conjunto uma semelhança com os invariáveis retratos de Gonçalves Ledo por época de nossa Independência Política, o que parece demonstrar que o retrato é da plena época do romantismo, beirando 1830.
É impossível que este retrato haja sido tirado no Amazonas: é ele um trabalho de mestre, feito com admirável perfeição em chapa de metal, encravado num estojo de madeira revestido de couro, com desenhos dourados, não trazendo a marca da Fotografia.

Não é crível que tivesse vindo para o Amazonas, ou para o Brasil, com 16 anos; o retrato é uma prova evidente e indiscutível de que ele ao morrer não tinha 65 anos, pois se de 1820 a 1830 já aparentava ter uns 40 anos... E é preciso assinalar que o retrato DEVE ter sido tirado antes de 1823, isto é, antes de vir para o Brasil.

Ao engenheiro João Carlos, seu filho predileto, contara que forçado por contingências imprevistas, fugira da Córsega, sua pátria, onde tentara levantar a população contra o odioso domínio francês. Foram seus companheiros nesta fuga Pachinotti Zany, seu primo, um tal Neri, um tal Cavalcanti e Paoli.

Fugira para Genova.
Ai, outro perigo. Sua cabeça e as de seus companheiros foram postas a prêmio; talvez seja esta a explicação mais racional dos segredos que procurava guardar quanto sua origem. Perseguições, vexames, cabeça a preço, fizera que embarcasse clandestino em uma nau auxiliado por um marinheiro a quem subornara, e fosse respirar liberdade em Lisboa.

A fama do Brasil ciciou-lhe aos ouvidos e não sabendo resistir-lhe, embarcou rumo à misteriosa Amazônia. Tinha meios de fortuna. Pertencia a uma família nobre de Córsega; no retrato citado ele traz dois distintivos iguais: um na lapela, outro na orelha. Tais distintivos são os emblemas da nobreza corsa, usava-se na lapela do lado direito e em uma só orelha. Não vinha imigrante, com o gibão às costas, e trazia diversos patrícios como companheiros de viagem. É provável que viesse para voltar. Gostou. Ficou.

Com efeito, que atrativos teria naquela época o Amazonas, comarca, e em que poderia interessar ao forasteiro que não fosse um apaixonado de fortes emoções, um cientista ou um caçador de fortuna? Aqui chegou Antoni e assim o tratam Wiliam Herndon Edwards e Alfred Wallace; aqui ficou Antony.

Como se vê, a vida de Henrique Antony é repleta de interrogações. É possível que todas essas incógnitas se desanuviassem com pacientes pesquisas nos arquivos de Belém (PA), Genova (ITA), Livorno e Córsega. Pouco se pode afirmar, é uma figura de psicologia impenetrável.

Em 1839 contraiu matrimônio com D. Leocádia Maria Brandão, filha de Antônio José Brandão. Deste consórcio teve regular prole: João Carlos, engenheiro notável e pai de Raul, Américo (Antony, poeta) e Dinary Antony; Guilherme e Luiz Carlos, comerciantes; Lina e Paulina, falecidas, jovens, em uma epidemia de varíola.
Teve também dois filhos: Maria e Luiz. Este foi herói da Guerra do Paraguai, onde foi condecorado duas vezes: a primeira, por decreto de 17 de julho de 1866, com o hábito de Cavaleiro da Ordem da Rosa (pelo combate da ilha Villagran Cabrita, antiga Itapiru, em 11 de abril de 1866); a segunda, por decreto de 27 de agosto, com o hábito de Cristo (pela batalha de 24 de maio) e que devia finalmente falecer heroicamente, resultado arrematador de seus brilhantes feitos marciais.

Os negócios de Henrique prosperaram e ele foi em breve grande proprietário e o maior comerciante do Amazonas. Possuía armazéns, loja, casas para alugar, e uma padaria, das primeiras senão a primeira do gênero em Manaus, e que é hoje a Padaria Universal; sua residência, uma das melhores da época, era a antiga sede da Inspetoria Agrícola e que, herdada por João Carlos, foi por este perdida em uma questão hipotecária ao célebre usurário Custódio Pires Garcia (proprietário do original Palacete Garcia, hoje Provincial, assassinado misteriosamente), fadado a triste fim.
Em um sobrado de sua propriedade, esteve instalado o palácio do governo; era no local em que está hoje um depósito comercial, no antigo Hotel de França, fronteiro à Escola Normal.

Todos os exploradores que nos visitaram, foram seus hóspedes; disto fazia questão. Herndon, explorador norte-americano, que por aqui andou em 1846 chama-o de “my good friend, Enrique Antoni, the italian” etc.

