CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de abril de 2013

HISTÓRIA FACETA


Mário Ypiranga Monteiro
Nota 1. Na quinta-feira 25, a Secretaria de Estado da Cultura promoveu o lançamento de três livros, um deles pertence ao finado escritor Mário Ypiranga Monteiro – Histórias facetas de Manaus: anedotas envolvendo figuras amazonenses. Um desses chistes, reproduzo no espaço. 

O DIAGNÓSTICO DO DR. W. R. C.

Ele chegou aqui, na sua cidade, mais recomendado como intelectual do que como médico. Pelo menos de medicina não entendia patavina, mas conseguiu ser coronel médico da Polícia Militar do Estado, uma sinecura que já lhe assegurava o pirão diário. Como detestava o pai, desligou-se da comunhão da família e foi morar no "Esquadrão': uma república de moços instalada nos altos do prédio de esquina da avenida Sete de Setembro com rua Guilherme Moreira. Lá residiam também os celibatários Dr. Genésio Cavalcanti, Mirandolino Borges etc. Ficava mais perto da "boia" gratuita na briosa.

Capa do livro
O homem já havia publicado o seu romance No circo sem teto da Amazônia, páginas em que o pai sentara a pua, corrigindo os erros de gramática. Por isso não se beijavam e toda vez que o Dr. R. se referia ao genitor era para chamá-lo "cavalier".

O primeiro diagnóstico do médico da PM foi também a sua primeira deserção da área da medicina curativa. Ele compreendeu que os cinco anos de boêmia literária na Bahia não o autorizavam a exercer dignamente a profissão e abandonou tudo.

Melhor assim: como intelectual era brilhante, e tanto poetava como cronicava, mau grado (sic) seus exageros fazerem mal a certos prosadores da paróquia. Sustentou galhardamente uma coluna no jornal A Tarde, de Aristofano Antony, “Quadrilátero da quinta hora”.

O caso do diagnóstico criou fama e deitou ramalhos. A esposa de um da Polícia Militar surgiu na enfermaria com um problema que a torturava: dores uterinas e cefalalgias contínuas. O Dr. W. R. não teve dúvida: tamborilou no bucho da mulher e receitou quinino para paludismo (hoje os médicos diriam bestamente "malária': imitando os do Sul). As doses fortes de quinino não surtiram efeito e a barriga da mulher intumescendo a olhos vistos: dois, cinco, sete, nove, doze meses ... E tome quinino!

Chamaram apressadamente o Dr. Flávio de Castro e este ficou assombrado com o estado da mulher: havia engravidado e o filho jazia morto... Escapou, todavia, mas a infeção eliminou nela a possibilidade de vir a ser mãe algum dia.


Nota 2. Este médico da Polícia Militar do Estado eu conheci. Trata-se do Dr. Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier (1909-72). Ou, simplesmente, Ramayana de Chevalier, que viveu e morreu no Rio de Janeiro. Dirigiu a Secretaria de Administração do Estado, no governo de Gilberto Mestrinho (1959-62). Pertenceu a Academia Amazonense de Letras e ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. E, de fato, como médico foi um excelente escritor.

28 de abril de 2013

ADILSON (1964-2013)


Renato Mendonça
Meu irmão Renato, para se despedir do cunhado Adilson, morto dia 22 passado, em Barra Mansa-RJ, escreveu a crônica aqui postada. Resta-me a recordação repleta de mirabolantes lances de pura jovialidade, de vida que o amigo sabia transmitir. Abraço a cunhada Bela e aos manos dela nesse dolorido momento.
 
ADILSON
22/04/13

Perdi a grande chance de fazer uma boa crônica, estive a poucos metros de um bom assunto. Em Barra Mansa, estiveram sentados, numa mesa redonda — literalmente — alguns colegas e irmãos de uma mesma família, daquelas famílias humildes, mas cheias de virtuoses. Era o último dia do carnaval, o ponto final de um carnaval frio e previsível pra mim. Assuntos vastos foram expostos na mesa nua; deleites e frustrações primaveris relatadas como se fossem sonhos ou fantasias.


Adilson e a irmã Isabel, em
momento de festa
Preocupei-me apenas com o jogo de futebol que passava na TV e nem me dispus a catalogar todos aqueles “causos” contados, com tanto detalhe que merecia, como já afirmei, uma crônica mais abastada de nuances. Apenas alguns ficaram aquilatados na minha memória, como um marcador de livro escolhendo uma página predileta.

Adilson se esmerou em contar que quando criança, vendo que sua irmã partira para São Paulo em busca de um novo horizonte, ficou imensamente saudoso. E esse momento sombrio, triste, o inquietava. Acostumado a ter sempre todos os irmãos por perto — e não eram poucos, mais de uma dezena —, não via a hora de tê-la de volta. Mesmo que fosse por um dia, ou um final de semana. Por isso, quando passava um avião no céu, ele gritava a pleno pulmões: ”Avião, avião, vai depressa e traz a Bela. Anda, vai buscar ela”.

