CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

28 de fevereiro de 2011

Caso Delmo Pereira

Fevereiro 1953


Cruz no local do crime. O Jornal, 6 jul. 1952
Manaus passou todo esse mês de olhos no Tribunal do Júri, que funcionava no prédio do próprio Tribunal, na av. Eduardo Ribeiro (hoje Centro Cultural). Nos grandes julgamentos, o espaço sempre foi pequeno para acolher os assistentes. Tantos os profissionais quanto os curiosos. Naquela ocasião, todo esse interesse se devia ao julgamento dos assassinos do estudante Delmo Pereira.
Delmo, filho do dono da Serraria dos Pereira, na Colônia Oliveira Machado, havia morto um taxista quando investiu contra o próprio estabelecimento do pai. Essa historia é longa e cheia de atropelos. Ocorrera um ano antes, agravando-se quando os choferes (termo de época) o “justiçaram”.

Presos os matadores, passaram pelo processo criminal e, enfim, foram a julgamento. As páginas dos periódicos sempre com as últimas informações. E os melhores advogados da Cidade se enfrentando, os da acusação feita pelo promotor Adriano de Queiroz, depois apoiado pelo criminalista carioca Celso Nascimento. A defesa estava composta dos advogados Nonato de Castro, Manuel Barbuda e Milton Ascensi. Conduziu o julgamento o juiz Ernesto Roessing.

Ainda em julho de 1952, a reportagem de Afonso de Carvalho (O Jornal) revelava a devoção ao “santo” Delmo. Assim como ocorrera com “santa” Etelvina. No local da morte de estudante-mártir (na acepção dos colegas ginasianos) apareceu uma cruz. Teria sido o pagamento de algum milagre, aventa o cronista.
Não devo me aprofundar neste caso por razões óbvias. O tema acaba de ser dissecado pelo ensaísta e cronista Simão Pessoa. Aos seguidores do Blog do Simão Pessoa foi anunciado o lançamento do livro sobre a morte de Delmo Pereira, para após o carnaval. Estou aguardando.
Dr. Celso Nascimento (à dir.). O Jornal, 14 fev. 1953
Ao final do julgamento, alguns acusados foram absolvidos, mas a maioria voltou para a Penitenciária.

Casal Makk (III)

Resolvi buscar mais dados sobre o Casal (Américo e Eva) Makk, em especial sobre as obras produzidas em Manaus (AM).


Américo Makk, jornal
Universal, em 1958
O semanário católico Universal, que circulou nas igrejas de Manaus entre 1953 e 1959, trouxe matéria positiva. Não poderia ser diferente. Em uma edições, tem-se mais detalhes sobre a artista, que se chamava Eva Holosa, nascida na cidade de Hawas, na Etiópia (sem indicação de data). Descendia de uma família húngara, era loura, de olhos azuis, e “foi artista desde a infância por índole”. Assinava Makk pelo casamento. Os venerandos moradores de Manaus da época gabam a beleza de Eva.

Em Manaus (AM), o casal assumiu o compromisso de decorar condignamente a capela-mor da Catedral de Nossa Senhora da Conceição, com motivos sacros e históricos ligados ao templo. Estes que desapareceram na reforma de 2002, como se vê pela foto.

Mais um detalhe. Dois manauenses, conhecedores de nossa arquitetura, registraram suas impressões sobre o trabalho do Casal Makk. Otoni Mesquita informa em nota da existência de seis pinturas no interior da igreja. Cinco das quais realizadas pelo Casal Makk, em 1858 (sic). Sei que ocorreu um erro tipográfico, na verdade, em 1958. A última reforma (2002) conservou apenas uma pintura dos Makk, o restante foi “protegido uma camada de pintura clara”.
O teto da capela mor sem a pintura do Casal Makk,
na reforma da Catedral de Manaus, em 2002
Acabaram assim os excessos, proclama Otoni. Que ainda reproduz a opinião de Luiz Miranda Corrêa que, em 1964, ao publicar obra sobre a cidade, lamentava o estado desfigurado do interior daquele templo católico, “ressaltando os murais de gosto duvidoso”. 

26 de fevereiro de 2011

Família Makk

Após a publicação de ontem, resolvi ampliar as informações sobre o Casal (Américo e Eva) Makk. Fácil saber onde as busquei. Isso mesmo, na internet. Assim, tudo quanto exponho nesse espaço trata-se da ordenação desse encontro. Vem para desmistificar algumas lendas que circulam pela cidade de Manaus.

Américo Makk nasceu na Hungria, em 1927. Estudante de artes, conquistou uma bolsa de estudos e foipara a Itália. Na Academia de Belas Artes de Roma conheceu Eva, sua colega e futura esposa.

Eva nasceu na Etiópia, filha de diplomata e mãe baronesa húngara. Já aos 4 anos usava com desenvoltura os pinceis. Estudou artes em Paris e posteriormente graduou-se “summa cum laude” na Academia de Belas Artes de Roma.
Em 1949, o casal desembarcou no Brasil. Logo foram contratados como professores da Academia Paulista de Belas Artes. Dois anos depois, em São Paulo, nasceu o filho AB (Américo Bartolomeu) Makk que, artista como os pais, integra a “primeira família na arte”.

Estávamos na metade do século XX. Em Sobral (CE), o vigário resolveu restaurar a Igreja de São Francisco de Assis e, para melhor apresentação do templo sagrado, convidou o Casal para essa tarefa. Ali, acredito que por volta de 1956 ou 57, pintou o afresco, o teto e a parede de fundo do altar mor.

Certo mesmo é que o Casal chegou a Manaus (AM) em 1958. Se ele estava empenhado em circundar pela floresta para retratar “o povo indígena tribal”, desconheço. Não se tem registro dessa aventura. Penso que desembarcou em maio e permaneceu aqui até o final desse ano. 
Eva Makk


Para a comemoração do centenário da catedral de Nossa Senhora da Conceição de Manaus, no Brasil, os Makk pintaram sua obra mais famosa: o teto dessa igreja, cujo mural ERA o maior do mundo com um único tema. ERA, porque a restauração de 2003 varreu para o entulho esse recorde. Por isso, não entendo os pretextos que arrastaram os governos do Estado e da Igreja Católica a abonar esse ato vilipendioso.

