CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de abril de 2012

Memória da PMAM

Abril, 30

1981 – Foi inaugurado o quartel do 2º BPM (Batalhão Candido Mariano), em Itacoatiara (AM). A instalação desta unidade em prédio próprio vinha consolidar a iniciativa do comando anterior, do coronel Ex Mário Ossuosky, que arregimentou medidas junto as prefeituras interioranas. Ao encargo destas ficava o encargo de ceder terreno adequado a construção de quarteis. A prefeitura da Velha Serpa fez a doação do terreno, conforme a Lei n.º 1, de 23 fev. 1978, situado na rua Benjamin Constant.

Quartel do 2º BPM, na inauguração, 1981
Poucos foram os municípios que atenderam o empreendimento, não alcançaram meia dúzia: Parintins, Humaitá, Manacapuru, São Gabriel da Cachoeira e o mencionado.

Exercia o comando geral da corporação policial militar o coronel Ex Wilson Ribeiro Raizer. Em Itacoatiara, comandava o 2º BPM, que para esse município fora destacado há tempo, o então tenente-coronel Ilmar dos Santos Faria (falecido em 1999)

Antes de se instalar neste endereço, o batalhão passou uma temporada em um edifício pertencente a Prelazia de Itacoatiara, autêntico arranjo para o jeito brasileiro.
Em Itacoatiara, edifício onde se inatalou o 2º BPM

27 de abril de 2012

Arquidiocese de Manaus: 120 anos

Quando do centenário da Igreja em Manaus, foi impresso um opúsculo, que circulou em 1993, elaborado pelo acadêmico Elson Farias, depois que o saudoso padre Luiz Ruas se acidentou. O título desta obra: Cem anos de fé na floresta: o centenário da arquidiocese de Manaus. O texto seguinte foi extraído desta.

Capa do livro

Se a instalação da Igreja registrou-se em Manaus sob as bênçãos de Nossa Senhora, a Diocese do Amazonas organizou-se em momento dedicado às questões sociais, movimento que se consagrou nos programas da doutrina social da Igreja.

A diocese foi criada no dia 27 de abril de 1892, quando o papa Leão XIII deu nova organização à Igreja no Brasil, ao editar a bula Ad Universas Orbis, plantando novas e desmembrando a do Amazonas da diocese do Grão-Pará. A matriz paroquial de Nossa Senhora da Conceição, informa monsenhor Francisco da Silveira Pinto, elevou-se à categoria de Sé-Catedral.

"Nesse mesmo ano, prossegue monsenhor Pinto, em maio, no dia 19, a nova Catedral recebe a visita de três ilustres prelados: Dom Jerônimo Tomé da Silva, bispo do Pará; Dom Antônio Cândido de Alvarenga, bispo do Maranhão e Dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará. O bispo do Pará viera para acertar medidas para a instalação da nova diocese e posse do primeiro bispo".

A bula Ad Universas Orbis estabelece os limites da nova diocese: "Ao Norte, limitar-se-á com o território da Guiana Inglesa, com o das repúblicas de Venezuela e Nova-Granada (Colômbia). Ao Poente, com as do Equador e Peru. Ao Sul, com a da Bolívia e com a diocese de Cuiabá (MT), da qual separar-se-á pelo rio Ji-paraná, pelo Tapajós depois da foz do Três-Barras até a foz do Uruguatás. Ao Nascente, finalmente, os limites serão a diocese de Belém (PA) pelo rio Nhamundá, pelas serras de Parintins, donde se segue por uma linha reta até à margem esquerda do Tapajós a contar do ponto em que se encontra a foz do supradito Três-Barras".
Dom Frederico Costa,
bispo do Amazonas

Em 1946, por via do desmembramento efetuado para propiciar a criação de prelazias e prefeituras apostólicas no Acre, em Cruzeiro do Sul, Porto Velho, Rio Negro, Rio Branco, Lábrea, Tefé e Alto Solimões, a diocese do Amazonas ficou reduzida à zona centro-oriental do estado do Amazonas, limitando-se a Leste com o estado do Pará; ao Norte, com as prelazias do Rio Negro e do Rio Branco; ao Sul, com as prelazias de Lábrea e de Porto Velho e o estado de Mato Grosso; e a Oeste, com a Prefeitura Apostólica de Tefé.