Ele bem sabia que não teria jeito disso acontecer, mas apostava na força da mente e no que costumamos dizer na força da fé, uma fé incondicional de que o impossível pode acontecer. Para uma criança em formação, que não tem o discernimento da razão, o desejo pueril pode falar mais alto. Há sempre o pressuposto de que Deus tem um jeito pra tudo acontecer. Mesmo que isso possa parecer apenas um sonho ou a força da imaginação.

Poderia narrar mais alguma coisa, tentar me estender sobre o assunto, mas com certeza iria ferir a leveza do momento que se vive, mormente neste dia de hoje – 22 de abril.

É que hoje, exatamente ás oito da manhã, o nosso Adilson, um homem com uma confiança inabalável, e dono de um carisma incomparável, foi vítima de um infarto. A saúde o traiu, não bastou a confiança e a esperança de que dias melhores estariam por vir.

Não bastou a sua luta obstinada para que todos fossem felizes, para todos estivessem sorrindo, ou mesmo rindo dele. Não bastou a altivez com que se dedicava à família e o prazer de ver todos juntos, em união. Não bastou o afeto contagiante e a solidariedade com que estabelecia uma amizade. Não bastou a conquista de tantos amigos, parentes e sobrinhos que o tinham como um herói. Um herói lúdico de histórias em quadrinhos, cheio de formas mirabolantes para enternecer, para divertir, para definir a melhor maneira de jogar o jogo da vida. As suas imitações de Elvis e Magal eram apenas uma forma de nos dizer que a vida é uma arte, a arte de interpretar a melhor maneira de viver: com alegria.

É esse o homem que nos deixou hoje, órfãos de deleite, alegria e entretenimento. Que conseguiu, com seu jeito único de ser, ser um homem maduro e um menino ao mesmo tempo. Um menino cheio de fantasias, e sonhos, com aquele da infância quando tentava dialogar com o avião.

A esse mensageiro da paz e do sonho, que o destino nos roubou tão precocemente, gostaria de pedir a Deus que lhe reserve um lugar de Luz em nosso céu pouco estrelado. E se me permitisse mais um pedido, gostaria de repetir o seu gesto mais juvenil: “Deus, Deus, traz de volta o Adilson...”.

Renato Mendonça

26 de abril de 2013

AEROPORTO FLUVIAL DE MANAUS

Flutuante da Panair do Brasil
Há 70 anos, quando o transporte aéreo utilizava os rios como campo de pouso, a Panair do Brasil ampliava suas instalações, conforme descreve um periódico de então – O Jornal. Esse peculiar “aeroporto” estava situado na baía do rio Negro, na confluência dos bairros de Constantinópolis (hoje Educandos) e Colônia Oliveira Machado. De toda essa aventura aeroviária, restou uma lembrança: a feira da Panair.
  
Recorte de O Jornal, novembro 1943


O desenvolvimento dos serviços da Panair do Brasil, cujas linhas cobrem extensa zona em todas as regiões do país, tem determinado o aumento das suas instalações, bem como a ampliação de outras existentes, a fim de que possa ser atendida o grande volume de serviço daquela empresa nacional de transportes aéreos, da melhor forma possível.

Na região Norte, cortada por artérias de inegável valor para o estímulo da economia local, vários melhoramentos têm sido realizados pelos departamentos técnicos da Panair, em virtude dos quais foram criadas condições mais favoráveis para o crescente número de pessoas que utiliza a rede aeroviária da Amazônia para viagens, transporte de encomendas e remessa de correspondência.

Avultam, entretanto, entre esses melhoramentos, as obras que acabam de ser realizadas no aeroporto fluvial de Manaus, onde foi construído, lançado à água e entregue ao trafego, um moderno flutuante de concreto, aparelhado com o que existe de mais novo para instalações dessa natureza.

Medindo doze metros de comprimento por sete de largura, o flutuante tem superestrutura de madeira e dispõe de dois pavimentos com área útil destinada à acomodação dos escritórios de tráfego e operações, almoxarifado, depósito, gerador elétrico etc. Além do flutuante foram construídas outras obras em terra, inclusive modernas estações de rádio. 

(*) Reproduzido de O Jornal, 13 novembro de 1943. As fotos postadas padecem da qualidade então existente.

25 de abril de 2013

HISTÓRIA LITERÁRIA DO AMAZONAS

Arthur Reis
Arthur Cezar Ferreira Reis (*)

Faz um punhado de anos, o professor Carlos Nascimento, de Belém (PA), iniciava ali a publicação da História Literária da Amazônia. Saíram em várias edições da “Folha do Norte” os primeiros artigos. Estudavam a terra e o homem. Naquela linguagem de artista que era tão do educador paraense. Alinhando conceitos cheios de verdades. Anunciando monografia marcante de época nos anais culturais do vale. Mas o escritor morreu. Perdeu-se, assim, a notícia robusta, o panorama traçado a mão de mestre.

