CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de dezembro de 2012

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS: 95 ANOS


A próxima festa do 95º aniversário da Academia Amazonense de Letras causou pequena  discussão sobre a data de fundação. Dois documentos vão aqui transcritos expondo a divergência.

Medalha do cinquentenário do silogeu

COMUNICADO
Aos nobres pares da Academia Amazonense de Letras:

Motivo imperioso -- posse do Acd. Arthur Virgílio Neto como prefeito de Manaus no dia 1 de janeiro de 2013 às 16h -- leva a diretoria da AAL a mudar a data do Chá Acadêmico, alusivo ao 95º aniversário do Silogeu, para o próximo dia 3 de janeiro de 2013, mantendo-se o local- - Salão Mário Ypiranga -- e o horário das 17h.
Obrigado pela compreensão e contamos com a presença de todos.


Acd. Cláudio Chaves
p/ Diretoria

Resposta do Acd. Zemaria Pinto:

Caro confrade Cláudio Chaves,

Louvo a sua iniciativa de comemorar o 95º aniversário da AAL. Mas o dia 1º/01 não é inadequado apenas pela posse do prefeito Arthur Virgílio, nosso confrade. É que a verdadeira data de fundação da Academia Amazonense de Letras é dia 09 de janeiro. Repito: nove de janeiro.
Em trabalho escrito sobre o fundador Octavio Sarmento (Revista da AAL, nº 27, 2007, páginas 247-268), fruto de palestra proferida no augusto Salão do Pensamento Amazônico, em 26/11/2005, manifesto meu espanto quanto à data da fundação da Sociedade Amazonense de Homens de Letras -- cujo nome seria mudado em 1920 para Academia Amazonense de Letras: 1º, 7 ou 17 de janeiro de 1918? Servindo-me de fontes diversas (Péricles Moraes, Anísio Jobim, Genesino Braga e Mário Ypiranga Monteiro), afirmo naquele ensaio que a data de 1º de janeiro era aceita como simbólica, pelo simples fato de que a memória histórica da data de fundação da SAHL havia se perdido.
Entretanto, meu caro, em pesquisa posterior, sobre o também fundador Paulo Eleuthério, publicada na mesma Revista da AAL (nº 29, 2010, páginas 37-49), decorrente de palestra proferida em 21 de outubro de 2006 (há seis anos, portanto!), estabeleci, tendo como fonte primária o jornal A Capital, do acervo do IGHA, a verdadeira data de fundação da Sociedade Amazonense de Homens de Letras: 9 de janeiro de 1918.
Como sei que o confrade coleciona nossa Revista, vou poupá-lo dos detalhes, que aliás, podem ser lidos também no meu blog: http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2009/01/subsdios-para-uma-histria-da-academia.html

Por amor à verdade, meu caro, me guardarei para tomar um solitário chá no dia 9 de janeiro, em singela comemoração dos 95 anos de nossa Casa.


Aceite meu abraço fraterno.
Zemaria Pinto
 
 * * *
Duas palavras deste “catador”: Fique sossegado, pois já anotei no meu calendário o Chá do dia 9. Tudo em atenção a propaganda governista: Se for dirigir, não beba; se for beber, me chame.
A segunda dita cuja, confio na sua pesquisa. Até amanhã, chego para o almoço.  
 

29 de dezembro de 2012

EM DEZEMBRO DE...


Há algum tempo, vinha empilhando acontecimentos portadores de duas características: foram perpetrados em dezembro de algum ano e por elementos da Polícia Militar do Amazonas. Alguns, já relatei.

Relembro aqui dois. O primeiro, obediente à cronologia, aconteceu há cem anos. Ao final do governo de Antônio Bittencourt (1908-12), três oficiais da PMAM tomaram o Poder Executivo, pelo tempo de 48 horas, às vésperas daquele Natal. O outro aconteceu há 30 anos, quando, dentro de um quartel da Polícia Militar, dois homicídios foram cometidos.

Sobre o primeiro já discorri ao mesmo três vezes, a última postagem  no início deste mês, aproveitando a reinauguração da praça do Congresso, que oficialmente leva o nome daquele governador.
 
Página de A Crítica, 21 dezembro 1982
Fico com o segundo, o trágico episódio que envolveu dois elementos da corporação militar estadual, em 20 de dezembro de 1982. Não direi que foi o mais dolorido, porque este corpo já assistiu outras cenas bem mais danosas.

Nesse dia, uma segunda-feira, o soldado Onecimo Benigno Sodré matou a tiros o tenente Weber Nery de Amorim, e foi justiçado em seguida. Os crimes aconteceram no quartel da Companhia de Choque, então situada no conjunto residencial do Japiim, onde atualmente funciona o Serviço Social da mesma corporação.