Sobre o seu progresso comercial, temos na Estatística Econômica, algumas referências: Henrique Antony ocupa o 8º lugar (entre 24 negociantes), como exportador, no ano de 1851. Exportara 825 arrobas de pirarucu, pagando de imposto a avultada some de 16$500. O primeiro exportador fora Antônio José Joaquim Pucú, que enviara para fora da Comarca 2.112 arrobas daquele produto, pagando a taxa de 42$140. Já em 1853, entre 83 comerciantes, Henrique ocupa o primeiro lugar como pagador de imposto de exportação (94$850), enquanto o Pucú decrescera, para pagar somente 24$750, o que não admira, pois Gabriel Gonçalves pagou $125 e Victorio da Costa $200!  Bons tempos, não resta dúvida.
Nesta mesma “Estatística” encontramos como Nota do quadro nº 13, referente a 1851: “A principal casa comercial era a loja e taberna de Henrique Antony, à rua Estrela (atual rua Henrique Antony), cujos fundos foram avaliados, no lançamento, em 1:900$000. O lançamento foi feito de acordo com a lei provincial nº 163, de 22 de dezembro de 1849.

As casas comerciais estavam assim distribuídas: duas lojas e tabernas na rua das Flores (atual rua Guilherme Moreira), que também continha a única taberna que figura no quadro; uma, na travessa da Ponte dos Remédios (existiu nas proximidades do Hotel Amazonas, hoje Condomínio Ajuricaba), duas, na rua Formosa (  ); quatro, na rua da Estrela; duas na praça da Imperatriz (desaparecida, foi construída nas proximidades da atual agência do Banco do Brasil e a Catedral de Manaus); três, na rua Brasileira (atual avenida Sete de Setembro), uma, na praça do Pelourinho (hoje praça Pedro II); quatro, na rua Manáos (hoje avenida Eduardo Ribeiro, no trecho até a avenida Sete de Setembro), três, na Travessa Oriente (rua da Instalação, em nossos dias), três na Praça da Imperatriz ( ), duas, na rua do Sol (rua Visconde de Mauá, agora); uma, na Travessa da Olaria (atual, rua Joaquim Sarmento), uma, na Travessa das Gaivotas (desaparecida com a praça do Comercio, hoje Terminal de ônibus) e uma, na rua do Espírito Santo”. Havia, então, 38 estabelecimentos de comércio.
A loja e taberna de Henrique Antony que figura na lotação de 1851, com fundos de 1:900$000, figura na de 1852 com o nome de armazém e com os fundos de 300$000.

Sobre a probidade comercial de Henrique Antony, nos fala Bento Aranha, seu contemporâneo: “O palácio do governo foi no sobrado de propriedade do honrado comerciante Henrique Antony”. Isto é de salientar porque Bento Aranha não se barateia em elogios e é o único a quem trata com este adjetivo; define bem o nosso homem. (Vide Um olhar pelo passado, de Bento Figueiredo Tenreiro Aranha).

Afeiçoando-se a esta terra, Henrique, à própria família e aos amigos, dizia-se brasileiro e para oficializar tal desejo, requereu naturalização, havendo jurado fidelidade e obediência às leis brasileiras, em 3 de janeiro em 1854. Ele muito amou o Brasil e, sobretudo, ao Amazonas, aos quais ofereceu em holocausto um dos seus diletos filhos. Bastante contribuiu para o desenvolvimento econômico deste imenso vale querido. Bem merece, portanto, a gratidão dos amazonenses que, em singelo, mas expressivo preito de homenagem,  já o tornaram patrono de uma rua de nossa bela Manaus (duas ruas já tiveram seu nome, hoje são a rua Itamaracá e a rua Bernardo Ramos).

Velho, alquebrado por inúmeros desgostos dos quais se queixava a seu compadre Herndon, já em 1846, quis estoicamente morrer na terra a quem fora tão afeiçoado e, de fato, aqui faleceu em 27 de julho de 1872, repousando seus restos em uma tumba da necrópole de S. José, e que talvez iconoclastamente já haja sido revolvida – assim o exige o progresso – e lançada em um recanto ignoto de despojos.
Ele bem poderia dizer parodiando o poeta:

E desta glória só ficarei contente
Que a esta terra amei e a esta gente...

L (Lázaro). BAUMANN

Nota:
A história do velho Henrique Antony continua sendo mal empostada, principalmente pela confusão que se faz entre seu nome e o do filho mais velho – Enrique Antony, que se supõe haver nascido na Europa ou ao menos antes do casamento com Leocádia Brandão, em Manaus. (Mário Ypiranga Monteiro, in Roteiro Histórico de Manaus, v. I. Manaus: Edua, 1998)

23 de junho de 2013

GETÚLIO VARGAS (1882-1954)

 

Adriano Jorge, 1929
Há 70 anos, este artigo, publicado no ensejo do aniversário natalício do presidente Getúlio Vargas, foi escrito pelo saudoso Adriano Jorge. Adriano era alagoano, mas fez sucesso em Manaus na primeira metade do século passado, seja no exercício da medicina, seja na presidência da Academia Amazonense de Letras, seja como legislador municipal.
Contudo, foi com suas manifestações em diverso ambientes que se notabilizou, apesar de não ter deixados qualquer livro. Raros são os trabalhos literários impressos.
O personagem que Adriano Jorge homenageia sempre me intrigou. Sabido que foi o único ditador pessoal no país, no período que vai de 1930 a 1945, apesar disso, deixou seu nome benquisto na história. Raros são os que se referem a ele mencionando seu governo dominador. Apesar dos excessos promovidos em sua governança, não há Comissão da Verdade que pretenda tocar no saudoso “velhinho”.
A exposição do falecido Adriano Jorge me permitiu entender o carisma de Getúlio Vargas.
 