Outro, Eustáquio de Azevedo, atirou-se à tarefa. Parece que até antes de Carlos Nascimento, não estou certo. O estudo que elaborou vem divulgado no Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, volume II, grande livro que o I. H. Brasileiro edita. É minucioso. As informações, porém, nem sempre de fiar-se. Paulino de Brito, naquelas páginas, aparece como paraense. Não está certo. O poeta, teatrólogo, romancista, jornalista, que tudo ele foi com talento a valer, nasceu aqui. Nos seus livros há sempre, palpitante, alguma coisa em que revelava entusiasmo pela selva natal, que sempre soube elevar, lá fora, em prélios memoráveis.
Eustáquio limitou-se, porém, ao seu Pará. E a ligeira referencia que se lê no Dicionário, a nosso respeito, é mofiníssima, insignificante, inexpressiva.

Revista Victoria-Regia, julho 1932
 
Na História do Amazonas, ligeiramente eu disse alguma coisa sobre a obra literária da Província. Não era ali o lugar próprio para o ensaio largo a respeito. Quis, apenas, significar o estado de civilização dos nossos avoengos, salientando as dificuldades que o meio criava para o desenvolvimento intelectual, -- a instrução sem relevo assinalável, a imprensa a ocupar-se unicamente com a política, os homens de estado cuidando mais atentamente de outros problemas que lhe pareciam a exigir solução imediata.

Quando, pois, o quadro da nossa contribuição ao pensamento nacional? 

* * *
O Dr. Manoel Anísio Jobim tem-se consagrado ao estudo das coisas amazônicas. São de sua autoria vários ensaios de subido valor sobre municípios do interior. Barbosa Rodrigues, naturalista consagrado às pesquisas no vale, está por ele biografado carinhosamente. João da Silva Coutinho, também.
Meticuloso, com o senso do historiador, conhecendo bem as fontes da crônica do Estado, servido de cultura invejável, Dr. Jobim tem realizado uma obra que há de ser proclamada das maiores no tocante à verificação das nossas ainda tão apagadas origens.

O seu mais recente trabalho tem este título – História Literária do Amazonas. Ao que estou informado, não custará muito a ser divulgado. Não é certo. Abre-o, em título forte, o aspecto da terra e do homem, no drama de ontem e de hoje. As figuras que desde as primeiras horas do Amazonas lhe deram começo à vida intelectual desfilam a seguir. Todas, sem exceção de uma só: mesmo aquelas que não lhe são afeiçoadas. Desde os cronistas arrevesados que nos examinaram detalhadamente. Em retratos bem vivos, acompanhados do índice bibliográfico e da resenha biográfica. Retratos fidelíssimos, que lhe custaram meses de paciente atividade na rebusca aos elementos certos.

E em que linguagem! Tem se impressão do vernaculista que formou o espirito na leitura meditada, diária, dos clássicos da língua. Rebuscado, fidalgo, o estilo é de lampejos. Manaus, na terceira parte da História, quando lhe traça o perfil na fase do ouro negro, aparece em toda realidade. Há sobre a cidade jovem períodos que entusiasmam. Sente-se a Manaus da agitação, dos devaneios, dos excessos, do esplendor. Sente-se o artista que trabalha seguro, do que risca criando motivos de beleza.

Na exposição serena, o Dr. Jobim chega aos nossos dias. Menciona o grupo dos novos -- amazonenses e amazonizados, assinalando as tendências de cada um, sem pendores, sem exclusivismos.
A História Literária do Amazonas, quase toda republicana, conquanto, insisto, lá estejam os pro-homens da fase colonial e do Império, é preciosa e única. Fala da nossa cultura, indicando-a com toda lisura. 

(*) Reproduzido da revista Victoria-regia – julho 1932

23 de abril de 2013

ARTHUR REIS (1906-1993)


Há 20 anos morreu Arthur Reis, em fevereiro de 1993, no Rio de Janeiro. Intelectual ilustre, porém fortemente recriminado por ter governado o Amazonas, inaugurando o Governo Militar. Daí o esquecimento em que foi condenado pelos ressentidos. Jornalista  contemporâneo escreveu o artigo aqui postado, logo após a morte do autor de História do Amazonas e outra centena de livros sobre a Amazônia.
 
 
 Narciso Lobo (*)

Arthur Cezar Ferreira Reis tinha o perfil do intelectual arrojado e corajoso, senhor de suas ideias, estudioso e livresco. Sua biblioteca particular – sua única fortuna – está entre as maiores do Brasil e tudo o que dizia respeito à Amazônia, para usar uma paráfrase, também lhe dizia respeito. Há mais de um ano, com a cumplicidade de Luiz Maximino, defendo a ideia de se trazer para o Amazonas, mais particularmente para a Universidade, a sua imensa biblioteca, hoje no Rio de Janeiro. Arthur Reis, em vida, concordou com a ideia. Falta apenas sua concretização.