A descrição do fato pelo jornalismo da época não esclarece os motivos, alguns pontos importantes seguem esquecidos ou omitidos. Era dezembro, o estado preparava-se para receber seu novo governante, o conhecido politico Gilberto Mestrinho. Véspera do Natal, toda a guarnição policial militar acreditou na conclusão do IPM (Inquérito Policial Militar), de que o soldado Onecimo, que sempre se apresentava embriagado no quartel, fora advertido pelo oficial e, descontente, disparou contra o mesmo. Em seguida, praticou o suicídio.

Algumas conversas “paralelas” informaram e o "boletim do soldado" confirmou que não fora bem assim a tragédia. O sargento Marçal, comandante da guarda, fora o elemento que impusera intensa advertência ao soldado, instigando-o  em demasia. Desnorteado, o soldado seguiu em direção ao interior do quartel, então uma diminúta construção, quando se encontrou com o tenente Weber. Este, ao tentar se inteirar da situação, foi atingido pelo tiro disparado pelo soldado.

Diante do quadro, o soldado tentou escapar do aquartelamento, mas a guarnição de serviço foi em seu encalce e, alcançando-o, matou o soldado. Daí a razão pela qual a família deste, duvidosa da atitude de Onecimo, resolveu observar o cadáver, encontrando marca de tiro nas costas.

A leitura do atestado de óbito, que a corporação fez públicar em seu boletim interno, permite a qualquer concordar com a família. Não houve seriedade na apuração do fato. (segue)

26 de dezembro de 2012

FELIZ NATAL, AINDA QUE TARDIO


Afinal, estou em Minas Gerais. Perdido em andanças para alcançar um encontro familiar bem distante de casa, não pude manter a publicação diária. Por essas razões, meus votos de felicidades pela festa do Menino Jesus chegam com algumas horas de atraso.

Cartão elaborado em 1977-78 no 1º Batalhão de
Polícia Militar
 
Para ilustrar a postagem, resgatei um ancestral cartão de Boas Festas, referente a 1977-78, idealizado pelo então comandante do 1º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Pedro Rodrigues Lustosa. A foto foi realizada por um experimentado fotógrafo, que ainda hoje produz com eficiência, falo de Carlos Navarro.

No comando deste batalhão, Lustosa havia sucedido  ao tenente-coronel Hélcio Motta, que fora conduzido ao Estado Maior da corporação. Oficial dedicado e organizador ao extremo empreendeu vistosa reforma nas dependências do quartel, em especial o parque esportivo, como bem demonstra a fotografia.

Este registro natalino causou um mal estar, um fuxico entre a classe, pois entendiam que a foto queria mostrar a deficiência do antecessor. Entenda-se como briga de compadres. Certo mesmo é que este Cartão é o mais antigo documento -- com 35 anos -- apregoando os anseios da Polícia Militar, mesmo que nascido de uma fração da PMAM, para a população.

O texto pertence ao coronel Lustosa, somente ele, com a paixão dele pela briosa Polícia Militar, poderia escrever com aquela ênfase. Na época, eu colaborava com o comando do coronel Lustosa, como subcomandante, mas não pude contribuir com este histórico cartão de Boas Festas.

23 de dezembro de 2012

BASE AÉREA DE MANAUS (5ª parte)


    O Campo de Pouso da Base Aérea de Manaus e o Aeroporto de Ponta Pelada: resultados de uma aproximação americana (*)


4 A CAMINHO DO AEROPORTO

Samule Benchimol, autor citado
A área de Ponta Pelada já havia evidenciado suas qualidades e seu importante valor estratégico quando, em 6 de julho de 1954, a Lei Estadual nº 40 a declarou de utilidade pública. Visando um melhoramento do espaço que  compreendia a pista de pouso, foi aprovada a doação dos terrenos (situados nas adjacências) para o então Ministério da Aeronáutica. Esse espaço se configurou pelo setor que compreendeu a lateral Norte da pista de Ponta Pelada e foi reservado exclusivamente para a implantação definitiva do Aeroporto Internacional de Manaus.

Sobre esta medida, a Lei dizia:
Fica o Poder Executivo autorizado a doar ao Ministério da Aeronáutica o terreno sito na Ponta Pelada [...] O terreno em causa é destinado à instalação definitiva do Aeroporto Internacional de Manaus, conforme a planta apresentada pelo referido Ministério, e faz parte das terras já consideradas de utilidade pública pela Lei Estadual n° 1.020, de 7 de maio de 1943. (MANAUS, 195-?).