A LIÇÃO GETULIANA (*)


Um grande poeta, que ainda foi maior depois que a loucura lhe substituiu a ambiência das realidades triviais por uma atmosfera convulsa de radiações e policromias desabrochadas no seio túrbido de sua alma doente, disse que “não devemos consentir se esbata em nossa nobreza o desejo de modelar essa porção do infinito, que existe dentro de nós”.
Há de fato uma luminosa argila transcendente, de cujos silicatos imponderáveis a alma humana plasma, em ato de quase divina criação, aquela essência de ideal e de transfiguradora beleza, a que Holderlin chamou “essa porção de infinito, que existe dentro de nós”.
É quase sempre um bruxuleio tênue, o pirilampejar intermitente e talvez imperceptível; mas há nesse levíssimo hálito de magnética inspiração, a identificá-lo com o infinito, o latejar insuspeito, mas sempre heroico e sobre-humano, de todas as nossas aspirações de glória. 

Para que se desencadeiem, porém, todas as energias potenciais dessas fontes interiores de entusiasmo e de fé, é imprescindível o advento orientador e polarizador de uma ideia, no sentido hegeliano do termo, isto é, de um símbolo sobrecarregado de formidáveis energias criadoras, de um “mito”, para empregar a expressão daquele selvagem gauleiter dos territórios da Ucrânia conquistados temporariamente aos russos, Alfred Rosenberg, que é o místico depravado do nazismo e que escreveu um livro, que é um crime inexpiável: “O Mito do século XX”.
É, pois, um impulso exógeno que ateia os grandes incêndios humanos, porque a chama íntima da alma do homem poderia, sem esse motivo exterior, permanecer apenas uma pobre fagulha semidormida, como o dinamismo heroico de Paulo de Tarso até antes da deslumbradora explosão da estrada de Damasco.

Apareceu um homem, no Brasil de hoje, erigido em almenara do país, com a enorme porção de infinito de sua grande alma a estuar na ansiedade de uma remodelação nacional, que fosse a correção eficaz dos erros monstruosos de que se abeberara a nossa democracia.
Esse foi o presidente Getúlio Vargas, surgido como um mensageiro do Destino, portador do símbolo, do mito, da ideia renovadora, a cujo clarão o panorama de nossa história atual havia de iluminar-se, como realmente se iluminou, numa imprevista pirotecnia de centelhas.

Os primeiros gestos desse homem foram rigidamente realizados por um braço firme na sua musculatura de ferro. Apenas, esse braço não pesou sobre o país nem muito menos anulou no povo a confiança no Bem, a consciência de todos os seus direitos e a fé na Justiça; antes, concentrou o seu glorioso esforço no afã maravilhoso de amparar este povo.
De um belo e grande livro de Barrés disse Ortega y Gasset que “é tao singelo e radiante como se fora escrito em cristal”. Assim a obra colossal do presidente Getúlio Vargas. Era preciso demonstrar ao Brasil que “liberdade” e “democracia” não podiam ser sinônimos de anarquia e licenciosidade... Para consegui-la, porém, a lição que se impunha seria a destruição de um regime, no qual sobrepairavam, consternadoras e impatrióticas, as forças do Mal.

E o presidente Getúlio Vargas abriu naquela floresta trevosa as clareiras ensolaradas do civismo e da verdadeira Democracia, sem nunca asfixiar, tiranizar ou esmagar.
Porque a “verdadeira Democracia” é a participação direta – isto é, sem procuradores mais ou menos infiéis – do povo na Coisa Pública, numa interpenetração, feita de amplas compreensões, do governo e das massas, a amparar-se mutuamente, num clima de alegria e confiança.

Isso, que sempre se afigurou impossível aos empreiteiros e encenadores da avelha tragicomédia das democracias; isso, que, no entanto a singular estrutura psicológica dos britânicos vinha pouco a pouco exibindo e revelando como uma promessas da “verdadeira Democracia”, a germinar numa gleba espiritual ainda inadequada e ingrata pelo adubo inadaptado das ambições efervescentes; isso o presidente Getúlio Vargas semeou e cultivou, realizou e agigantou, propagou e ensinou, fazendo frutificar em convicções intensas através do mundo, aquilo que, no Brasil, a sua grande alma cristã, nutrida da beleza intrínseca da Rerum novarum e Quadragesimo anno, entregara ao povo, numa doação real de real felicidade.
O espirito do Brasil de hoje, iluminado pelo dinamismo do presidente Vargas, lá está na Carta do Atlântico – semente rútila do mundo novo do Após-Guerra; e a prodigiosa lição getuliana irrompe e transuda das entrelinhas do Plano Deveridge – documento indisfarçável da sede de cristianização dos povos, palpitante na alma, já evidentemente fatigada da tragédia horrenda, dos dirigentes da política internacional no período novo e estranho da história do mundo, rompendo enfim dos Círculos do Inferno.