Em nossos tempos de memória curta, de famas meteóricas, oriundas da picaretagem e da farsa, valores como Arthur Reis desaparecem do mapa de referências, tornam-se ilustres desconhecidos enquanto o barco da cultura nacional fica à deriva, entregue aos salamaleques da cultura de massa que modela a seu bel prazer o pensamento e as atitudes dos incautos.

A morte de Arthur Reis já está suscitando a pergunta: “Quem era?” E esse momento é sempre oportuno para se marcar posição. Era ele tão importante para a Amazônia como Gilberto Freyre para o Nordeste. É possível que, aqui, não se saiba muito bem quem seja Freyre. Mas será que as novas gerações de lá ainda o conhecem? Sei lá.

Arthur Reis não foi apenas a figura pública que dirigiu o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, nos seus tempos heroicos, e a antiga Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, hoje Sudam, ou o ousado governador do Amazonas, “revolucionário” de 1964, que acabou, mesmo, fazendo a revolução possível, sobretudo no plano da cultura, para desespero dos militares reacionários que o colocaram no poder.

Foi, antes de mais nada, o estudioso da Amazônia e seu mais clássico intérprete. Pela primeira vez um amazônida falava da história e da formação social e política da região com êxito e charme. Vinha de uma tradição luso-afro-brasileira e contava sua História do Amazonas pelo viés do colonizador, enquanto, como pensador e autor de Amazônia e a cobiça internacional filiava-se à mais intransigente linha de defesa do projeto de nacionalidade brasileira, hoje questionado pelas crises e pelas ideias apressadas de separatismo. A história ainda contará melhor a sua hostilidade contra o embaixador norte-americano Lincoln Gordon e a luta para derrubar o projeto de Herman Khan, que desejava inundar as principais cidades da Amazônia, visando a criação de grandes lagos para a extração de riquezas minerais.

No entusiasmo dos meus vinte anos, já na década de 1970, encontrei, certa vez, com o mitológico mestre. Eu, a exemplo de outros companheiros de geração, como o Milton (Hatoun), Aurélio (Michiles), Enéas, buscava o Brasil Grande dos sonhos mega-útopicos deixados pelo (19)68. E, certo fim de tarde, no Rio, fui assistir a um concerto de piano, no auditório do MEC, do consagrado compositor amazonense Arnaldo Rebelo. Ao avistar Arthur Reis, decidi chegar perto e me apresentar ao mestre, que, de imediato, como sempre fazia ao encontrar um conterrâneo, metralhou as perguntas de sempre: quem era o pai, o avô, a família, numa tentativa, peculiar ao seu estilo, de relacionar aquele desconhecido jovem com a história da região.

Da conversa, apoiados numa das janelas que davam para a avenida Graça Aranha, ficou a resposta que deu ao meu questionamento sobre a tragédia dos povos indígenas, tema que, naquele momento, ganhava espaço no meu leque de preocupações. Devo dizer, sem mais, que a minha solidariedade para com o índio nasceu depois que saí de Manaus e diante das sucessivas perguntas imbecis  e desinformadas acerca do assunto, Arthur Reis me ouviu e num movimento lento, como se com as mãos conduzisse uma câmara de cinema, num movimento semicircular, apontou para os majestosos prédios que nos cercavam, e mencionado o próprio prédio do MEC, uma referência da arquitetura moderna, falou, sem disfarçar a falta de jeito, e até com certa ironia:

-- Infelizmente... Mas se não fosse assim não teríamos tudo isso que você está vendo... 

Clóvis Barbosa, outra personalidade que aos poucos a cidade esqueceu, referindo-se ao conhecimento de Arthur Reis sobre a região, evocava sempre a imagem do disco na antiga vitrola: “Ele sabe toda a história do Amazonas, de trás para a frente, de frente para trás...”. Quase uma centena de obras escritas, docente por vocação, conferencista e politico como via de consequência.

Quando o governador do Amazonas, representando uma ditadura que se prolongaria por mais de vinte anos, Arthur Reis se preocupou de trazer para perto de si os mais novos e inquietos. Levou o então imberbe Márcio Souza para seu gabinete, trouxe Elson Farias para sua assessoria e autorizou Luiz Maximino a negociar a libertação do odiado Glauber Rocha, preso no Rio, para filmar o documentário institucional “Amazonas, Amazonas”, filme que muito pouca gente assistiu.

Ao mesmo tempo, criou as Edições Governo do Estado, despejando perto de 150 obras de ensaio, ficção, poesia, antropologia em nossas cabeças curiosas e perplexas. Um projeto de tal envergadura que acabou com o fim de seu governo. O que se viu depois, salvo exceções, foram iniciativas tímidas, muitas vezes com conteúdos de baixa qualidade refletindo o compadrismo cultural do atraso.