No capítulo destinado aos pastores da Igreja no Amazonas, demorar-nos-emos no trato da figura de seus bispos e arcebispos. Mas, vale a pena anotar logo um pormenor da ação pastoral desenvolvida por Dom José Lourenço da Costa Aguiar, primeiro bispo, que, movido pelo anseio de levar a mensagem cristã aos povos nativos da Amazônia, desejou aprender o nheengatu, para falar aos índios em sua própria língua.

A partir do pontificado de Leão XIII, a Igreja adotou conduta voltada para a questão social, cujo conteúdo ideológico foi expresso na célebre encíclica Rerum Novarum, que arregimentou as forças do Povo de Deus nos rumos da aproximação do fosso que os séculos armaram entre o capital e o trabalho.
A mensagem de Leão XIII teve profunda influência nas transformações operadas na vida social, econômica e política do mundo, estimulando a própria Igreja a também se orientar nessa direção.

Dom Luiz Vieira, atual
arcebispo de Manaus

Nessa data, dados extraídos do site da arquidiocese, o território arquidiocesano se espalha por uma superfície de 65.146 km2 e evangeliza uma população de 1.709.010 habitantes. Para isso, a atividade eclesiástica dispõe de 714 comunidades eclesiais; 53 paróquias e 21 áreas missionárias. Enfim, para a pregação da “fé na floresta”, a Igreja dispõe de 123 presbíteros (destes, 41 diocesanos) e três bispos, sob o báculo de Dom Luiz Soares Vieira, arcebispo de Manaus.  

26 de abril de 2012

Polícia Civil do Amazonas

O relato abaixo pertence ao saudoso acadêmico Mavignier de Castro (1891-1970), que o produziu para seu livro Síntese histórica e sentimental da evolução de Manaus, publicado em Manaus, em 1948, com ilustração de Afranio Castro e capa de Branco Silva. O texto escrito, presumo, sem anotações prévias apenas com “sentimentos”, apresenta algumas distorções.
Por isso, acrescentei pequenas notas à fala do autor, a fim de atualizar e facilitar o entendimento. Há muito este “roteiro” deveria ter sido reeditado. Quem sabe possamos vê-lo em breve.

Um detalhe final, a Polícia Civil era dirigida pelo Chefe de Polícia, consoante menciona De Castro. Ainda alcancei esse personagem, que reunia forte domínio, pois se ligava ao governador e possuía as atribuições de prender, de investigar e, durante décadas, de dirigir a penitenciaria. Essa figura, que foi substituída pelo secretário de Segurança, deixou-nos muitos causos e incontáveis lembranças, nem sempre afortunadas.

Capa do livro, acervo da Academia
Amazonense de Letras

No espaço de um século a Polícia Civil ocupou três prédios em ruas diferentes.
A instalação da' Província, em 1852, a encontrou situada na, atual praça Pedro II em  um casarão assobradado que também servia de cadeia pública e delegacia, precisamente no local onde hoje se ergue o Palácio Rio Branco [atualmente, centro cultural].

Em 1875, não mais oferecendo segurança suas vetustas paredes, determinou o governo a transferência da Chefatura para a casa que ocupa atualmente a marcenaria Leo fazendo canto com a rua Dr. Moreira e a praça Roosevelt, antigo largo da Constituição [hoje, praça Heliodoro Balbi ou da Polícia].  

Muitos anos se passaram antes que a sede da Polícia Civil fosse instalada no amplo palacete em que ora funciona, a rua Marechal Deodoro. Em 1934, quando Chefe de Polícia o Dr. Rui Araújo, o prédio ficou acrescido por um andar permitindo melhor funcionamento à seção de datiloscopia.