Assim, o presidente Getúlio Vargas, polarizador magnífico das energias brasileiras e símbolo vivo da bravura americana, surge como um apóstolo de beleza, na sua esplendida predicação realística da bondade feita força construtiva.
Na hora tremenda das atitudes decisivas, na encruzilhada da guerra, no momento crucial da escolha entre o Bem e o Mal, o presidente Vargas, sem precisar apontar ao Brasil o caminho da honra, disse sem hesitações aos Aliados que o Brasil estava pronto para investir pela estrada, já povoada dos passos gloriosos dos povos livres e belos e nobres, porque só são nobres e belos e livres os povos que se defendem contra a (ilegível) de sangue e lama extravasada sobre o mundo da alma bichada dos escravos...

No dia do aniversário natalício do Grande Presidente, o Brasil está a revelar ao mundo inteiro o culto fervoroso, e às vezes quase paroxístico, que lhe merece o seu maior homem atual. Nunca um chefe – ainda quando se considerem os caudilhos mais intensamente dominadores – foi tão amado e tão admirado.
Dentro dos brilhos maravilhosos do Pan-Americanismo, que hoje não é apenas uma ideia e um ideal, mas é uma enorme consciência coletiva em marcha para a luta e para a vitória, a glória maior do Brasil armado e resplandecente é Obra sobre-humana do Presidente Getúlio Vargas.

(*) O Jornal – Manus, 19 de abril de 1943

22 de junho de 2013

MADRUGADA1

Capa da revista
É sabido que este movimento cultural, que empolgou a capital do Amazonas em 1954, nunca teve regimento aprovado. Nunca instituiu normas para seus seguidores.
Um ano após sua fundação, o clube intentou editar uma revista, denominada de Madrugada que, no entanto, não passou do número inaugural. Neste, contudo, se encontram algumas diretrizes, na verdade, os amplos objetivos do CM.
Este documento sempre despertou interesse e pesquisadores, porém, estava sumido, ou não era conhecido qualquer exemplar. Um deles, acabo de catar. E dele reproduzo o texto enunciado.


Documento do Clube da Madrugada
No momento em que o Brasil sofre uma crise total em todas as suas forças intelectivas, morais, educacionais, econômicas e sociais, a mocidade consciente do Amazonas, agrupada sob a égide do Clube da Madrugada, une-se para defender esta herança social inesgotável que herdamos de nossos antepassados, em cujas causas concernentes à debacle, atuam grupos de caráter negativo anacrônicos, divorciados da realidade brasileira e defensores de posições cômodas e de princípios apátridas.
Nesta senda, quanto mais penetramos, apresentam-se fatores desintegradores que clamam por uma tomada de posição definida por parte da mocidade, em torno dos problemas que se nos antolham prementes, menosprezados por esta geração que passa, e que em dias muito breves virão acarretar as consequências imponderáveis para o alicerçamento de nossa cultura na sua formação geral.
Se analisarmos, mais profundamente, a contextura total de nossa sociedade, iremos encontrar nos elementos que formam a nossa elite intelectual dirigente, uma apatia criminosa, no que diz respeito à formação e renovação de valores, que serão responsáveis vindouros de nossos destinos, e, subsequentemente continuadores de nossa posição continental. Semelhante atitude gera, nos moços, uma repulsa que nos impulsiona a restaurar esta contextura social, e apresentar novo programa de ação, com a finalidade primordial orientada no sentido de elevação dos padrões intelectuais, morais, econômicos e sociais.
Face à esta situação, o Clube da Madrugada define-se perante às várias categorias que  pensamento humano expressa:

Literatura: Não há literatura no Amazonas. Primeiro, fatores culturais e morais determinaram nos homens ditos de letras, uma posição acomodatícia, geradora de um individualismo exacerbado, cuja consequência derivou o afastamento de valores positivos que pudessem fazer perigar o seu totemismo aceito como absoluto.
Segundo, fatores de ordem econômica contribuíram para que elementos de valor intelectual procurassem novos meios, onde espíritos esclarecidos lhes ofereciam melhores oportunidades, em virtude de seu talento. Como prova do que asseveramos, vimos estes elementos afirmarem-se nos meios centralizadores do pensamento, onde a luta pela expressão das ideias não era sustentada por oligarquias intelectuais, fenômeno este instituído no Amazonas, há longa data.
Fácil será observar o que acontece na esfera convencionada chamar-se acadêmica, onde campeia a servidão e estilos e ideias antiquadas, importadas diretamente da Europa, no século passado. Desconhecem francamente, por meio de um indiferentismo olímpico, a existência de uma literatura puramente nacional. Tal ignorância redunda, consequentemente, numa arrogante indiferença diante dos próprios valores da terra. Porque estes procuram renovar ideias e conquistar formas novas de expressão e não encontram apoio numa crítica evoluída. Disto resultou o êxodo anual de moços em direção do Sul do país.
Por isso o Clube da Madrugada inspira-se nos elementos formadores de nosso ambiente, para a efetivação de uma literatura condizente com os princípios de liberdade imanentes ao artista, na sua expressão literária, conjugados com os itens acima referidos, os quais estratificam uma literatura sadia. Desde já, o Clube da Madrugada exproba o patrocínio de dogmas do Estado e de elementos que queiram fazer instrumento seu, a obra que pretendemos edificar.
Escultura, Pintura e Arquitetura: Infelizmente, stricto sensu, não há os três ramos de Arte marginados, no Amazonas, digna de menção. Os resquícios que por ventura existem não formam uma unidade, no ambiente intelectual. Não apresentando material necessário a uma análise, nos abstemos de aprofundar, neste particular, uma crítica dentro dos ditames da arte.
Sociologia: Apesar de o Amazonas ser uma unidade da Federação, que apresenta elementos vastíssimos para a pesquisa sociológica, apenas temos alguns estudiosos que se detêm nos problemas superficiais que afetam nossa região. Lastimável sob todos os aspectos, principalmente, para a valorização do amazônida, quando a presente conjuntura se preocupa na revalidação dos padrões que regem a Ciência Social, que tem por objeto a integração do homem no meio cultural.
A ciência do homem, que hoje revela os múltiplos ângulos pelos quais o indivíduo é envolvido na sua mesologia, é ainda, no Amazonas olhada com a desconfiança dedicada à magia negra, na Idade Média. Vive-se, deste modo, preso a um ineditismo criminoso responsável pela incúria em que, atualmente, se encontra o homem da gleba. Tanto assim que, as pesquisas mais sérias realizadas na região, são aquelas feitas por entidades alienígenas, sem qualquer laço com o nosso pensamento.