Ainda na capital amazonense, o Casal pintou o retrato de algumas personagens. Era uma especialidade, pois, alguns anos depois foram escolhidos para retratar Jimmy Carter e Ronald Reagan, presidentes dos Estados Unidos.
No início da década de 1960, estiveram embelezando a igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, em Jaú (SP). Ali, pintaram os murais que seguem atraindo visitantes e servindo de atração naquela cidade.

Sem data determinada, mas há registro de que na igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Ponta Grossa (PR), o Casal Makk produziu as pinturas internas, ainda existentes.

Em 1962, a família Makk voou para Nova York, onde se estabeleceu. E ganhou prestígio. Cinco anos depois, optam por viver em Honolulu, no Havaí, onde ainda vivem, segundo registro do site www.makkstudios.com

Ilustrações extraídas deste site.

25 de fevereiro de 2011

Plínio Coelho e o casal Makk (1958)

Correio do Norte, jul. 1960
Em seu primeiro governo (1955-1959), Plínio Coelho convidou ao casal Makk para visitar o Amazonas. Américo e Eva Makk (acompanhados do filho AB, nascido em São Paulo, SP) estiveram em Manaus em 1958, quando iniciaram com uma exposição de seus quadros no Ideal Clube. Após essa apresentação, foram contratados para decorar alguns pontos da capital.

Três desses trabalhos se destacaram, todavia, apenas um resiste ao desmanche. Creio que foram executados simultaneamente, afinal estiveram apenas esse ano em Manaus.
Pintaram nas paredes do hall do Palácio Rio Negro algumas alegorias, tomando por tema a rebelião do tuxaua Ajuricaba contra os colonizadores, em especial, os portugueses. No governo de Danilo Areosa (1967-1971) o trabalho artístico desapareceu sob tintas comuns aplicadas por pintores de paredes. Apesar do esforço do próprio governador em contratar técnicos capazes de restaurar a obra, nada pode ser feito. A dificuldade deve ser substancial, pois nenhuma outra revisão do Palácio Rio Negro foi capaz de “descobrir” o painel.
Conta uma lenda, no entanto, que o desastre ocorreu por “determinação” do governador Areosa que, filho de portugueses, sentia ofensa com o tema exposto. E mais, que os técnicos consultados desdenharam da qualidade dos painéis, por isso, mais tintas selaram a sorte da obra.

Casal Makk, com o filho AB, em Manaus. 1958
Outras paredes aproveitadas pelo casal ainda perduram no Palacete Provincial, utilizadas ao tempo de quartel da Polícia Militar. Nelas, o casal retratou a presença da tropa expedicionária amazonense contra Canudos. Estão impressas na entrada do edifício e devem permanecer por mais tempo.

A terceira e mais importante obra foi realizada na Catedral de Nossa Senhora da Conceição. Imenso trabalho, esforço enorme, pois, cobriram todo o teto do altar principal e as paredes do altar mor. Nestas, rememoraram o progresso da Igreja em Manaus, desde o forte, passando pelas capelas e a igreja consumida pelo fogo, em 1850. A extensão do painel elaborado no teto permitia inscrevê-lo em livro de recorde, dado sua grandiosidade era “a maior obra de arte sacra do mundo” (O Jornal, 13 set.1958). Quase tudo desapareceu na última reforma, sobretudo a decoração do teto.

Obra do casal idealizando a primeira capela existente na Barra

Igreja matriz de Manaus, local das pinturas
Os Makk tiveram ainda tempo para pintar os retratos de algumas autoridades: de Plínio Coelho, governador do Estado, que os trouxe a Manaus e patrocinou os trabalhos. Outro foi o de Dom João de Souza Lima, então arcebispo do Amazonas, em reverência ao vigário maior. Também confeccionaram o de Dom Alberto Ramos, então arcebispo do Pará, para ser afixado na galeria dos ex-bispos do Amazonas.

O saudoso memorialista Genesino Braga recebeu uma homenagem dos artistas. Em 1960, ao lançar Fastígio e sensibilidade do Amazonas de ontem, o trabalho editorial coube à extinta gráfica Sergio Cardoso, mas a capa foi elaborada com exclusividade pelos pintores Américo e Eva Makk (artistas húngaros, radicados no Brasil).

Alguns cronistas atentaram para o trabalho do casal. Lembro o padre-poeta L. Ruas, que assinala deles a exposição de quadros realizada no Ideal Clube. Também os periódicos se manifestaram, a exemplo do editorial de A Crítica (jun. 1958).
Padre Nonato Pinheiro. O Jornal, 5 out. 1958
Outro padre – Nonato Pinheiro, também se preocupou com os artistas e escreveu sobre a Decoração da Catedral (O Jornal, 5 out. 1958), lembrando o oportunismo da comemoração do centenário da Catedral de Manaus. Acerca da obra dos Makk, afirmou que “é uma orgia harmoniosa de cores, sem exageros e dissonâncias”.
Apesar de que a decoração da Catedral tenha recebido o apoio cultural da empresa de jornais Archer Pinto, onde já operava o jornalista Phelippe Daou, o governador Plínio Coelho contribuiu grandemente para colorir a capital.
O Jornal. Manaus, 13 set. 1958

23 de fevereiro de 2011

Governador Plínio Coelho

Plínio. A Crítica, 4 fev.58
A biografia deste governador (1920-2001) ainda não foi escrita, precisa ser publicada. Alguns apontamentos esparsos foram produzidos, mas nada que se possa intitular de uma história de sua vida. Assim, vou colocar aqui minha contribuição.
Plínio Coelho tomou posse do Amazonas em 31 de janeiro de 1955, quando a Petrobrás dava os primeiros passos. Ainda assim, a empresa conseguiu a façanha de “descobrir petróleo” em Nova Olinda do Norte, na calha do rio Madeira. Isso implantou o delírio não somente no município, mas no próprio Estado. Diria que no País, visto que a descoberta trouxe a Manaus e Nova Olinda o presidente da República.