Ao mesmo tempo, foi duro com os adversários acusados de corrupção. Felizmente não havia pena de morte e com o tempo foi possível repor o que estava errado. No entanto, o exemplo de Arthur Reis encoraja-me a propor a hipótese de que um homem que respeita e ama a cultura de seu povo jamais será um carrasco ou um carcereiro de seus semelhantes.

Com Arthur Reis, ainda, vieram os arquitetos Severiano Mário Porto e Cezar Oiticica, que viraram amazonenses e até hoje apontam saídas para nosso caos urbano e não perderam a esperança de que é possível construir uma cidade com cidadania.

Em síntese, pessoas que mexeram em tantas direções, conciliando a tradição com a modernidade, questionando o atraso, apostando na Universidade do Amazonas que ressurgia, pessoas assim permanecem vivas. Ativas, mesmo na Província da Amnésia, no País do “Me Esqueci”. Para falar a verdade, a trajetória de Arthur Cezar Ferreira Reis nos diz que nem tudo está perdido e que o Brasil tem jeito e que amanhã poderá ser bem melhor.
 

(*) Narciso Lobo é (era) professor do Departamento de Comunicação Social, pró-reitor de Assuntos Comunitários da Ufam e membro do Conselho Estadual de Cultura. Pertenceu a Academia Amazonense de Letras e ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Morreu em 2009. Reproduzido do jornal A Crítica, fevereiro de 1993

18 de abril de 2013

JOSÉ GENOINO & ARTHUR NETO

Arthur Neto, maio 1980
Em 1980, José Genoino visitou Manaus, tendo proferido uma palestra aos interessados. Sobre o acontecimento, Arthur Virgílio Neto escreveu o artigo abaixo, no desaparecido jornal A Notícia (16 de maio), apresentando o palestrante.

 
Genoino: historiador e personagem da história

Arthur Virgílio Neto (*)

Chegará brevemente a Manaus, como o objetivo de fazer palestra para os amazonenses que se disponham a ouvi-lo, o professor José Genoino Neto, diplomado em História, ex-lider estudantil e participante, como guerrilheiro, da campanha do Araguaia (PA), em inciativa que visava à derrubada violenta do regime militar brasileiro.

A vida de Genoino foi das mais intensas, do ponto de vista das atividades políticas a que se dedicou. Do seu período de militância na política estudantil, registra-se que, de 1967 a 1968, presidiu o Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal do Ceará. De 1969 a 1970, foi diretor da União Nacional dos Estudantes, tendo sido preso, juntamente com as maiores expressões da liderança universitária da época, quando participava do histórico Congresso de Ibiuna (SP).

Recorte do jornal A Notícia, 16 maio 1980
Tao logo se viu em liberdade, optou pela vida clandestina e, a partir de articulações no seio do Partido Comunista do Brasil (PC do B), dirigiu-se, ainda em 1970, para o Araguaia, incumbido de auxiliar na preparação da guerra rural de guerrilhas a eclodir desde essa região; vale dizer que Genoino foi dos primeiros combatentes a cair nas mãos das forças militares destacadas para combater a insurreição (1972), cumprindo aproximadamente 60 meses de prisão, 13 dos quais em estado de incomunicabilidade. Julgado em 1975 pela corte militar, recebeu condenação por militância política ilegal, permanecendo encarcerado até abril de 1977.

Eis, em resumo, a biografia política do futuro visitante de Manaus, que, hoje militando no Comitê Brasileiro pela Anistia  de São Paulo, é um dos raros lideres sobreviventes da guerra do Araguaia. Creio, sinceramente, que será de bom alvitre comparecer a ouvi-lo todas as pessoas que entendam a importância de, pelo diálogo, começarmos a escrever a recente e conturbada fase da História do Brasil, de que Genoino tomou parte ativa, ele que a universidade fez historiador, ironicamente saindo do  exame teórico do mundo para atuar como agente transformador – ou tentativamente transformador – de uma realidade dada.

Inteligente, corajoso, conforme atestam o seu passado e o seu presente; lúcido e aberto ao diálogo, estou certo de que Genoino acolherá com naturalidade as intervenções, favoráveis ou não, que surjam sobre abordagem que fará da vida brasileira, da década de 70 aos dias correntes. Não há que se ter preconceito sobre ele, é bom frisar. Genoino não é, nem nunca foi, terrorista; bem ao contrário, foi soldado vencido, combatente derrotado por forças militar e estrategicamente superiores àquelas que (lhe) davam suporte.

É muito comum a ordem vitoriosa nomear de terroristas os seus adversários batidos. De 1968 a meados da década passada, o que houve no Brasil, ao invés de terrorismo, foi o choque de dois exércitos, o institucional e o contestador, com a vitória do primeiro. Após a guerra, o vencedor diz o que bem entende, produz a versão inicial – a final virá depois, à revelia de quem quer que seja – que bem lhe convenha.