Deste modo resulta, muita vez, a deturpação completa dos denominadores encontrados, nesses trabalhos. Por isso, acreditamos ser necessária a formação de uma elite iniciada nos assuntos da ciência do homem, em decorrência das necessidades amazônicas, a fim de que seja revelada a verdade social acerca de nossas populações, por pesquisadores insuspeitos, irmanados por liames culturais ao homem do Vale.
Nesse sentido, o Clube da Madrugada está forjando a coliminação desse objetivo, por intermédio de seus membros, dentro de uma nova dinâmica sociológica, consubstanciada nos processos analíticos e sintéticos de nossa realidade mesológica, em sua fonte. Erradicando, destarte, os trabalhos de gabinete que têm surgido sobre os nossos problemas, os quais falseiam, despudoradamente, a verdade cientifica e moral. Urge, portanto, o trabalho planejado e científico, olhando para o futuro, deixando de lado este pragmatismo pernicioso, para nós, dos homens que se dizem práticos.
Economia: No Amazonas, os estudiosos desta matéria são muito poucos e têm se colocado à parte, não tomando posição ante a renovação por meios culturais adequados que venham beneficiar nossa região. Estudos econômicos que se têm feito no Amazonas não procuram observar a realidade, apegando-se estes a sistema geral, não penetrando na análise econômica.
Essa deficiência de estudiosos do ramo da Ciência Econômica tem provocado, por parte dos administradores, atitude que em vez de incentivar a produção tem, aniquilado novos empreendimentos econômicos em detrimento de uma nova fase de desenvolvimento para o Vale.
O Clube da Madrugada estudará e pesquisará, por intermédio de seus membros, os problemas que mais afligem a nossa região, e que são resolvidos, comumente, por “jornalistas”, sem conhecimento de causa, levando o povo a uma falsa orientação. Dependerá, sobremaneira, de estudos esclarecedores da matéria, uma nova atitude governamental, em relação a assuntos econômicos ligados diretamente ao desenvolvimento da Amazônia. Para este fim, por certo, contribuirá uma elite realista, conhecedora dos verdadeiros problemas da terra.
Filosofia: Pouco existe no ramo, mesmo porque os homens de letras do Amazonas apegam-se, como impertinência, aos estudos acadêmicos da filologia em cujo labirinto perdem-se, em prolongadas polemicas, sem resultado algum. E quando encontramos indivíduo interessado nos estudos filosóficos, é apenas superficialmente, sem nenhuma profundidade, conhecendo, de soslaio, a história da filosofia.
Existem poucos filósofos no Brasil, e no Amazonas nenhum. Contra esse descaso levanta-se o Clube da Madrugada, procurando sistematizar um estudo dos princípios e fins do homem no Cosmos. Estudo esse direcionado nos métodos universitários de amplo debate, quando entra em especulação sistemas filosóficos dos mais antigos aos modernos: sejam dos aleatas, jônicos, epicuristas, sofistas, espiritualistas, materialistas, aos marxistas, existencialistas e os neosistemas que têm aparecido. Demócrito, Epícuro, Sócrates, Platão, Plotino, Confúcio, Aristóteles, Santo Tomaz de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, Bergson, Kieerkgaard e tantos desfilarão nos seminários que pretende realizar este movimento de renovação.
Esposando os princípios encimados e refutando o conservantismo rancoroso, o Clube da Madrugada tem por escopo plasmar uma nova consciência pertinente à realidade brasileira. Desta assertiva queremos dirimir quaisquer resquícios niilistas ou iconoclastas, mas, que vivemos uma época de decrepitude senil.
Deste modo, somos contra a concepção de um stato quo estático. Nascendo dessa premissa, a nossa concepção dinâmica do processo histórico, determinando novas representações no pensamento humano, que se coadune com a evolução de nossas necessidades sociais. Lutamos, portanto, nesta segunda fase de nossa existência pela emancipação mental de nossa ideologia. Para o Brasil: artes, ciências sociais, sistema politico e econômico eminentemente nacional, surgido da premência de nossa idiossincrasia. Esta nossa atitude, achamos conscientemente, não nos classifica como xenófobos. Pelo contrário, lutamos contra a xenomania de todos aqueles que advogam soluções literárias, políticas, econômicas e sociais com a já celebre sentença: MADE IN...
Esperamos, desde já, as compreensões dos homens de mentalidade abstrusa, que tiveram capacidade intelectual para acompanhar a nossa evolução social. Porém, a esses, haveremos de arrostar os empecilhos levantados, com o idealismo moço que nos anima a encetar esta cruzada, com o objetivo sacrossanto dos jovens livres, qual seja a libertação do Brasil dessa visão daltônica dos dirigentes, em todos os setores, responsável por uma consciência amorfa, numa geração que se forma.
Fecho do Manifesto com várias assinaturas
 