Era um momento de transição nacional, por isso, João Café Filho presidia o Brasil. E ao desembarcar acompanhado de sua comitiva, trouxe o subchefe da Casa Militar, coronel Ernesto Geisel. Na base de Nova Olinda foi realizada uma foto emblemática: o presidente Café Filho, entre o governador do Amazonas e o coronel Geisel, depois presidente da Petrobras e presidente do Brasil no Governo Militar.
Presidente Café Filho em Nova Olinda
O petróleo possuía tudo para redimir o Amazonas, trazer-lhe o desenvolvimento que há muito o rio levara. Mas, como a Petrobras dava os primeiros passos, não foi capaz de se aguentar e acabou "caindo"... deixando no Estado a lembrança de “ uma noite de verão”.
Situado na av. Castelo Branco, hoje bastante desfigurado.
O Jornal, 5 dez. 1956 
Plínio alcançou o governo de Juscelino Kubitschek, que revolucionou o Brasil, com o sonho realizado de Brasília. Quando da inauguração da Refinaria de I.B.Sabbá, JK esteve em Manaus e inaugurou uma ponte (em Educandos) e um conjunto residencial na Praça General Carneiro, onde se contruiu o Palácio Rodoviário (hoje UEA), o cine Ipiranga. As duas obras levam o nome de JK. Há muito mais desse governador.


Café Filho concede entrevista ao Jornal do Commercio, Manaus

Governador Plínio Coelho recebe amostra de petróleo.
Jornal do Commercio, 16 mar. 1955 

A partir da dir. general cmt GEF; Café Filho; Plínio Coelho e
Dom Alberto Ramos, arcebispo do Amazonas

22 de fevereiro de 2011

Memorial Amazonense (XLVIII)

Fevereiro, 21
1913 – Inauguração do cine Odeon, situado na Avenida Eduardo Ribeiro com a rua Saldanha Marinho. Foi o primeiro estabelecimento no gênero a possuir ar refrigerado.


Governador Plínio Coelho, 1958
1920 – Nasceu em Humaitá (AM), no rio Madeira, Plínio Ramos Coelho, filho de Francisco Plínio Coelho e Ana Ramos Coelho. Concluiu os estudos secundários em Manaus, no Colégio Dom Bosco e Ginásio Dom Pedro II.
Bacharel pela Faculdade de Direito do Amazonas, turma de 1947, turma em que despontaram vários de seus colegas: Áderson Dutra, Arthur Virgílio Filho, Fueth Paulo Mourão, Oldeney Bagnero e Waldemar Batista de Salles.
Eleito deputado estadual constituinte, consolida sua performance de respeitável tribuno e, por sua atuação fortemente oposicionista , foi alcunhado de Ganso do Capitólio. Em 1950, elegeu-se deputado federal. Em 1954, derrotou o candidato da situação – Severiano Nunes, e, a partir da posse em 31 jan. 1955, deu início a um renovado governo trabalhista, visto ter alcançado um Estado bastante degradado. Encerrado seu governo, elegeu o substituto, Gilberto Mestrinho. Plínio retorna a chefia do Poder Executivo em 1963, no entanto, não encerrou o período governamental, pois foi atingido por ato de exceção do Governo Militar. Pertenceu a Academia Amazonense de Letras, ocupando a Cadeira nº 21, cujo patrono é João Baptista Figueiredo Tenreiro Aranha. Faleceu em 2001.
Arthur Reis (à esq.), da SPVEA, Plínio Coelho, com o cigarro,
aao fundo, o jovem Aureo Nonato. Rio de Janeiro, 1957
1960 – Ordenação sacerdotal do padre Luiz Soares Vieira, na catedral de São Marcos, em Roma. Bispo de Macapá, hoje, conduz a família católica de Manaus, na condição de arcebispo (o quinto), cujo brasão é: ministrare non ministrari (vim para servir, não para ser servido!).

21 de fevereiro de 2011

Manáos v. Manaus (V)

Morro da Liberdade
Acima, rua José Chevalier, e abaixo, rua João Vicente


Dois momentos deste bairro que, na década de 1950, e a partir de Santa Luzia começou a ser ocupado. A ocupação ia em direção ao aeroporto de Ponta Pelada. Não havia "água encanada", por isso era retirada do "buraco da vovó" e de pequenos cursos de água, onde se instalavam bicas. Depois, era colocar a lata de água na cabeça ou nos carros de madeira...

As mesmas ruas, em nossos dias

A ilustração mostra o trabalho da Prefeitura em ruas do Morro, julho de 1960; outra mostra o GE Adalberto Valle, em fase de conclusão, out. 1961. Enfim, à cores, a atual realidade das mesmas ruas José Chevalier e João Vicente.  
EE Adalberto Valle, em construção, 1961

20 de fevereiro de 2011

Cidade Flutuante (II)

Herbert Ribeiro
Cartão Postal da Cidade Flutuante
 Durante 1964 e início de 1965 morei na Cidade Flutuante, quando possuía 20 anos de idade. A cidade era o aglomerado de casas de madeira, algumas cobertas de palha, outras com folhas de alumínio, localizado na orla do rio Negro. Sua entrada principal estava situada onde hoje é o mercado de peixes e carnes da feira da Manaus Moderna. Essa entrada era constituída de três "pontes" (tábuas pregadas ou amarradas sobre enormes troncos de árvores, que serviam de "bóias": a ponte do Paraíba, a dos Taveiras e a do Arueira.Todas seguiam rumo ao "meio do rio" e possuíam cerca de 150 a 200 metros.

As pontes estavam ladeadas por casas flutuantes construídas sobre bóias também, em sua maioria residências, mas existiam casas comerciais: fornecedores de viveres, materiais de pesca e outros artefatos para os ribeirinhos; ainda se encontravam restaurantes, bares, botecos, bazares etc.

Entre tais casas comerciais, gostaria de enfatizar o "Flor de Abacate"... um lupanar estabelecido logo no inicio da ponte do Arueira, oferecendo bebidas, músicas, danças e mulheres livres para dos clientes; era tudo muito bacana, somente que... vez por outra as duplas do "Cosme Damião" (policiais da Policia Militar patrulhando as ruas) desciam até o logradouro para apaziguar os ânimos, e as vezes prender os mais exaltados.

Postal da Cidade Flutuante
Durante o dia, as pontes pareciam “formigueiros”, tal o vai e vem de homens, mulheres e até crianças, transitando com ou sem mercadorias na cabeça, nos ombros, nas mãos, enfim... era um movimento constante de pessoas fazendo isso ou aquilo.