Vejam bem! Fidel Castro venceu a guerra contra o sistema, em Cuba, e, subindo ao poder, teve e tem meios para exercer os derrotados; se tivesse perdido para Fulgêncio Batista, estaria hoje incluído na galeria dos terroristas, pois certamente seria essa uma determinação da ala vitoriosa. Assim, Genoino, o vencido, teve construída, perante a opinião pública, a imagem de terrorista. Para mim, ele não o é; digo que foi apenas um combatente, que precipitadamente se lançou à liça, sem fazer exame cuidadoso da correlação de forças entre o seu grupo e o opositor. Nunca um terrorista, porém. Apenas um guerrilheiro, um guerrilheiro que subestimou o adversário, e pagou por isso, na ânsia de transformar o mundo.

A palestra do historiador-guerrilheiro será realizada na sede do DU (Diretório Universitário), à av. Epaminondas, às 20h do dia 16 de maio (hoje). Estarei lá para ouvi-lo depor, desta vez sem constrangimentos físicos ou psicológicos, livremente, pois, sobre um momento que viveu com voracidade. Será bom escutar um homem que teve a coragem e o desprendimento de ir ao fundo do poço das suas ideias.

(*) Arthur Neto, em 1980, era suplente de deputado federal pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), hoje é prefeito de Manaus, pela segunda vez.

17 de abril de 2013

A VOLTA

Conto de L. Ruas (*)
Padre Luiz Ruas
Quando ouviu o ruído de uma chave sendo introduzida na fechadura,
por uma dessas intuições inexplicáveis do coração, ela não pensou que se tratasse de um salteador, mas de alguém que estava acostumado a fazer inúmeras vezes aquele mesmo gesto.
-- É ele, pensou.
E conservou-se imóvel na cadeira perto do quebra-luz. Apenas repousou o livro sobre as pernas e retirou os óculos.
Como há vinte anos, depois do jantar, ela se sentava naquela cadeira e ficava lendo ou bordando alguma coisa. Passados quinze ou vinte minutos, a empregada lhe dizia boa-noite e fechava a porta atrás de si. Ela ficava só com o seu silêncio.

No começo foi muito difícil. Foi muito difícil mesmo. Muitas vezes esperava que a empregada saísse logo e, apenas a porta se fechava atrás dela, o pranto irrompia incontrolável. Não foi nem uma nem duas vezes que ela pensou em se vestir e ir para a rua. Ao cinema, ao teatro ou a um bar. Uma noite chegou mesmo a subir ao quarto, abrir o guarda-roupa. Mas, depois, se sentou na cama larga e macia e tão vazia e chorou até o sono chegar. Seus pais vieram buscá-la.
-- Que vai você ficar fazendo sozinha nesta casa? Você pode
recomeçar uma vida nova. Você ainda é muito jovem.

Naquele tempo era mesmo. Sete anos mais moça do que ele, poderia muito bem, como diziam seus pais, ter recomeçado uma vida nova. Poderia ter viajado. Ido para a Europa. Ou para os Estados Unidos. E lá, recomeçado uma vida nova. O que, porém, parecia tão fácil para os outros, lhe era infinitamente difícil. Não teria coragem. Não teria forças.
E se deixou ficar sentada naquela cadeira. Com a cabeça entre as mãos, apenas ouviu o rumor dos passos de seu pai e de sua mãe que se dirigiram, em silêncio, para a porta que se abriu e fechou. Quando sentiu a porta fechada, levantou os olhos e ficou olhando-a. E pensou consigo mesma sem dizer nada:
-- Eu sei que ele vai voltar.
O que mais a torturava, de início, era o medo. Sempre fora medrosa. Era um sentimento que nunca chegara a vencer. Quando menina tinha medo de tudo e não podia dormir sem que sua mãe se sentasse à beira da cama e aí ficasse até que dormisse completamente. A luz ficava sempre acesa. Quando ficou mocinha o medo continuou a persegui-la.
Casou-se. E as piores horas de casada eram as horas das noites em que ele voltava tarde do clube. Duas horas da manhã e ela sem poder dormir. De medo.
Naquela noite ela não dormira. Passou a noite toda, sentada na cadeira sem poder dormir. O mesmo aconteceu na outra noite. E a terceira noite foi igual às duas primeiras. Foi muito difícil e doloroso se acostumar com seu medo. Mas, vinte anos de solidão, fizeram com que se acostumasse.
A porta se abriu. Ele apareceu na soleira, emoldurado pela noite. Parou e a ficou olhando sem dizer qualquer palavra. Ela o olhava, também, e lhe veio a impressão de que parecia um pássaro ferido. Ferido e cansado. Não se via a ferida, mas existia em alguma parte dele.
Perdera aquele porte altivo. Seus cabelos, outrora negros e abundantes, estavam agora quase completamente brancos. E o rosto cheio de rugas. Era um homem machucado.
Em silêncio fechou a porta atrás de si e subiu para o quarto. Ela encostou a cabeça no espaldar da velha cadeira e cerrou docemente os olhos.
(*) Publicado no seu livro LINHA D´ÁGUA: CRÔNICAS (Rio:  Artenova, 1970).
 