Com esta concessão de terras, o Aeroporto de Ponta Pelada deu início às suas atividades, após a inauguração de um novo terminal de passageiros, em 20 de janeiro de 1954. Sobre a melhoria deste espaço e a consequente construção deste novo terminal, Monteiro escreveu:
Construído pelo engenheiro Trajano Mendes, e inaugurado pelo presidente Getúlio Vargas, a 20 de janeiro de 1954, comemorando a passagem do décimo terceiro aniversário da criação do Ministério da Aeronáutica. A pista tinha 2.000 metros de comprimento por 45 de largura e estimou-se em Cr$ 30.000.000, o custo total da obra com o prédio. Colaboraram na construção da estação de passageiros os industriais Dr. Adalberto Ferreira do Vale e Isaac B. Sabbá. Atualmente o aeroporto foi denominado de Getúlio Vargas, mas ninguém o conhece por tal. A primitiva estação de passageiros ficava do lado contrário (da pista) e era de madeira. (MONTEIRO, 1998, p. 544-545).

Mário Ypiranga Monteiro,
autor citado
A inauguração do novo terminal de passageiros e a revitalização da pista de pouso concretizou a certeza de se trazer investimento e aceleração do desenvolvimento que se projetava para a cidade de Manaus. Tal fato assinalou o início de um novo momento para o desenvolvimento socioeconômico da região Norte, tendo em vista que, anos depois, com a implantação do Polo Industrial de Manaus (BENCHIMOL, 1998), se constituiria como um dos entroncamentos específicos para a exportação dos produtos produzidos na região.

Fruto da contribuição e envolvimento da iniciativa privada, o novo aeródromo materializou, com sua idealização, uma nova porta de entrada para a cidade de Manaus. Vale ressaltar que este novo empreendimento surgiu perfazendo um ciclo de melhorias que se faziam necessárias para a cidade.
A antiga construção, ainda em madeira e telhado de argila remetia às estruturas deixadas pelos norte-americanos; era fruto das edificações “imóveis” que foram deixadas em conformidade aos acordos firmados durante a Segunda Guerra Mundial. Este antigo terminal, com uma estrutura modesta e ligeiramente reduzida, revelava os sinais mais característicos de uma cidade calma e de pouco trânsito, no final da década de 1950; por outro lado, o novo terminal anunciava de forma significativa o desenvolvimento que se projetava para os anos vindouros.
Álvaro Maia,
governador do Estado
A cerimônia de inauguração deste novo terminal, conforme registro do livro histórico do Destacamento de Base Aérea de Manaus (1954), além da presença do presidente da República, contou ainda com o comparecimento de inúmeras autoridades, como o então governador do Amazonas, Álvaro Botelho Maia; o ministro da Aeronáutica, tenente brigadeiro do ar Nero Moura; o chefe do Estado Maior da Aeronáutica, major brigadeiro do ar Ajalmar Vieira Mascarenhas; o comandante do 4º Distrito Naval, o comandante da 8ª Região Militar, o comandante da 1ª Zona Aérea, o presidente da Câmara de Vereadores de Manaus, entre outros representantes políticos, civis e militares.

Reforçando o valor dessa inauguração e seu estimulo ao desenvolvimento da cidade, o tabloide O Jornal, de 20 de janeiro de 1954, publicou:
Sabendo da importância que representa para essa imensa região a existência do aeródromo internacional da Ponta Pelada; conhecedor profundo dos benefícios que trará para a nossa economia a industrialização aqui mesmo feita da juta amazônica, pela fábrica instalada pela Companhia Brasileira de Fiação e Tecelagem, a ser inaugurada hoje o presidente Getúlio Vargas estará conosco, festejando esses importantes acontecimentos, ao qual se junta ainda a instalação da Delegacia da Comissão de Valorização da Amazônia, em Manaus. (VARGAS... 1954, p. 1).

Conforme destacou o tabloide O Jornal (VARGAS...1954), às 12 horas a aeronave presidencial estacionou no Destacamento de Base Aérea de Manaus (DBAMN) e o presidente, conforme o protocolo, passou em revista a tropa e as aeronaves (Catalina) da referida Unidade da Força Aérea Brasileira. Às 13 horas, percorrendo toda a extensão da pista a bordo de um automóvel, inaugurou-a e, logo em seguida, o terminal de passageiros do Aeroporto Internacional de Manaus.

A pista de pouso, que durante o estado de guerra serviu como escoadouro para a produção de borracha, agora passava a delinear um novo sentido à capital amazonense e, consequentemente, à população manauara.
Diante do quadro apresentado, é notório que, com o comparecimento presidencial, tal empreendimento configurou-se como algo de extremo valor para a cidade de Manaus. Vale lembrar ainda que a capital amazonense, na década de 1950, possuía apenas duas pistas de pouso
(Ponta Pelada e Flores) e apenas a de Ponta Pelada voltou-se às atividades da aviação civil e militar, sendo somente em 1976 alterada com a inauguração do novo aeroporto de Manaus – Aeroporto Internacional Eduardo Gomes (ATENÇÃO... 2006, p. 12).