O primeiro governo revolucionário de 1964 idealizou "limpar" a frente da Cidade, promovendo assim a retirada dos moradores e demolição das casas, oferecendo como local de nova moradia, terras recém desmatadas onde hoje, mais ou menos, se situam os bairros do Alvorada 1 e 2. Desapareceu dessa maneira a Cidade Flutuante, que eu conheci.

* Herbert Ribeiro (professor aposentado, estudioso da vida manauense, conhecedor dos bondes de Manaus, sua próxima colaboração)
Visão da Cidade Flutuante. A Crítica, agosto 1980

Memorial Amazonense (XLVII)

Fevereiro, 19

Lousa da sepultura do
major Silverio Nery
1878 – Assume o comando da Guarda Policial, hoje Polícia Militar do Amazonas, Silvério José Nery, major reformado do EB. Fundador da família na Amazônia, pois do primeiro casamento, gerara filhos em Belém (PA). Casou-se em Manaus e deixou farta descendência. Dos quais, quatro Nery já dirigiram o Estado. Najor Nery morreu nesse mesmo ano, sendo sepultado no cemitério São José. Com o fechamento deste, os restos mortais foram transladados para o São João Batista.

1893 – Nasce no seringal Goiabal, em Humaitá (AM), Álvaro Botelho Maia. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1917. Escolhido por Getúlio Vargas, por ocasião do golpe de 1930, governou o Amazonas durante o longo período getulista. Depois governador, por voto direto, entre 1951/55. Publicou Banco de Canoa (1963), Defumadores e Porongas (1966), entre outros. Não podemos esquecer – A Canção de Fé e Esperança. Proferida no Teatro Amazonas, quando em nome da juventude baré saudou o centenário da Independência do Brasil.
1906 – Nasce na localidade de Anveres, município do Careiro da Várzea (AM), o cônego Antônio Plácido de Souza, que foi vigário do bairro de Educandos, de 1943 até sua morte, em 1969. A igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro teve sua mão criadora, pois sendo um exímio marceneiro dirigiu a construção da mesma.
Álvaro Maia. O Jornal, setembro 1950
1935Álvaro Botelho Maia assume o governo do Estado, na condição de governador constitucional. Na prática, deixou de ser Interventor Federal para ser Governador. Dois anos depois, com a implantação da ditadura Vargas, Álvaro retorna a condição de Interventor.
2003 – Em jogo realizado no estádio Vivaldo Lima, válido pela Copa Brasil, o São Raimundo (AM) derrotou o São Paulo (SP), por 2x0. O time paulista jogou com os pentacampeões: Ricardinho, Rogério Ceni e Kaka. Diria que as pouco conhecidas Lojas Rozenha (patrocinadora do Mundico) derrotaram a globalíssima LG. O público superou os 39 mil pagantes. Hoje, o São Raimundo vaga pela quarta divisão, enquanto o outro santo faz festa... ainda com Ceni.

18 de fevereiro de 2011

Corpo de Bombeiros de Manaus (V)

Revelando os Bombeiros de Manaus, focalizo ainda os episódios de 1969, concluindo a postagem anterior.
A tragédia circunda a atividade dos bombeiros, corre junto com o socorro. Na tarde de um domingo de outubro desse ano, a prontidão de incêndio foi enviada a periferia da cidade, onde o desastre já se consumara no fundo de um poço artesiano. O sacrifício de um combatente do fogo, contudo, veio sobrepor mais consternação ao já abusado espetáculo. Não se tratava de um, mas do bombeiro reconhecido por sua bravura, às vezes beirando a insanidade: Raimundo Xícharo. Ante o desenlace, os companheiros debateram a causa inquirindo porque o comandante do socorro (tenente Nogueira) não impediu o subordinado de descer, sem mínimas condições, no poço. Nogueira não exibia “pulso”, preferindo não desgostar a deliberação do falecido. Ora, não havia mais que salvar, todos estavam mortos. No entanto, o destemor do bombeiro Xícharo foi inexcedível no cacimbão do Morro da Liberdade.

Casas de madeira e palha em ruas esburacadas, e sem água
no Morro da Liberdade, em 1960
O mesmo sentimento já se manifestara em 1964, quando Xicharo escalou o mastro existente na Praça do Congresso. Destinado ao hasteamento da Bandeira, possuía cerca de vinte metros. O feito respeitoso motivou o comandante do então Grupamento de Elementos de Fronteiras (GEF), hoje Comando Militar da Amazônia (CMA), a passar o atestado abaixo, intermediado pelo comandante Nascimento (Boletim Interno, 15 dez. 1964).
Louvor: o general comandante do GEF (Grupamento de Elementos de Fronteiras) louva com satisfação o soldado n.º 72, Raimundo Xícharo, deste Corpo, pelo seu gesto destemido, que possibilitou a realização da festa da Bandeira com o brilho invulgar alcançado. Já que nos anos anteriores não foi possível encontrar quem escalasse o mastro da Bandeira, condição básica para realizar as cerimônias na Praça do Congresso. O exemplo foi lançado. O feito do soldado Raimundo Xícharo credencia-o para outras ações que exijam arrojo, determinação e desprendimento, particularmente no exercício da profissão que abraçou.


Os gases expelidos asfixiaram quatro homens no poço; diante do desespero, desceram dois “socorristas”, que se complicaram. Só então se chamou aos bombeiros, que acudiram com o grupo do tenente Nogueira e os soldados Benedito de Jesus, Raimundo Xícharo e Roberto Severiano de Castro. Segundo O Jornal (25 out. 1969), “depois que conseguiram socorrer e retirar todas as vítimas, duas das quais mortas”, o cabo que içava Xicharo rompeu-se, lançando-o à morte. No entanto, a versão do hoje sargento Castro ao autor, esclarece que o morto desceu ao poço contra todas as ordens e condições, ele “pediu para morrer”.