 

 

A PALAVRA “ARIGÓ”

O texto abaixo foi escrito há 70 anos, quando os primeiros arigós desembarcavam na Amazônia ao tempo da II Guerra Mundial. Foram trazidos do Nordeste para a empreitada de produzir borracha para os Aliados. Estranhos ao meio, a identificação ou o apelido colado a esses aventureiros exigiu do saudoso filólogo João Leda um breve estudo, que foi publicado em O Jornal.

Julgo que o termo ainda não está corretamente dicionarizado, pois o Dicionário Aulete registra arigô -- s. m. (Bras., Centro) || pacóvio, simplório; pessoa rústica.
 
João Leda (*)

Manifestou a sua folha, edição de ontem, domingo, o desejo de ouvir-me a respeito da etimologia e do sentido real da palavra “arigó”, que, presentemente, anda muito na moda, no curioso noticiário policial das gazetas. Não desejando ser arguido de descortês, remetendo-me ao silêncio diante do seu apelo, aqui vai exposta, resumidamente, a minha maneira de ver no caso:
Os mais conceituados léxicos da nossa língua não têm noticia do vocábulo “arigó” e, semelhantemente, o ignoram os ilustres vocabularistas, que, em nossos dias, se devotaram à paciente coleta de regionalismos linguísticos, em várias e vastas zonas do nosso país. (...) abrangendo todos a imensa área que, partindo de São Paulo, alcança o extremo-norte, nenhum assinalou “arigó” nas suas pesquisas, onde os brasileirismos, reais ou supostos, ocupam lugar considerável.

Reproduzido de O Jornal, 21 setembro 1943
 
Parece certo que o nome não provém em linha reta do português. Terá sido transplantado do crioulismo americano, compreendida essa expressão como o conjunto de alguns falares do continente, dos mais estudados e esquadrinhados pelos especialistas?
Falece-me elementos para uma afirmativa peremptória. Tudo quanto posso referir nesse particular é que, numa interessante relação de termos de origem mexicana e peruana, seguido de um resumo do vocabulário aruaco-castelhano, de muitas vozes indígenas do Orinoco e rio Negro, de numerosas dicções do goagiro-castelhano e abundantes termos tamanacas – tudo eruditamente enfeixado num valioso opúsculo do professor Jacques Raimundo – não se rasteia o enigmático “arigó” objeto da solicitação linguística de O Jornal.

O perlustrar, embora de fugida, todos esses idiomas americanos mais ou menos exóticos, em cata da possibilidade de um encontro com o escapadiço “arigó”, sem a grata surpresa de o topar escondido em algum verbete, não significa entretanto que ele seja estranho à ambiência continental, uma vez que não procede de genuína fonte portuguesa, como parece.
De feito e, sobretudo, no que concerne à gíria da malandragem profissional, nossa vizinha Argentina tem opulentado sobremodo o vocabulário brasileiro. (...) “O calão do malandro carioca, ou fluminense, perfilhou numerosos termos da jerga do delinquente argentino, na tendência imperiosa de universalizar a triste linguagem do criminoso”. (...)

Nada, porém, de “arigó”, e a este substantivo que filtra velhacaria e agilidade de unhas, consoante a literatura da reportagem dos jornais, é que se cinge o apelo de O Jornal.
Se eu não respeitasse a linguagem do meu país, considerando-a o mais robusto elo que aperta os sentimentos de fraternidade e de solidariedade da raça, não devendo, portanto, ser apoucada com fantasias gramaticais absurdas e delirantes, aproveitaria o ensejo que agora se me oferece para inventar uma etimologia mirabolante de “arigó” e inseri-lo no catálogo de muitos desvarios que por ai correm, subscritos até por eminentes autoridades.

Inventaria, por exemplo, o étimo iorubano agó, significativo de haveres e riquezas, e, ajoujando-o a um prefixo imaginário de qualquer dos idiomas negroides que subsidiaram o nosso, forçaria “árigo” a traduzir o espoliador ou surripiador de bens alheios, assanhando destarte, com a minha criação estapafúrdia, os venerandos próceres da gramática e da filologia.  
Mas, nestas matérias, a honestidade da consciência está acima das toleimas vaidosas. E a verdade, na questão proposta, está, a meu ver, no seguinte: se o nome não se origina no idioma que os portugueses nos herdaram, nem é possível filiá-lo a nenhum dos outros que cooperaram e ainda cooperam em nossa linguagem, será forçoso ensartar “arigó” no infinito acervo das palavras, das expressões ocasionais, “das criações populares abruptas, espontâneas, nascidas das necessidades do momento, para reforçar uma ideia, colorir uma imagem ou exaltar uma impressão”, na frase viril e exata de Mariassy, arguto observador desse fenômeno linguístico no alemão e no inglês.