Junto às inovações que se constituíram com o novo acesso à cidade, a presença militar se intensificou. A Força Aérea Brasileira passou a atuar com maior frequência, tendo em vista as exigências da região e suas necessidades. Vale lembrar ainda que esta atuação estava diretamente ligada ao apoio de órgãos governamentais, de Pelotões de Fronteira, de comunidades ribeirinhas, entre outras atribuições. As estruturas legadas pela presença americana, após o fim da guerra, ganharam um novo significado e proporcionaram as condições adequadas à efetivação definitiva de um aeroporto que, nas décadas seguintes, somado aos incentivos fiscais, acabaria facilitando a entrada de tecnologia e de investimentos voltados ao desenvolvimento econômico e regional (BENCHIMOL, 1998). (segue)

(*) Revista UNIFA, Rio de Janeiro, v. 25, n. 31, dez. 2012.

21 de dezembro de 2012

OFICIAIS DA PMAM – 50 ANOS

Recorte de O Jornal, 20 dezembro 1962
Enquanto o governo se debatia com o desastre do PP-PDE, a Polícia Militar do Amazonas recebia, em 19 de dezembro, 1962, os três primeiros oficiais diplomados na Escola de Formação de Oficiais, da PM do então estado da Guanabara (ilustração).

A foto, extraída de O Jornal, mostra os personagens desse evento.  À esquerda, o saudoso tenente-coronel Neper Alencar, então chefe da Casa Militar do governador Gilberto Mestrinho (1959-63). Neper já havia exercido o comando da corporação amazonense, mas continuava emprestando sua aptidão no trato pessoal junto ao Palácio Rio Negro. Em 1969, foi nomeado coronel, com a distinção de ter sido o primeiro a atingir esta patente na ativa. Em nossos dias, seu nome distingue a Academia de Polícia Militar da PMAM.
 
À direita, a paisana, o capitão médico Luigi Farini, do Exército, na ocasião exercendo o posto de Chefe de Polícia. Este médico teve uma trajetória mirabolante em Manaus. Adotado pelo governador Mestrinho, foi convocado para a Polícia Militar, no posto de tenente-coronel. Com essa dádiva, pode ser nomeado chefe do gabinete militar do mesmo governador.
Mais adiante, como vemos, assumiu o cargo de Chefe de Polícia. Sumiu junto com Mestrinho, quando este foi cassado pelo Governo Militar.


No centro, os três aspirantes a oficial: Pedro Câmara, Pedro Rodrigues Lustosa e Hélcio Rodrigues Motta (a partir da esquerda e pela ordem de classificação). Atualmente, o trio de coronéis desfruta a reserva, a aposentadoria (em linguajar popular). Lembrando apenas que os coronéis Hélcio e Lustosa foram comandantes da corporação, enquanto Câmara foi, por décadas, o chefe do Estado-Maior. A disputa pela promoção, onde elogios nem sempre bem observados, punições e outros deslizes e atropelos políticos contam, permitiu uma evolução na hierarquia. 

Quartel da Polícia Militar, na praça de seu nome,
no final da década de 1960
Por isso, quem sabe, nunca mais houve a repetição dessa foto histórica. Os três aspirantes, fundadores de um marco profissional, de nova caminhada na PMAM, com o progresso na instrução dos quadros, atingiram o topo da escala policial militar, de modo lamentável, com cada qual em seu pedestal. Todavia, o monumento dos cinquentanos  de oficiais de EFO foi plantado.  

20 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS (Fim)



Recorte da edição de O Jornal, 20 dezembro 1962
A busca pelo avião Constellation da Panair do Brasil prosseguiu, esperando que a expedição terrestre alcançasse a clareira em dois dias. Diante dessa dificuldade, a imprensa reproduziu informes em gerais, restando aos manauenses aguardar.


Na edição de 19 de dezembro, duas notas alicerçam as medidas e as consequências do desastre. Uma da Varig, a extinta empresa aérea, informando que a atividade de seus aviões continuava normal, posto que fora suspensa a interdição do Aeroporto de Ponta Pelada, por outro motivo, “a conclusão das obras que se efetuam na pista”.

A outra veio da Associação Comercial do Amazonas (ACA), revestida de luto pelo dramático acidente ocorrido com o Constellation, da Panair do Brasil. Lamenta o desaparecimento de seu ilustre vice-presidente, Ermindo Fernandes Barbosa, de retorno de Belém (PA), onde fora entrevistar-se com o Banco de Crédito da Amazônia (hoje Basa).