Para cumprimento regulamentar, o enlutado CBM divulgou no quartel (Boletim Interno, 27 out.) o lutuoso registro do destemido soldado. Continha a assinatura do 1º tenente Tertuliano da Silva Xavier, que exercia o comando interinamente. Recordou que o Bombeiro n.º 42, Raimundo Xícharo, faleceu dia 24, “por ocasião de serviço de salvamento, no Morro da Liberdade”. Depois de relatar os valores do finado, recomendou aos seus comandados que “sigam essas virtudes, para o engrandecimento do nosso Corpo de Bombeiros”.
(...) o extinto sempre soube comportar-se disciplinarmente de acordo com as normas regulamentares e gerais de administração, cumprindo o seu dever de maneira exemplar, todas as vezes que para isso era chamado. Não só demonstrou tais virtudes para com esta Corporação como para com todas as outras organizações militares e civis. O ex-bombeiro sempre foi um elemento de fibra e de coragem, valendo ressaltar o elogio que mereceu em 15 de novembro de 1964, do Exmo. Sr. general comandante do GEF, pelo gesto destemido como conseguiu subir um mastro de 30m de altura (sic) existente na Praça do Congresso, para colocar a Bandeira Nacional, para os festejos do Dia da Bandeira, naquele ano, coisa que ninguém ainda havia conseguido fazer. E tantas outras demonstrações de um verdadeiro “soldado do fogo“, que se deixa de relatar.


Lei Xicharo, 1970
Em reconhecimento ao sacrifício deste bombeiro, o governo do Estado concedeu a sua família uma pensão, que certamente já se extinguiu. O esquecimento já tomou conta de tantos, dele igualmente. Mas, onde andam seus descendentes? 

Outros "xícharos" atravessaram com intrepidez esta Corporação, enobrecendo-a. Feridos ou mortos no duelo contra o fogo, alguns foram heroicizados, outros nem tanto. A esses outros, a respeitosa veneração dos que prosseguem conduzindo o dístico de zelar pela vida e bens alheios. O gesto heróico desse soldado perpetua a memória de tantos heróis anônimos que cruzaram pela corporação de Leovigildo Coelho.
Tenente Nicanor Gomes

Excelente notícia fechou o ano do Corpo de Bombeiros de Manaus. Muito benvinda, após o desastre do cacimbão. No Rio, o cadete AM.1 Nicanor Gomes da Silva concluiu com aproveitamento o Curso de Formação de Oficiais. Obteve o total de 1920,5 pontos e conquistou o 8.º lugar, na turma de 23 alunos. Logo ele que era o único arataca (oriundo de outro estado). A formatura ocorreu em 16 de janeiro de 1970.



Conhecido no CMA o infausto desenlace, aquele comando oficiou ao Corpo de Bombeiros. No corpo da mensagem, repassa a proesa do Xicharo, da “necessidade de que uma pessoa subisse o mastro para a Bandeira, e lá colocasse uma adriça”. Soldados do QG e até mesmo do CB tentaram sem, contudo, conseguir o objetivo. Xicharo, mostrando desprendimento, habilidade e coragem, escalou o mastro. Assim prestou enorme colaboração “para que o Símbolo Sagrado da Pátria acenasse para mais alto os grandes destinos do Brasil.”
A imprensa enfatizou a tragédia do cacimbão. Sabe-se como começam tais ajuris, reúnem-se amigos ou vizinhos e, sem muita prudência, passam a executar alguma tarefa. Desafiando a providencialidade, Manoel Floro Monteiro de Sousa (motorista da Delegacia Especializada de Segurança Pública, rua João Goulart, 5), auxiliado pelo vizinho José Araújo da Silva (24a, rua Amazonas, 30), colocou a funcionar dentro do poço caseiro (28m) “um motor à explosão”. Floro esperava “esvaziar a água de um cacimbão” em construção no quintal, porém, encontrou a morte, juntamente com dois parceiros, e colocou em “polvorosa grande parte do Morro da Liberdade”.

17 de fevereiro de 2011

Corpo de Bombeiros de Manaus (IV)

O comandante da Polícia Militar, coronel Maury Silva (1966-68), exortou o governador do Amazonas, Danilo Areosa (1967-71), a ampliar os recursos para a segurança pública. O mote baseava-se na expansão do comércio da Zona Franca que abrigava lojas cada vez mais generalizadas. Essa expansão, especialmente do centro de Manaus, insistia por segurança. Tornara-se inconveniente manter-se apenas o simpático policiamento de Cosme e Damião.

As frenéticas mudanças sofridas pela cidade, reflexo da zona livre, da expansão de suas fronteiras e das levas de imigrantes, influenciavam os hábitos citadinos. Manaus de cerca de 300 mil habitantes, ainda familiar, enfrentava perversa invasão demográfica. Diante dessas circunstâncias, a Pmam estabeleceu novas unidades e tipos de policiamento.

Os Bombeiros prosseguiam evoluindo, não somente no combate a sinistros, mas também no fluxo de outros atendimentos. Divulgado em Boletim (29 de janeiro), o relatório do Serviço de Manutenção e Oficinas (SMO) e a situação de equipamentos ratifica essa evolução.



A viatura AT-1, dirigida pelo sargento 12, regressou às 10h25 do SESI, na av. Presidente Kennedy. Dirigida pelo sargento 9, saiu às 12h50, para deixar água na residência de n.º 784, da av. Castelo Branco e na de n.º 41, da rua Bela Vista, tendo regressado às 17h35. Às 6 horas saiu para deixar água na residência dos oficiais desta Corporação, e regressou às 9h55.
A viatura ABT-1, dirigida pelo soldado 74, às 10h25, saiu para abastecer-se de gasolina no Posto Texaco e regressou às 10h40. Às 16h50, dirigida pelo soldado 87, saiu para socorro a uma loja que desabava na rua Dr. Moreira e regressou às 17h20.
Situação das viaturas: as de prefixo AR-1, ABI-1, ABT-1 e AT-1 estão prontas para o serviço e a de prefixo AT-2 aguarda reparos na oficina mecânica da PMM.
Situação das Bombas: a de prefixo MBR-1 encontra-se sob a responsabilidade de Jorge Machado Freire. As de prefixos MBR-2 e MBR-3 acham-se na oficina da PMM, para reparos.