Também na gestão do Dr. Sady Tapajós de Alencar [1940-41], a repartição policial recebeu notáveis melhoramentos, sendo adquirido o primeiro carro celular para transporte de presos.
Na administração governamental do Dr. Pedro Bacelar [1913-17] contava a cidade dois distritos policiais, cada um obedecendo a respectiva delegacia. A primeira funcionou no prédio à rua Joaquim Sarmento agora pertencente à Tipografia Fenix e a segunda, na' esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a rua 10 de Julho.

Apesar de tecnicamente desaparelhada, o contando entre os seus investigadores nenhum detetive de curso especializado, a Polícia Civil de Manaus tem se distinguido inúmeras ocasiões ao demonstrar argúcia na pista de salteadores e bravura no capturar indivíduos facinorosos quase sempre foragidos de outros Estados.  

Quando chefiava a repartição o Dr. Marcionilio Lessa, no mês de fevereiro de 1934, em consequência de um conflito entre militares e elementos da Guarda Civil, o próprio da rua Marechal Deodoro foi invadido, desarmada a sua guarda e desacatados os comissários e escrivães de serviço que foram recolhidos à Penitenciaria do Estado. [A chefia de Lessa durou de 20.02 a 06.03.1935, que deve ter sido exonerado em decorrência desse conflito].

Anexa à Chefatura funciona a Comissária da Polícia do Porto. No prolongamento do mesmo prédio, mas de fachada para a rua Dr. Moreira [mais correto, rua Guilherme Moreira], tem o seu quartel a Guarda Civil [desativada no início do Governo Militar], montando um efetivo de sessenta homens. Sua fundação data de 1917.
Pelo Dr. Rui Araújo, em 1934, foi organizada a Guarda Noturna, a qual juntamente aos guardas civis vem prestando eficiente serviço no policiamento central e suburbano da capital.

23 de abril de 2012

Convite



Farias de
Carvalho,
1960
A Academia Amazonense de Letras está convidando para a sessão de outorga da medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, na categoria de Letras, ao poeta Farias de Carvalho (in memoriam); de Artes, ao cineasta Aurélio Michilles, e de Mecenato, ao Colégio Dom Bosco.

A solenidade acontece dia 27, sexta-feira, data do aniversário de nascimento do patrono da comenda.


21 de abril de 2012

Evocação de Manaus - 2

O título desta, já declarei antes, tomei do livro do saudoso senador Jefferson Péres, no qual nosso conterrâneo relembrou a Manaus de sua vida ou sonho. Mas, o recorte do jornal e outras imagens pertencem ao amigo Ed Lincon.

Entre outras saudades, Péres relembra o transporte coletivo. Ao tempo da transição entre o bonde estabelecido pelos ingleses e os primeiros ônibus, fabricados em fundo de quintal. O Zepelin foi um deles, um ônibus com nome e formato semelhante ao dirigível que se esborrachou em Paris (FRA), desastre que pôs fim àquele meio de transporte aéreo.

Jefferson Péres, em sua Evocação, assim relembra esse período:

Jornal do Comércio, Manaus, 29 junho 1948
No final dos 40, os serviços da Manáos Tramaways  passaram a se deteriorar. Com a encampação da velha concessionária inglesa, essa deterioração se acelerou e os bondes começaram a ser desativados. Foi quando surgiram os primeiros
ônibus na cidade. Eram carros improvisados, toscos, com carrocerias de madeira, construídas aqui mesmo, e eram tão raros que chegavam a ser individualizados por nomes próprios, como Pirata da Perna-de-Pau e Periquito da Madame, marchinhas carnavalescas em voga. Depois, surgiu um de melhor acabamento, o Zepelin, em forma de dirigível, que fez enorme sucesso pela sua aparência exótica.