Ermindo  Barbosa era, ainda, dirigente da firma  J. A. Leite & Cia. (Aviamentos) Ltda., cuja empresa ainda prosperou por décadas. Talvez tenha sido o passageiro mais ilustre, mais conhecido, por isso mais reverenciado. Sua residência ainda hoje se encontra na avenida Joaquim Nabuco, próxima da Cúria Metropolitana e a residência do arcebispo de Manaus. A casa segue atraindo olhares, apesar de desfigurada e parcialmente esquecida, a casa mais conhecida por “Bolo Confeitada” (veja ilustração). 

Residência de Ermindo Barbosa, ainda existente na
avenida Joaquim Nabuco
Para melhor esclarecer a cidade, o diretor da Operação Resgate, major Henrique  Cal, da Aeronáutica, reuniu a imprensa para uma conversa, quando esclareceu as dificuldades que a expedição enfrentava para chegar ao PP-PDE. Além dessa iniciativa, avião da Força Aérea levou jornalistas para um sobrevoo na área do acidente.

Por todo dia 19, cinco dias depois do acidente, a expedição ainda não alcançara o destino e, ao final do dia, acampara nas proximidades, há cerca de 1 km ou duas horas de caminhada. Mas, havia outra expedição no caminho, a da Petrobras, que alcançou a clareira do acidente às 10h30, de 20 de dezembro. Seis dias depois do acidente.

Começava nova etapa para o recolhimento dos corpos e destroços da aeronave.  Esperava a equipe principal abrir espaço para o pouso dos helicópteros, com brevidade. Para tanto, receberam ferramentas necessárias, além de alimentos e equipamento de proteção pessoal (como máscara antigás). A remoção dos mortos também foi difícil, muito trabalhosa, basta se entender a deficiência de então.

No local, o Exército instalou uma Base de Treinamento, de responsabilidade do CIGS, que a cada ano relembra os desdobramentos do desastre do PP-PDE.  

18 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS (5º dia)



Recorte de O Jornal, 18 dezembro 1962
Sem jornal no dia anterior, na terça-feira, 18 de dezembro, Manaus ficou sabendo da situação do avião sinistrado e dos passageiros e tripulantes. Em reportagem intitulada – Mata do Rio Preto guarda destroços do “Constellation”, o matutino dos Archer Pinto descreve as últimas notícias.

Primeiro, informa que, no dia anterior, um avião Hercules  do governo americano trouxe dois helicópteros da Base Aérea de Cumbica (SP) para Manaus. Essas aeronaves, pilotadas pelos tenentes Henrique e Valdir (lamento que haja somente os nomes de guerra), chegaram ao local do acidente na tarde de ontem, aproximando-se a altura de 25m, acima da vegetação. Portanto, em condições de esclarecer o mais importante, se havia sobreviventes.
Nota publicada em O Jornal,
18 dezembro 1962

Segundo, confirmado o acidente e reconhecido o PP-PDE, os helicópteros passaram a orientar a expedição que partiu da rodovia Manaus-Itacoatiara, nas proximidades do Km 63, de um acampamento da Pavinorte, construtora desta estrada. Devido as condições do terreno, esperavam os expedicionários alcançar a clareira aberta pela aeronave em cinco dias. Mais uma vez é preciso esclarecer que toda a área era de selva, sem estrada vicinal ou acidente fluvial que permitisse reduzir esse prazo.

Nesse dia, o Governo do Estado, em conjunto com autoridades da FAB e da Panair do Brasil, publicaram a seguinte Nota Oficial: 

O Governo do Estado, o Serviço de Buscas e Salvamento e a Panair do Brasil, informam que: após o sobrevoo, por dois helicópteros da AB, do local assinalado como do acidente do PP-PDE, constatou-se positivamente o encontro dos destroços do aparelho sinistrado na madrugada do dia 14 próximo passado.

Os helicópteros pilotados por oficiais da FAB, transportaram o comandante Luciano e engenheiro Loral, ambos da Panair, que ao regressarem do voo foram positivos no reconhecimento daquela aeronave sinistrada.

Lamentavelmente, não existe (sic) indícios de sobreviventes no local do sinistro. (...)

Tal expedição que deixou o km 63 hoje, às primeiras horas da manhã, será orientada no seu percurso por aviões e helicópteros da FAB baseado naquele acampamento.

Manaus, 17 de dezembro de 1962

Pelo Governo do Estado – Dr. Cláudio Palhas;
Pela Panair – comandante Girão Marques de Oliveira e Dr. Loral;
Pela FAB – major aviador Guilherme Cal.

17 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS (4º dia)


Na segunda 17, Manaus ficou em saber do avanço da expedição em busca dos mortos, porque não circulava qualquer jornal. Novamente o padre-cronista L. Ruas traduzia com o texto abaixo o desalento que tomou conta da capital, quiçá do país.