E assim sendo, o “arigó”, sem raiz conhecida e certificada, consequentemente sem um sentido próprio e fundamental, pode adotá-lo com a maior elasticidade, fazendo-o compreender todas as formas imagináveis da sutil atuação dos malandrins, notadamente aqueles que o grande padre Antônio Vieira enumerou, na conjugação dum expressivo verbo latino.
A latitude do significado atribuído a “arigó” é a mesma de todas as palavras que, isentas de limitação sinonímica por não se lhes poder fixar a etimologia, comportam enorme extensão de sentido: “arigó”, ou o malandro adventício que, tirando todas as vantagens de ser desconhecido no meio em que opera, exercita com mais segurança e eficiência a arte de despojar o próximo daquilo que possui.

É possível flexionar no feminino a palavra “arigó”?
Penso que nesse ponto a questão se resolve por analogia. Se os nossos mais grados escritores admitem um jaó e uma jaó (ave), um socoró e uma socoró (árvore), não vejo razão para se retirar do “arigó” a qualidade de epiceno.

Salvo melhor juízo.

Manaus, 22-9-1943

(*) Joao Leda (1876-1955), filólogo, sério cultivador da língua portuguesa. Foi funcionário da Assembleia Legislativa e integrou a Academia Amazonense de Letras.

15 de abril de 2013

UM HOMEM CHAMADO BENAYAS

Benayas Pereira
(Porque hoje é aniversário do amigo-vizinho Benayas, colei esta homenagem que o Bandeira fez ao poeta-revisor.
Aguardo pelo convite.)
 

Jorge Bandeira (*)
Benayas Inácio Pereira nasceu na cidade de Nova Granada (SP), em 15 de abril de 1935. O campo das artes se descortina a ele com a produção de seus primeiros poemas, datados do ano de 1956. Sua produção é renovada a cada ano, e seu "xodó" artístico é o projeto "O Encontro das Artes", iniciado em 2001, cuja característica principal é aliar a produção de músicos instrumentistas eruditos a talentos que estariam isolados em suas produções musicais.

As influências primordiais encontradas em seu trabalho, seja poesia, crônica ou conto, são frutos diretos das experiências e dos conhecimentos adquiridos no meio acadêmico e cultural, somados ao grande cabedal de livros com os quais entrou e entra em contato, e que o levaram de forma precisa ao exercício da função com que é conhecido: revisor de livros e revistas.

Trabalhou nos jornais "A Crítica" e "O Estado do Amazonas", revisando textos e escrevendo artigos, especialmente nos cadernos culturais. Sua função de maior regularidade, revisor de obras literárias, concentra-se nas publicações da Editora Valer e da Edua, Editora da Universidade Federal do Amazonas.

Desde 1990 é membro da "Casa do Poeta Lampião de Gás", local beo da poesia clássica. Participou de inúmeros recitais poéticos e concursos literários, o que lhe fez angariar vários troféus, diplomas e menções honrosas. Sua vasta obra soma até hoje mais de 200 títulos editados, entre crônicas, editoriais e poesias. Espera, ainda, a publicação de seu inédito livro de poemas "Um Flamboyã na Calçada", além de uma obra de crônicas.

Sobre o fazer artístico atual em Manaus, observa o nascimento de movimentos literários como o CLAM, Clube Literário do Amazonas, que gradativamente vai mostrando a nova cara da literatura amazonense. A respeito da música erudita e do Festival de Óperas, considera que, apesar de limitações eventuais, tais atividades do calendário oficial do Estado são importantes para a diversidade cultural na cidade.

Para ele a importância da arte, da cultura e da literatura para o ser humano é comparada ao oxigênio, pois o corpo não sobreviveria sem. Afirma que o ser humano não deve cair na rotina do ato mecânico de acordar, dormir e trabalhar. Ao se perguntar qual o sentido do homem viver apenas para trabalhar e comer, considera importante associar trabalho e cultura.

Eis a visão de Benayas, um granadino que, assim como o poeta Frederico Garcia Lorca, nascido em outra Granada, acredita ser a poesia a sustentação fundamental da grandeza do todo ser humano. A vida do homem sem a arte seria como um livro sem revisor abalizado e experiente, cheia de erros e com um olhar voltado apenas ao distante passado, sem a possibilidade de transformação do presente.

(*) Jorge Bandeira, ator, diretor de teatro e professor na Universidade do Estado do Amazonas

Reproduzido de Idéias editadas, 2013 – abr/mai/jun – 04