Saul Benchimol, Francisco F. Batista, Luiz Bacellar, Tufic Jorge (sic), Carlos Farias de Carvalho, Moacir Couto de Andrade, Alfredo Campos, Teodoro Botinelli Assunção, Afranio Mavignier de Castro, Fernando Collyer, Humberto Paiva, Miguel Barrela, Joao Bosco de Araújo, Djalma Passos.

20 de junho de 2013

CRIAÇÃO DO NPOR, EM MANAUS


O Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), de Manaus, foi criado consoante o Aviso ministerial nº 2.342, de 11 de setembro de 1942. Com o apoio do Governo Estadual, foi instalado no prédio que abrigava o Grupo Escolar Marechal Hermes, situado à rua José Clemente, quase esquina da avenida Eduardo Ribeiro. Demolido na década de 1970, o GE cedeu lugar ao edifício da Rádio Rio Mar.
Com efetivo inicial de 100 alunos, o NPOR teve como primeiro diretor o coronel Gontran Jorge Pinheiro Cruz e, como instrutor-chefe, o capitão Luiz de França Oliveira.
A formatura da primeira turma de aspirantes a oficial de 2ª classe de Infantaria aconteceu em 25 de agosto de 1944. Nesta turma, foram diplomados apenas 45 alunos, dos quais o 1º lugar coube ao Al Roderick de Castelo Branco. O Baile de Gala, tradicional dos festejos, foi realizado na sede do Ideal Clube.
Com essa turma, porém, o Núcleo encerrou suas portas. Apenas em 1962, retomou à atividade ocupando o aquartelamento do então 27º BC, hoje 1º BIS, situado no bairro de São Jorge. Ainda assim, levou três anos para iniciar a segunda turma, que foi diplomada em março de 1966.

Para melhor explicar a fundação desse Núcleo, recorri ao Jornal do Commercio (10 outubro 1942), cuja reportagem transcrevo.

 

Forja de soldados da estirpe de Caxias, escola de civismo, brio e disciplina

O que é a obra do Núcleo de Preparação de Oficiais da
Reserva, de Manaus

 
A reportagem desta folha, no objetivo de trazer ao público informações detalhadas sobre o trabalho, de alta expressão cívica e patriótica, que se realiza no Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), de Manaus, esteve, na manhã do último sábado, em visita ao quartel da nova unidade de ensino militar, à rua José Clemente, no prédio onde funcionou o Grupo Escolar Marechal Hermes (hoje, no local, o edifício Rádio Rio Mar), cedido pelo governo estadual.

Havia enorme interesse geral girando em torno das atividades do NPOR, e foi para satisfazer esse interesse, no cumprimento de nosso dever de imprensa, que obtivemos a oportunidade de visitar o quartel-escola onde 100 moços amazonenses, bacharéis em direito, acadêmicos e portadores de diploma de conclusão de curso ginasial, preparam-se, por meio de intenso e severo treinamento, para o serviço da pátria, como oficiais da reserva do glorioso Exército.

Quando o ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, criou o NPOR de Manaus, anexo ao 27º Batalhão de Caçadores, veio ao encontro de antiga aspiração da juventude do Amazonas, muitas vezes agitada e debatida nas assembleias de seus órgãos de classe, cujo clima espiritual é – justo se faz acentuar – de compreensão, de inteligência, de perfeito entendimento dos deveres dos moços para com o Brasil principalmente neste momento de perigo e de alerta, quando todos os valores morais da nação estão mobilizados para a guerra santa em que nos empenhamos contra a barbárie e a violência totalitária.

Por isso mesmo, desde logo foi aberta a matrícula à nova unidade imediatamente os candidatos ultrapassam o número de inscrições, que o general Dutra estabelecera em 100 vagas, e não poderia haver melhor material humano para forjar verdadeiros soldados brasileiros, homens úteis à pátria, à sociedade e à família, briosos e disciplinados, do que a mocidade que acorria a engrossar as fileiras do NPOR.

Mais do que uma caserna, o NPOR é uma escola – uma escola de civismo, de bravura, de dedicação, de ordem, de energia, de espírito de sacrifício, de todas as virtudes de militar e cidadão que são a constante do soldado brasileiro, as virtudes paradignárias (sic) de Caxias.