O SALVAMENTO
L. RUAS (*)

 Ainda continuamos sofrendo o impacto do terrível desastre aéreo ocorrido na madrugada do dia quatorze do corrente.
Já decorreram três dias de sofrimentos e de angústias para todos quantos se sentem ligados ou pelos laços do sangue ou pelos laços da amizade a todos aqueles que se acham envolvidos no desaparecimento do PP-PDE.

O poeta Jorge Tufic (de bigodes) e o
padre-cronista L. Ruas, sem data
À hora em que escrevemos estas rápidas e despretensiosas observações, apesar de o desengano já nos haver jogado no vértice da tragédia que destruiu umas cinquenta vidas, entre as quais, as de várias crianças, ainda permanece um resquício de dúvida e de esperança que dilacera, ainda mais, de dor, as almas e os corpos de todos os que desejariam não houvesse acontecido tamanha desgraça. E estes todos, somos todos nós que, em Manaus, esta pequenina cidade onde vivemos tão perto uns dos outros, estamos unidos por uma vivência que nos torna igualmente participantes do infortúnio que se abate sobre o nosso Estado e, certamente, sobre o Brasil inteiro.

O fato de já haverem decorrido três dias e, até agora, esta dúvida ainda continuar é, realmente, de estarrecer.

Conversando com várias pessoas que estiveram tomando parte ativa no trabalho de localização do aparelho desaparecido, ouvimos algumas explicações que, à primeira vista, parecem justificar este retardamento. No entanto, uma pergunta nos tem perseguido constantemente: O que pode justificar a perda de uma vida humana?

E o que é mais curioso é pensarmos que o problema do salvamento tem sido colocado na base de hipóteses: "Talvez não sejam os destroços do avião”... Parece que não há sobreviventes... etc. Mas, pensemos, agora, em termos positivos: e se forem Mesmo os destroços do avião? E se houver ou se houve sobreviventes? Já não aconteceu de, em desastres aéreos, onde tudo parecia estar destroçado, haver sobreviventes? Se as buscas tivessem sido mais rápidas, mais eficientes, no caso daqueles dois moços caídos nas selvas de Mato Grosso, eles não teriam sido salvos?

É isto que nos causa pasmo. Manaus, plantada no coração da estupidez desta selva amazônica, imensa e impenetrável, centro geográfico de uma enorme região permanentemente cortada por aviões que a cruzam de norte a sul, de leste a oeste, continua, no entanto, completamente desprovida de todo equipamento de salvamento para eventualidades como esta que, embora, não desejemos jamais tornem a acontecer, sabemos, porém, que podem acontecer. A desculpa de que o local onde, presumivelmente, se despedaçou o Constellation da Panair do Brasil, é de dificílimo acesso, pode explicar tal situação, mas, de maneira alguma, a justifica. Por que Manaus não tem, ao menos, um helicóptero? Por que é dispendioso para o Brasil? Dispendioso para o Brasil que se dá ao luxo de possuir um inutilíssimo porta-aviões? Ou Manaus não está devidamente preparada para estas emergências, apenas, porque se trata mesmo de Manaus, esta sempre esquecida e abandonada cidade de Manaus, capital deste Estado que continua sendo, para o Governo Federal, apenas, alguma coisa, uma porção de terra, geograficamente ligada ao restante da União?

Bom, graças a Deus, já chegaram os helicópteros dos Estados Unidos...

Esperemos que no momento de colocarmos o ponto final nesta crônica, já os aviões norte-americanos nos tenham trazido alguma notícia, algum indício que dissipe, de uma vez, esta indecisão que nos tortura, nos atormenta e revela uma criminosa inaptidão nossa.

(*) Extraído de seu livro Linha d´àgua: crônicas. Manaus, 1970

16 de dezembro de 2012

IGHA: NOVO PRESIDENTE


Em sessão realizada neste sábado, tomou posse na presidência do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, o sócio Antônio José Souto Loureiro, encabeçando a chapa – Rumo ao centenário.
 
Antônio Loureiro, ao micorfone, Armando de Menezes e
Geraldo dos Anjos (à dir.) durante a posse
O encontro, presidido pelo sócio Armando Andrade de Menezes, em razão de sua idade, que o torna o mais idoso na Casa de Bernardo Ramos, serviu ainda para aprovar a gestão do presidente substituído Geraldo Xavier dos Anjos.

Sem concorrência, a chapa de Antônio Loureiro foi consagrada pelos 15 associados que compareceram à festa. Apesar de disposição estatutária, que determina que a posse seja realizada em janeiro, a mesma foi realizada de imediato.