Conhecido quartel dos bombeiros, hoje o edifício encontra-se
abandonado.
Tropa dos bombeiros, em frente
ao quartel da Sete de Setembro
Demorou, e como, mas finalmente chegou ao Corpo o mais pesado e decisivo reforço: três viaturas de combate a incêndio, novas, adequadas ao serviço e made in Brasil (Boletim Interno, de 7 de maio). Todas da “marca Chevrolet, modelo C-6503, ano 1969, motor de 6 cilindros, de 149 HP, à gasolina.” Estavam “equipadas com tanque (pipa) de 6.000 litros, elíptico em chapa 3/16, série 1419, de fabricação da Trivellato S/A - Engenharia, Indústria e Comércio”. Tomaram os prefixos AT 2/69 a AT 4/69 (Auto Tanque), todos do TCI–CB 1969 (Trem de Combate a Incêndio do Corpo de Bombeiros). Custaram aos cofres da Prefeitura: NCr$ 89.025,00 (oitenta e nove mil e vinte e cinco cruzeiros novos).
Parte do capítulo do livro em preparação sobre Os Bombeiros do Amazonas, de Roberto Mendonça.
No início de 1969, o Corpo de Bombeiros possuía o efetivo de quatro oficiais, subtenente, treze sargentos, nove cabos e 56 soldados; total – 83 homens, mantida a estrutura anterior. Estimulado, o comando organizou o vestuário da tropa e o prefeito sancionou o Regulamento de Uniformes. Mas, o passo foi exagerado. A quantidade de peças e de arranjos permitidos superou qualquer expectativa, de tal maneira que, para os oficiais, havia previsão de sete diferentes uniformes.

16 de fevereiro de 2011

Memorial Amazonense (XLVI)

Fevereiro, 16


1876 – Nasce em Manaus, o bacharel Heliodoro Balbi, formado pela Faculdade de Direito do Recife, em 1902. Jovem competente, daí ter sido selecionado como orador da turma. No retorno a Manaus, conquistou uma cátedra no Ginásio Amazonense.
Dividiu-se entre o jornalismo e o magistério, mas teve que exercer a profissão para manter a família. Quando da criação da Universidade Livre de Manaus (1909) foi um dos fundadores e professor na Faculdade de Ciências Jurídicas.

As dificuldades políticas e financeiras levaram-no a incursionar no Tribunal do então Território Federal do Acre. Não mais voltou, morreu em Rio Branco, a 26 nov. 1918.
Também foi fundador da Academia Amazonense de Letras, em janeiro de 1918, meses antes de sua prematura morte. Ocupou a cadeira 2, de Tito Lívio Castro, que uma reformulação acadêmica tornou 27, de Castro Alves. Sua produção literária quase desapareceu, restando raros poemas e algumas crônicas editados em jornais.

Dom Basilio Pereira
Entre as homenagens recebidas, acabo de alcançar a do bairro de Guadalupe, no Rio de Janeiro. Ali, encontra-se a rua Dr. Heliodoro Balbi (21660-310), junto a outros nomes nossos conhecidos: Joaquim Sarmento, Manoel Barata, Torquato Tapajós, general Salgado dos Santos. Passando pela Avenida Brasil, do Rio, basta esticar o pescoço para ver a rua de nosso conterrâneo.
Tomara que lá o nome de Heliodoro seja mantido, não seja substituído como em Manaus, onde a sua praça é da Polícia.

1926Dom frei Basílio Olímpio Pereira toma posse, em Manaus, tornando-se o 4º bispo diocesano do Amazonas.

1946Júlio José da Silva Nery, bacharel, é nomeado Interventor Federal do Amazonas. Nascido em Manaus, era filho do ex-governador Silvério Nery. Seu curto mandato estendeu-se até 31 de agosto.
Julio Nery (ao centro) e Álvaro Maia (à dir.), no dia da posse,
O Jornal, 16 fev. 1946
1952 – O papa Pio XII, consoante a bula Ob Illud, erige a província eclesiástica de Amazonas, desmembrando-a do Pará. Aproveita, e promove Dom Alberto Gaudêncio Ramos a arcebispo, por sinal, o primeiro, seguido de Dom João de Souza Lima.

2003 – O embaixador José Viegas Filho, ministro da Defesa, aliás o primeiro, desembarca em Manaus para conhecer a Amazônia. Entre outras atividades, visita o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia).

14 de fevereiro de 2011

Memórias amazonenses

Fevereiro, 15


1879 – A comissão brasileira encarregada da demarcação da divisa Brasil/Venezuela desembarca em Manaus. Constituída pelo tenente-coronel Francisco Xavier Lopes de Araújo; major Guilherme Carlos Lassance; capitães Joaquim Xavier de Oliveira Pimentel; Dionisio Evangelista de Castro Cerqueira (depois Chanceler brasileiro) e Gregório Thaumaturgo de Azevedo (depois governador do Amazonas); cirurgião Antonio de Souza Dantas; farmacêutico Antonio Ribeiro de Aguiar e o alferes Francisco Xavier Lopes de Araújo Sobrinho. O trabalho técnico começou pelo trecho entre o rio Memachi e o Cerro Cupi.

Arlindo Porto, 2010
1929 – Nasceu em Manaus, Arlindo Augusto dos Santos Porto, o Arlindo Porto de tantos caminhos e gostosos causos. Deve ter começado como jornalista, quando as redações ocupavam a avenida Eduardo Ribeiro e adjacências. Por isso, suas memórias estão recheadas de encontros entre colegas da prensa.
Várias são as colunas que Arlindo assinou. Teve o Arame Farpado, o Cabo C que, como os nomes indicam, esquentavam o verbo. Andou em diversas redações, nelas aprendendo e consolidando sua arte de comunicador. Em uma eleição, fruto dessa atividade, ganhou a vaga de deputado estadual.