Agora, é o Jornal do Comércio que narra a prova do Zepelin:

Em construção pelo Sr. Joaquim Barata
Júnior o original veículo, que poderá
transportar 64 passageiros sentados, estando
seu custo em 200 mil cruzeiros.

Vai Manaus contar, a partir de domingo vindouro, quando será inaugurado, de mais um confortável ônibus. O "Zepelin", como será chamado esse transporte de passageiros, não tem o que o que tirar, quanto à sua feição, do aparelho que lhe deu o nome.
Zepelin em frente à sede do Atlético Rio Negro Clube

A nossa reportagem, informada da existência desse ônibus, de forma sui-generis, aqui para nós do Amazonas, esteve, ontem nas oficinas do Sr. Joaquim Barata Junior, à avenida Sete de Setembro, o qual é seu proprietário, e ali pode constatar, realmente,  que se esta construindo um ônibus como nos haviam informado.

Aliás, é de se ressaltar que àquele local tem comparecido grande número de curiosos, que procuram se informar do bojudo Zepelin, que dentro de poucos dias estará voando por toda a Cidade.

Chegados ao local da construção, fomos recebidos pelo Sr. Joaquim Junior, que se colocou a nossa inteira disposição, tendo nos contado que se baseou na construção, em um ônibus com aquela forma, existente no vizinho Estado do Pará. Contou-nos aquele senhor ter sabido, de fonte não muito certa, que o proprietário do transporte "Zepelin", de Belém, havia feito o registro de patente no Rio de Janeiro, o que não permite seja feito outro, isto é, por outra pessoa, mesmo dentro daquele Estado, senão pelo dono do, registro. Agora mesmo, ao que consta, o proprietário' dessa invenção recebera uma proposta de um industrial de São Paulo, para compre daquela patente, pela soma de Cr$ 300.OO0,OO, no que não foi atendido.

-- E, como foi que conseguiu permissão para aqui fazer a construção? Indagamos.
-- Ora, Sr. Repórter, é muito simples. Eu também desejo ver o Amazonas orgulhoso, por este bonito feito. Entretanto, o meu “Zepelin” não está parecido, nem um pouco, com o de Belém. Andei, para tanto, dando uns "driblings”, a fim de que, no caso de ser verdadeira essa versão do registro de patente, pelo comerciante paraense, eu poder provar que o "Zepelin” amazonense não é igual ao paraense.
Zepelin, diante do Ginásio Amazonense ou Colégio
Estadual, fotografado da Praça da Polícia
A construção do "Zepelin" de Manaus já está por Cr$ 200.000,00, podendo conduzir 64 passageiros' sentados. Possui chassis próprio para ônibus, com teto interno forrado a couro e poltronas estofadas, com molas no assento e no encosto.
O seu comprimento é de 12 metros, medindo 2m80 de diâmetro circunferencial, na sua parte mais bojuda.

O "Zepelin" amazonense será inaugurado no próximo domingo, quando fará várias voltas pela cidade com as autoridades e imprensa, que serão convidadas para esse fim, pelo Sr. Joaquim Barata Junior.

19 de abril de 2012

Evocação de Manaus

O título pertence ao saudoso senador Jefferson Péres, no livro em que nosso conterrâneo relembrou a Manaus, tendo como subtítulo, “como eu a vi ou sonhei”. Hoje, autêntico sonho.

Monumento ao barão
de Sant'Ana Nery, 1905
Para ilustrar, reproduzo a já desaparecida Praça Osvaldo Cruz, agora um estacionamento desclassificado, na entrada do Porto. Não sei se você vai reconhecer o logradouro. Fica o desafio.

Nesse local, no governo de Silvério Nery (1900-04) foi erguido o monumento ao barão de Sant’Ana Nery, irmão do governador. Apesar de nascido em Belém do Pará, o barão era um intelectual com formação francesa, morador de Paris (FRA), onde morreu. O monumento possuía bastante realce, mas, a partir da reforma que o prefeito coronel Teixeira impôs no Centro Histórico, a estátua começou a sumir. Dela resta em nossos dias somente a cabeça, que pertence ao acervo do Centro Cultural Palácio Rio Negro.