Após a sessão, foi realizado o encontro natalino dos associados, motivado pelo serviço de um coquetel.

Não tive acesso à relação da nova diretoria. Sei apenas que eu não consegui ser “escolhido” sequer para suplente do conselho fiscal, ou seja, o rabo do jerico.

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS (3º dia)

No domingo 16, há 50 anos, a cidade de Manaus conhecia o destino trágico do Constellation da Panair do Brasil. A edição de O Jornal detalhava a localização do avião em vasta clareira aberta na selva. Dizia das providências que as autoridades, da FAB e da própria Panair, tomaram na busca da aeronave, avistada por uma tripulação desta companhia aérea. Enfim, a comoção que abrangeu aos parentes de passageiros e tripulantes.  

Recorte de O Jornal, domingo, 16 dezembro 1962
De parte da FAB, atuou o Serviço de Busca e Salvamento, sob a direção do capitão Ruy e do tenente Cesar. A Panair, representada em Manaus por Vasco Vasques, providenciou para que fosse vasculhada vasta área, cobrindo o Careiro da Várzea,  Paraná da Eva, Terra Nova e Cambixe, como se vê, nas proximidades de Manaus.

Finalmente, “às 11h20 de ontem” um avião Catalina, sob o comando do piloto Patrick, avisou à torre de controle do aeroporto de Ponta Pelada que avistara os destroços do PP-PDE. Avistados na então mata virgem, sem que o piloto observasse sinais de sobreviventes.

Na tarde desse dia, cerca das 15h, os dirigentes e técnicos da própria empresa fizeram as suas observações, voando sobre o local. O mistério começava a ser desvendado, faltando somente esclarecer o alcance de vítimas. Enquanto isso, pessoal do Exército e da Aeronáutica já se movimentavam, contando com a colaboração da Comara (órgão encarregado da construção de aeroportos) e da Petrobras, que possuía equipes de prospecção na região.

Conhecidas as coordenadas, ficaram assim estabelecidas as distâncias do local da queda para outros pontos: 24 km para o rio Amazonas; 45 km até o aeroporto de Manaus; e 16 km para a estrada Manaus-Itacoatiara, ainda em construção. E nehuma estrada vicinal nas proximidades. Tampouco helicópteros.

A reportagem deste matutino sobrevoou o local, em aparelho da FAB, registrou que “o aparelho sinistrado abriu uma fenda (clareira) de mais de 200m de extensão, por uns 30 a 50m de largura, onde se vê apenas mato queimado, árvores derrubadas e, ao fundo, os destroços do aparelho”.

Na manhã seguinte, partiu em direção ao local a primeira equipe oficial, composta de elementos do Exército e da Aeronáutica, auxiliada por conhecedores da região. Há registro de que muitas pessoas se apresentaram voluntariamente para acompanhar a expedição. A conhecida rodovia encontrava-se em inicio de sua construção, por isso, a missão foi levada de carro até o rio Preto, aonde se embrenharia na selva.

A reportagem de O Jornal encerra suas manifestações, analisando a possibilidade de sobreviventes. Para quem observara de perto a extensão do desastre, seria uma impropriedade afirmar em contrário, por isso, assinalava que “é muito remota possibilidade sobreviventes”. Como ficou provado, todos morreram.   

Na Manaus de então, na segunda-feira não circulava qualquer jornal. Por isso, na segunda 17, a cidade ficou em saber do avanço da expedição em busca dos mortos.

15 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS (2º dia)


Recorte O Jornal,
15 dezembro 1962

O acidente com o Constellation da Panair do Brasil aconteceu no inicio da madrugada de 14 de dezembro de 1962. O avião que partira às 22h do aeroporto de Val de Cans, em Belém (PA), deixou de aterrissar a hora marcada, dando iniciando a um transe nos que aguardavam os passageiros no aeroporto de Ponta Pelada.

Sem nenhum recurso que pudesse de pronto esclarecer a demora, somente restou se agarrar na esperança de que nada de grave houvesse acontecido. O cronista L. Ruas narrou: foi uma noite em branco, olhando o céu e aguardando o ronco característico de um avião. Mas, nada aconteceu.

Apenas se sabia que a aeronave partira de Belém e deveria chegar a Manaus, mas o final do trajeto não ocorreu. No dia imediato, estampou o matutino dos Archer Pinto: “Denso mistério envolve o destino do Constellation PP-PDE”. A população se envolveu na busca do avião, os rádios-amadores buscavam entre os colegas qualquer sinal; o jornalista Ulisses Oyazarbal empenhou-se com sua veloz lancha pelas águas até o rio Preto; o governo, em conseguir helicóptero, porque helicóptero não havia na região.
Recorte de O Jornal, 15 dezembro 1962
O drama, portanto, transpôs o dia, com a cidade angustiada de olhos no céu. De repente, diante do mistério, “correu uma versão de que o avião teria sido sequestrado por estrangeiros, embarcados”. Isso trouxe nova esperança aos atormentados familiares. Outras informações, algumas sem cabimento, voavam de um lado a outro. Mas, o Constellation  e seus passageiros (43) e tripulantes (7) seguiam desaparecidos. A tragédia ainda demoraria a ser revelada.