Reeleito em duas oportunidades, seguiu crescendo; e, ao evoluir na Assembleia, foi seu presidente. Na ocasião, substituiu o governador Gilberto Mestrinho.
Mas, veio o Governo Militar de 1964 e o deputado Arlindo Porto foi cassado pela própria Assembleia, atitude que o martirizou. Preso no quartel do 27º BC, não se esquece da atitude do arcebispo do Amazonas, Dom João Souza Lima, que ao visitar os reclusos, levou uma carta de Arlindo para a família dele. Escrita ali na hora, no presídio.
A Gazeta. Manaus, 22 fev. 1952
"Sem teto", seguiu para o Rio de Janeiro para enfrentar nova luta. Fez jornalismo como sabia em redações cariocas. Depois, colocou o diploma da Faculdade de Direito do Amazonas, turma 1955, na parede e saiu em busca de clientes e causas. Teve ajuda de seu amigo Bernardo Cabral e de tantos outros engajados na luta pela democracia.
Concedida a anistia, Arlindo Porto voltou a Manaus, para retomar a disputa política e jornalística. Não mais se elegeu, mas colaborou fartamente para o retorno de seu cunhado, Gilberto Mestrinho, ao governo, em 1983. No período, assumiu algumas secretarias.
Arlindo Porto, Delegado de Polícia. A Crítica. 17 fev. 1956
Ao fim, em 1998, foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, onde se aposentou. Pertence a algumas entidades acadêmicas. Ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, que já presidiu em duas oportunidades. A Academia Amazonense de Letras, na cadeira 35, de Dom Frederico Costa, empossado em 3 dez. 1993.
É autor de vários títulos: Bernardo Cabral, um paladino da democracia (1988); Nunes Pereira, o cavaleiro de todas as madrugadas do universo (1993); O Regatão da saudade (1984), entre outros.
O Sindicato dos Jornalistas amazonenses deu seu nome ao auditório da sede da entidade.

1949 – Eleito para a Academia Amazonense de Letras, e empossado em 19 de março, o desembargador Leôncio Salignac e Souza, na Poltrona nº 17, de Francisco de Souza. Foi presidente do sodalício. Morreu em 22 de junho de 1988.

13 de fevereiro de 2011

Corpo de Bombeiros de Manaus (III)

Mais um incêndio esquentava a estatística de outubro de 1948. Aconteceu na Serraria Rodolfo, situada à rua Wilkens de Matos, em Aparecida, (O Jornal, 22 out. 1948). A situação dos bombeiros era precaríssima, pois, sequer o local dos hidrantes, das “bocas de incêndio”, os soldados do fogo conheciam. Os empregados da serraria tiveram um papel preponderante no combate ao incêndio, “muito embora, estivessem presentes os soldados do fogo”. Conhecedores dos equipamentos da serraria souberam aproveitar o motor de sucção e racionar a água disponível.

Acionados, os soldados do fogo chegaram ao local sinistrado “providos de todo o seu material”. As mangueiras, todavia, não serviram porque o “líquido precioso faltou na hora H”. O diretor dos Serviços de Águas e Esgotos do Estado, Dr. Antonio Oliveira, esteve à frente da manobra para equacionar a deficiência. Conseguiu em cerca de 30 minutos, quando bombeiros e elementos do 27º BC controlaram a situação.

Em maio de 1949, o capitão EB Marcio de Menezes assumiu o comando da PMAM, a quem cabia o serviço de combate ao fogo. Por isso, sabendo das dificuldades da corporação, em setembro prestou esclarecimentos a imprensa.
O Jornal. Manaus, 11 set. 1949
Elencou uma série de providencias, a fim de dotar a cidade de um sistema de bombeiros adequado. Acreditava no entendimento com as companhias de seguro, idéia que vinha da província. Sem resultado.

Outra necessidade era a adoção de curso para oficiais e sargentos, e que alguns pudessem frequentar curso no Sul do País. Para isso, os primeiros elementos viajaram em 1953.
Levantamento total das “bocas de incêndio”, esperando obter com isso o indispensável apoio ao trabalho dos bombeiros. Esquecia o comandante da precariedade da energia elétrica e, em consequência, de água.
Montar uma escola de bombeiro voluntário. O plano era salutar, pois consistia em preparar bombeiros em casa comercial e outros estabelecimentos. Muito tempo depois, as indústrias possuem as brigadas de incêndio. Restauração do material existente. Outro plano simples, mas o governo não possuía recursos.


Ao que tudo indica, o comandante Marcio de Menezes nada conseguiu. Deixou o comando da PMAM no ano seguinte. Quando coronel, voltou a Manaus para comandar o 27º BC. Depois, em 1958, candidatou-se ao governo do Estado. Nada.


Favor anotar este número: 1390. Era o fone de atendimento dos bombeiros. Local: Quartel da Polícia Militar, situado na Praça da Polícia. Em 17 de dezembro de 1949, o 1.º tenente PM Jorge Fernandes de Lima assumiu o comando da Companhia de Bombeiros.

12 de fevereiro de 2011

Memorial Amazonense (XLV)

Fevereiro, 12


1959 – Morrem em Manaus, Branco Silva, pintor ontem, artista plástico hoje; Hemetério Cabrinha, poeta; e Arnaldo de Menezes Veiga.

Branco Silva (que a maioria implica em acrescentar o “e” entre os nomes) influenciou marcadamente o poeta L.Ruas, afinal era seu tio. No Amazonas, "o tio Branco foi um pintor e decorador de renome". Muito mais identificado pelo Presépio Maravilha que instalou em edifício situado na praça Oswaldo Cruz ou vulgarmente da Estação, que a cada Natal se apresentava mais arrojado. O esplendor do presépio se fortificava com os movimentos dos diversos componentes.
O presépio destacava-se ainda mais pela movimentação e pelos sons imitativos de diferentes animais. Toda essa vivacidade decididamente impressionou as crianças das décadas de 1940/50, entre as quais me incluo. Estive lá algumas vezes, pois o criador do presépio morreu em 1959.

Privilegiadíssimo, o finado padre-poeta L. Ruas conta com mais propriedade e vivência:
“Foi você, tio Branco, quem guardou a nossa infância. Perto de você, sempre me senti menino. Às vezes, nem precisava estar perto de você. Às vezes, eu estava longe. Eu estava no Rio, no Ceará, em São Paulo e você, aqui, trancado no seu ateliê, pintando, humildemente pintando, mas, sempre, com carinho, com entusiasmo, sempre extasiado. Bastava eu ouvir a Ave Maria de Schubert ou de Gounod e lá estava eu no seu próprio presépio. No presépio da Eduardo Ribeiro, no tempo em que o camelo não virava o pescoço, solenemente, como um paxá, nem Nossa Senhora mostrava o menino. Ou no presépio da Praça Oswaldo Cruz ou como nós chamávamos, sem pedantismo, da estação.”