De cima para baixo, Praça Osvaldo Cruz, década 1950; 1960 e 1970

17 de abril de 2012

Aziz Ab’Sáber (1924-2012) final

Último capítulo sobre o desenvolvimento de Manaus, publicado no Correio do Norte (quinzenário mantido pelo casal Anísio e Lindalva Mello, em São Paulo), circulado no 2ª quinzena de outubro de 1959.

Paisagem urbana de Manaus

Professor AZIZ NACIB AB'SÁBER
(da Escola de Jornalismo Cásper Libero)

O coração urbano da capital do Amazonas apresenta-nos um aspecto muito singelo, denotando traços de paisagem arquitetônica peculiares a quase todas as capitais brasileiras do Norte e Nordeste. De fato, a parte central de Manaus mostra-nos a herança arquitetônica, pouco transformada, resultante da fase de crescimento vivido pela cidade nos primeiros anos do século atual. Apenas alguns raros edifícios isolados, do era dos arranha-us, eso rompendo a paisagem extremamente homogênea do casario maciço e raso de Manaus. E' assim que o edifício do IAPTEC e o Hotel Amazonas, com suas linhas ultramodernas, contrastam com a fisionomia precocemente envelhecida do grande entreposto da Amazônia Ocidental.

A praça Osvaldo Cruz, que asila a velha e grandalhona Catedral de Manaus situa-se irregularmente entre a zona portuária e a encosta das colinas que formam a zona comercial da cidade. O fundo da velha praça, que outrora dava para o rio, é barrado pela existência dos edifícios da Alfândega e do Porto.
Ruas laterais o acesso, de um lado, aos armazéns do cais e, de outro, ao grande Mercado Municipal de beira-rio. Antigamente, entre o sítio da Alfândega e a zona do mercado existia a embocadura de um pequeno igarapé, o qual foi inteiramente soterrado e incorporado ao sítio urbano da poão central da cidade.

Mercado Público, hoje denominado de Adolpho Lisboa, em
restauração há quase uma década
Com as dificuldades de obtenção de energia elétrica e a supressão dos serviços de bondes elétricos, a praça Osvaldo Cruz tornou-se o centro de irradiação das inúmeras linhas de ônibus que servem a cidade. O nome do grande médico brasileiro foi dado ao logradouro central de Manaus, em tributo à memória do higienista cujos planos de saneamento alcançaram até mesmo a longínqua capital do estado do Amazonas.

Nas ruas transversais e paralelas à praça Osvaldo Cruz, concentram-se os grandes e velhos edifícios comerciais da cidade. Ali, espremidos apenas em um dos lados da praça irregular, encontram-se os bancos, o Correio, a Associação Comercial, as lojas e armazéns das grandes firmas importadoras e exportadoras., além de um bom número de edifícios administrativos. As poucas avenidas mais largas que foram rasgadas nos princípios do século, saem da praça Osvaldo Cruz e demandam os níveis mais elevados das colinas, contendo residências finas, clubes e edifícios públicos.

E' de se notar que não variou muito a paisagem da porção central de Manaus, desde o começo do século até nossos dias. Tanto as fotografias antigas quanto as descrições de viajantes que por lá
passaram há trinta ou quarenta anos atestam essa auncia de transformações recentes, dignas de maior nota.