14 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS

Aconteceu na noite de 14 de dezembro de 1962, nas proximidades de Manaus, o Constellation quase chegando ao aeroporto de Ponta Pelada. Era começo da noite e o avião PP-PDE, da Panair do Brasil, vindo de Belém (PA) não aterrissou como esperavam os passageiros e seus familiares. Morreram todos, 50 passageiros, espalhando a aflição pela acanhada cidade de Manaus.
Cronista da época, o saudoso padre Luiz Ruas é o autor do artigo aqui reproduzido. Nele, o articulista descreve com perícia a incerteza que tomou conta da capital amazonense. A qualidade da foto jornalística revela as dificuldades de então, há cinquentanos. 

Recorte de O Jornal, 19 dezembro 1962
O Desastre

L. Ruas (*)

Primeiro foi a grande incerteza.
Os olhos catando nos céus escuros alguma trilha de luz que indicasse um caminho para a esperança. Os minutos correndo lerdos. A pista vazia. A noite vazia. Os céus escuros e silenciosos guardavam seu segredo com a impassibilidade de esfinge. Nenhum sinal. Nenhum ruído.

- Passageiros da Panair do Brasil estamos chegando ao aeroporto de Ponta Pelada...

Uma dúvida inconfessável começou a passear no aeroporto. Pairava no ar como uma invisível ave de rapina querendo atingir os corações dos pais, dos filhos, dos esposos, dos amigos que, minutos antes, conversavam alegremente na incontida felicidade de receber em seus braços os corpinhos tenros e talvez sonolentos de seus filhinhos, beijar-lhes as cabecinhas despreocupadas, estreitar suas esposas, abraçar com carinho e calor os parentes e amigos.

Pouco a pouco a luta se tornava mais áspera e mais sensível. Os olhares começaram a se trocar cheios de apreensões e algumas perguntas foram arriscadas a medo. Todos lutavam corajosamente contra as invisíveis aves negras. Negras como a noite, negras como a pista vazia, negras como os céus calados. A alegria de todos, então, começou a levantar voo para longe do aeroporto e, ganhando a imensidão da noite friamente muda e parada, saiu em busca, em remígios tresloucados, das faces perdidas na incógnita daquela madrugada.

- Você está ouvindo o ruído dos motores?...

Depois, o silêncio. Um silêncio pesado e absurdo como a angústia. Comprimindo o peito. Ferroando os olhos. Entalando a garganta. Apertando as mãos. Crispando as almas. Abatendo os corpos.
Apesar de tudo os céus continuavam a ser esquadrinhados pela esperança de todos.

A manhã trouxe a notícia para a cidade. Naquele dia ninguém olhou para o sol. Ninguém viu as cores da manhã. Ninguém se deslumbrou com a apoteose da luz. Todos procuravam no céu apenas um sinal que indicasse um caminho para a esperança. O rio? A mata? Mas que rio? Mas que mata? E todos calavam para que um grito de
desespero não irrompesse, feroz e incontrolável, em direção ao vazio.
O silêncio dos lábios, os olhos parados, as mãos agitadas, as lágrimas mudas. A impotência absoluta diante do absurdo. O não poder fazer nada. O querer fazer tudo. Brigar. Gritar
. Andar. Voar. Nadar. Mergulhar. Chorar. Descompor. Sair. Ficar. Falar. Descobrir. Salvar...

Isto foi um dia.

Quando chegou a noite, brilhou longinquamente uma estrela. Muito pálida. Muito pequena. Mas suficientemente estrela para ser luz e esperança: era possível um sequestro. Todos se agarraram desesperadamente ao delgado raio de luz dessa possível estrela. Ah! Todos os desertos têm as suas miragens...

E isto foi uma noite.

Finalmente as aves de rapina triunfaram. Encarniçadamente fora o combate pelas horas das noites e pelas horas dos dias. Tudo confirmado: no coração da mata, um círculo. No círculo: os sorrisos das crianças, a ternura das esposas, os sonhos de muitos amanhãs, o desvelo dos pais, a amizade dos amigos, o vazio dos corações feridos, a fuselagem espatifada do PP-PDE.

No círculo da mata, os destroços.
Nos nossos corações, o desastre. 

(*) Publicado em seu livro Linha d´àgua: crônicas. Manaus, 1970