O Jornal. Manaus, 19 fev. 1959
Magni nominis umbra (à sombra de um grande nome), David Israel (da ABI) tratou da fatalidade. Depois de lamentar a ida de Hemetério Cabrinha, “a morte leva-nos também para o silêncio do túmulo o professor Branco Silva, artista laureado de não menor admiração pelo seu talento artístico, o mago do pincel, o burilador das tintas, cujas nuances do belo e do horrível sabia, como ninguém, modelar com os inesgotáveis recursos de sua fenomenal inspiração".

Cabrinha, em A Crítica. 18 jul. 1958
O saudoso Waldemar Baptista de Sales também registrou (O Jornal, 22 fev.) sua “indignação” com “a ronda sinistra da morte” à cidade de Manaus.
Pessoas amigas desapareceram, entre ela o pintor e o poeta. Refiro-me ao conhecidíssmo Branco Silva e ao inesquecível Hemetério Cabrinha. A sombra da morte os colheu, no mesmo dia, parecendo assim o encontro marcado. De Branco Silva tenho recordações e magnífico quadro, que me presenteou, uma paisagem amazônica, cujas tintas e belezas revelam as magnificências de sua concepção artística.
O outro era poeta: Hemetério Cabrinha. Poeta e orador fluente. Conheci esse eleito das musas ainda no esplendor de sua vida, arrancando aplausos nas comemorações do dia 1º de Maio, na Casa do Trabalhador, pois, além de poeta, sentia os anseios populares e pugnava pela justiça social, em arrancadas magníficas e floreios de linguagem.
Para as tribulações do próprio de Cabrinha:


Sales esclarecia: “vivemos da mercancia, de juros, lucros e dividendos. E os que vivem fora desse ambiente recebem e, quando muito, as sobras e as aparas. Daí, em consequência, o sofrimento e o desalento do poeta”.

Cinquenta e dois anos depois, nada sei sobre Arnaldo de Menezes Veiga.

10 de fevereiro de 2011

Memorial Amazonense (XLIV)

Fevereiro, 10

1889 – Joaquim de Oliveira Machado (1842-1920) toma posse na presidência da Província do Amazonas, substituindo a Francisco Antonio Pimenta Bueno, coronel do Exército. Oliveira Machado, que era natural de Barra do Pirai (RJ), bacharelou-se na Faculdade do Largo de São Francisco (SP). Enfrentou sérias dificuldades financeiras na província, mas diante dos apelos locais, decide enfrentá-las. Talvez por isso, sua permanência no governo tenha sido de apenas 140 dias, ou seja, até 1º de julho.
Facsimile da assinatura do presidente Oliveira Machado
O penúltimo presidente da província recebeu dos amazonenses uma singela, porém, duradoura homenagem. Uma localidade à margem do rio Negro, espécie de colônia para imigrantes basicamente nordestinos, tomou seu nome. Em nossos dias, constitui-se o bairro da Colônia Oliveira Machado, integrante da Zona Sul em que se encontra mapeada a cidade de Manaus do início do século XXI.

1896 – Inauguração da linha telegráfica (cabo) subfluvial entre Manaus e Belém. Ao tempo em que o telégrafo constituía a modernidade das comunicações, a “internet” de então, as duas capitais do Norte “tentaram” se comunicar. O cabo, em parte submerso, não colaborou.

1918 – Nasce em Manaus, Arnaldo Santana Rosas, que se graduou em Direito pela Faculdade do Amazonas, na turma de 1940. No ano seguinte, em 16 de setembro, foi nomeado secretário da mesma faculdade, em substituição ao Dr. Mário Jorge Couto Lopes. Dr. Arnaldo permaneceu nesse cargo até a década de 1980.

Ponte Efigênio Salles restaurada em 2009
1927 – Criação da Sociedade Beneficente e Sportiva de Constantinópolis, sob a direção de Jacques de Souza Lima. A mais importante conquista da Sociedade foi junto ao governador Efigênio Salles, pois os moradores do bairro necessitavam de uma ligação terrestre com o centro da Cidade. Talvez a mais a sensata fosse a ligação com o bairro da Cachoeirinha. Assim reclamado ao governador, este “sugere que o povo se responsabilize pela abertura da estrada”, assegura o pós graduado em Educandos, Cláudio Amazonas. Ao governo caberia construir a ponte sobre a cachoeira da Pancada, ligeira queda de água.

A estrada, hoje avenida Leopoldo Peres, foi construída pelos moradores com a extensão de dois quilômetros, e a ponte inaugurada com a denominação de Efigênio Salles.

9 de fevereiro de 2011

Manáos v. Manaus (IV)

Três momentos da capital do Amazonas. O desfile de Sete de Setembro em 1955, que mostra a guarda bandeira da Polícia Militar, sob o comando do tenente Barbosa Filho. Era mais conhecido por Barbosão na esfera desportiva, por ser treinador do Nacional Futebol Clube. Apesar de tenente, comandou a PMAM no posto de coronel, por obra e graça de seu amigo, governador Plínio Coelho. A parada então acontecia ao lado do Teatro Amazonas.

Parada de Sete de Setembro, em 1955, com tenente Barbosa Filho
A foto do maior edifício da capital – o IAPETC. Traduzindo, queria dizer Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados no Transporte de Cargas. Hoje INSS. Durante anos foi o mais alto e, portanto, sinônimo de grandiosidade. Já restaurado, segue situado junto a praça Pedro II.
Edifício do IAPETC, hoje do INSS, em Manaus
A foto dos anos 1940 mostra o pessoal da Força Policial se exercitando em quadra localizada na rua atrás do Quartel da Policia Militar. Veja ao fundo o cinema Guarany. Este logradouro, em 1954, foi urbanizado e recebeu o nome e o monumento de Ribeiro Junior. A iniciativa coube ao deputado Arlindo Porto, ainda em plena atividade na Academia Amazonense de Letras.
Em 1969, residi nesta praça no edifício Lilac, ainda existente. Mas, o prefeito Jorge Teixeira, a partir de 1975, remodelou o espaço, demolindo a praça para construir o corredor de ônibus. Então, o capitão Ribeiro Junior perdeu o brasão e o monumento. Hoje transitamos pela avenida Floriano Peixoto.

Acima, quadra de esporte da Força Policial, na
avenida Floriano Peixoto (abaixo)