Paul Walle, que visitou a cidade em 1908, encontrou-a, aparentemente, muito parecida com aquela que visitamos em 1953. Foi com as seguintes palavras que o minucioso viajante retratou a capital do Estado:  De cette place, partent des rues larqes, flanquées de chaque côd'édifices madernes, de maisons de commerce exhibant tout les produits de l'art et de l'industrie mondiale. Les édifices publics attestent la richesse et l'état de progrés de la maissante métropole amazonienne. Le théâtre est un monument vraiment somptueux; c'est de tous les édifices celui qui attire le plus l'attention du voyageur par son architecture imposante et d'un ensemble hereux. Erigé sur une elevation, il domine la ville avec sa coupale aux coleurs vives.
Hotel Amazonas, inaugurado em 1951, hoje
transformado em Condomínio Ajuricaba
Salvo os dois grandes edifícios modernos, a que já aludimos, o centro de Manaus ainda é o mesmo que foi descrito pelo geógrafo Paul Walle.
Restou-nos a tarefa de descrever algumas paisagens urbanas de Manaus que ainda não mereceram uma divulgação suficiente. Nesse sentido, lembramo-nos logo do cais do mercado, que pela sua paisagem e movimentação é capaz de construir um quadro visual indelével para as que visitam Manaus. Já conhecíamos a rampa do Mercado de Salvador, com seus saveiros atopetados de mercadorias; já tínhamos tomado contato com o cais das barcaças do Ver-o-Peso,
cujas vig
ilengas multicolores mereceram a atenção de Antônio Rocha Penteado; entretanto, nada de semelhante em rusticidade e variedade de aspecto, pudemos encontrar que fosse comparável ao cais do Mercado de Manaus no rio Negro.

Atrás do mercado, em plena área das praias de estiagem, situa-se o desarranjado e formigante cais das barcas, barcaças e canoas que abastecem o entreposto. Durante a vazante, a rampa se alarga, enquanto durante as cheias o nível das águas, levado de 5 a 6m, em média, encontra-se no alto paredão dos fundos do mercado, atingindo as duas rampas laterais pavimentadas que dão acesso à rua comercial da frente do edifício.
Feira junto ao Mercado Público, descrita pelo autor, hoje
desaparecida
Através de curiosos fenômenos de convergência repetem-se, ali, fatos, cenas e paisagens peculiares a muitas cidades fluviais situadas em terras da longínqua China ou da Índia, conforme uma observação feliz que nos foi feita pelo professor Wladimir Besnord.
Uma nota desagradável e relativamente de exceção em face das boas condições higiênicas gerais da cidade de Manaus é o acúmulo de lixo atrás do Mercado. Durante a vazante, cascos de tartaruga gigantes, bagaço de cana e cascas de frutas são jogadas sem maiores cuidados na praia de estiagem.

Espera-se que o rio suba de nível para arrastar os resíduos acumulados, o que positivamente é um fato absurdo. Daí a ronda calma e constante dos urubus na zona do Mercado e adjacências. Impõem-se vencer tais irregularidades de exceção, assim como outros detalhes importantes, a fim de dar continuidade a um saneamento planificado da grande cidade equatorial brasileira.
Tanto as grandes inundações como as vazantes extremadas acarretam problemas ao homem das zonas ribeirinhas, exigindo soluções especiais dos que são responsáveis pelas coisas públicas.

Nota da Redação
Ao encerrarmos o importante trabalho sobre a cidade de Manaus, cuja publicação foi uma honrosa cooperação do ilustre professor Aziz Nacib Ab'Sáber, a quem agradecemos em nome dos cinco mil leitores do CORREIO DO NORTE e do nosso, particularmente.
Autorizados pelo autor, queremos chamar a atenção daqueles que nos leem, que a referida obra foi escrita em 1953. Nos últimos anos, a cidade de Manaus passou por grande modificação urbanística, e, podemos hoje compará-la às cidades mais modernas e mais prósperas do Brasil. Em apenas cinco anos Manaus progrediu mais do que em seus últimos 20 anos, pois, além dos seus produtos conhecidos como a borracha, castanha, juta e outros, terem alcançado bom preço, surgiu o petróleo, como autêntico valor econômico-industrial, cuja refinaria é uma afirmativa do progresso presente, a garantir um futuro promissor à Amazônia.