Atenciosamente recebida pelo tenente Paulo Ramos, um dos auxiliares do NPOR de Manaus, o redator-secretário de O Jornal e do Diário da Tarde, quando de sua visita ao quartel-escola da rua José Clemente, teve ocasião de percorrer todas as suas dependências, das salas de aulas à reserva de armamento, da secretaria ao corpo da guarda, tudo viu, de tudo indagou, e não poderia ser melhor a impressão que trouxe.

Na sede do NPOR está sendo realizada uma tarefa da mais elevada significação patriótica, digna de ser conhecida por todos, para que todos possam admirá-la, e é admirável, também, o entendimento, o sentido superior de cooperação que há entre instrutores e alunos, entre comandantes e comandados, objetivando um fim igual: preparação eficiente para o serviço do Brasil.

É instrutor-chefe do NPOR de Manaus o capitão Luiz de França Oliveira, oficial dos mais competentes do Exército, e são instrutores-auxiliares os tenentes Paulo Ramos e José da Costa Cavalcante, sendo diretor da unidade o ilustre coronel Gontran Jorge Pinheiro Cruz, que orienta o seu funcionamento.

Recebendo o jornalista no seu gabinete de trabalho, o capitão França insistiu em afirmar que o aproveitamento dos alunos é plenamente satisfatório, numa porcentagem que praticamente pode ser algarismada em 100%, e frisou que o desenvolvimento e a instalação do NPOR de Manaus em bases estáveis, definitivas, devem-se ao auxílio econômico que lhe deu o governo estadual, abrindo, com aprovação do Departamento Administrativo, um crédito especial para a aquisição do material indispensável, reforma imperiosa no edifício do antigo Grupo Escolar Marechal Hermes e outras necessidades.

Esse auxílio depõe a favor da Interventoria, que assim testemunha o seu interesse pela segurança e pela defesa do Brasil, ao mesmo tempo, dá valioso amparo à causa da mocidade. 

O jornalista, como já se disse, tudo viu, tudo examinou, sempre acompanhando pelo tenente Ramos, que lhe fornecia todas as informações solicitadas. Examinou os perfeitos fichários da entidade, por eles apercebendo, de um lance, a vida em síntese da coletividade e de cada um de seus soldados. Examinou programas quinzenais de ensino e instrução, desde as aulas de teoria às formações de manobras militares aos treinamentos de cultura física. Examinou as notas de aulas, documento valiosíssimo que cada aluno, quando oficial, guardará da matéria lecionada durante o curso. Percorreu a sala de transmissões, onde alunos operavam em aparelhos de rádio e em instruções de sinais com bandeiras. Percorreu a reserva de armamentos, onde cada fuzil, cada peça de material brilha de limpeza irrepreensível. Aos cuidados dos próprios alunos.

Tudo viu, tudo sentiu, e de tudo guardou a melhor das impressões, o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva de Manaus está realizando uma obra para colaborar na acentuação do perfil moral das gerações amazonenses, obra que faz jus ao aplauso e ao apoio do público em geral.  (fim)

19 de junho de 2013

NOTA DO EDITOR

Depois de escrever quatro capítulos sobre esse movimento, que envolveu a Polícia Militar do Amazonas e a concessionária Manáos Improvements, encontrei o termo exato para titular a tal barafunda. Na verdade, tratou-se da invasão da Manáos, e nunca a responsável pela rebelião. Esta, sim, coube à corporação militar estadual e aos mentores extra-quartel. 

Diante desse entendimento, corrigi o título imposto nas postagens anteriores para Invasão da Manáos Improvements.
Obrigado.

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (V)

Serenados os ânimos em junho de 1913, o poder militar impôs severas regras de controle, m especial, sobre os rebelados da Polícia Militar do Estado. Em decorrência de que os demais jornais foram empastelados, apenas o Jornal do Commercio seguia noticiando. Por isso, volto a reproduzir deste matutino do dia 19, o texto seguinte:

Com a assistência do Dr. Gaspar Guimarães, Chefe de Polícia, e da comissão militar encarregada de proceder a arrecadação dos valores existentes no quartel do Batalhão de Segurança, foi ontem aberto o respectivo cofre.
Este não fora arrombado, como se propalou por aí. Ao contrario, devido a ter atingido um sharapnel (munição de artilharia antipessoal utilizada até a II Guerra) certeiro no departamento da arrecadação no momento em que os últimos amotinados procuravam arrombá-lo, não conseguiram eles levar a termo o seu intento, logrando violar apenas o seu revestimento externo, que é de ferro.
No interior, foram encontrados os depósitos constantes do seguinte: sete contos e cem mil réis em moeda papel; um invólucro com quatrocentos e noventa e oito mil réis (saldo do ex-capitão Passos); (ilegível) quatrocentos e dezenove mil, oitocentos e nove réis, em outro invólucro (soldo em depósito do comandante Flaviano Gastão, que não havia recebido por não ter tomado posse de seu cargo); e doze mil e quinhentos réis em níquel (moedas).
Além disso, havia mais diversos valores em documentos.
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O Dr. Jeronimo Ribeiro, médico legista da Polícia Civil, procedeu corpo de delito em: coronel Adolfo Cavalcante, capitão Severino Corrêa da Silva, 2º tenente Francisco Marques Evangelista, cabo Manoel Paulo Cunha, soldados Lino José de Oliveira, José Felipe Nery, José Claudino Braz e Manoel José dos Reis; populares José Moreno da Silva, Manoel da Silva e Henrique José de Oliveira, ex-cabo da Polícia.
Foram considerados feridos gravemente: coronel Adolfo Cavalcante, capitão Severino Corrêa da Silva, cabo Manoel Paulo Cunha e os paisanos José Moreno e Manoel da Silva. O capitão Sinésio Benevides dispensou o exame de corpo de delito, alegando não haver recebido ferimentos e, sim, ligeiras escoriações.
x-x-x
Na ausência do Dr. Rocha dos Santos, que está encarregado do inquérito sobre os acontecimentos do dia 15, acha-se assinando o expediente da 2ª Delegacia, o subdelegado Feliciano Ferreira da Silva.
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Apresentou-se ontem ao quartel da Força do Estado o sargento Felinto Joaquim de Oliveira, um dos revoltosos, que assumira as funções de comandante. Interrogado, entre outras coisas disse que o movimento fora combinado entre sargentos, sendo os principais Castro e Falcão, instruídos por dois ex-oficiais. #

Entendo que este jornal cometeu nítida parcialidade, pois as notícias divulgadas são do escaninho do Governo, por intermédio da chefia de Polícia, que apura os fatos. Nenhuma palavra sobre os soldados presos pelo Exército. Sequer a identificação completa dos cabecilhas da sublevação o jornal de Vicente Reis foi capaz de divulgar. Ou não interessava. Àquela época, era assim mesmo: o jornal pertencia ou defendia um partido politico, por isso, o JC calou-se ou intimidou-se, apesar de que as conversas nas praças anunciavam a morte de vários policiais em situação até hoje desconhecida.
Os políticos envolvidos recorreram aos políticos federais, tendo encontrado no ilustre senador Ruy Barbosa o porta-voz conveniente. Obviamente, municiado pelos correligionários amazonenses, o ferocíssimo discurso proferido pelo representante baiano deixa dúvidas sobre as atrocidades cometidas contra os policiais. Falo por mim. Creio que houve uma retaliação superlativa, que a cidade foi ocupada militarmente, mas alguns fatos descritos pelo senador carecem de fundamentação, como é o lance da expatriação de mais de 400 pessoas para Belém do Pará.

Outra passagem, a casa de dois desembargadores – Abel Garcia e Raposo da Câmara – estiveram cercadas pela tropa federal. Objetivo: impedir a ida dos magistrados ao Palácio da Justiça, a fim de não permitir o quórum. Estudando-se a história do Tribunal de Justiça do Amazonas não se encontra qualquer referência a esse acontecimento.
Levou algum tempo, mas a tranquilidade retornou à capital, com repercussão pelo interior do Estado. Em 3 de agosto, o jornal O Conservador, de Itacoatiara, em franco adesismo ao governador Pedrosa,  proclama aos leitores na coluna Ecos:  
 
Página inicial de O Conservador,

          Pouco a pouco, passados os dias tenebrosos de junho, quase     apagados os últimos ecos duma revolta de tresloucados, a vida do Estado foi se normalizando, e hoje podemos confiantes tratar do desenvolvimento moral e material da nossa querida terra.
O Governo transato entregou ao atual uma administração em ruínas, legado de mais um triste quatriênio de sangue, de traições, perfídias e violências. (...)
De resto, a mazorca de junho, que foi uma consequência da que abortou em dezembro, -- e quer uma quer outra, senão fosse a fidelidade de amigos, -- tinha no seu bojo o plano sinistro de tirar a vida do Dr. Jonathas Pedrosa, entravou mais a vida do Estado, já em embaraços com uma tremenda crise financeira.
x.x.x 

Enfim, a serenidade alcançou igualmente a Força Policial, que recebeu seu comandante titular em princípio de agosto, recompôs seus quadros, expurgou os ferrabrases, curou as feridas dos seus e partiu para superar novo período, com disciplina e ordem. Todavia, cabe perguntar, encerrando esse melancólico tema, que representou para aquela instituição esta sedição? A resposta nos é ditada por outro oficial da reserva, desbravador da temática policial militar do Amazonas: Alcides Costa, em trabalho intitulado Sedição Militar (PM) de 1913.

Embora se queixando da escassez de fontes, entende o coronel Costa que “para alguns (foi) um malogro, um desapontamento; para outros, uma ação revolucionária capaz de obter uma mudança política”. Por outro lado, encerra meu colega de quartel: “o episodio serviu par demonstrar a submissão do exército e das forças policiais ao grupo no Poder e aos que lutavam pelo mesmo poder”. 

Ao final do governo de Jonatas Pedrosa (1913-17), que teve em seu vice-governador, Guerreiro Antony, um avultado adversário, a luta armada seria renovada. Mas isso é outra história.